quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
[919.] Mercurii dies
As consequências das fortes chuvas da passada sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010, na ilha da Madeira foram devastadoras. A força da água mostrou-se destruidora perante casas, estradas, muros e toda a espécie de construção humana. A fragilidade do homem quando confrontada com a natureza tornou-se, uma vez mais, evidente.
Porque acontecem estes fenómenos climatéricos? Procurar-se-ão respostas no sentido de saber, também, por que razão se observaram estas consequências e o que poderia ter sido feito para as dirimir ou minorar. No caso da Madeira – como já se havia identificado no caso do terramoto do Haiti – terão sido elementos fundamentais para este resultado as políticas de ordenamento do território (ou a ausência delas) e a falta de instrumentos capazes de fazer uma previsão meteorológica e geofísica atempada. O hábito contemporâneo de impermeabilização dos solos (com o cimentar de valetas, o entubar de ribeiras e emparedar de cursos de água) terá contribuído, também, para o resultado do passado fim-de-semana, na Madeira.
A aproximação gradual que estes fenómenos vão fazendo relativamente à nossa realidade faz-nos perguntar se estaremos preparados se, ou quando, acontecerem no nosso território. E provavelmente a resposta será pouco animadora.
Nas escolas até poderá haver sensibilização para os comportamentos a tomar em caso de incêndios ou terramotos, por exemplo. Mas está longe de ser suficiente. Um simulacro uma vez na vida não permite às pessoas assimilarem conhecimentos sobre que comportamento tomar em caso de emergência. Mesmo que isso esteja previsto em documentos estratégicos e planos de segurança, essa informação nunca chegou aos cidadãos. E é pena!
Um porta-voz da Protecção Civil da Madeira afirmou, num dos noticiários do fim-de-semana, que as pessoas, sem conseguirem definir prioridades no momento em que seria necessário fugir das derrocadas e dos aluviamentos, perderam tempo – algumas delas perderam mesmo a vida –, não souberam fazer, ou salvaguardar, o que era essencial. Ou seja, não tendo conseguido adoptar os comportamentos mais apropriados, acabaram por dificultar em vez de facilitar num momento de pânico.
Há comunidades, residentes em zonas do globo recorrentemente assoladas por fenómenos climatéricos e geofísicos, que se prepararam para saber agir de forma rápida e eficaz perante a ocorrência de cheias, de terramotos, tsunamis, tornados e outros fenómenos. Têm enraizada uma cultura de protecção civil. É esse exemplo que devíamos seguir e procurar compreender. Até porque deixaram de ser longínquos fenómenos extremos da força da natureza, a própria história de Portugal refere a existência, no passado, de momentos dramáticos – como o terramoto de 1 de Novembro de 1755, por exemplo – que voltarão a repetir-se, sem, no entanto, sabermos quando.
“Se avisados a tempo, os madeirenses teriam sabido prevenir-se”, garantia um climatologista na televisão. Temos dúvidas a este respeito. Como se pode avisar uma comunidade inteira em tempo útil. Não será nem pela televisão nem pela rádio – poderá ser útil mas não será, certamente, suficiente –, não será com o toque de sirenes das corporações de bombeiros porque esse toque serve, apenas, para chamar os soldados da paz. Também não será com o toque ‘a rebate’ do sino da Igreja, que terá outros fins.
Mesmo que convenientemente alertados, para onde devem deslocar-se os cidadãos em caso de necessidade de evacuação, por exemplo? Talvez seja uma resposta a que só se venha a ter acesso quando estivermos perante a necessidade.
A experiência de outros deve fazer-nos pensar e tomar medidas para não cairmos nos mesmos erros e, eventualmente, sofrer as mesmas ou ainda piores consequências.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Samba-enredo da Escola Campeã do Rio de Janeiro 2010.
Ganharam com 299,9 pontos em 300 possiveis!
UNIDOS DA TIJUCA
Parabéns à Nação 'Tijucana', a Paulo Barros e Fernando Horta, bom amigo do Carnavalda Mealhada.
Alexandre Nero, o Rei do Carnaval da Bairrada de 2010, despediu-se da Mealhada cantando este samba. O gesto foi muito interessante. Eu, pelo menos, apreciei bastante. Pelo próprio samba ('É hoje', de Didi&Mestrinho, samba-enredo da União a Ilha em 1982 e em 2008), pelo cantor, que o interpretou com qualidade, e pela intenção de homenagear o publico com uma musica que, na sua letra, tem muito de luso-brasilidade.
