terça-feira, 13 de abril de 2010

[973.] Medelim, 13 de Abril de 1812

Os franceses saqueiam Medelim
Medelim é "a terra". Foi onde nasceu o meu pai, onde nasceram os meus avós, onde estão as raízes da minha família. O Canilho que uso, como meu sobrenome principal, é de Medelim. Passei, desde os três meses, longas temporadas em Medelim. Reza a lenda que lá terei sido concebido numa noite de Verão, no quarto da "antiga-Casa-da-Senhora-Josefa,-à-Rua-Direita, em-frente-à-casa-do-Domingos-Cartola".
Ainda hoje, para mim, Medelim é a Terra. Sinto-me lá bem e tenho o sentido de pertença. Uma das maiores alegrias que tive na minha vida escutista, por exemplo, foi ter conseguido realizar o sonho de ajudar a organizar uma grande actividade escutista - o Acampamento Nacional de 2007 - naquela região. Tendo sido o chefe da equipa pedagógica das actividades da III Secção, pude 'brincar', juntamente com mais 2100 jovens de todo o país, com a história de um local que aprendi a amar!
Mas deixemo-nos de lamúrias e passemos ao que HOJE interessa.
A verdade é que Medelim, sendo uma aldeia muito antiga - com vestigios pré-históricos e história na romanização e na ocupação arabe - não tem visiveis algumas das caracteristicas que se suporiam... Como uma muralha, um castelo ou uma torre, por exemplo. Não tem, mas já teve, e os motivos por que não tem poderão dever-se (assim o perspectiva João Caldeira) à degradação do tempo e, provavelmente, à consequência do saque dos franceses, em 13 de Abril de 1812, na sequência da 4.ª Invasão Francesa.
Durante o período conhecido como o das "Invasões Francesas", ou da Guerra Peninsular, que assinalamos o seu bicentenário, houve pelo menos quatro grandes investidas das tropas francesas. A primeira Invasão, intentada pelo General Junot, que chegou até Lisboa e até ao Porto, está cronologicamente determinada entre 19 de Novembro de 1807 (entrada por Segura, na Beira Baixa) e 15 de Setembro de 1808 (regresso de Junot a França). A segunda Invasão é comandada pelo General Soult que entra em Portugal, por Chaves, em 10 Março de 1809, e dura até Maio desse ano. A terceira Invasão é comandada pelo Genral Massena que entra pelo Nordeste de Portugal, em 24 de Julho de 1810. Conquista Almeida e segue até ao Bussaco onde trava a Batalha com o mesmo nome, em 27 de Setembro. Os franceses, mais debilitados, prosseguem até às Linhas de Torres, onde são derrotados em 14 de Outubro.
Há, ainda, uma quarta investida dos franceses em Portugal, que durou 20 dias - o general Marmont invade Portugal a 3 de Abril onde está até 24 de Abril.

Marechal Auguste de Marmont, 1.º Duque de Ragusa (1774 - 1852)


Foi exactamente nesta quarta invasão que Medelim acabou por sofrer as agruras da história e da violência dos Homens. Medelim e Pedrogão poderão ter sido mesmo as ultimas localidades portuguesas a serem saqueadas pelos gauleses na Invasão Francesa.
A este propósito, limito-me a publicar um texto de João Caldeira, investigador medelinense, com quem tive o prazer de trocar correspondência, que publica artigos de investigação no jornal Reconquista, de Castelo Branco, sob a epigrafe 'Crónicas de Medelim'.

As invasões francesas
Por João Caldeira
Publicado no jornal Reconquista de 11 de Setembro de 2008

Foram as Invasões Francesas com o poderio dos exércitos envolvidos que mudaram a face da Região, arrasando não só Castelo Branco, mas também Segura, Idanha, Penamacor, Monsanto, Penha Garcia , e Medelim. Foram as Invasões Francesas, em particular a pouco conhecida 4.ª Invasão, que se revelaram particularmente destrutivas para Medelim.
Da torre pouco resta, dos muros também. Os tempos que se seguiram foram de
reconstrução e reocupação. As Casas Senhoriais construídas pelas famílias mais
representativas da aldeia a partir do século XVIII situam-se exactamente para o
exterior da linha de muralha, tal como a tenho proposto, esta é uma situação que
reforça a teoria que proponho em relação aos limites da Fortaleza. A excepção é
a casa da Cultura que tendo sido construída por uma família que já estava na
região no século XV-XVI, já existia intra – muros.
A 1ª Invasão teve inicio a 19 de Novembro de 1807, comandada pelo General Andoche Junot, Governador de Paris e embaixador em Portugal até dois anos antes. A sua entrada deu-se pela Beira Baixa. Os invasores precedidos por uma Guarda avançada atravessaram a Ponte de Segura a 19 e 20 de Novembro, como os caminhos eram muito maus, uma força de 54.000 homens teve de se espalhar por uma frente bastante grande no seu trajecto para Castelo Branco, onde foram chegando a partir de dia 20 e durante um mês.
Foi a pouco conhecida 4.ª Invasão, que se revelou particularmente destrutiva para Medelim. A Cronologia da 4.ª Invasão é a seguinte: inicio a 3 de Abril de 1812. A 8 o Exército Francês estabelece-se em redor do Sabugal. Já 13 de Abril de 1812, Pedrogão e Medelim são saqueados. Numa Batalha a 14 de Abril (onde?), as Milícias Portuguesas são desbaratadas e a 24 o exército Francês de Marmont abandona Portugal, a invasão durou cerca de 20 dias.
1812 é o ano em que morrem dois dos meus antepassados em Medelim, Catarina Caldeira e o Reverendo Domingos Caldeira. É minha opinião que terá sido nesse ano de 1812 que a muralha defensiva de Medelim terá sido completamente destruída.
A cobiça ditava a atitude. Tudo o que podiam carregar era roubado, todos os que
tentavam impedir os saques eram mortos.
O que restou da muralha foi utilizado no esforço de reconstrução da aldeia.
Vamos ver o exemplo da Casa da Cultura de Medelim. A sua fachada construída com grandes blocos de granito permanece conservada. No entanto, o restante do edifício está construído com pedra miúda, tal como as habitações na restante aldeia, nitidamente este edifício foi reconstruído em alguma parte da sua existência. A sua construção original não seria semelhante à actual, quem o mandou construir e nele colocou o seu Brasão, teria meios para lhe conferir outro acabamento. Penso que este terá sido um dos edifícios que, tal como a restante aldeia, terá mudado bastante de aparência em relação ao que era antes das Invasões Francesas.
Foi nesses tempos de reconstrução que os Militares envolvidos na contenda e residentes em Medelim construíram as suas casas de família, para fora dos limites da antiga muralha, para o exterior onde existia terreno livre.
No período pós- guerra, as famílias com melhor condição económica tiveram uma palavra importante a dizer quando da alienação dos terrenos e propriedades sob jurisdição religiosa.
Através do seu arrendamento ou venda, terrenos e propriedades como as da
Misericórdia de Medelim serviram então para um reforço das fracas economias do
Estado.
Começou a tomar forma o Medelim tal como hoje o conhecemos. Tendo
descrito a evolução do aspecto de Medelim é altura de falar das pessoas que lá
foram vivendo.
Não que Medelim ainda esteja como ficou depois das Invasões
Francesas! Não, já não está. Mas esteve até há cerca de duas gerações. Somente
nos últimos 50 anos a aldeia mudou, e a história de Medelim nesses anos está
certamente presente na memória de muitos.


jocal@netcabo.pt

segunda-feira, 12 de abril de 2010

[969.] Luna dies, em Dia 'da Lua'

Às segundas-feiras, n'O fio dos Dias, é Luna Dies - Dia da Lua e dia de colocar uma fotografia especial. É assim porque na história do "dar nomes aos dias" a Lua é quem manda à segunda-feira. Se o primeiro dia da semana é do Sol, o segundo é da Lua. Em Inglês é Monday = Moon Day, por exemplo, como poderia citar o Lundi francês ou o Lunes espanhol.


