quarta-feira, 29 de julho de 2009

[817.]

Abertas as portas do Céu?
A propósito da tomada de posse dos órgãos da Fundação Buçaco

Precisamente no dia em que se completavam 387 anos após a publicação da bula do Papa Gregório XV que proibia a entrada de mulheres nos desertos carmelitas, como o do Buçaco, 23 de Julho de 2009, tomaram posse os órgãos dirigentes da Fundação Buçaco. Tal acto consistiu, em termos práticos, na transferência da tutela directa do Estado para a Fundação, que passa, a partir daquele momento, a gerir a Mata Nacional do Buçaco e todo o seu património. O Estado não sai da Mata — uma vez que continua a ter elementos representantes do Governo nos órgãos de gestão desse espaço da Serra do Buaçaco —, mas naquele momento entraram novas entidades, nomeadamente a Câmara Municipal da Mealhada, que, associadas, constituem uma nova estrutura de gestão, uma entidade, de direito privado, uma fundação.Como já amplamente fizemos referência no Jornal da Mealhada, a entrada da Câmara Municipal da Mealhada na gestão do património da Mata Nacional do Buçaco — a jóia mais preciosa do concelho, como já foi dito por vários autarcas — acontece 152 anos depois de a Mata passar a ser gerida pela administração do Estado, da qual a própria Câmara é uma estrutura descentralizada. É certo que durante algum tempo, apesar de não o ser formalmente, nem oficialmente, como agora, a Câmara da Mealhada esteve muito próxima da administração da Mata. José de Melo Figueiredo foi administrador da Mata Nacional do Buçaco de 1920 até finais dos anos cinquenta. Durante esse tempo foi vereador e vice-presidente da Câmara Municipal da Mealhada durante grande parte do mandato de Manuel Louzada, e chegou a ser presidente da Câmara desde Setembro de 1957 a finais do ano de 1959. Carlos Cabral, presidente da Câmara Municipal da Mealhada, foi quem afirmou que considera que a data de 23 de Julho de 2009 passará a figurar na história da Mata Nacional do Buçaco como inequivocamente relevante. Passará a haver, nessa história, disse o autarca, uma Mata antes deste dia, e uma Mata diferente depois deste dia. A ver vamos. A expectativa e o desejo — pelo menos o nosso — é o de que isso aconteça.A conduta da administração central nos últimos meses é ilustrativa da incúria e da falta de zelo com que a Mata Nacional do Buçaco foi gerida nos últimos anos. Numa atitude inqualificável de represália pela simplesmente anunciada perda de autoridade naquele espaço, a administração central desmazelou completamente a sua acção, mesmo a na gestão meramente corrente. Ascenso Simões, secretário de Estado das Florestas, quando interpelado pelo repórter do Jornal da Mealhada sobre a razão pela qual as portagens da Mata tinham ficado por abrir, branqueou o tema, usou de alguma técnica discursiva para virar o tabuleiro e fugir ao assunto, mas não o negou, nem tão-pouco conseguiu diminuir a contradição em que se tinha metido. O governante não pode, ao mesmo tempo, dizer que é significativo e relevante o facto de se transferir o dinheiro das receitas geradas pela Mata para a Fundação e, ao mesmo tempo, justificar por que razão não foram colocadas portagens na Mata como era hábito. “As portagens servem para purificar o sistema e impedir o excesso de pessoas e de carros na Mata”, disse Ascenso Simões. Então em 2009 já não vai ser preciso purificar o sistema? Custa-nos crer que Ascenso Simões, que é um homem pragmático, hábil e politicamente competente, acredite na justificação que nos deu. Defendeu a administração central, como será, certamente, a sua obrigação, mas sem o sentir. A verdade é que a administração central deixou de cobrar portagens durante três meses e, com isso, impediu a criação de receitas e a tal purificação do sistema de entradas na mata durante todo o ano de 2009. Abriu, também, o precedente de não restringir a entrada selvagem no Verão e com isso a sua atitude poderá dar origem a problemas no futuro.Para além disto nós não esquecemos — nem consideramos perdoável — a falta de um papel da Direcção Geral do Tesouro e do Património a autorizar a retirada das garagens da concessão do Palace para construção do Centro Interpretativo. Também não esquecemos que ainda os estatutos da Fundação não estavam sequer escritos, e, logicamente, nem sequer aprovados pelo Conselho de Ministros, já os serviços da administração central se recusavam a tomar decisões de gestão corrente — como a de cedência de instalações a grupos — “porque ia nascer uma fundação para gerir a Mata”. À Fundação começaram por ser atribuídas responsabilidades e funções antes mesmo de ela existir formalmente. E, por último, não nos parece aceitável que, no meio do Verão, o Convento de Santa Cruz permaneça encerrado ao domingo, ao contrário do que acontecia nos Verões anteriores. Apesar de o número de visitantes ao fim-de-semana ser muito significativo — temos testemunhado isso — o acesso ao Convento de Santa Cruz continua só ser possível às terças e quintas-feiras. Ora, se era normal a abertura ao domingo, faz sentido que este ano, particularmente, isso não aconteça? Manter o que se fazia em anos anteriores não é uma gestão corrente?Lamentamos ter de o dizer, mas a gestão estadual da Mata Nacional do Buçaco não deixa saudades. O modelo da Fundação até pode mostrar-se desadequado, mas, mesmo assim, é uma réstia de esperança num futuro melhor para aquele espaço tão importante para todos.

Editorial do Jornal da Mealhada de 29 de Julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Há gajos que não são capazes de elogiar. Até quando parece ser doce o que dizem, destilam venenos!
Há grandes recalcamentos, aqui pela urbe!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

[813.]