Muito bom.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Resultados do Concurso
[914.] Mercurii dies
O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada de 2010 poderá ter sido o melhor de que há memória no sambódromo Luís Marques, na zona desportiva da Mealhada. É certo que foi ensombrado pelas ameaças de mau tempo e arrasado pelo frio que atacou o país neste Entrudo, facto que poderá justificar a fraca participação de público – especialmente no domingo. De qualquer forma, nunca as escolas se apresentaram de forma tão homogénea na qualidade das fantasias, na exuberância da apresentação dos enredos, no cuidado com coreografias e musicalidade. Tal como temos feito nos últimos anos, assumimos o papel de promotores da avaliação do trabalho das escolas de samba. Chamamos a nós, também, o direito de emitir a nossa opinião sobre a organização do cortejo.
O percurso do sambódromo
No final do Carnaval de 2009, apelámos à necessidade de serem tomadas medidas no sentido de ser alterado o percurso – eventualmente mudada a localização. Os dirigentes da Associação do Carnaval da Bairrada foram sensíveis ao apelo e à necessidade, e o percurso este ano teve um novo local de dispersão. Ouvimos da parte de alguns dirigentes das escolas de samba a opinião de que o percurso é muito maior, a evolução da escola de samba, que se fazia em cinquenta minutos, se fez, em 2010, em cerca de uma hora e quarenta. De qualquer forma, e na nossa opinião, feita na óptica do espectador, o percurso feito este ano revelou-se uma boa opção.
O som e o atraso
Em 2010, também não foram significativos os problemas com o som e com o atraso no início do desfile. Já havíamos verificado esta situação em 2009, e registámo-lo também este ano. Fazemos referência a este aspecto porque entendemos que, no que respeita à hora de início dos cortejos, se tratou, durante muitos e muitos anos, de um defeito crónico do Carnaval da Mealhada.
No domingo, no entanto, registou-se um longo tempo de intervalo entre a terceira e a quarta escola a desfilar. O problema, segundo pudemos apurar, terá sido de natureza técnica com uma das escolas de samba, facto que terá obrigado a organização a alterar a ordem previamente estabelecida para a saída das escolas no corso. O resultado do atraso levou a que muitas pessoas se fossem embora – mais do que o normal – e que a última escola fizesse parte do percurso já de noite. Esse facto foi prejudicial para o espectáculo e para as escolas em causa (a que teve os problemas e a última a desfilar). Compreendemos que há sempre problemas e imponderáveis que todos lamentamos. Consideramos, no entanto, que, através do sistema de som, deveria ter sido dada uma explicação e feito um apelo para que os espectadores não abandonassem o sambódromo. Na terça-feira tudo correu de forma impecável a este nível.
Espectadores
Enriqueceria, de sobremaneira, o espectáculo apresentado pelas escolas de samba se cada uma – ou todas em conjunto – distribuísse pelos espectadores uma brochura com o seu roteiro, com a explicação do enredo e com uma breve apresentação do significado de cada uma das alas, destaques e diferentes figurantes. Seria uma forma de o espectador ter uma melhor percepção do que estava a ver e, assim, o valorizará, certamente.
A avaliação das escolas de samba
A avaliação feita pelo Jornal da Mealhada é já um dado adquirido. E ainda bem. Todas as escolas colaboraram, com a entrega de todas as informações relativas ao que iam apresentar no sambódromo, mas, também, com contributos relativos à própria organização da avaliação. Colaborações que se revelaram muito positivas. Por outro lado, o facto de em 2010 os resultados globais das escolas serem muito superiores aos de 2009 – todas as cinco escolas têm, em 2010, uma pontuação superior à pontuação da escola que em 2009 ficou em segundo lugar – demonstra a preocupação das escolas em melhorar e em procurar superar deficiências. Essa é a grande vitória da avaliação.
