sábado, 1 de maio de 2010

[1002.] Saturni dies, no Dia do Trabalhador

Ela Canta, Pobre Ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso!
Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

*
Gosto imenso deste poema. E lembro-me muitas dele, e recito o primeiro verso. Quando estou cansado de mim mesmo. Quando vejo os outros felizes com menos do que eu e, mesmo assim, irradiando felicidade, penso nesta ceifeira. Quando vejo alguém com uma vida comedida, sem rasgo e sem preocupações, sem angústias, lembro-me deste poema.
«Ah, poder ser tu, sendo eu! /Ter a tua alegre inconsciência, /E a consciência disso!», era tão bom! Esta intranquilidade, este querer abraçar o mundo com estes dois braços, este achar que se está do Lado Bom da Força e se tem a ajuda da Verdade... leva-me onde? A esta angústia, esta intranquilidade, este travo de insatisfação na boca? Será?
Merda para isto tudo! «Pesa tanto e a vida é tão breve!»

sexta-feira, 30 de abril de 2010

[1001.] Veneris dies, no Dia Nacional da Holanda

"Koningin" Beatrix Wilhemilna Armgard Orange- Nassau
Rainha dos Países Baixos

Hoje é Dia Nacional da Holanda, ou dos Países Baixos, como se preferir. A data é a do 29.º aniversário da coroação da Rainha Beatriz, Chefe do Estado.

Uma senhora amável, estimada pelo povo. É licenciada em Direito, desde 1961, e encabeça um Estado desenvolvido, uma democracia cada vez mais multicultural. Apesar de não estar longe de polémicas na juventude é hoje uma mulher de 72 anos, discreta e respeitada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

[1006.] Mercurii dies

Da memória
Em homenagem a Sofia Ferreira (1922 – 2010)

“Nós, jovens de hoje, provavelmente não damos tanto valor à liberdade como as pessoas que viveram na época pré-25 de Abril de 1974. Já nascemos em Democracia, nunca tivemos de lutar pela Liberdade, pela Paz, por Direitos. Para muitos de nós, este dia é apenas um feriado como os outros, tendo importância social e nacional, mas não significado pessoal. Tudo o que sabemos sobre a revolução foi-nos ensinado pela História que se conta nos livros e pelos mais velhos, professores e pais, alguns dos quais até nos dizem que se vivia melhor antes dela ter existido”. Este trecho consta do discurso que dois escuteiros da Mealhada dirigiram aos que assistiam à sessão solene do 36.º aniversário do 25 de Abril. Os ‘jovens de hoje’ têm a perfeita noção de que é difícil compreenderem a importância do 25 de Abril quando sempre viveram em Democracia. Democracia que, democraticamente, vêem ser posta em causa diariamente. E que alguns já duvidam ser a melhor forma para resolver conflitos.
Talvez fosse mais fácil se conhecessem a história de Sofia Ferreira. A história de quem começou a trabalhar aos dez anos, na agricultura. Aos doze foi servir para Lisboa e só muito mais tarde aprende a ler e a contar. Por influência de um tio e, depois das irmãs, defende um modelo de sociedade diferente do vigente. Acha que as coisas deviam ser diferentes. Não interessa, para o caso, o que defende e que alternativas preconiza. Sofia pensa de maneira diferente. Como o Estado persegue e prende os que pensam de modo diferente há pessoas que estão escondidas, que lutam na clandestinidade. Sofia começa por ajudar estas pessoas e, depois, ela própria passa para a clandestinidade. É presa, em Luso. Passa quatro anos presa sem nunca lhe dizerem por qual razão. É torturada e nunca mais poderá ser mãe. Sai da prisão e apaixona-se pelo António, que também pensa como ela. Pouco tempo depois volta a ser presa, por mais nove anos.
Sofia faz anos a 1 de Maio, mas ela diz a todos que faz a 10 de Maio, porque não a deixam receber visitas no dia dos anos, por ser Dia do Trabalhador. Sofia soube da morte do pai pelo jornal e quando pediu para ir ao funeral da mãe disseram-lhe que não. Sai da prisão, casa-se com o António e foge para um país distante.
Volta e, eis senão quando, vem o 25 de Abril e todas as pessoas que pensam diferente podem livremente defender aquilo em que acreditam sem medo de perseguição. Sofia entusiasma-se, o tempo passa e aquilo em que acredita nunca será praticado e implementado. Acusam-na de defender coisas más, criticam-na severamente. Mas Sofia continua convicta do que defende. As experiências de outros países revelam o insucesso do que defende, mas Sofia permanece firme, porque a diferença é que desta vez não precisa de se esconder, nem é presa ou torturada por pensar diferente. Pensa por si, só pensa diferente, apenas isso.