Puxão de orelhas
A propósito do encerramento das Termas de Luso

Os comerciantes e hoteleiros do Luso, através do movimento por eles criado, afirmaram, na reunião pública da Câmara Municipal da Mealhada, em 9 de Julho, que era preciso dar um puxão de orelhas ao consórcio (aparentemente) estabelecido entre a Sociedade das Águas de Luso (SAL) e a Maló Clinic Health Group (MCHG), para a gestão e desenvolvimento das Termas de Luso, concessão que a SAL detém juntamente com a da exploração da água. Dizemos aparentemente porque há quem tenha dúvidas de que esse consórcio esteja já formal e legalmente estabelecido e que tenham sido já as duas empresas a optar pelo encerramento das Termas de Luso precisamente no único período do ano em que o balneário termal estaria aberto ao público. É nossa convicção que os comerciantes e hoteleiros do Luso têm razão e que é necessária e merecida uma censura pública e relevante ao comportamento da concessionária — pelo menos essa — no âmbito do encerramento das Termas no período do Verão.
Somos testemunhas de que, em meados de Abril, poucas semanas depois do início das obras no balneário termal, — no seguimento de uma informação interna da SAL de 14 de Abril de 2009, que dava indicações para a não marcação de consultas a termalistas no período entre 27 de Junho e o final de Agosto — comerciantes e hoteleiros e a Câmara Municipal da Mealhada manifestaram a sua preocupação relativamente a um eventual encerramento das Termas. Nessa altura, ao presidente da Câmara e aos comerciantes foi dada a garantia de que as termas não iriam encerrar completamente em momento nenhum. Já nessa altura a SAL saberia que essa promessa seria muito difícil de cumprir. Os comerciantes e hoteleiros também sabiam, mas confiaram na palavra dada pela empresa. Já nessa altura a SAL sabia que a convivência de obras e termalistas no mesmo espaço traria desconforto e problemas. Os comerciantes e hoteleiros também sabiam, mas confiaram na palavra dada pela empresa. Já nessa altura a SAL sabia que as estruturas dos edifícios a recuperar estavam muito mais degradadas do que inicialmente previa. Os comerciantes e hoteleiros também sabiam, mas confiaram na palavra dada pela empresa. O encerramento das Termas é agora apresentado como a opção lógica e inevitável. No entanto só à SAL é que, em Abril, o contrário parecia verosímil.
Não temos dados que o garantam, nem, apesar das tentativas realizadas conseguimos apurar da veracidade do que afirmamos, mas custa-nos acreditar que a MCHG esteja já totalmente envolvida em todo este processo. Provavelmente — e reflexão é especulativa — o acordo entre a SAL e a MCHG passará pela entrega do balneário recuperado e ‘como novo’ à MCHG, em Outubro de 2009, para esta empresa o explorar a partir daí. Assim, a recuperação do imóvel é uma responsabilidade exclusiva da SAL na qual a MCHG não se envolve nem investe, dado que o espaço faz parte da concessão do Estado à SAL. Esta parece-nos ser a solução empresarialmente lógica e justificaria o facto de a SAL continuar a ser a única interlocutora com a autarquia e os comerciantes e hoteleiros em todo este processo.
Esta tese — de que poderemos ter a comprovação ou não — manteria incólume a ideia que tínhamos, e que sempre aqui manifestámos, do profissionalismo, da seriedade, da ambição e do rigor da MCHG. Porque nos pareceu sempre muito estranho que a atitude de convicção com que Paulo Maló assumiu o compromisso de ter as termas a funcionar no prazo acordado acabasse por se transformar num bluff tão grande. O facto de o projecto ter demorado dois terços dos dezoito meses a fazer e que as obras se restringissem a seis meses parece mau de mais para ser gestão da MCHG. A intransigência da parte da SAL em ter as obras prontas em Outubro, custe o que custar, acaba por ser — segundo a nossa tese — não decorrente do compromisso de honra do consórcio perante o Luso e a Câmara da Mealhada — até porque estes estariam na disposição de ver o fim das obras adiado unicamente para não fechar no Verão — mas sim decorrente do compromisso da SAL com a MCHG de lhe entregar a chave para exploração das Termas naquele prazo, cujo incumprimento poderá dar lugar a indemnização.
A tese que alvitramos justifica muitas coisas verificadas até aqui, que, pelo menos para nós, são incompreensíveis.
Nesta edição damos conta de que estará reatada a “paz” entre os comerciantes e hoteleiros do Luso e a Câmara da Mealhada. É de aplaudir este facto. Terá havido excessos cometidos que, necessariamente, devem ser ultrapassados, mesmo que não sejam, para já, “perdoados”. E temos conhecimento de que a Câmara da Mealhada, no sentido de manter o alojamento dos termalistas habituais no Luso, garantirá o transporte destes para as Termas da Curia a fim de fazerem tratamentos. Este será o resultado visível do entendimento entre Câmara e lusenses.
Como dizia um vereador na reunião do executivo municipal de 9 de Julho, a publicidade negativa que os lusenses poderiam fazer à SAL em consequência do encerramento das Termas é contra-producente. Trata-se de cortar a árvore que dá sombra e que poderá sustentar o efeito de promoção turística que se pretende no futuro. A publicidade negativa não é, portanto, um meio que possa ser utilizado. Mas é verdade que alguma censura deve ser feita. A empresa começou as obras (que previsivelmente durarão seis meses) precisamente na única altura em que não o deveria ter feito, com prejuízo para os comerciantes do Luso mas também para a MCHG e para o futuro das Termas. A empresa faltou à verdade a um presidente da Câmara e a toda uma comunidade. E isso não pode deixar de merecer reprovação.

Editorial do Jornal da Mealhada de 22 de Julho de 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

[810.] Hoje...

20 de Julho de 1969
A superficie lunar é pisada, pela primeira vez por um humano (escuteiro, claro está!)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

[812.]

"Desiste de desistir"