Hoje, 12 de Abril, é segunda-feira. Mas é uma segunda-feira especial. E especialmente lunar...


Em 12 de Abril de 1961, o soviético Yuri Gagarine foi o primeiro cosmonauta, o primeiro homem a passar para além do céu, a ir ao Espaço. É por isso que hoje, na Rússia, é Dia do Cosmonauta e se assinala a "Yuri's night".
Yuri Gagarine (1934-1968) foi o primeiro homem a ver a Terra e são-lhe atribuídas as seguintes declarações: «A Terra é azul e olhei para todos os lados e não vi Deus!»

Foi na sequência desta conquista soviética que John F. Kennedy proferiu o célebre discurso na Universidade Rice e que é por muitos considerado como a intervenção que prova e faz de Kennedy um grande estadista. Em 1961, Kennedy declarava ao Mundo que antes do fim da década um americano pisaria a Lua e regressaria a casa são e salvo. «We choose to go to the moon. We choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard» (Pode ouvir-se AQUI)
E a verdade é que em 20 de Julho de 1969 a Apolo 11, com um escuteiro lá dentro - Neil Armstrong - pisava a superfície lunar, no 'Mar da Tranquilidade' e lá deixava uma placa onde se pode (?) ler: «Here Men From Planet Earth First Set Foot Upon The Moon. July 1969 A.D. We Came In Peace For All Mankind»


E tudo graças (também) ao Gagarine. O "pequeno passo para o homem" começou com ele!

domingo, 11 de abril de 2010

[970.] Solis dies com 'Easter Monday' de um português na Polónia - a quem mandamos abraço solidário de condolências

Easter Monday from Miguel Gaudencio on Vimeo.



Miguel Gaudêncio filmou, em Szczcin, na católica Polónia, esta curta metragem, no Domingo de Páscoa de 2010 (4 de Abril). Uma filmagem interessante, sem ser aborrecida, apesar de a banda-sonora ser 'ultra-batida'e já entediante.
Fica a lembrança - com um artigo nacional português, bonito e simples - ao povo polaco, no momento em que chora a morte brutal e surpreendente do seu Chefe do Estado, o presidente da República Lech Kaczynski. Não nutríamos qualquer simpatia pela personalidade, mas não podemos deixar de nos solidarizar com um povo amigo e irmão, no momento duro da orfandade.

sábado, 10 de abril de 2010

[968.] Saturni dies

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Camões

quinta-feira, 8 de abril de 2010

[967.] Iovis dies, no Dia Internacional do Cigano

A Vida entre os Ciganos
Pintura de John Philips (1817 - 1867)
Óleo sobre tela
Sevilha, 1853

quarta-feira, 7 de abril de 2010

[966.] Mercurii dies

A existência de pedofilia na Igreja Católica é um problema sério que merece a censura pública de todas as pessoas que subscrevem os valores ocidentais - quase todos acentes numa moral milenar judaico-cristã.

A entrevista do Bispo das Forças Armadas, Dom Januário Torgal Ferreira ao programa Discurso Directo, do Diário de Noticias e da TSF - visivel AQUI - parece-me representar a atitude sensata a assumir pelos católicos neste momento.

Tal como o prelado português, eu não acredito na teoria de que a divulgação pública dos casos de pedofilia é a face visivel de uma campanha contra o Papa.

Agora, também me custa aceitar que o Papa seja, ao mesmo tempo, acusado de encobrir e de divulgar, reconhecendo, todos estes casos de pedofilia. Ou acusamos o homem de uma coisa, ou de outra, das duas não dá.

Quanto mais depressa se souber dos problema, se afastem os prevaricadores e se castiguem os cumplices (e falo naturalmente de toda a hierarquia), mais cedo se podem tomar medidas para resolver o problema, fazer a catarse e dar garantias aos fieis de que a Igreja se preparou para que isto não volte a acontecer.

terça-feira, 6 de abril de 2010

[964.] Marti dies



BRIDGE OVER TROUBLED WATER

When you're weary
Feeling small
When tears are in your eyes
I will dry them all

I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you

I'll take your part
When darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

Sail on Silver Girl,
Sail on by
Your time has come to shine
All your dreams are on their way

See how they shine
If you need a friend
I'm sailing right behind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind

quarta-feira, 31 de março de 2010

[965.] Mercurii dies, na Quarta-feira Santa

Via pantanosa não pode obscurecer

O tempo que se aproxima é de um forte pendor religioso. O facto de sermos um país maioritariamente católico terá levado a que tão importante quanto a festa litúrgica da Páscoa – e são tantos os que nela se envolvem de corpo e alma, vigorosamente – seja a festa comunitária que se vive nesta altura. A Páscoa tem no seu âmago a ideia de libertação (na tradição judaica da libertação do Egipto, pela vara de Moisés, e na tradição cristã da libertação da morte, pela Ressureição de Cristo), tem, também, a ideia de salvação e de alegria pela esperança. São tudo argumentos festivos que nos devem aproximar das pessoas de quem mais gostamos, de as visitar e de lhes mostrarmos o nosso afecto, e, porque não, brindar a isso mesmo, ao sabor de umas amêndoas.
Para os crentes, o caminho até à Páscoa não é feito sem dor. O sacrifício torna, na concepção dogmática desta celebração, a alegria final mais sentida e significante. E a Igreja Católica, enquanto instituição, está a viver estes tempos de Quaresma, numa perfeita via dolorosa. A informação do número de crimes de pedofilia que terão sido perpetrados por pessoas consagradas contra crianças, muitas delas à guarda da Igreja, é abjecta e é revoltante para qualquer ser humano. A notícia deste grande conjunto de casos chega às pessoas nas vésperas da festa da Páscoa, o ponto mais alto da vivência cristã, e precisamente no Ano Sacerdotal (que Bento XVI proclamou para ser assinalado entre Junho de 2009 e Junho de 2010 para “contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo”). Ironias? Ou a longa manus do destino?
Qualquer espécie de justificação para estes comportamentos odiosos deve ser escusado, porque não há nada que o justifique. “Temos que dar a mão à palmatória. A Igreja também é feita de pecadores”, afirmou Dom Albino Cleto, Bispo de Coimbra, recentemente e a este propósito. Na mensagem do Papa para a Quaresma 2010, o Sumo Pontífice aborda a questão da Justiça e, num texto bastante interessante, analisa o que entende ser a diferença entre a Justiça de Deus e a Justiça dos homens. Das suas palavras não se depreende que os homens de Deus que cometem crimes estejam isentos da Justiça humana e terrena. E esse talvez tenha sido o erro que mais choca neste domínio e que não pode repetir-se: A Igreja não deve impedir que os alegados pedófilos no seu seio não sejam submetidos à justiça dos seus países.
As dificuldades e os efeitos do escândalo que os prevaricadores infligiram às crianças estão a revelar-se na própria Igreja, como se fosse uma retribuição, e até nos poderia parecer justa se toda a acção da Igreja se resumisse a estes acontecimentos. Mas não resume e é essa a ideia que não podemos deixar esquecer no domínio desta discussão e desta incriminação colectiva.
Não há registos de casos de pedofilia entre padres portugueses – o que não quer dizer que não existam –, o que nos faz garantir que não podemos tomar a árvore pela floresta (e até por isso não devem ficar incólumes os prevaricadores). A acção da Igreja no domínio da protecção social e à protecção da criança é muito grande, muito importante e não pode ser manchada por esta suspeição que se abateu sobre a instituição.
Em tempo de via-sacra, não podemos deixar que um percurso aparentemente pantanoso, como o que atravessa a Igreja Católica nestes dias, obscureça o caminho e a obra social que, em Portugal e em todo o Mundo, presta às crianças e, por elas, à humanidade.