Editorial do Jornal da Mealhada de 28 de Abril de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

[998.] Marti dies, Deolinda for ever





Boas noticias!
Os Deolinda lançaram ontem, 26 de Abril, o seu segundo CD: "Dois selos e um carimbo". O novo single chama-se «Um contra o outro», tem video no youtube e tudo.
Entretanto hoje, no site (cujo link está na imagem aqui ao lado), já foram colocados mais três temas. «A problemática colocação de um mastro» é um tema fantástico, com uma leitura politica imediata e arrojada! Isto é música de intervenção do melhor! Ainda lá não está a música nova que já tocaram na Mealhada no ano passado, e que fala do notário que se apaixona pelo escriturário...

Há temas de amor, temas de intervenção política, de humor. Permanecem as qualidades do "Canção ao Lado" e aprofundam-se outras. Actualidade politica está para brilhar!
Em 7 de Maio vão a Ilhavo... pode ser que alguém nos convide... se não a 21 de Maio no TAGV, em Coimbra...

Disfrutem...

domingo, 25 de abril de 2010

[995.] Solis dies, no dia em que uma Revolução não destruiu um país - III



Lisboa, 25 de Abril de 1974 - 18h 30m

[992.] "Quem hoje derrama o seu sangue junto comigo passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de hoje fará dele um nobre"

«This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne'er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remembered-
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne'er so vile,
This day shall gentle his condition;
And gentlemen in England now-a-bed
Shall think themselves accurs'd they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin's day.»

da peça 'Henrique V', de Shakespeare

[993.] Solis dies, no dia em que uma Revolução não destruiu um país - II



Lisboa, 25 de Abril de 1974 - 16h 30m

[993.] Solis dies, no dia em que uma Revolução não destruiu um país - I

Ontem, na reunião dos pioneiros (escuteiros com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos) do meu agrupamento, no prosseguimento do debate que começámos oito dias antes sobre o '25 de Abril de 1974', confirmei a ideia de que os jovens não conseguem perceber o que foi o 25 de Abril de 1974 - e falo só da gradação da importância da sequência dos acontecimentos históricos -, para além do folclore das canções de senha e contra-senha, não sabem mais nada. "Tocou uma canção, a tropa invadiu Lisboa e veio a Liberdade e a Democracia", assim se podia resumir a informação de que muitos deles dispunham.

Posso garantir que, até ao sábado passado, muitos dos jovens que connosco trabalham (todos eles com a educação básica aprovada, e alguns deles a poucos meses de entrar no ensino superior) não dispunham da informação de que os portugueses combatiam desde 1961 numa guerra nas colónias.

Não me interessa tecer considerações sobre os culpados ou discutir se os autores dos programas escolares portugueses - nomeadamente os de História - são reacionários ou envergonhados. Mas o que falo é do domínio dos factos.

Lisboa, 25 de Abril de 1974 - 14h 30m

Pessoalmente, considero que um dos aspectos mais importantes do rol de acontecimentos que constituiram o 25 de Abril foi a substituição do poder de forma inteligente e pacifica no respeito pela soberania da Nação - e nesse sentido pelos seus titulares. Neste dominio, pelos dados históricos de que dispomos, salientamos a integridade do capitão Salgueiro Maia, e o sentido de Estado do presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano.

Foi graças a estes dois homens que o 25 de Abril de 1974 ficou na história como a Revolução dos Cravos e não do sangue ou da carnificina.

O meu discurso até pode parecer reaccionário. Mas também já todos estamos fartos dos discursos revolucionários da treta que acabam por defender teses de um espirito anti-democrático profundo e intransigente (ouvi, hoje, um que me envergonhou, nas cerimónias na Câmara Municipal da Mealhada). "Das duas uma" ou se defende a Democracia e se aceita a decisão do Povo como soberana, aceitando que o Povo escolha mesmo aqueles que nós entendemos não conseguirem servir o país, ou não se defende a Democracia e se declara que os portugueses não estão preparados para votar, como defendiam os responsáveis políticos do Estado Novo. Ou estamos com a Democracia, com as suas vantagens e desvantagens, ou estamos do lado da Oligarquia.

Não é preciso mais um "25 de Abril de 1974", como também não é preciso mais um "25 de Novembro de 1975"! Precisamos de mais "25 de Abril de 1975" (Eleições para Assembleia Constituinte), precisamos de mais "27 de Junho de 1976" (primeiras eleições para a Presidência da República), precisamos de mais "12 de Dezembro de 1976" (primeiras eleições autárquicas), e precisamos de mais "25 de Abril de 1976" e de "5 de Outubro de 1980" (eleições legislativas). Disso é que precisamos!

sábado, 24 de abril de 2010

[991.] Saturni dies, no dia em que me declaro a Mortágua

As Viagens

Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele; ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares; dar a volta ao mundo e continuar; é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.