O município de Mortágua foi palco, no sábado, 11 de Julho, de uma prova de Triatlo (canoagem, ciclismo e atletismo) com características muito especiais. Tratou-se de uma iniciativa da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual — também conhecida como escola dos cães-guia. Este triatlo tinha como dificuldade acrescida o facto de as provas de canoagem e de atletismo serem realizadas por duplas sendo que a um dos elementos estava vedada a visão. Vedada por questões naturais, atletas cegos, ou imposta, por vendas nos olhos. Foi a forma encontrada — original, entenda-se — de, por um lado, possibilitar uma actividade desportiva, arrojada, adaptada a atletas invisuais em condições naturais e extraordinárias e, por outro lado, sensibilizar todas as outras pessoas não para as limitações da cegueira, mas para tudo o que um cego pode fazer e sentir, mesmo estando desprovido do sentido da visão.Tivemos a oportunidade de, neste âmbito, conversar com o atleta paralímpico Carlos Lopes, várias vezes medalha de ouro em provas de atletismo de resistência. Carlos Lopes foi o principal dinamizador de uma acção, da comissão nacional de jovens da ACAPO — Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal — que envolveu dezassete jovens cegos. Os jovens estiveram de 10 a 12 de Julho no Luso e em Mortágua para realizar várias actividades desportivas. No Luso, no Centro de Estágios e no Pavilhão, fizeram provas de Atletismo e de gobol, uma modalidade adaptada, em Mortágua participaram no referido triatlo e tiveram actividades radicais, de slide, rappel e escalada. O lema escolhido para esta actividade da ACAPO foi “Desiste de desistir!”. A ideia da comissão nacional de jovens da ACAPO era incentivar à experimentação. “Tenta porque serás capaz! Tenta porque vais ser surpreendido por ti próprio!”, este foi o apelo feito a dezassete jovens cegos que tiveram a primeira experiência com a prática desportiva neste fim-de-semana.Carlos Lopes, também ele invisual, dizia-nos que é importante fazer sentir aos jovens cegos que a cegueira é apenas uma contrariedade, não é uma limitação. Que há muitas coisas que não lhes estão vedadas, que há sonhos que podem continuar a perseguir e que podem potenciar os restantes sentidos. Fazer canoagem para um cego pode parecer impossível — para ele e para muitos de nós —, mas não é. E é importante que todos saibamos isso, mas, acima de tudo, é importante que as pessoas cegas, e os jovens de modo especial também o saibam e arrisquem. “Desistir de desistir” é, portanto, o primeiro passo a dar pelos jovens cegos. E por todos. É maravilhoso o trabalho da escola de cães-guia. Como é maravilhoso o facto de todos podermos ajudar a fazer coisas maravilhosas através dos trabalhadores e da acção esta associação. É muito encorajador ouvir a alegria e o optimismo de Carlos Lopes e dos jovens da ACAPO que, surpreendidos, receberam a prova de que tentando não há barreiras intransponíveis.“Desistir de desistir!” poderia ser, também, um bom mote para ilustrar uma outra iniciativa que começou nesse mesmo sábado, 11 de Julho, em São Pedro de Alva, a ExpoAlva. Uma mostra empresarial — promovida com o apoio da Câmara Municipal de Penacova, mas, ainda assim, organizada pela Junta de Freguesia de São Pedro de Alva. Dizemos isto porque tendo qualidade, arrojo, presença de muitos empresários e empresas tem o mérito acrescido de ser uma acção promovida por uma junta de freguesia. Engana-se quem, por ventura, pensar que é limitado o trabalho que pode ser desenvolvido pelas juntas de freguesia. Os autarcas de São Pedro de Alva provaram o contrário. Demonstraram que o tecido empresarial da região, que os empresários que corajosamente não baixaram os braços num dos momentos mais conturbados da histórica económica da modernidade, merecem elogio, merecem novas oportunidades de negócio e de apresentação dos seus produtos. Os empresários e os autarcas de São Pedro de Alva não desistiram e, por isso, merecem o nosso reconhecimento. Tomemos os seus exemplos e o de Carlos Lopes e não baixemos os braços. “Nos tempos de crise também há oportunidades!”, foi uma das frases de Luís Adelino, presidente da Junta de São Pedro de Alva, que merece registo.

Editorial do Jornal FRONTAL de 16 de Julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

[811.]

Dezoito anos de construção de futuros
A propósito do aniversário da Escola Profissional da Mealhada

“Estive aqui no inicio do meu mandato, há cerca de quatro anos, vi uma escola de excelência que me impressionou, e o seu exemplo esteve no meu pensamento no desenhar de muitas das boas medidas que desenhei desde aí!”.
Pode ser uma parcela de um discurso de circunstância. Pode ser, simplesmente, uma palavra, descomprometida, de simpatia. Mas esta frase é da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, e foi proferida no sábado, dia 11 de Julho, na Escola Profissional Vasconcellos Lebre (EPVL), na Mealhada, perante uma assistência com algumas centenas de pessoas.
Não seria necessário recorrer às palavras da ministra da Educação – a mais contestada figura do actual Governo – para ilustrar a certeza, que temos, de que a Escola Profissional da Mealhada é, se não a maior, uma das maiores obras do concelho da Mealhada do século XX e princípios do século XXI (e não falamos somente de betão, mas de construção humana, social e moral, acima de tudo). Numa altura em que assinala o seu 18.º aniversário – completa-o neste mês de Julho – a EPVL é uma escola de referência nacional não somente no leque das escolas profissionais, mas em todas elas. É uma escola das mais arrojadas da Europa, com trabalho desenvolvido no campo do software livre, que dá cartas, tendo vindo, desde há vários anos, a partilhar saberes com escolas europeias por meio de parcerias que com elas constitui e, com base nesse tipo de cooperação, obterem financiamento europeu. É também uma escola que tem dado um apoio determinante no ensino profissional em África. Recebendo alunos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, estabelecendo parcerias com Angola e oferecendo ferramentas pedagógicas por si criadas ao Governo moçambicano, que, dentro de poucos meses, enviará para a Mealhada alunos e professores para receberam formação.
Em termos de sucesso na formação que ministra os dados são, também, factor de contentamento. Dos últimos ciclos de formação, apenas dois por cento dos alunos formados na EPVL estão desempregados, e 84 por cento estão a trabalhar na área em que obtiveram diploma na escola. Os restantes 14 por cento de alunos da escola dos últimos ciclos de formação prosseguiram os estudos e até há antigos alunos da escola que hoje são lá professores. A este propósito, não deixa de ser curioso o facto de a EPVL ter contribuído para o desmoronar do mito de que os alunos das escolas profissionais não conseguem entrar na Universidade e prosseguir lá, com sucesso, os seus estudos. As melhores notas da Escola Secundária da Mealhada nos exames nacionais de Matemática e de Economia de 2009, para ingresso no Ensino Superior, foram os de alunas provindas da EPVL.
A Escola Profissional da Mealhada é uma escola de referência. Por que será? Será pelo facto de ser uma escola privada? Será pelo facto de os docentes serem escolhidos pela direcção? Será porque a direcção é carismática, estável e pragmática? Será porque ministra um ensino técnico profissionalizante (de elevada qualidade)? Será porque há na escola uma cultura de trabalho, de esforço e de entreajuda? Será pela cultura de confiança e de auto-responsabilização que os docentes e directores propõem aos alunos? Será pelo facto de ter um corpo de alunos não muito numeroso e não massificado? Será porque, para alguns alunos, constitui uma tábua de salvação, uma derradeira oportunidade para a obtenção de condições que lhes possibilitem uma colocação satisfatória num posto de trabalho? Será porque é uma escola aberta à comunidade em geral, com uma boa relação com a comunicação social? Será pelo facto de ter instalações bem cuidadas e equipamento moderno? Será…?
Acreditamos que a EPVL é o que é por todas estas razões, entre outras que não descortinamos. É nossa convicção de que, se o sucesso daquela escola se deve, obviamente, ao trabalho de muitas pessoas, para isso muito tem contribuído, com o seu empenho, o seu dinamismo, o seu trabalho, a sua competência e a sua liderança mobilizadora, o director geral daquele estabelecimento de ensino, eng.º João Pega, o grande obreiro da grande construção humana que é a EPVL.
No ano em que se assinala o centenário da fundação do Colégio da Mealhada pelo Padre dr. António Antunes Breda, lembramos essa obra humana e a sua importância na luta pela instrução e literacia de várias gerações de jovens em toda a região centro de Portugal. É, para nós, evidente na EPVL o espírito do Colégio da Mealhada, uma espécie de legado, ou semente, que, devidamente aproveitado, está a produzir abundantes frutos. O director da EPVL foi aluno e professor do Colégio da Mealhada. Tinha-o sido também seu pai, o professor Armindo Pega. Se é com orgulho que se celebra este ano o centenário da fundação do Colégio da Mealhada e o início de uma longa e porfiada luta pela elevação do nível de instrução/formação da gente da zona em que se situava, deverá ser também com orgulho que se lembrem e festejem os dezoito anos do ensino técnico e profissional que a EPVL, com assinalável maestria, vem ministrando a pessoas da região centro de Portugal.