sábado, 27 de março de 2010

[963.] Saturni dies, no Dia Internacional do Teatro

Hoje, 27 de Março, é Dia Internacional do Teatro.
Fica um poema de Bertold Brecht (1898-1956), uma grande figura do teatro ocidental.

"Aos pósteros"

I
Realmente vivo em tempos sombrios.
A palavra ingénua é tola. Uma fronte lisa
Indica insensibilidade. Aquele que ri

Ainda não recebeu

A terrível notícia.

Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Por que inclui um silêncio sobre tantos delitos?
Aquele que vai pela rua tranquilo
Não é mais acessível aos amigos
Que estão em necessidade?

É verdade: ainda ganho o meu sustento
Mas acreditem: é por acaso. Nada
do que faço autoriza que eu me sacie.
Casualmente fui poupado.
(Quando minha sorte acabar
Estou perdido.)
Dizem-me coma! beba! fique feliz por ter o quê!

Mas como posso comer e beber se
Tiro ao faminto o que comer e
Meu copo d'água falta a quem tem sede?
No entanto, como e bebo.

Gostaria também de ser sábio.
O que é sábio está nos velhos livros:
Afastar-me da briga do mundo e passar
Sem medo a curta temporada
Sobreviver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los
É tido por sábio.
Nada disso eu posso:Realmente, vivo em tempos sombrios!

II

Cheguei às cidades no tempo da desordem
Quando aí reinava a fome
Cheguei-me aos homens no tempo do tumulto
E indignei-me com eles.

Assim passou o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

Comi minha comida entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Tratei do amor sem atenção
E vi a natureza sem paciência.

Assim passou o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

No meu tempo os caminhos levavam ao pântano.
Minha linguagem denunciava-me ao carrasco.
Só pude pouca coisa. Mas esperava que sem mim
Os dominadores se sentassem mais seguros.

Assim passou o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

As forças eram escassas. O alvo
Ficava a grande distância.Era bem visível, embora
Eu mal pudesse alcança-lo.

Assim passou o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

III

Vocês, que emergirão da maré
Onde nós soçobramos
Pensem
Ao falarem das nossas fraquezas
Nos tempos sombrios
De que escaparam.
Pois nós, desesperados, trocando mais de países
Que de sapatos, atravessamos as guerras de classes quando
Só havia injustiça e nenhuma revolta.
No entanto sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Contorce os traços.
Também a cólera contra a injustiça
Deixa a voz rouca. Ah, nós
Que quisemos preparar o chão para a amabilidade
Nós próprios não pudemos ser amáveis
mas vocês, quando tiver chegado a hora
Do homem ajudar o homem
Pensem em nós
Com indulgência.

sexta-feira, 26 de março de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

[961.] Dia Nacional da Grécia em 'Iovis dies'


A entrada do Rei Otto da Grécia em Atenas e a sua recepção em frente ao tempo de Teseu, em 1833
Óleo sobre tela (250 x 415 cm)
Peter von Hess, em 1839
da Pinacoteca nacional em Munique
Hoje é o Dia Nacional da Grécia. É, também, o dia em que os parceiros europeus discutem em Bruxelas, a 27, o que é que se há-de fazer à Grécia. Barroso já afirmou que tirar o país da zona euro não é solução... Ou seja, os parceiros vão ter de continuar a financiar a salvação da Grécia.
A Grécia é o berço da civilização ocidental. Não tem muita tradição como país, mas todos temos um carinho especial por ele (tirando quando nos rouba os campeonatos Europeus de futebol)... A Grécia está para a Europa como a Académica de Coimbra e o Belenenses estão para os portugueses... toda a gente gosta deles.
E a mim, que conheço a Grécia (Interrail em 1997), é-me uma terra particularmente querida. É um disparate dizer que somos como os gregos. Não é verdade. Eles ainda têm muitos resquicios dos turcos (otomanos) e não há semelhanças relevantes entre eles e os latinos (apesar de haver quem queria fazer a anlogia).
Chateia-me que a Grécia seja, hoje, adjectivo, ou metáfora para ilustrar um país que não resultou como nação e que está à beira da banca-rota. A Grécia é, apesar de tudo uma grande nação, que não merece ser amesquinhada.
Em Iovis dies (dia de Júpiter) aqui se colocam pinturas. A de hoje é uma homenagem à Grécia. Em 25 de Março de 1821, os gregos começaram a sua Guerra da Independência relativamente ao Impréio Otomano. Essa guerra acabou, de facto, em 1832, com o reconhecimento da Grécia como país independente e com a coroação de Otto, como primeiro Rei da Grécia - apesar de ele ser Principe da Bavária, o segundo filho do rei desse reino, e ter recebido o trono da Grécia por convenção das potências da época.
O quadro que se apresenta só pretende ilustrar a leitura nacionalista e politica que a pintura - como as nossas metáforas actuais sobre a Grécia - pode promover. Há imensos quadros de muitos filelenistas, como Delacroix, por exemplo. Deste autor, há obras - como o 'Massacre de Chios', ou 'O combate de Giaour e Pasha' que ilustram aspectos históricos desta Guerra da Independência grega.
Ζήτω το ελληνικό έθνος
Viva a Nação Grega!

quarta-feira, 24 de março de 2010

[960.] Mercurii dies... no Dia do Estudante

A escola livre ou
a ilha de ‘O Deus das Moscas’?

O problema das sociedades mediatizadas, como a nossa, é o de que nunca levamos os problemas suficientemente a sério e as soluções nunca são maturadas, avaliadas e corrigidas. Tomamos medidas à medida do que os media nos vão fazendo sentir as dores. As soluções para os problemas sérios do país estarão, sempre, naturalmente, a montante de tomadas de posição preventivas ou estritamente imediatistas. A questão da violência no interior das escolas, por exemplo, da parte de alunos contra alunos e professores, não será nova, mas atingiu uma expressão impossível de ignorar.
A situação não é completamente nova, é certo, e nem por isso é surpreendente. Se não vejamos: passámos a última década a retirar a autoridade do professor na sala de aula, a dar ao aluno um estatuto de facilitismo e cedências constantes mascaradas com a criação de exames para garantir exigência, a enjaular os alunos em salas durante o dia inteiro. Ao mesmo tempo, em casa, as crianças perderam convivência com os pais e com os avós, perdem referências, são subtraídas a redes de civilização, desconhecem regras sociais de sã convivência.
Pedindo desculpa pelo exagero, parece-nos que nos aproximamos, na escola e no dia-a-dia das crianças, do que William Golding, em 1954, narrou no seu distópico e pessimista romance ‘O Deus das Moscas’ – cuja leitura aconselhávamos a todos os educadores.