O luso, do luso-brasileiro
O Carnaval na Mealhada é Luso-Brasileiro. Deve procurar ser o melhor de Portugal nesta característica. Estamos convencidos que já é o Carnaval mais brasileiro de Portugal. No entanto, é necessário que não se perca a dimensão popular e crítica característica do Entrudo português. Essa dimensão também faz parte do nosso Carnaval. O saudoso Grupo Macacu é elemento fundador do Carnaval da Mealhada, mais recentemente o Grupo Sapatada mantém uma tradição bonita. Encadeados pelo brilho da brasilidade do nosso Carnaval pode dar a ideia de que depreciamos a dimensão portuguesa. Não é verdade. Os grupos de crítica merecem o nosso aplauso e elogio, recebendo uma palavra de agradecimento colectivo e de incentivo a continuarem e a aumentarem em número e em criatividade.
O futuro do Carnaval
No final do Carnaval do ano passado, lembrámos que em 2009 se haviam completado trinta anos desde o primeiro Carnaval da Criança, festa infantil que, durante duas décadas se realizou no Domingo Magro. Repetimos o apelo que fizemos há um ano: O número de pequenos desfiles carnavalescos com crianças fantasiadas que se realizaram nesta época carnavalesca, por todo o concelho da Mealhada, justifica que se ponha em cima da mesa a hipótese de voltar a realizar-se o Carnaval da Criança — Carnaval Infantil da Bairrada, que era o seu nome — integrado nos festejos do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, nos moldes do que se fazia. Entendemos que poderia ser um ponto a constar no protocolo a celebrar entre a Câmara Municipal da Mealhada e a Associação do Carnaval da Bairrada, para 2011. Trata-se, afinal, do futuro do Carnaval da Mealhada.
Editorial do Jornal da Mealhada de 17 de Fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão do seu corpo... mas o livro é outra coisa, o livro é uma extensão da memória e da imaginação"
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
[911.] Mercurii dies
A divulgação do conteúdo de conversas telefónicas é, à partida, uma coisa execrável. A divulgação do conteúdo de conversas telefónicas, resultado de escutas feitas no âmbito da investigação de um processo judicial, é abominável. A divulgação de conversas telefónicas integradas em processos judiciais entretanto arquivados pelo Ministério Público é lamentável. A divulgação de opiniões na comunicação social feita com base em declarações de terceiras pessoas no que comummente se pode classificar como diz-que-disse, não tem suporte moral e deontológico e, por isso, não deve ser incentivado nem consentido. Estes actos, sejam eles feitos por órgãos de comunicação social sejam por colaboradores, mesmo que jornalistas credenciados, digam eles respeito a pessoas titulares de órgãos de soberania ou não, são repudiáveis.
Acreditamos, no entanto, que têm consciência disso, e partilham desta opinião, os directores dos órgãos de comunicação social que divulgaram as escutas telefónicas que dão conta de que o primeiro-ministro de Portugal, alegadamente, se envolveu numa estratégica com vista ao condicionamento de órgãos de comunicação social por via económica e administrativa. Acreditamos que, apesar disso, terá sido em nome do interesse informativo e do direito dos portugueses à informação que entenderam publicar esse conteúdo que, a provar-se ser verdadeiro, é sério e muito grave.
Partilhamos a opinião de que há que saber distinguir a mensagem do mensageiro. O mensageiro – a comunicação social – pode não ter procedido de uma maneira por todos aceitável. Mas, por outro lado, não se pode ignorar que é relevante a mensagem que põe em causa o carácter de um titular de um cargo público. As escutas telefónicas que envolvem o primeiro-ministro são muito sérias e, pese embora poderem não constituir crime – assim o entendeu o Ministério Público –, constituem um comportamento censurável e repudiante.
Julgar sumariamente o primeiro-ministro e condená-lo imediatamente com base nos dados de que dispomos, seria usar um recurso idêntico ao que condenávamos. É por isso que entendemos que o primeiro-ministro devia apresentar explicações, sem demora, a propósito do conteúdo das escutas que parecem indiciar a existência de uma estratégia de constrangimento da TVI, no sentido de afastar José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes, de uma estratégia de constrangimento do jornal Público e de afastamento do seu antigo director José Manuel Fernandes, de uma estratégia de constrangimento do Correio da Manhã, de Mário Crespo. Para além das classificações do trabalho de jornalistas com epítetos como jornalismo de sarjeta ou calhandrice.