Branquinho da Fonseca

Um poema de um mortaguense, das Laceiras - na freguesia de Pala - na terra das quedas de água lá no alto, em dia de poesia por aqui. Um poema de certezas e de esperanças num dia em que, na pele, vivenciei a solidariedade, a maneira de ser tão especial e tão nobre dos mortaguenses.

Apesar de vermos todos os mesmos programas de televisão, de vivermos a poucos quilómetros de distância, a verdade é que para territórios diferentes há maneiras de ser e de estar diferentes também. As pessoas da Mealhada não são iguais às da Pampilhosa ou às do Luso. E as do Luso não são iguais às de Mortágua, etc, etc, etc.

E as pessoas de Mortágua são especiais. São afáveis, são simpáticas, são solidárias mesmo com quem - como eu - não é de lá. São pessoas capazes de ajudar, com humildade e espírito altruísta.

Gosto muito do meu concelho, gosto muito de Medelim e do concelho de Idanha-a-Nova. Mas tenho o concelho de Mortágua como uma terra de gente muito especial e fantástica.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

[990.] Veneris dies, em Dia de São Jorge

[989.] Hoje é Dia de São Jorge

Hoje é Dia de São Jorge

São Jorge é o santo padroeiro dos escuteiros de todo o mundo.

Venerado por católicos e anglicanos, São Jorge é o padroeiro da Inglaterra, da Geórgia, da Catalunha, da Lituânia, das cidades de Moscovo e do Rio de Janeiro. São Jorge é, também, o protetor de Portugal.
São Jorge é um dos primeiros mártires cristãos e no dia 23 de Abril recorda-se o seu martírio, diz a tradição que no ano de 303.
Apesar de sua história se basear em documentos lendários e apócrifos, a devoção a São Jorge espalhou-se por todo o mundo, muito graças ao protótipo de cavaleiro exemplar que encarna. A devoção a São Jorge pode ter também suas origens na mitologia nórdica, pela figura de Sigurd, o caçador de dragões.

(em construção)

[985.] Intendência, de acordo (ortográfico)


Porque hoje é um dia tão bom como outro qualquer...
Informamos que procuraremos, a partir de hoje, escrever segundo as regras do novo acordo ortográfico.
Vamos lá ver se nos entendemos...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

[988.] Sofia Ferreira, RIP


Com Sofia Ferreira, em 9 de Maio de 2009
"Amanhã" completarei o poste.

[987.] Hoje é Dia da Terra

Imagem da Google para assinalar o Dia da Terra
O Dia da Terra foi criado em 1970, pelo Senador norte-americano Gaylord Nelson, que convocou o primeiro protesto nacional contra a poluição, protesto esse coordenado a nível nacional por Denis Hayes. Esse dia conduziu à criação da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).
A partir de 1990, o dia 22 de Abril foi adoptado mundialmente como o Dia da Terra, dando um grande impulso aos esforços de reciclagem a nível mundial e ajudando a preparar o caminho para a
Cimeira do Rio (1992).
Actualmente, uma organização internacional, a
Rede Dia da Terra coordena eventos e actividades a nível mundial que celebram este dia.
Subtraído de AQUI

[986.] Iovis dies, no dia de anos de Lenin

Na Smolnii, 1957
Vladimir Aleksandrovich Servo (1910 - 1968)
Óleo sobre tela
Galleria de Tumensk
Em 22 de Abril de 1870 nasceu Vladimir Ilyitch Ulianov, mais tarde conhecido como Lenin. Foi o líder da Revolução Bolchevique que pôs fim à Monarquia Russa, em 1917. Foi o primeiro líder do Partido Comunista Russo e, mais tarde, em 1922, tornou-se primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União Soviética. Morreu em 1924.
Lenin foi um dos grandes pensadores políticos, reviu as teses marxistas e, com o apoio de outros pensadores como Trotsky, acabou por criar um rompimento que veio a chamar-se Leninismo. O Leninismo, ou o marxismo-leninismo é, ainda hoje, a corrente política adoptada pelo Partido Comunista Português.
Num texto publicado no jornal 'O Militante' - que pode ser lido na integra aqui -, em 1970 (no centenário do nascimento de Lenin) Alvaro Cunhal descrevia, assim, a influência do primeiro líder soviético.
«Ao genial teórico continuador de Marx e de Engels, ao criador do Partido proletário de novo tipo, ao dirigente da primeira revolução socialista vitoriosa, ao fundador do primeiro Estado de operários e camponeses, ao criador e guia da Internacional Comunista, nós, comunistas portugueses, devemos, como os comunistas e trabalhadores de todo o mundo, a determinante influência das suas ideias e actividade nos acontecimentos revolucionários capitais da nossa época. Devemos o exaltante exemplo e o profundo impacto na consciência dos trabalhadores portugueses da vitória de Outubro, das realizações da URSS dos êxitos do movimento operário internacional. Devemos ainda a Lénine a bússola segura para a orientação de toda a nossa actividade.»