Serve a escola para educar as crianças, os adolescentes e os jovens? Ou serve, principalmente, para empregar professores? Da resposta a estas perguntas se depreenderá que se o objectivo fosse centrar a escola no aluno, seria mais fácil financiar o aluno – que poderia escolher livremente a sua escola, pública ou privada – do que financiar o edifício burocrático que é hoje a escola pública portuguesa. Não deixa de ser curioso que a maior parte dos políticos portugueses – nas cúpulas do Estado mas também ao nível das autarquias locais –, mesmo os que têm responsabilidades na educação, prefiram colocar os seus filhos a estudar em colégios privados do que na escola pública que tantas vezes tutelam.
David Cameron é o líder do Partido Conservador britânico. Em Maio poderá vir a ser primeiro-ministro. No Outono passado, não teve nenhum pudor em afirmar que tinha uma equipa a estudar o modelo sueco de gestão escolar, conhecido como ‘da liberdade de escolha da escola’. A Suécia é, talvez, o mais social-democrata – o que no panorama português equivale ao socialismo democrático maioritariamente representado pelo PS – dos países europeus. Este modelo nasce com um governo liberal-conservador, é certo, e é mantido e melhorado nos governos social-democratas seguintes – seria impensável em Portugal?
O elemento fundamental do modelo sueco, criado em 1992, passa pelo financiamento dos alunos, através de um ‘voucher’ e, consequentemente pela introdução da possibilidade de escolha da escola e da posterior concorrência entre escolas. A criança tem direito à Educação gratuita. Tem a criança sueca, como tem a criança portuguesa. A diferença é que o Estado entrega a sua comparticipação através de um voucher, uma espécie de cheque que a família recebe como contrapartida da condição de cidadão do estudante com direito a uma educação gratuita. “Quando os vouchers foram lançados, em 1992, já existiam algumas escolas privadas, em regra muitíssimo boas e muito procuradas pelas famílias. Mas eram todas pertencentes a instituições sem fins lucrativos, o que era imposto por lei. A consequência desta restrição era muito curiosa. As poucas e excelentes escolas privadas não tinham incentivos nem meios para se expandirem. Criavam então enormíssimas listas de espera em que os pais inscreviam os filhos à nascença. Esse era o seu distintivo de qualidade. Mas só um número muito limitado de crianças tinha realmente acesso à escola de qualidade”, narra João Carlos Espada, politólogo da Universidade Católica, num ensaio publicado no jornal i, em 24 de Outubro de 2009. “A partir de 1992, duas coisas aconteceram. Todas as escolas, estatais ou privadas, passaram a receber por aluno o mesmo montante pago pelo Estado. Em segundo lugar, a criação de novas escolas foi tremendamente facilitada, requerendo apenas garantias de qualidade. As instituições com fins lucrativos foram autorizadas a entrar no novo mercado de educação”, descreve, ainda, João Carlos Espada. Hoje a escola sueca é um modelo de qualidade, melhorou a educação dos alunos, mas também melhorou a escola pública.“Talvez a liberdade de escolha da escola seja a solução para a quadratura do círculo. Pelo menos funcionou na Suécia, o mais social-democrata país europeu. E é bem possível que venha a dominar o futuro próximo do debate político europeu”, assevera João Carlos Espada. Porque não?

Editorial do Jornal da Mealhada de 24 de Março de 2010, Dia do Estudante

terça-feira, 23 de março de 2010

[959.] Marti dies... e a cantiga é uma arma



Jorge Palma
«A Gente Vai Continuar»

Esta música, para mim, é quase um hino. Um hino de esperança na resistência. Uma esperança à beira da loucura, do precipicio.
Muitas vezes, a vantagem de quem acredita é que se sente testado, posto à prova e isso sabe sempre a temporário... impele-nos sempre a acreditar que a coisa vai mudar, vai melhorar depois do teste. E até pode haver recompensa. Mesmo que saibamos que não, que vamos transportar a nossa cruz para sempre, passa-nos pela cabeça que no fim da estrada há algo diferente, algo melhor e por isso, só por isso, vale a pena continuar.
Se não tivesse os amigos que tenho - e tenho muito poucos - eu já tinha desistido. E como sou crente, acredito que neles reside a missão de me ajudarem a superar as adversidades. E acredito, também, que a minha missão, a missão que me é destinada, é ajudá-los a eles. Como se tivesse nascido para isso.
Nesta teia de crenças, facilmente se chega à conclusão que enquanto houver estrada para andar eu tenho de continuar, com o meu fardo sempre, mas ao lado deles. Hoje ajudam-me eles, amanhã ajudo-os eu. É o meu fado, que não renego.

Nunca gostei do Jorge Palma - radicalismos de quem é parvo. Lembro-me da Alina ter facilidades nos bilhetes para irmos todos ao TAGV e de eu ter ficado em casa, de, depois disso, ter ouvido o 'Estrela do Mar' na Queima de um ano qualquer e de ter dito uns disparates qualqueres...

Só depois de ter estado à rasca da esperança é que esta musica me apareceu... se revelou! Hoje é o toque do meu telemóvel e um modo de encarar a vida.

A um grande amigo, um urso Nobre e Justo, fica a lembrança: A minha missão é levar esta merda até ao fim, até ao martirio, até deixar de haver estrada para andar. Comeram-me a carne. hão-de me comer os ossos! Eu não desisto! Enquanto caminhares a meu lado!

segunda-feira, 22 de março de 2010

[958.] Lunae dies

Campanha Limpar Portugal
Grupo da Freguesia da Mealhada
20 de Março de 2010
Parte do grupo, no almoço oferecido pela Câmara Municipal da Mealhada aos voluntários.

Grupo da Freguesia da Mealhada
Escuteiros da Mealhada, Junta de Freguesia, Professor Pedro Semedo, Pedro Costa, Inês, 'Ticha Fernandes, Babá e Voluntários do Barclays Bank da Mealhada (Bebé, Luis Pires, Mafalda, entre outros)

domingo, 21 de março de 2010

[957.] Intendência


Andando a organizar aqui os posts, percebi que há aqui uma discrepância na numeração... Iamos no post [936.] mas a verdade é que estão 956 posts publicados. Alguma repetição, alguma falha na contagem inicial poderá ter provocado isto.
Há cinco posts que foram retirados do blogue por força de várias circunstâncias que, apesar de não se verem, foram, também, contabilizados e numerados.

[936.] Esto solo lo arreglamos entre todos, en Solis dies



Solis dies é dia de filme...