O primeiro-ministro tem obrigação de dar esclarecimentos e devia fazê-lo quanto antes. Não está em causa, desta vez, se beneficiou ou não um consórcio empresarial na obtenção de uma licença – como poderá ter sucedido no caso Freeport. Não está em causa se foi benefíciado na obtenção do seu grau académico. Já nada disso está em causa. Hoje estamos perante a suspeita de que o chefe do Governo move influências pessoais e estatais – usando meios e predicados exclusivos do Estado – para, em beneficio próprio, pessoal, controlar a comunicação social, procurando afastar os jornalistas e os órgãos de comunicação social que teriam mostrado ser menos apoiantes. Trata-se de uma acusação muito grave, que no caso de não ser verdadeira não pode, de maneira nenhuma, continuar a pesar ou impender sobre o chefe do Governo. Pelo que José Sócrates, e nesse sentido deviam aconselhá-lo os seus mais próximos, devia explicar-se de forma inequívoca. Consideramos que, para já, não há razões para exigir que se demita, como alguns parecem sugerir. Mas o esclarecimento deve ser rápido e satisfatório.
Em Itália, o primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi, é um magnata da comunicação social. Comprou os órgãos informativos que lhe permitem minimizar, junto dos italianos, a sua imagem de homem corrupto e mafioso, com deficiências de carácter. Fê-lo com o seu próprio património e só depois se abalançou na chefia do Governo. Segundo as acusações a que aludimos, José Sócrates procuraria, a partir de São Bento, controlar a comunicação social, com recurso aos meios das empresas públicas e do Estado, com o objectivo de domesticar quem lhe parece mais hostil. Não serão, apenas, duas faces da mesma moeda?
Editorial do Jornal da Mealhada de 10 de Fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
[909.]
«República, a revolução que continua longe do consenso»in Jornal PÚBLICO de 31 de Janeiro de 2010
Na edição de domingo do Público, na página 2, num texto assinado por Luís Miguel Queirós, - com o título "Uma revolução democrática ou a vitória de extremistas", é apresentada a ideia de que, mesmo no meio académico, não é consensual a leitura factual das conquistas e do que foram os primeiros anos da República em Portugal (1910 - 1926). O texto é interessante e contrapõe posições como a de Rui Ramos - coordenador da recente publicação 'História de Portugal' -, de Manuel Loff, que colabora na elaboração de um 'Dicionário da República e do Republicanismo', e de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, autores da 'História da Primeira República'.
Os quatro autores (ou três grupos se juntarmos Rosas e Rollo autores do mesmo livro) são concordantes na identificação dos falhanços da Primeira República... E para sintetizar isso até cito Rosas (em entrevista ao i): "A Primeira República falhou no essencial: Democratizar o país!". A este respeito Rui Ramos acrescenta: "Nos anos 20, Portugal era um dos poucos regimes europeus sem sufrágio universal [o voto era vedado aos analfabetos e às mulheres]. Só em 1915 foram convocadas as primeiras eleições gerais".
Mas os quatro autores discordam em tudo o resto.
A falta de consenso intelectual a este respeito é total. Na introdução do 'História da Primeiro República', os autores apresentam o contraponto de duas linhas de posição sobre esta matéria que se vão degladiar ao longo do resto deste ano de Centenário da República.
Por um lado a corrente «que encara o republicanismo como pouco mais do que uma conspiração maçónica-radical de alguns intelectuais urbanos subversivos, sedentos de poder e carentes de escrúpulos». Que Rosas/Rollo consideram estar em 'reaparecimento' e 'reafirmação' numa linha "a meio-caminho entre a história e a política, de forte cunho monárquico-conservador" e que "constitui uma reedição do discurso propagandistico do Estado Novo"... Deve estar a referir-se à 'malta' do 31 da Armada... digo eu!
Por outro lado a corrente «de uma certa ortodoxia maçónica-republicanista acriticamente glorificadora». Deve estar a referir-se aqueles republicanos ceguetas que ainda andam à procura do Rei para o matar outra vez![908.]