Editorial do Jornal da Mealhada de 15 de Julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009


[808.] Intendência

Caríssimos,

Como tem sido fácil de reparar, não tem sido possível manter actualizado O Fio dos Dias. Não há tempo para publicar e não há tempo para produzir alguma coisa que valha a pena ser aqui publicada.
Peço desculpa, portanto, pelo desinteresse que este blogue pode constituir neste momento.

Aos amigos que gostam de acompanhar os meus bitaites informo que passei a estar mais disponível e activo para uma experiência similiar, de micro-blogging, no Twitter.

No twitter, a minha morada é www.twitter.com/ncastelacanilho aí poderei ser seguido por quem tenha conta twitter, mas, também, por qualquer pessoa que aceda a esta morada.

Abraços!




Pedido

Seria que a pessoa que me deixou um comentário recente,
com a
assinatura ACS,
me poderia enviar mail para
para,
mesmo mantendo o sigilo e o anonimato
podermos conversar e esclarecer algumas questões?

[806.] Mercurii dies

Leitão da Bairrada
O elogio que veio da América

A uma semana da II Gala das 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada — que se realizará a 10 de Julho, sexta-feira, no cineteatro Messias —, um dos mais conceituados jornais económicos americanos, o nova-iorquino Wall Street Journal, dedica duas páginas da sua edição de 3 de Julho ao leitão da Bairrada.
O texto, apologético da iguaria e da Mealhada, como berço e espaço privilegiado do leitão assado à Bairrada, é um forte contributo para a promoção internacional da gastronomia e do turismo do concelho da Mealhada e, acima de tudo, para a auto-estima da comunidade mealhadense e dos empresários ligados à restauração. Atesta, ainda, no nosso entender, o produto leitão assado à Bairrada como um prato tradicional geograficamente localizado, e isso pode constituir um contributo importante para a defesa da marca.
Apesar de ter falado com empresários de fora do concelho da Mealhada, o jornalista Paul Ames, autor do texto do Wall Street Journal, centraliza, por completo, a marca Leitão da Bairrada no município mealhadense. E o conteúdo do texto é convidativo. Pena que não tenha descoberto todas as 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada e não se tenha debruçado sobre os outros três produtos dessa marca, os quais acabam por constituir um conjunto harmonioso com o leitão. Por muito que haja a intenção de dizer o contrário, o leitão da Bairrada está de tal modo associado à Mealhada que para qualquer pessoa, a ligação entre leitão e Mealhada é natural e automática.
Tal facto não pode, no entanto, fazer desvanecer a vontade de querer fazer sempre mais e melhor e de prosseguir no sentido de, cada vez mais, promover a qualidade do leitão da Bairrada, da produção gastronómica e vinícola do concelho da Mealhada, dos restaurantes e das empresas do sector localizados no município e da marca turística 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada.
Na II Gala das 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada, organizada pela Câmara Municipal da Mealhada, serão apresentados, publicamente, os estabelecimentos e empresas que em melhores condições se encontram para garantir um serviço de excelência às pessoas que se dirigem ao município da Mealhada para deleite turístico e gastronómico. Esperemos que todos os vinte e sete estabelecimentos reconhecidos no ano passado renovem a sua presença na lista de luxo e que a estes se somem mais alguns. Esta gala acontece, também, no momento em que se assinala o segundo aniversário do lançamento da marca. Trata-se de uma boa altura para receber o reconhecimento internacional que a própria Câmara Municipal da Mealhada, com a criação da marca, quer promover junto dos consumidores, fazer um balanço e procurar criar garantias políticas de que, independentemente do partido que constituir a maioria política da Câmara Municipal da Mealhada, este projecto vai continuar.
O reconhecimento estrangeiro do Wall Street Journal — que nos parece fundamentado, característica que não tem podido ser detectada noutros textos (nacionais) referentes a este tema — contrasta com o tratamento dado ao leitão da Bairrada na estratégia de promoção da região Turismo Centro de Portugal.
No final de um ano de existência, a Turismo Centro de Portugal mostra ser um organismo mais político do que operacional e são várias as razões que, no nosso entender, justificam a afirmação. Se o município de Coimbra, por exemplo, decidiu não integrar essa estrutura, não se compreende que esta aja como se a deliberação tivesse sido a oposta. Para além desta atitude, acresce ainda que a promoção do Luso surge agregada à marca Coimbra, e da Curia, por outro lado, agrega-se à marca Ria de Aveiro. Na brochura lançada pela Turismo Centro de Portugal, na passada semana, não há uma palavra sobre as 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada. Na lista de produtos gastronómicos que publicou, não consta o pão da Mealhada nem sequer o leitão da Bairrada, apesar de a ilustração e a introdução a ele fazerem referência — vá lá alguém perceber isso! Quem ler a brochura vai andar à procura, na Mealhada, de um restaurante que lhe sirva o prato típico local, a carne marinhoa, é este o prato referenciado com sendo típico dos concelhos de Mealhada, Mira e Cantanhede — veja-se bem isto! Não garantimos que encontre essa carne marinhoa, mas, garantidamente, podemos afirmar que qualquer pessoa, uma vez na Mealhada, perceberá que chegou à capital do leitão da Bairrada, “ao inferno dos vegetarianos”, como afirma o Wall Street Journal.