Hoje um filme inspirador de um movimento inspirador. Em Espanha, foi criada uma campanha que visa restaurar a confiança e dar esperança às pessoas, exaltando as histórias de sucesso, dadndo testemunho do número (grande e significativo) de pessoas que não baixou os braços, nem desanimou apesar de todas as adversidades.

O movimento chama-se "Esto solo lo arreglamos entre todos" - Só todos conseguimos corrigir isto!

É um movimento muito inspirador que eu gostava muito de ver implementado aqui em Portugal. Porque eu não tenho duvidas nenhumas, como alías já escrevi, que o sentimento da crise é mais poderoso e contagiante que a própria crise. Precisamos de luzes, de archotes de esperança a arder na noite escura!

www.estosoloarreglamosentretodos.org

sábado, 20 de março de 2010

[934.] É HOJE!


[934.] Hoje, 20 de Março, Saturni dies

Santuário da Pedra da Cabeleira - Aldeia das Chãs - VN de Foz Côa


Hoje, 20 de Março, precisamente às 17h 32m, o Sol cruzará o Equador Celeste, no fenómeno astronómico a que se dá o nome de EQUINÓCIO. Nesse momento dá-se o climax da grande batalha da escuridão e da luz começada no Solsticio de Inverno. Nesta noite Noite e Dia serão exactamente iguais: aequus (igual) - nox (noite).
Mas ainda há muito a percorrer até à vitória da Luz... muito mesmo...
A Primavera chegou! "Chega-se a este ponto em que se fica à espera!", como diria Mourão-Ferreira

Equinócio

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato


Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena


Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo


Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

David Mourão-Ferreira
do tempo ao coração
guimarães editores
1966

sexta-feira, 19 de março de 2010

[931.] Passos Coelho conta comigo!

Fui contactado em Abril/Maio de 2008, por Miguel Relvas, para ser o mandatário no concelho da Mealhada da candidatura de Pedro Passos Coelho. Disse-lhe que aceitava o honroso convite, como tinha dito a quem primeiro me sondara para saber da minha sensibilidade.


Na eleição de 31 de Maio de 2008, a votação em Pedro Passos Coelho no concelho da Mealhada ficou muito aquém do que eu esperaria, no que se constituiu como um resultado humilhante para a candidatura. A este propósito escrevi o post [541.].


Há cerca de um mês, recebi um telefonema para, mais uma vez, saber da minha disponibilidade para apoiar a candidatura. Mostrei toda a minha disponibilidade, como já havia mostrado em mail que enviei a Álvaro Santos, mandatário distrital em 2008, mas fiz saber que não estava disponível para ser mandatario concelhio, por entender não estar à altura do que seria de esperar.

Fiz, no entanto, uma sugestão. Tendo a comissão politica concelhia da Mealhada sido a primeira do distrito a apoiar Pedro Passos Coelho, tendo Passos Coelho participado na campanha para as autárquicas 2009, na Mealhada, e por ser um militante ilustre, sugeri que o melhor mandatário possivel seria o presidente da concelhia, César Carvalheira.


Na passada segunda-feira, 15 de Março, soube que a candidatura de Pedro Passos Coelho havia convidado César Borges Carvalheira para mandatário no concelho da Mealhada. De imediato, apresentei a minha disponibilidade ao mandatário concelhio e ao coordenador da campanha no concelho, António Miguel Ferreira, como já havia apresentado a Bruno Coimbra, mandatário distrital para a Juventude, com quem já trabalhei nesse sentido.


Sou apoiante de Pedro Passos Coelho com toda a dedicação, empenho e energia! E não é de agora! Passos Coelho Conta Comigo!

[933.] Hoje, 19 de Março...

...faz 380 anos que foi dado inicio à vida regular no Convento de Santa Cruz do Bussaco.


As infra-estruturas (cerca e convento) do deserto do Bussaco começaram a ser construídas no Verão de 1628.

Concluídas as obras principais, foi no dia de São José do ano de 1630 que os carmelitas descalços começaram a habitar o deserto do Bussaco e o Convento de Santa Cruz de forma regular. A igreja, por exemplo, não estaria concluída e as missas eram celebradas na sala da livraria.

O primeiro dia de um periodo de 206 anos em que os carmelitas ali viveram. O último carmelita abandonar o convento fê-lo em 1836, dois anos depois da lei da extinção das ordens religiosas masculinas.

[932.] Veneris dies

Ontem, na Mongólia, foi Dia do Homem!
Aqui fica, em homenagem a Veneris dies, as sextas-feiras das mulheres,
imagens da mulher mongol,
em pintura sobre seda, técnica ancestral usada pelos artistas do Rajastão.

[930.] Dia vencido

Ainda sobre a Lei da Rolha...
(Respigados do que já foi dito no Facebook)

Eu não discordo da normatização da obrigação de lealdade e solidariedade dos militantes face às cupulas partidárias em período eleitoral.

1. Alguém que voluntariamente se filia num partido politico vincula-se a uma obrigação de solidariedade pelas decisões que a organização (e a cupula) legitimamente toma.

2. Esta obrigação não viola o principio da Liberdade de Expressão, ou do Direito à Opinião ou ao Livre Pensamento. Toda a gente pode apresentar reservas, discordâncias relativamente às opções tomadas, nos órgãos próprios, mas tem uma obrigação de solidariedade, de não-agressão em momentos sensíveis como são os eleitorais.

3. Todos os partidos e todas as associações de direito privado têm essa permissa nas obrigações dos associados.

4. Só é militante quem quer!

5. Não me parece legitima a desculpa de que os militantes do PSD, em Mafra, não sabiam o que estavam a votar e/ou estavam com pressa para voltar para casa!

quinta-feira, 18 de março de 2010

[928.] Iovis dies

Amor vitorioso
Caravagio
1602-1603

Para assinalar um aniversário especial.
Parabéns P.

quarta-feira, 17 de março de 2010

[927.] Mercurii dies

Bussaco, Maravilha ou Oportunidade?

A Mata Nacional do Bussaco está no lote das 21 Maravilhas Naturais de Portugal que está, desde 7 de Março, em votação para escolha dos portugueses para eleição do conjunto formal das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. A votação decorrerá até 7 de Setembro de 2010. Esta escolha e inclusão no lote das 21 Maravilhas Naturais constitui, por si só e desde já, uma grande oportunidade para a promoção do turismo na região, para a preservação do património arbóreo e construído, para a valorização cientifica e histórica da Mata Nacional do Buçaco.
Nos próximos seis meses deveremos – colectivamente – contribuir para que não seja desperdiçada esta oportunidade e proceder, com os meios ao alcance de cada um, para que em termos turísticos, empresariais e, naturalmente, económicos, tiremos desta iniciativa o máximo proveito.
Por outro lado, fará sentido, colectivamente, também, pensarmos de que forma poderemos contribuir para incentivar os portugueses a votar no Bussaco e assim, a 7 de Setembro, vermos a nossa mata como uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Acreditamos que a criatividade pode ser uma boa ajuda e que a Fundação Mata do Bussaco não deixará de apoiar todas as boas ideias que cheguem até ela.