Esta estátua da República [colocada na Sala do Plenário da Assembleia da República, no palácio de São Bento, em Lisboa] foi esculpida num bloco de mármore de Carrara inicialmente destinado ao talhamento da estátua régia de D. Manuel II, pelas mãos de Moreira Rato. O fim da Monarquia acabou por dar diferente utilidade ao material que, entregue a Anjos Teixeira, viria a celebrar a nova era política portuguesa de forma assaz nacionalista.[907.] Mercurii dies
A propósito do centenário da implantação da República
Começaram no domingo, no Porto, as comemorações oficiais do centenário da implantação da República em Portugal. A escolha da data foi uma homenagem à luta dos republicanos. No Porto, em 31 de Janeiro de 1891, deu-se a primeira tentativa de implantação da República com a intervenção de militares e de dirigentes do Partido Republicano Português. Até 5 de Outubro de 1910, data em que os republicanos foram finalmente bem sucedidos, a luta pela mudança de regime em Portugal teve sucessos e frustrações, momentos de expansão e de contracção. Momentos como os das manifestações académicas contra a ditadura de João Franco, chefe de Governo, o ‘Golpe do Elevador da Biblioteca’, o regicídio de Carlos de Bragança, estes dois últimos no princípio do ano de 1908, constituem, a par do 31 de Janeiro de 1891 e de outros acontecimentos, passos de um longo processo que levou à implantação da República. Como é redutor fazer passar a ideia de que a mudança de regime político foi um acontecimento daquele dia 5 de Outubro, ou dos dias anteriores, está de parabéns a Comissão para a Comemoração do Centenário da República ao sublinhar a dimensão do processo que se tornou visível aos olhos do público dezanove anos antes, em 31 de Janeiro de 1891.
República Portuguesa
(Plenário da Assembleia da República, obra de Anjos Teixeira)
Faz todo o sentido, haverá até urgência, em comemorar a República. Isto não é o mesmo que dizer que há necessidade, justificação, até, para exaltar a I República e algumas opções tomadas nessa época. Ao fim de trinta e seis anos de democracia pluripartidária e de Estado de Direito, de vivência plena da República, ao mesmo tempo que nos é dito que há uma crise de valores, que obrigará a medidas na adaptação do sistema político, é necessário debater a República, e perceber o que é a República moderna para a qual devemos caminhar nos dias de hoje.
Entendemos que faz sentido haver uma comemoração nacional do centenário da República e que, nessa circunstância, faz sentido haver comemorações locais, ao nível das freguesias, por iniciativa popular e ou das Juntas, e, também, ao nível de todo município, promovidas pela comunidade e ou pela Câmara Municipal. O concelho da Mealhada não é excepção.
O espírito republicano, no concelho da Mealhada, teve terreno mais propício na freguesia da Pampilhosa. Os pampilhosenses, pela sua génese sociológica, provavelmente, pelo espírito comunitário e sentido do colectivo, ansiaram e receberam de braços abertos a República. As lojas maçónicas da Pampilhosa, a Associação de Socorros Mútuos, o Grémio de Instrução e Recreio, entre muitas outras colectividades, oficializadas ou não, são o fruto de uma visão da sociedade muito mais liberal, progressista e colectivista do que a que existia na Mealhada, no Luso, ou em Anadia, por exemplo. No ano em que a Pampilhosa assinala o vigésimo quinto aniversário da sua elevação a vila – em Setembro –, faria todo o sentido, no nosso entender, associar estes dois aniversários.
Homenagear as personalidades pampilhosenses do princípio do século XX, fundadoras de tantas vontades e iniciativas, no grupo das quais pontificava Joaquim da Cruz, seria um acto de justiça. Em 2010, em princípio, deixará de funcionar como escola a Thomaz da Cruz, estabelecimento fundado por Joaquim da Cruz. Tal facto constitui, assim pensamos, mais uma razão para reavivar a memória do homem que foi o primeiro presidente da Câmara Municipal após a implantação da República, que podemos considerar como exemplo de verdadeiro republicano.
A Câmara Municipal da Mealhada e a Junta de Freguesia da Pampilhosa serão, certamente, sensíveis à justiça da homenagem a Joaquim da Cruz e aos pampilhosenses seus contemporâneos e correligionários, e à necessidade de comemoração do centenário da República.
Joaquim da Cruz
Editorial do Jornal da Mealhada de 3 de Fevereiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
ÁGORA, de Alejandro Amenabar
O filme de Alejandro Amenabar, Ágora, é absolutamente obrigatório. E acho que é de visionamento obrigatório especialmente para os cristãos. E para quem gosta de pensar. E para os que procuram uma justificação para os fundamentalismos, nomeadamente o islâmico. E para quem não encontra justificação, ainda, para a afirmação de que as idades das religiões justificam, em larga escala, a sua acção e a acção colectiva dos seus crentes.