Editorial do Jornal da Mealhada de 8 de Julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

[805.] Mercurii dies

Condomínio da Terra
Porque se a casa é só uma, todos temos de a partilhar


Será levado a efeito no próximo fim-de-semana, 4 e 5 de Julho, em Gaia, um fórum internacional que visa, através de cinco plenários com especialistas de várias nacionalidades e de debates económicos, jurídicos, científicos e filosóficos. Trata-se, no fim de contas, de debater a necessidade da tomada de posições colectivas dos cidadãos e dos Governos face aos problemas que se perspectivam por causa da deterioração das condições de vida do planeta Terra. O fórum do Condomínio da Terra — uma iniciativa da associação ambientalista portuguesa Quercus que, entretanto, ganhou dimensão universal — terá como base um documento intitulado Declaração de Gaia e culminará com a elaboração de uma estratégia a que será dado o nome de Compromisso de Gaia. Ajustar a vida da espécie humana, e de todos os ecossistemas, à sustentabilidade do planeta, num momento em que este apresenta sintomas claros de deterioração rápida e com consequências imprevisíveis, é uma responsabilidade das gerações que actualmente habitam na Terra. “Este será, talvez, o maior desafio que se colocou até hoje à humanidade”, garantem os promotores da iniciativa Condomínio da Terra. “Temos de adaptar o nosso modo de vida e organização ao funcionamento natural da vida na Terra”, propõem os promotores da referida iniciativa. A escolha da cidade de Gaia parece-nos feliz. Gaia é, na mitologia grega, a deusa da Terra. Ao mesmo tempo que nos parece, também, feliz o emprego da metáfora que dá o nome à iniciativa. Um condomínio é, num sistema de propriedade horizontal, a melhor forma encontrada para gerir os espaços comuns e o interesse colectivo. Se todos somos vizinhos neste planeta, se todos dependemos de todos e uma vez que os problemas globais não se resolvem de forma isolada, só nos resta uma organização em condomínio para gestão dos espaços comuns.A atmosfera, a hidrosfera e a biodiversidade são partes comuns do planeta. Não só porque ultrapassam todas as fronteiras e os ‘serviços’ que prestam não podem ser divididos, mas também porque todos dependemos delas para viver e todos as podemos afectar de forma positiva ou negativa.As propostas da Declaração de Gaia apresentam o conceito de Soberania Complexa — “coexistência de soberanias autónomas num espaço colectivo, ou seja, um poder político, supremo e independente, relativo à fracção territorial de cada Estado, e partilhado, no que concerne às partes insusceptíveis de divisão jurídica, (atmosfera, hidrosfera e biodiversidade) das quais todos os povos são funcionalmente dependentes”.Outro dos conceitos apresentados à discussão no fórum internacional do próximo fim-de-semana é Economia de Simbiose — uma articulação daquilo a que se poderia designar por “economia da manutenção dos sistemas vitais” com a tradicional economia de produção. A ideia seria a de aproveitar a valorização económica que se faz da bens ecológicos vitais aplicada a todas as partes comuns do planeta (a Economia de Simbiose), através da referida Soberania Complexa. Ou seja, tornando possível a gestão global (politica e económica) dos bens indivisíveis do planeta.Estes conceitos sustentam-se numa distinção clara entre soberania — autoridade para dispor — e propriedade sobre os ecossistemas da Terra. Para melhor compreensão poderíamos dizer que o Brasil tem soberania sobre a Amazónia, mas não é proprietário desta. A destruição da Amazónia, mesmo que parcial, traz efeitos imediatos e sérios a todo o planeta. A Amazónia é uma “parte comum” do planeta, logo deve ser gerida de forma comum. Demos como exemplo a Amazónia, mas poderíamos falar da Gronelândia ou dos glaciares que estão a derreter-se.“Se o valor destes bens vitais é de alguma forma incalculável, precisamente porque são vitais, resta-nos a certeza de que os ecossistemas prestam um serviço cujo valor económico deveria ser muito superior aos lucros gerados pela exploração tradicional dos seus recursos”, garantem os promotores do Condomínio da Terra, que concluem: “As árvores deveriam valer mais vivas do que o valor da sua madeira!”Os documentos a que se fez referência encontram-se disponíveis em http://www.earth-condominium.com/pt/
Tivemos conhecimento, pelo vereador da Câmara Municipal da Mealhada Gonçalo Breda Marques, de que o executivo decidiu, na passada quinta-feira, subscrever os princípios da Carta de Aalborg, que inclui os princípios fundamentais da promoção de uma economia e gestão política sustentáveis, que tem execução prática ao nível local no modelo da Agenda 21 Local. Há cerca de dois anos, a vice-presidente da Câmara, Filomena Pinheiro, garantiu estarem a ser desenvolvidos os mecanismos para o desenvolvimento de uma Agenda 21 Local comum aos municípios do Baixo Vouga — rede entretanto substituída — e asseverou que a implementação das disciplinas de Educação Ambiental e de Cidadania, no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular para o primeiro ciclo do Ensino Básico, estava a ser já pensada segundo os princípios de Aalborg e como iniciativa a integrar um esquema de desenvolvimento baseado na metodologia da Agenda 21 Local. Manda-nos a coerência elogiar a iniciativa e a decisão municipal de, com ou sem rede de municípios, subscrever a Carta de Aalborg, e, posteriormente, implementar a Agenda 21 Local. Esperamos, também, que o executivo e, nomeadamente, Filomena Pinheiro, não esqueça as boas intenções enunciadas há dois anos e as possa concretizar agora. Procurámos fazer com que o desenvolvimento sustentável fizesse parte dos temas a debater na campanha eleitoral autárquica de 2005. Não o conseguimos, mas não desistiremos em 2009.

Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de Julho e do FRONTAL de 2 de Julho

sexta-feira, 26 de junho de 2009

[804.] Mercurii dies

A judicialização da Política na Mealhada

O mandato autárquico que finda no próximo Outono foi pródigo em transformações interessantes no exercício das responsabilidades políticas municipais. Transformações que são gerais, comuns a quase todos os municípios, e transformações específicas do concelho da Mealhada.
A tomada de posse dos autarcas dos órgãos municipais — Câmara e Assembleia Municipal —, em Outubro de 2005, deu início a um período de grande conturbação política na Mealhada. A ‘Guerra do Papel Timbrado’, os gabinetes para a oposição e a tenda para atender os munícipes, as reuniões de Câmara abertas e as fechadas foram episódios que marcaram de forma muito vincada a primeira metade do mandato da Câmara da Mealhada. Foi um período de grande crispação verbal, de muita tensão entre as pessoas, de algum aproveitamento da comunicação social para a prossecução de uma estratégia política de desgaste de Cabral e da sua equipa. A estratégia resultou e alastrou-se a outros sectores da sociedade civil obrigando o presidente da Câmara a travar novos combates.
Nesta primeira fase, na Mealhada, verificou-se um esvaziamento quase completo da Assembleia Municipal enquanto espaço privilegiado para a dialéctica política, para a acção da oposição. Esta é, no entanto, uma das transformações gerais, comuns a muitos municípios, a que aludimos. A especificidade mealhadense acabou por ser o facto de as principais manifestações da oposição, a acção de confronto dialéctico, de debate, se terem transferido para a Câmara Municipal, que deixou de ter a aparência de um órgão executivo pragmático para a gestão do quotidiano para passar a apresentar-se com características parlamentaristas de debate de ideias mais gerais.
Nos meados do mandato deu-se início a uma nova tendência. A decisão final do debate político foi transferida para os tribunais. O primeiro caso de que temos memória foi a queixa dos vereadores do PSD a propósito da avaliação do imóvel da MEAGRI com a intervenção do vereador António Jorge. Apesar de não ser por nós conhecido o resultado desta queixa, outras queixas judiciais se lhe seguiram. E, nos últimos meses, a situação intensificou-se sobremaneira. Foi o caso do ‘Relatório Calhoa’, que deu origem a várias queixas, foi a queixa de Cabral sobre as declarações de Carvalheira, alegadamente proferidas num plenário do PSD, foi, agora, o caso dos inertes de Mala, levantado por Carlos Marques, e do pavimento da pista no Parque Urbano da Cidade, apresentado por Carvalheira.
São casos, pelo menos estes últimos, que passaram quase directamente da Câmara para os jornais e destes para os tribunais. Na reunião da Assembleia Municipal da passada sexta-feira — no auge dos acontecimentos do debate sobre o pavimento do Parque Urbano da Cidade, por exemplo — nem uma palavra se ouviu acerca do assunto, nem de qualquer um dos que, ultimamente, têm suscitado mais controvérsia política.
Não nos cabe ajuizar sobre as vantagens e desvantagens desta transferência da dialéctica democrática do poder local para os tribunais. Nem sequer qualificar este recurso — os poderes estão divididos para que possam cumprir funções distintas. Cabe-nos sublinhar este facto e procurar reflectir sobre ele. Uma reflexão — com os partidos, os autarcas, os académicos, com os legisladores (?) e com os eleitores — que seria um óptimo ponto de partida para o debate que se deseja esclarecedor na campanha eleitoral autárquica que se aproxima.
Estará o sistema político autárquico tão desgastado que já não permite a resolução dos conflitos que gera, naturalmente? Estar-se-á a transferir a confiança do povo, manifestada através do voto democrático, directamente dos políticos para os tribunais?
Para nós, no entanto, há uma ideia que nos parece pertinente: o actual sistema de distribuição de competências e atribuições entre a Câmara e a Assembleia Municipal está ultrapassado. O que nos obriga a sublinhar o facto de, há pelo menos seis anos, se ter mostrado como sendo necessária uma alteração profunda na legislação que regula o funcionamento dos órgãos do poder local. Uma alteração que se entende dever passar pela forma de eleição da Câmara Municipal, pela periodicidade das suas reuniões e pelas competências da Assembleia Municipal, por exemplo.

Editorial do Jornal da Mealhada de 24 de Junho 2009

terça-feira, 23 de junho de 2009

In memoriam

Mariazinha
16.10.1926 - 21.06.2009
A construtora de impérios.
Resistência, coragem e sofrimento

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mercurii dies

O valor do dinheiro (em tempos de crise)