A empresa JM – Jornal da Mealhada, Lda, à sua escala e na sua área de influência, através do Jornal da Mealhada e do jornal FRONTAL, especialmente, não deixará de se associar ao que entende ser, mais uma oportunidade de vivência, de fortalecimento da identidade e valorização da comunidade dos residentes nos concelhos limítrofes do Bussaco, ou que dele são naturais. Assim, passaremos a publicitar, periodicamente, os meios através dos quais as pessoas poderão votar, e estamos disponíveis para acolher sugestões – dos nossos colaboradores, leitores e amigos – sobre outras formas que poderão, eventualmente, ajudar a divulgar o Bussaco e a sua candidatura. Contamos com a criatividade de todos.

Editorial do Jornal da Mealhada de 17 de Março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Mudança é algo a que nos predispomos ou é algo que opera em nós?

quarta-feira, 10 de março de 2010

[926.] Mercurii dies

Limpar Portugal!

Resultava da discussão de há poucos dias, na tomada de posse de André Vaz como coordenador da concelhia da Mealhada da Juventude Socialista da Mealhada, a ideia de que a intervenção política dos jovens se deixou de fazer através do exercício de uma actividade politica partidária, para passar a exercer-se no campo das causas e da militância pela defesa e promoção de acções concretas, palpáveis, e de efeitos a médio ou curto-prazo. Consideramos que é, de facto, assim. Se é certo que não há – ainda – sistema constitucional democrático sem partidos, a verdade é que a militância por causas é nobre e não deve ser desvalorizada por uma visão pessimista ou conservadora da juventude portuguesa.
Um dos exemplos ricos e interessantes desta nova forma de fazer Politica – no sentido clássico de contribuir de forma positiva para a gestão da cidade, da res pública – é o projecto Limpar Portugal. Trata-se da ideia de juntar um grande número de voluntários – mobilizados por novos canais de informação, como a internet e a televisão – para, num determinado dia, a 20 de Março, todos procederem à limpeza das lixeiras que poluem as matas e espaços verdes de Portugal. A iniciativa tem já o Alto Patrocínio da Presidência da República.
A ideia surgiu na Estónia – um país que no início deste século tinha destroços industriais por todo o lado – e galvanizou muitos povos da Europa, nomeadamente o português.
Será fácil compreender que o sucesso da organização de uma iniciativa que tem o seu apogeu, o seu clímax num único dia, a 20 de Março, não se compadece com uma preparação simples. O trabalho feito pelos voluntários já começou há muito tempo e terá de continuar depois do dia da limpeza nacional. As tarefas começaram pela organização dos grupos por concelho e, depois, no caso concreto do concelho da Mealhada, por freguesia e pela nomeação de coordenadores para cada uma delas. O primeiro trabalho dos coordenadores e dos voluntários – para além da aproximação aos parceiros institucionais e sua sensibilização para a campanha – foi o levantamento, no terreno, dos locais onde está depositado o lixo. Esse levantamento foi editado e publicado numa base de dados nacional da campanha.
Nalgumas freguesias do concelho da Mealhada o número de lixeiras era tão grande que os voluntários sentiram necessidade de começar imediatamente a tarefa de limpeza e remoção do lixo. Assim aconteceu especialmente no Luso e na Antes, mas, também, em Barcouço e na Vacariça. O trabalho de limpeza na freguesia do Luso, por exemplo, começou em Janeiro e prossegue.
O grupo de voluntários do concelho da Mealhada do Limpar Portugal tem sido muito elogiado pelos coordenadores nacionais da campanha pela capacidade de mobilização alcançada. E isso deve constituir motivo de orgulho e vontade em apoiar. No dia 20 de Março qualquer pessoa pode pôr mãos à obra e fazer a sua parte nesta missão – patriótica? – de limpar os espaços verdes de Portugal. Serão divulgados, em breve, mais dados sobre a acção do dia 20 de Março.
A tarefa da limpeza é quase tão importante como a de sensibilizar as populações para o problema da poluição desta natureza. Que necessidade tem alguém de se deslocar vários quilómetros para depositar, numa mata, colchões, electrodomésticos e outros lixos que podem ser depositados no estaleiro da Câmara, que até tem um serviço de remoção destes lixos ao domicilio? O grupo de voluntários do Luso encontrou na zona de Barrô várias arcas frigoríficas. Não era uma, nem duas, eram muitas. No limite da sua freguesia com o Pego, encontraram, ainda, lixos – nomeadamente correspondência – de pessoas residentes no concelho de Anadia.
A sensibilização passa, ainda, pela consciencialização de que os poluidores têm de ser denunciados de modo a que lhes sejam aplicadas as coimas que a lei prevê.
Os interessados poderão acompanhar a actividade e aderir ao grupo do concelho da Mealhada em www.limparportugal.ning.com e procurar o grupo ‘MLD – Mealhada’.
Lembramos Edmund Burke para apelar à participação de todos nesta campanha, e assim, contribuir para o nosso bem-estar colectivo: “Ninguém cometeu maior erro do que aquele que nada fez só porque o que podia fazer era pouco!”.

Editorial do Jornal da Mealhada de 10 de Março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

BUÇACO
NA GRANDE FINAL DAS
7 MARAVILHAS NATURAIS DE PORTUGAL


A Mata Nacional do Buçaco está no lote das 21 maravilhas naturais de Portugal apresentadas hoje, 7 de Março.
A lista das 21 Maravilhas Naturais de Portugal está, agora, em votação para escolha dos portugueses, até 7 de Setembro de 2010.
Nessa altura as vencedoras constituirão o lote das 7 Maravilhas Naturais de Portugal.Na categoria de Florestas e Matas, para além da Mata Nacional do Buçaco, disputam o lugar a Paisagem Natural de Sintra (que já é património da Humanidade) e a Floresta de Laurissilva da Madeira. A escolha está, agora, na mão (e nos telefonemas) dos portugueses!
PARA VOTAR
até 7 de Setembro!
Por Telefone: 760302 702 (custo: € 0,60+IVA)
Por SMS: Destinatário - 68933 Mensagem: 702 (Custo: € 0,50 IVA incluido)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

António Machado

quarta-feira, 3 de março de 2010

[922.] Se eu mandasse?

Excerto do:

ENSAIO

Palestra anual Winston Churchill: Tentar conhecer o próximo primeiro-ministro britânico [David Cameron, do Partido Conservador].

por João Carlos Espada, Publicado no Jornal i, em 24 de Outubro de 2009,

sendo certo que o que me interessa sublinhar é o modelo sueco de gestão escolar, apresentado como um caso interessante por David Cameron, já anunciado nos programas eleitorais do PSD (principalmente em Marcelo Revelo de Sousa), mas nunca aplicado em Portugal! Infelizmente!


«EDUCAÇÃO O ponto mais claro da intervenção de Cameron - e aquele que motivou a única interrupção com aplausos - terá sido a referência à educação. Depois de condenar o declínio dos padrões educativos e a ditadura de teorias politicamente correctas nas escolas, Cameron indignou-se com a quase ausência de referências a Winston Churchill nos novos programas escolares. "O próximo governo conservador trará Churchill e o estudo da história de volta aos programas das escolas" - aqui houve uma chuva de aplausos. E David Cameron aproveitou para reiterar a sua intenção de introduzir mais escolha das escolas pelas famílias, seguindo aliás a experiência da Suécia, que, garantiu, a sua equipa estava a estudar com grande interesse.Esta pode acabar por ser a primeira grande inovação do programa de David Cameron e do seu ministro sombra para a Educação, Michael Gove: introduzir mais escolha e concorrência nas escolas inglesas, à semelhança do que foi feito na Suécia a partir de 1992. Trata-se de uma história de sucesso incontornável. Em 17 anos, as escolas independentes na Suécia passaram de 80 para 1100 - educando 10% do total de alunos do ensino obrigatório e 20% do ensino secundário não obrigatório. A reforma, iniciada por um governo liberal--conservador em 1992, não foi anulada pelos social-democratas quando voltaram ao poder. E, há menos de um mês, os social--democratas anunciaram que tinham abandonado a sua última reserva contra a escolha das escola: passaram também a aceitar as escolas privadas com fins lucrativos.