POr favor, não percam.
[905.] Mercurii dies
A propósito do terceiro adiamento da entrega de propostas para a Auto-Estrada do Centro
Uma das questões que neste momento distingue o Governo do Partido Socialista da oposição, nomeadamente do PSD, é a defesa da promoção de grandes obras públicas, para incentivar o investimento privado com o objectivo de relançar a economia portuguesa. O Governo acha que, com o lançamento de projectos para a construção de linhas ferroviárias de alta velocidade, de barragens, de parques eólicos e de auto-estradas, as empresas vão aderir, vão criar empregos, e, consequentemente, gerar a circulação da riqueza, facto que fará reanimar a economia.
Esta é uma estratégia do Governo que, concorde-se ou não, foi sufragada pelo eleitorado – uma vez que o Partido Socialista não a escondeu – e que, por conseguinte, está legitimada. Os projectos têm sido lançados e os processos burocráticos estão a caminhar… como sempre.
O Partido Socialista, ao ganhar as eleições, acabou por dar sinais aos empresários, aos trabalhadores, a toda a população, de que estes investimentos iam ser feitos e isso, certamente, criou expectativas. Não podemos, então, deixar de nos sentir frustrados ao sabermos da notícia de que a empresa pública Estradas de Portugal adiou, pela terceira vez, o prazo para a entrega das propostas para a concessão da Auto-Estrada do Centro (que ligará Coimbra a Viseu, pelo norte do Buçaco, substituindo o actual IP3, e que normalizará o IC2 como via-rápida entre Coimbra e Águeda).
Em 29 de Março de 2008, na vila de Mortágua, foi o próprio primeiro-ministro a anunciar o lançamento do concurso para a concepção, construção, exploração e conservação da referida auto-estrada. Nesse dia, José Sócrates assumiu que a obra seria adjudicada ainda nesse ano de 2008 e que estaria concluída no ano 2011. Disse-o perante autarcas, perante pessoas, para a comunicação social, logo, para o país todo. A partir daí o Governo desdobrou-se em iniciativas nos diferentes municípios que beneficiariam directamente com a nova via de circulação, para divulgar a medida. O secretário de Estado das Obras Públicas, Paulo Campos, esteve na Mealhada a 10 de Abril desse mesmo ano e reafirmou o que havia dito o primeiro-ministro do outro lado do Buçaco, com a pequena nuance de prometer a conclusão da obra em 2012.
O concurso não foi lançado dentro dos prazos anunciados e em Agosto de 2009 é a própria Estradas de Portugal que decide anulá-lo – quando estava prestes a terminar – porque as propostas dos concorrentes ultrapassavam em 120 por cento o valor base previsto no inicio do concurso. Alguns autarcas ficaram muito revoltados, e com razão. O tema foi usado no debate político durante a campanha das eleições legislativas – especialmente entre Louçã e Sócrates –, mas, honestamente, é difícil demonstrar que a responsabilidade desta anulação seja, exclusivamente, do Governo.
Em 2 de Outubro de 2009, a Estradas de Portugal lança novo concurso. No anúncio deste segundo concurso, 16 de Novembro de 2009 é a data anunciada para apresentação das propostas. Entretanto, no início do mês de Novembro, a Estradas de Portugal adiou para 17 de Novembro e, depois, para 21 de Janeiro. Na manhã desse mesmo dia, e pela terceira vez, a empresa pública voltou a adiar o concurso, desta vez para 4 de Fevereiro.
Se as propostas forem aceites nesse dia, e não houver mais contra-tempos, a obra que Sócrates anunciou em Mortágua como estruturante e prioritária leva cerca de um ano e meio de atraso. E ainda não se passou da fase de concurso. Haverá atrasos, naturais, na adjudicação, e depois na construção e por aí fora… Na melhor das hipóteses a estrada que ligaria Coimbra a Viseu em 30 minutos, pelo norte do Buçaco, e que consolidaria a Mealhada como o grande centro rodoviário nacional, não estará pronta em 2012, mas em 2014 ou 2015.