A notícia da transferência de clube do futebolista Cristiano Ronaldo, do Manchester United para o Real Madrid, por 94 milhões de euros, não passou indiferente nem aos portugueses… nem ao resto do mundo. Trata-se de um valor muito alto — a mais dispendiosa transferência da história do futebol — que, especialmente numa época em que se fala de crise internacional — financeira, económica e social —, choca e até revolta as pessoas. A revolta pode ficar a dever-se ao facto de se tratar de futebol e não de uma outra qualquer área social. O futebol será um complemento à vida das pessoas, uma forma de diversão, logo uma actividade subsidiária que não mereceria o dispêndio de um volume de capitais com esta dimensão. Acreditamos ser essa a principal causa de reprovação do cidadão comum. Ninguém estranha, sequer, que um clube pague a outro a transferência da propriedade de um jogador, numa espécie de rota tradicional de mercantilismo como se o produto não passasse disso mesmo, um mero produto transaccionável.
Mas se há algum dirigente de um clube que está disposto a pagar 94 milhões de euros pela transferência do jogador, é porque a presença do jogador na equipa desse clube vale esse dinheiro. A história da Economia mostra que o valor dos produtos se situa, tendencialmente, no valor (e no sacrifício) que as pessoas estão dispostas a dar para o ter. Se o presidente do Real Madrid — Florentino Perez — considera que é rentável pagar o equivalente ao peso em ouro de 54 Cristianos, e se o Manchester o entrega por esse valor e por nenhum valor mais baixo, então está encontrado o ponto de equilíbrio e o preço justo.
Pelos dados que nos têm sido dados pela comunicação social, é possível que Florentino Perez não tenha enlouquecido. A transferência de Ronaldo custou 94 milhões de euros, e o contrato do jogador é de 6 anos, mas só a venda de produtos com a sua marca — como as camisolas do Real Madrid com o seu nome, entre outros produtos — irá render 90 milhões de euros por ano. Ou seja, mesmo que não consideremos as contas os salários do jogador e outros gastos e todos os outros valores que virão a ser adicionados como receitas com ele relacionadas, continuava a ser um investimento rentável. É, portanto, um gasto que gera dinheiro. O Manchester United recebe pela transferência de Cristiano — um jogador — um valor idêntico ao de todas as receitas angariadas na liga inglesa na última época desportiva — com jogos semanais de uma equipa de onze jogadores. Logo, também não terá feito uma má venda.
O presidente da FIFA, Joseph Blatter, garantiu que esta transferência dá sinais de que o mercado do futebol está de boa saúde. E parece-nos que tem razão. Ao menos que algum mercado tenha boa saúde nesta época de crise internacional. Crise que nunca será debelada se, pura e simplesmente, restringirmos o consumo. Bem sabemos que o Manchester United não irá distribuir os euros recebidos do Real Madrid pelas pequenas e médias empresas de Inglaterra — quando muito pagará impostos sobre essa receita —, mas se o dinheiro se desloca é bom para todos porque é bom para a economia global.
Quando o Presidente da República Portuguesa, há poucos dias, apelava aos partidos políticos para serem comedidos nos gastos da campanha eleitoral não percebemos o que queria dizer, confessamo-lo com humildade. Se os partidos dispõem de dinheiro em quantidade não o devem gastar porquê? O Estado só vai dar-lhes o equivalente ao número de votos que obterão, ou seja, o gasto do Estado não está directamente relacionado com o gasto dos partidos na campanha. Cada eleitor fará a sua apreciação dos gastos supérfluos dos partidos mas poderá considerar-se um acto de cidadania a despesa feita por eles em campanha eleitoral. As gráficas que fazem os panfletos, os comerciantes de sacos plásticos e de outros brindes, as empresas de som… e tantas outras micro, pequenas e médias empresas, bem como as pessoas que são remuneradas para colar os cartazes, por exemplo, ganham directamente com a campanha eleitoral. Serão, em todo o território nacional, directamente beneficiadas com a campanha eleitoral.
As pessoas, nos dias de hoje, devem preparar-se para tempos difíceis, devem consumir com responsabilidade, devem ter mecanismo de poupança e de investimento seguro. Mas não podem restringir o consumo. O incentivo fundamental para o ultrapassar da crise económica — é já ideia comummente aceite pelos especialistas — passa pelo apoio directo e imediato às micro, pequenas e médias empresas. E esse apoio, da parte das pessoas — não nos arriscaríamos a dizer o que devia o Governo fazer neste domínio — faz-se pelo consumo, pelo comprar de alguns produtos nas mercearias, no comércio de proximidade, no voltar a utilizar o serviço dos sapateiros e das costureiras para arranjarem o que ainda pode ser reutilizável, por exemplo.
O valor do dinheiro, mesmo em tempo de crise, é sempre difícil de definir. Não há tabela para o que é muito nem para o que é pouco. Mas a valia do dinheiro passa pela circulação, passa pelo resultado dessa circulação. O dinheiro de pouco valerá se ficar estagnado no colchão, de quem tem muito ou, também, de quem tem pouco...

Editorial do Jornal da Mealhada de 17 de Junho

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O rescaldo eleitoral

Já se disputou o primeiro combate nacional do ciclo eleitoral de 2009. Quem acompanhou o resultado dos apuramentos, os comentários políticos e as leituras de carácter mais ou menos profético chegou à conclusão do costume: “Todos ganharam” menos o partido do Governo. O PSD teve mais votos e mais mandatos do que o PS e do que tinha tido em 2004, logo, ganhou. O Bloco de Esquerda duplicou o número de votos e triplicou o número de mandatos, logo, ganhou. A CDU manteve o número de mandatos mas, apesar de ter sido ultrapassada pelo Bloco por uma unha negra, obteve mais votos que há cinco anos, logo, ganhou. O CDS manteve o número de deputados que tinha conquistado em 2004 — quando concorreu coligado com o PSD — mas ganhou às sondagens que o remetiam para um resultado insignificante. Até os votos em branco ganharam nestas eleições — se fossem um partido seriam a sexta força e até poderiam ter elegido um deputado. Não seria interessante haver no Parlamento uma cadeira vazia em nome destes votos? Em resumo, todos ganharam menos o PS.
De facto, o Partido Socialista não ganhou. Não há maneira de, à boa maneira partidocrática portuguesa, conseguir achar uma vitória nesta derrota. O PS perdeu mais de meio milhão de votos relativamente a 2004. O PS tem hoje um número de mandatos que só se pode comparar ao resultado obtido na eleição de 1987. Os socialistas perderam nada mais nada menos do que cinco mandatos — Portugal perdeu dois deputados europeus e acreditamos que possam ter sido retirados um ao PS e outro ao PSD.
Os portugueses quiseram penalizar o Governo pela acção política? Provavelmente essa será a razão mais plausível para justificar o resultado. Poderá dizer-se que, depois desta noite eleitoral, é garantida uma derrota do PS nos combates seguintes e, especialmente, no combate das eleições legislativas? Não nos parece. Em primeiro lugar porque os portugueses atingiram já um estado de maturidade democrática que lhes permite distinguir o que é a valer e o que é a feijões. Em segundo lugar porque neste combate os protagonistas não eram Ferreira Leite e Sócrates, eram outras pessoas para outros lugares. Mas há um dado essencial que agora se revela e que pode importar. Trata-se de um elemento subjectivo muito relevante: A invencibilidade de Sócrates não é irreversível. Ou seja, é possível Manuela Ferreira Leite travar o combate de igual para igual com Sócrates. Isso é importante porque vai aumentar a intensidade da campanha tanto do lado do PS como do lado do PSD e vai aumentar o apelo ao voto útil. Dito de outra forma: O primeiro combate traz maior interesse aos seguintes.
Foi anunciada como a maior inimiga deste acto eleitoral. Falamos da abstenção. A declaração não passou disso mesmo e nenhuma das candidaturas fez fosse o que fosse para a combater. No entanto, a abstenção não aumentou. Pode dizer-se que a percentagem de abstenção aumentou. E é verdade. Mas acontece que Portugal viu aplicada uma lei do recenseamento obrigatório e automático que fez insuflar o número de eleitores inscritos involuntariamente. A verdade é que em 2009 votaram mais 150 mil pessoas do que em 2004. Não há, no entanto, qualquer motivo de alegria. Nem achamos — como afirmámos na passada edição — que da abstenção se possam fazer leituras politicas de desagrado ou descontentamento.
A conclusão a tirar é que Portugal está cada vez mais europeu! O nível da abstenção em Portugal esteve abaixo do nível verificado em muitas das democracias mais consolidadas da Europa. O Reino Unido, a Holanda e a Suécia, por exemplo, tiveram abstenções superiores à portuguesa. A abstenção em França, na Alemanha e na Finlândia não foi muito inferior à portuguesa. E já para não falar na abstenção nos países que recentemente entraram na União.
A situação da abstenção pode ser, aliás, muito mais grave do que seria de esperar. Não é um problema exclusivo dos portugueses, é um problema de todos os cidadãos dos estados-membros que demonstram estar, cada vez mais desinteressados da união política que é hoje a Europa.