quarta-feira, 21 de abril de 2010

[984.] Mercurii dies

A Justiça terá sido o nosso maior falhanço?
A propósito do 36.º aniversário da Revolução dos Cravos

“A Justiça foi, talvez, o maior falhanço deste país no pós 25 de Abril”. A frase é de Manuel Castelo-Branco, filho de Gaspar Castelo-Branco, antigo director-geral dos Serviços Prisionais portugueses, assassinado à porta de sua casa, em Lisboa, em 15 de Fevereiro de 1986, pelas Forças Populares 25 de Abril, também conhecidas como FP-25. A afirmação, vinda de uma vítima – para quem, normalmente, a melhor justiça seria a da Lei de Talião –, até poderá parecer exacerbada, mas serve para nos ajudar a fazer duas perguntas a nós próprios, enquanto comunidade: Será a nossa Justiça um falhanço democrático? Terá sido o nosso maior falhanço?
Hoje, em Portugal, o sistema judicial não dá garantias, nem ao cidadão nem à comunidade, de que é idóneo – no sentido de ser capaz – para resolver os problemas de um e de outra. E essa garantia é uma das primeiras funções que o Estado de Direito tem de afiançar. E que, actual e objectivamente, não assevera.

Seja pela falta de celeridade, seja pelo excesso de garantias, de formalismos e processualidades – e bem sabemos que a Democracia exige formalidade –, seja pela incapacidade, laxismo ou inaptidão de alguns profissionais do foro, a verdade é que a Justiça hoje, em Portugal, atrapalha muito mais do que resolve, torna-se demasiado condescendente e está excessivamente dependente do poder político. Para ilustrar o que afirmamos nem sequer precisaríamos de falar do caso das FP-25 – um escândalo –, nem dos casos Melância, ou Costa Freire e Zezé Beleza – para que não se pense que o problema é de agora. Também não cairíamos na redundância de falar do caso Casa Pia, das fugas de informação do Freeport, do Face Oculta, do Tagus Park, nem de qualquer outro mais ou menos mediático. Tomemos como exemplo ilustrativo o caso de uma acção declarativa ordinária, intentada no tribunal da Mealhada em 2006, que já teve sessão de julgamento há mais de doze meses, que já tem despacho do juiz sobre a matéria de facto considerada provada, e que aguarda “prolação de sentença final” há um ano. Trata-se de um caso em que se discute a validade de um contrato comercial e que há doze meses entope e entorpece a vida de duas empresas.
A ameaça de recorrer aos tribunais para resolver problemas de dívidas, por exemplo, já não é ameaça, é uma garantia, uma prorrogação. E, assim, as empresas não sobrevivem, a vida social entre as pessoas, nomeadamente as que precisam de estabelecer negócios jurídicos, está posta em causa. E logo a seguir, quando o Estado não é capaz de garantir o que são funções de soberania, é o próprio Estado de Direito que é posto em causa. E é próximo disso que estamos.
Mesmo o facto de o primeiro-ministro se ver envolvido em vários casos que, alegadamente, constituem a prática de ilícitos, e de o sistema judicial não garantir um esclarecimento cabal dos factos – ilibando-o ou não –, e em vez disso ainda intensificar a especulação, constitui uma prova de que o sistema faliu.
A justiça portuguesa é, de facto, um falhanço democrático.
Será, porventura, o maior falhanço. Economicamente já tivemos momentos bons e momentos maus. Em 36 anos de Democracia, Descolonizámos, Desenvolvemos e Democratizámos. Em poucos anos, Portugal conseguiu que mais de meio milhão de pessoas que habitavam as ex-colónias ultramarinas se integrassem na sociedade portuguesa sem problemas de maior. Este é um grande feito, e outros terá havido.
Trinta e seis anos de democracia integraram-nos na Europa – à conta de quem temos sobrevivido – e tornaram-nos uma Nação livre e aparentemente feliz. Não é Portugal que é um falhanço – não é isso que está em causa – mas a nossa Democracia está em perigo, e quando não se podem ter Revoluções – a que, conjunturalmente, não conseguiríamos resistir – fazem-se reformas. E a reforma da Justiça já vai atrasada, porque não são as férias dos juízes que estão a criar este problema, são 36 anos de facilitismos, de incompetência e laxismo, de direitos, liberdades e garantias dos prevaricadores que lesam cidadãos e empresas. A presunção de inocência e o direito de um arguido à defesa não se podem sobrepor ao direito de a comunidade reconhecer que viver honestamente compensa.

Editorial do Jornal da Mealhada de 21 de Abril de 2010