Um atraso de, pelo menos, dois anos é o sinal que o Estado – Governo e empresas públicas – dá aos empresários, aos eventuais investidores, para os incentivar a investir? Este é o sinal dado pelo Estado para as obras que o Governo (este e os outros) classifica como prioritárias e estruturais? Muito se fala da obrigação de as autarquias fazerem um planeamento e ordenamento do território de modo sustentável. Que género de ordenamento se pode fazer com indefinições e adiamentos desta natureza?
Foram devidamente avaliadas as consequências de adiamentos deste género no caminho desse relançamento?
Ou será, apenas, o Tribunal de Contas uma força de bloqueio?
Editorial do Jornal da Mealhada de 27 de Janeiro de 2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo
Bertolt Brecht
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
[902.] Mercurii dies
A propósito da passagem do comboio de alta velocidade pelo concelho
Já há muito tempo que o debate sobre o investimento, ou não, no comboio de alta velocidade (na sigla galicista: TGV) se instalou na televisão, nos jornais, nos fóruns políticos e económicos. Há uma corrente que defende que o investimento em grandes obras públicas poderá ser decisivo no relançamento da economia nacional – porque vai gerar emprego e circulação de capitais. Antagonicamente há quem defenda que o país não dispõem de capitais para isso pelo que se trata de gastar hoje dinheiro que só se terá amanhã… ou depois. O debate sobre o TGV tem incidido sobre a questão da qualidade do investimento e muito raramente sobre a necessidade, as vantagens e as desvantagens da alta velocidade. O debate a que aludimos fez-se na comunicação social, não sabemos o que disso chegou à população.
Procuramos estar atentos ao desenvolvimento de todos os projectos nacionais que intervenham – directa ou indirectamente – na área do concelho da Mealhada, tendo em conta as consequências positivas ou negativas que daí possam advir para a população. Tem sido assim também em relação ao TGV. Em Maio de 2009 divulgámos o conjunto de limitações ao uso de terrenos inseridos nos corredores projectados que faziam já antever o impacto que a construção da linha de alta velocidade teria no concelho da Mealhada. Desde essa altura, ficou a saber-se que, entre os traçados propostos para a instalação do troço da via que atravessará esta zona, havia um, o número cinco, que traria mais prejuízos para o concelho da Mealhada.
Em 23 de Dezembro de 2009, demos conta de que os traçados, nessa altura em fase de estudo de impacto ambiental, estavam em consulta até ao próximo dia 5 de Fevereiro. Consultámos autarcas, acompanhámos a discussão do assunto em sede de reunião da Câmara Municipal. Na presente edição do Jornal da Mealhada apresentamos a reportagem da sessão pública de esclarecimento à população promovida pela Junta de Freguesia da Antes e um artigo de opinião de Branquinho de Carvalho (B.C.) a este propósito.

O debate do TGV chegou, finalmente, à base da pirâmide política, ao povo. E era bom que por lá se prolongasse por mais algum tempo. A iniciativa tomada pela Junta de Freguesia da Antes bem poderia ser aproveitada pelas Juntas de Freguesia de Casal Comba, de Ventosa do Bairro e de Barcouço, ou até mesmo pela Câmara Municipal para um cabal esclarecimento da população e para uma consequente tomada de posição forte e determinada pela rejeição do traçado 5.
O impacto do TGV nos interesses e na vida das populações tem várias facetas. Uns sublinharão o impacto visual, outros sublinharão o impacto ao nível do ruído – é, aliás, um aspecto sublinhado pelo Estudo de Impacto Ambiental –, outros preocupar-se-ão com as mudanças na morfologia do território. Não será uma obra indiferente a ninguém, disso não temos dúvidas.
É por isso muito importante que o debate se realize, e que a população se envolva num momento decisório importante como é este.
Nesta fase não está em discussão se o projecto nacional do TGV é ou não importante para o país. Não vale a pena questionar o investimento. Não vale a pena perguntar sobre a utilidade do TGV Lisboa – Porto, num país em que o comboio alfa-pendular e a ligação aérea até garantem rapidez no transporte de pessoas e mercadorias. Não vale a pena sugerir que a rede de alta velocidade só se instale na ligação para a ligação a Espanha. Essa discussão tem lugar em sede de campanha eleitoral, na procura de respostas de partidos e programas políticos e partidários.