EXEMPLO SUECO Segundo Anders Hultin, um dos arquitectos do sistema de vouchers suecos, esta questão das escolas com fins lucrativos não deve ser menosprezada. Escrevendo na "Spectator" de 3 de Outubro, cuja capa foi dedicada a David Cameron, Hultin explica que o sector privado com fins lucrativos foi a chave do sucesso dos "vouchers" na Suécia. Quando estes foram lançados, em 1992, já existiam algumas escolas privadas, em regra muitíssimo boas e muito procuradas pelas famílias. Mas eram todas pertencentes a instituições sem fins lucrativos, o que era imposto por lei.A consequência desta restrição era muito curiosa, explica Hultin. As poucas e excelentes escolas privadas - como a escola Carlsson em Estocolmo - não tinham incentivos nem meios para se expandirem. Criavam então enormíssimas listas de espera em que os pais inscreviam os filhos à nascença. Esse era o seu distintivo de qualidade. Mas só um número muito limitado de crianças tinha realmente acesso à escola Carlsson.A partir de 1992, duas coisas aconteceram. Primeiro, foram introduzidos os "vouchers". Todas as escolas, estatais ou privadas, passaram a receber por aluno o mesmo montante pago pelo Estado - aliás, um montante ligeiramente inferior -- ao que até essa data um aluno custava realmente numa escola estatal. Em segundo lugar, a criação de novas escolas foi tremendamente facilitada, requerendo apenas garantias de qualidade. As instituições com fins lucrativos foram autorizadas a entrar no novo mercado de educação.

MÓBIL DO LUCRO Anders Hultin explica na "Spectator" que os resultados foram surpreendentes para todos, a começar pelos próprios promotores da reforma. "Nós próprios tínhamos grandes dúvidas sobre o alcance prático da reforma. Mas estava no programa eleitoral e tínhamos de o honrar." As dúvidas na Suécia eram as mesmas que existem hoje em todos os países europeus. "Quem vai querer lançar uma nova escola, com o investimento e a dedicação que isso implica? As famílias não querem nem sabem escolher a escola, querem é que a escola do Estado seja boa." Olhando agora para trás, Anders Hultin conclui que a medida decisiva que permitiu a literal explosão de novas escolas foi - além do "voucher" - a abertura ao sector privado com fins lucrativos. Hoje até os socialistas suecos já concordam com a medida. Hulton termina com uma mensagem para David Cameron: "Seria peculiar pensar que a esquerda sueca é mais aberta relativamente a escolas com fins lucrativos que o partido conservador britânico."

GANHAR O CENTRO A ironia de Hultin é divertida, mas não deve obscurecer o real problema político enfrentado por David Cameron. O partido conservador britânico foi "o partido natural do governo" em Inglaterra sempre que o seu opositor - o partido liberal, primeiro, ou o trabalhista, depois - se afastou do centro. Embora o partido conservador fosse muitas vezes visto pelo eleitorado como defensor das classes mais abastadas, o medo do liberalismo radical ou do socialismo radical empurrou os eleitores do centro para os Tories. Tony Blair e o seu New Labour abandonaram as propostas socialistas radicais e com isso anularam o medo do socialismo. Dessa forma, reconquistaram o centro e lançaram os conservadores na longa travessia do deserto.David Cameron está agora a tentar reconquistar o centro e por isso é tão cauteloso em relação ao que vai fazer. Essa cautela, em contrapartida, pode custar-lhe a desmobilização do seu eleitorado tradicional. Talvez a liberdade de escolha da escola seja a solução para esta quadratura do círculo. Pelo menos funcionou na Suécia, o mais social-democrata país europeu. E é bem possível que venha a dominar o futuro próximo do debate político europeu.»

[921.] Mercurii dies

“Não mais deveres sem direitos?
Não mais direitos sem deveres?”*
A propósito da Carta dos Deveres do Homem


A Carta dos Direitos do Homem, aprovada pelas Nações Unidas em 10 de Dezembro de 1948, constitui-se, depois de mais uma tentativa de união e concertação entre os governos do mundo (a Organização das Nações Unidas), como uma resposta do mundo civilizado às atrocidades infligidas na Segunda Guerra Mundial contra a humanidade, contra a razão de ser do próprio Homem. Trata-se de um documento que foi assimilado em muitos Estados como a lista constitucional dos direitos fundamentais e ao fim de sessenta anos continua a ser importante lembrá-lo, divulgá-lo e sensibilizar todos para a importância dos valores que procura proteger. O ano de 2009 foi declarado como o Ano Internacional para a Aprendizagem dos Direitos Humanos.
Foi ao longo deste ano de 2009 que o Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português, a maior associação juvenil do país, entendeu assinalar o ano internacional com um amplo debate, entre os seus associados, inicialmente, e depois com a sociedade civil, sobre quais deveriam considerar-se como os Deveres do Homem.
“O Homem é sujeito de Direitos, largamente consagrados, embora demasiado frequentemente desrespeitados, mas é igualmente sujeito de Deveres, deveres cujo objecto é, também, em muitos casos, o próprio Homem. Será que alguma vez alcançaremos o pleno respeito pelos Direitos do Homem não sendo pelo efectivo cumprimento por parte do Homem, de todos os homens e mulheres, dos seus Deveres? E quais são esses Deveres?”, pode ler-se no que foi apresentado como o enquadramento deste projecto, cujo objectivo era: “Contribuir para uma definição dos Deveres do Homem”.
Foi deste esforço de muitos jovens escuteiros portugueses – todos com idades compreendidas entre os 14 aos 22 anos – que nasceu a Carta dos Deveres do Homem. Um texto onde se enunciam deveres do Homem para consigo próprio, para com os outros e para com a Natureza, e que se encontra integralmente reproduzido na última página desta edição do Jornal da Mealhada.
A Carta dos Deveres do Homem é um “verdadeiro rol das obrigações que individualmente devem ser promovidas e cumpridas a fim de se alcançar uma plena expressão da responsabilidade individual na prossecução do bem comum, uma plena realização comunitária dos direitos universais e uma plena vivência em liberdade, justiça e paz”. Assim o esclarece o texto da própria carta.
Num Ensaio intitulado “Direitos e Deveres: juntos ou separados?”, publicado no jornal i, em 21 de Novembro de 2009, João Carlos Espada – Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa –, que também participou no projecto como especialista convidado, coloca a seguinte questão: “Por que razão hoje só falamos de direitos e nunca referimos os deveres? Por que motivo a lista de direitos não pára de crescer e insistimos em não mencionar qualquer dever?”. Não seremos obrigados a dar razão a este académico quando vemos que educamos mais para os direitos do que para os deveres colectivos? Quando vemos que tantas vezes se fala da intocabilidade dos direitos adquiridos e raramente se proclamam deveres fundamentais para com os outros e para connosco próprios?
No ensaio a que aludimos – e cuja leitura sugerimos a quem queira aprofundar o assunto, o texto permanece acessível na Internet – João Carlos Espada analisa o que poderia chamar-se de história do Dever nos pensamentos clássico e cristão e, depois, em Maquiavel, Rousseau e Nietzche. Conclui preferindo e citando Edmund Burke: “Os direitos não podem ser separados dos deveres. E nem uns e nem os outros dependem da vontade (da maioria, ou dos mais fortes, como em Rousseau e em Nietzche, respectivamente). Existem objectivamente e é preciso descobri-los. Trata-se de uma mensagem crucial da civilização ocidental”.
É preciso descobrir direitos e descobri deveres. Porque ao Direito à vida corresponde mais do que o Dever de não matar. Porque ao Direito de todos à Habitação, à Educação o à Saúde, deve corresponder mais do que o Dever de pagar impostos.
Os escuteiros portugueses procuraram fazê-lo. O documento que produziram pode ser apenas uma óptima oportunidade para pensar no assunto. Pode ser um bom argumento para começar uma conversa, pode ser um bom motivo para abrir o debate nas nossas escolas, nos nossos blogues ou no nosso jornal: “Será que alguma vez alcançaremos o pleno respeito pelos Direitos do Homem não sendo pelo efectivo cumprimento por parte do Homem, de todos os homens e mulheres, dos seus Deveres? E quais são esses Deveres?”. O leitor aceita o desafio de responder a estas perguntas?