Editorial do JM 745 e do FRONTAL 1 de 10 de Junho de 2009

domingo, 7 de junho de 2009


RESULTADOS ELEITORAIS:
CONCELHO DE MORTÁGUA
No concelho de Mortágua a abstenção alcançou valores muito acima da média nacional e até do distrito de Viseu. Chegou aos 72%.
No concelho de Mortágua venceu o PSD, com 35,68%. Seguiram-se o PS, com 31,41%, o Bloco de Esquerda, com 8,28%, e o CDS com 7,59%. A CDU alcançou 3,52% dos votos. O PS ganhou, no entanto, nas freguesias de Cercosa, Marmeleira, Mortágua, Trezói e Vale Remígio. O PSD ganhou nas restantes cinco.
CONCELHO DE PENACOVA
No concelho de Penacova a abstenção alcançou valores pouco acima da média nacional, ficou-se pelos 67,2%.
Também no concelho de Penacova venceu o PSD, com 38,9%. Seguiu-se o PS, com 30,79%. Contrariamente à tendência nacional, a CDU foi a terceira força com 7,37%. O Bloco de Esquerda alcançou com 6,32%, e o CDS com 6,03%.
O PS ganhou, apenas, na freguesia de Lorvão. A CDU foi a segunda força em Oliveira do Mondego. Nas freguesias de São Pedro de Alva, de São Paio do Mondego, de Paradela e de Friúmes a terceira força mais votada foi o CDS. Em Penacova, a terceira força foi a CDU.
Resultados eleitorais do concelho da Mealhada
(clicar em cima da imagem, pf)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pequim, 4 de Junho de 1989

[797.]


Ora viva!

De modo informal, quase familiar, apresentamo-nos e saudamos todos os que, nesta ocasião, têm nas suas mãos o número zero — uma edição experimental — do jornal FRONTAL. Será deste modo, olhos-nos-olhos, com simpatia, apreço e espírito de serviço ao desenvolvimento e à valorização dos lugares e das populações dos municípios de Mortágua e de Penacova, que procuraremos dar dinâmica a um projecto que agora dá os primeiros passos.
O FRONTAL é um jornal que se apresentará quinzenalmente aos seus leitores. Começará por ter uma distribuição gratuita, mas transitará, gradualmente, com o tempo, para um sistema de assinaturas e de venda ao público em quiosques, papelarias, etc. Queremos chegar a todos os que queiram saber noticias especialmente relacionadas com as comunidades dos municípios de Penacova e de Mortágua e da região envolvente. Para isso, e de modo muito especial — porque sabemos o que isso significa para eles—, queremos chegar às comunidades de mortaguenses e penacovenses no estrangeiro, levando-lhes, de certa maneira, novo alento para as dificuldades que a distância de casa lhes traz.
O FRONTAL é um jornal que faz parte de um grupo editorial com 25 anos, e com várias títulos. Os seus promotores conhecem as características e os problemas do jornalismo regional na actualidade. Apesar das dificuldades que todos conhecem, não houve resignação nem medo em avançar com este projecto, que não deixa de ser arriscado.
O FRONTAL é um jornal de notícias locais, com espaço de opinião, de cultura, de divulgação histórica e científica, entre outras. Os que o dirigem, e que serão responsáveis pela sua linha editorial, procurarão oferecer um produto o mais diversificado e o mais atraente possível. Mas para isso precisam dos leitores. Precisamos da sua opinião, da sua crítica, das suas chamadas de atenção, das suas informações.
Portugal atravessa, na actualidade, um tempo de nascimento de formas muito variadas de intervenção cívica. Colaborar com a edição de um jornal regional — que acaba por ser (para já) um meio mais abrangente do que as outras tecnologias da informação — é também uma forma de intervenção em prole da sua comunidade e dos outros.
Esperamos que nos dê a sua opinião sobre o número zero do FRONTAL. Com ela, poderemos ir mais fácil e rapidamente ao seu encontro. Esse é, de facto, o nosso objectivo. Levar aos habitantes dos concelhos de Mortágua e de Penacova, de olhos-nos-olhos, e de modo responsável, as boas e as más noticias das comunidades maravilhosas e riquíssimas que nos seus territórios estão instaladas.
Coragem e Frontalidade são características que a História e a Tradição atribuem a mortaguenses e penacovenses, e que este jornal quer assumir e valorizar!

Editorial do número zero do FRONTAL de 27.05.2009

[796.] -


Mais um projecto JM'09!
Um sonho com alguns anos, possível graças à parceria, ao dinamismo, à vontade e à fé inabalável no futuro e nas capacidades de fazer diferente!

O FRONTAL nasceu para vingar e para valorizar uma zona do país que estava sedenta e precisava de ser acarinhada!
O mesmo estilo, a mesma energia!
O jornal que se apresenta ao leitor 'olhos-nos-olhos'