O que está agora em causa é garantir que ficamos todos prevenidos e informados acerca dos malefícios e dos benefícios deste projecto nas nossas vidas e adequarmo-nos a eles. Temos a consciência tranquila de que tudo fizemos para minimizar os malefícios que aceitamos em nome do interesse nacional?
O estudo de impacto ambiental está acessível a quem o quiser consultar na Câmara Municipal da Mealhada. O resumo não técnico do referido estudo pode ser consultado nas juntas de freguesia da Antes, de Barcouço, de Casal Comba e de Ventosa do Bairro ou no sítio http://www.apambiente.pt/. As exposições referentes ao assunto deverão ser dirigidas ao Director-geral da Agência Portuguesa do Ambiente até à data do termo da consulta pública – 5 de Fevereiro de 2010.
Editorial do Jornal da Mealhada de 20 de Janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
[901.] Mercurii dies
O ano de 2010 começou há poucos dias. Será o último ano da primeira década do terceiro milénio – contrariamente a algumas afirmações diferentes que se têm ouvido de quem teria obrigação de não falhar. Seria bom que fosse o último ano desta crise económica, financeira e social que o mundo vive desde o Verão de 2008. É, aliás, essa a previsão de governantes e economistas.

Está prevista para Maio a visita do Papa Bento XVI a Portugal. O chefe da Igreja Católica estará em Lisboa, no Porto e em Fátima, poucos meses depois da discussão, em Portugal, do tema da normatização legal da instituição do casamento entre pessoas do mesmo sexo e, consequentemente, do debate sobre a adopção de crianças por casais de pessoas unidas através deste tipo de casamentos.
O tema dos casamentos entre homossexuais poderá ser, também, o primeiro de uma série de conflitos entre o Governo e a Presidência da República que, certamente, agudizarão as relações entre estes órgãos de soberania, no ano em que começará a corrida eleitoral para a escolha do Chefe de Estado. Para a presidência da República estarão virados, aliás, todos os holofotes da atenção noticiosa e política.
No final de 2010 estaremos em campanha eleitoral, uma vez que as eleições presidenciais deverão acontecer nos primeiros dias de Janeiro de 2011. Manuel Alegre será o candidato apoiado pelo Partido Socialista e Cavaco Silva terá o apoio de PSD e CDS. Alegre anunciará a candidatura antes do Verão, Cavaco estará tentado a fazê-lo depois das comemorações do centenário da implantação da República, em Outubro, e poderá ser prejudicado por isso. Manuel Alegre, o histórico poeta e resistente poderá vir a ter o apoio do Bloco de Esquerda, dependerá dos resultados dos estudos de opinião em meados do ano, mas dificilmente contará com um apoio directo e imediato do Partido Comunista Português.
Nos primeiros meses do ano discutir-se-á, no parlamento, o Orçamento para 2010. Os discursos criarão a ideia de grande crispação política entre os partidos, mas o documento passará – porque nenhum partido está interessado em que seja rejeitado. As eleições para a liderança do PSD também marcarão a agenda política. Pedro Passos Coelho, da linha liberal do partido, é candidato já anunciado, ficando por saber quem será o seu adversário em representação da linha mais conservadora e cavaquista.
Politicamente, no concelho da Mealhada há, também, algumas situações que será interessante acompanhar. Haverá eleições para os órgãos locais do PSD e do PS. A eventual recandidatura de Carvalheira e eventuais alternativas que surjam animarão as hostes social-democratas, e não só, também a nível local. Acompanhar as reuniões da Câmara Municipal da Mealhada continuará a ser relevante, quanto mais não seja para seguir a relação entre os dois blocos, um composto pelo presidente e os três vereadores com pelouro, e outro constituído pelos vereadores da oposição e Arminda Martins.
O ano de 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade e o Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social. Será, também, o ano em que se assinalará, com comemorações oficiais, o centenário da implantação da República em Portugal. O Campeonato do Mundo de Futebol, na África do Sul, de 11 de Junho a 11 de Julho, animará os portugueses e fará esquecer dificuldades e angústias. Pelo menos assim esperamos.
Será um ano rico em acontecimentos e repleto de motivos de interesse, certamente, acompanhados pelo Jornal da Mealhada no ano em que este órgão de comunicação social assinala o seu vigésimo quinto aniversário.
Editorial do Jornal da Mealhada de 13 de Janeiro de 2009