* Expressão retirada da ‘Internacional’, o hino do socialismo internacional: “À opressão não mais sujeitos/ Somos iguais todos os seres/ Não mais deveres sem direitos/ Não mais direitos sem deveres”

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

[919.] Mercurii dies

Educação para a catástrofe

As consequências das fortes chuvas da passada sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010, na ilha da Madeira foram devastadoras. A força da água mostrou-se destruidora perante casas, estradas, muros e toda a espécie de construção humana. A fragilidade do homem quando confrontada com a natureza tornou-se, uma vez mais, evidente.
Porque acontecem estes fenómenos climatéricos? Procurar-se-ão respostas no sentido de saber, também, por que razão se observaram estas consequências e o que poderia ter sido feito para as dirimir ou minorar. No caso da Madeira – como já se havia identificado no caso do terramoto do Haiti – terão sido elementos fundamentais para este resultado as políticas de ordenamento do território (ou a ausência delas) e a falta de instrumentos capazes de fazer uma previsão meteorológica e geofísica atempada. O hábito contemporâneo de impermeabilização dos solos (com o cimentar de valetas, o entubar de ribeiras e emparedar de cursos de água) terá contribuído, também, para o resultado do passado fim-de-semana, na Madeira.
A aproximação gradual que estes fenómenos vão fazendo relativamente à nossa realidade faz-nos perguntar se estaremos preparados se, ou quando, acontecerem no nosso território. E provavelmente a resposta será pouco animadora.
Nas escolas até poderá haver sensibilização para os comportamentos a tomar em caso de incêndios ou terramotos, por exemplo. Mas está longe de ser suficiente. Um simulacro uma vez na vida não permite às pessoas assimilarem conhecimentos sobre que comportamento tomar em caso de emergência. Mesmo que isso esteja previsto em documentos estratégicos e planos de segurança, essa informação nunca chegou aos cidadãos. E é pena!
Um porta-voz da Protecção Civil da Madeira afirmou, num dos noticiários do fim-de-semana, que as pessoas, sem conseguirem definir prioridades no momento em que seria necessário fugir das derrocadas e dos aluviamentos, perderam tempo – algumas delas perderam mesmo a vida –, não souberam fazer, ou salvaguardar, o que era essencial. Ou seja, não tendo conseguido adoptar os comportamentos mais apropriados, acabaram por dificultar em vez de facilitar num momento de pânico.
Há comunidades, residentes em zonas do globo recorrentemente assoladas por fenómenos climatéricos e geofísicos, que se prepararam para saber agir de forma rápida e eficaz perante a ocorrência de cheias, de terramotos, tsunamis, tornados e outros fenómenos. Têm enraizada uma cultura de protecção civil. É esse exemplo que devíamos seguir e procurar compreender. Até porque deixaram de ser longínquos fenómenos extremos da força da natureza, a própria história de Portugal refere a existência, no passado, de momentos dramáticos – como o terramoto de 1 de Novembro de 1755, por exemplo – que voltarão a repetir-se, sem, no entanto, sabermos quando.
“Se avisados a tempo, os madeirenses teriam sabido prevenir-se”, garantia um climatologista na televisão. Temos dúvidas a este respeito. Como se pode avisar uma comunidade inteira em tempo útil. Não será nem pela televisão nem pela rádio – poderá ser útil mas não será, certamente, suficiente –, não será com o toque de sirenes das corporações de bombeiros porque esse toque serve, apenas, para chamar os soldados da paz. Também não será com o toque ‘a rebate’ do sino da Igreja, que terá outros fins.
Mesmo que convenientemente alertados, para onde devem deslocar-se os cidadãos em caso de necessidade de evacuação, por exemplo? Talvez seja uma resposta a que só se venha a ter acesso quando estivermos perante a necessidade.
A experiência de outros deve fazer-nos pensar e tomar medidas para não cairmos nos mesmos erros e, eventualmente, sofrer as mesmas ou ainda piores consequências.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010



Samba-enredo da Escola Campeã do Rio de Janeiro 2010.
Ganharam com 299,9 pontos em 300 possiveis!

UNIDOS DA TIJUCA

Parabéns à Nação 'Tijucana', a Paulo Barros e Fernando Horta, bom amigo do Carnavalda Mealhada.


Alexandre Nero, o Rei do Carnaval da Bairrada de 2010, despediu-se da Mealhada cantando este samba. O gesto foi muito interessante. Eu, pelo menos, apreciei bastante. Pelo próprio samba ('É hoje', de Didi&Mestrinho, samba-enredo da União a Ilha em 1982 e em 2008), pelo cantor, que o interpretou com qualidade, e pela intenção de homenagear o publico com uma musica que, na sua letra, tem muito de luso-brasilidade.
Muito bom.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Resultados do Concurso

Resultados do apuramento do
4.º Concurso de Escolas de Samba do Carnaval da Mealhada


Comentário do presidente da comissão técnica AQUI

[914.] Mercurii dies

Avaliando o Carnaval da Bairrada de 2010

O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada de 2010 poderá ter sido o melhor de que há memória no sambódromo Luís Marques, na zona desportiva da Mealhada. É certo que foi ensombrado pelas ameaças de mau tempo e arrasado pelo frio que atacou o país neste Entrudo, facto que poderá justificar a fraca participação de público – especialmente no domingo. De qualquer forma, nunca as escolas se apresentaram de forma tão homogénea na qualidade das fantasias, na exuberância da apresentação dos enredos, no cuidado com coreografias e musicalidade. Tal como temos feito nos últimos anos, assumimos o papel de promotores da avaliação do trabalho das escolas de samba. Chamamos a nós, também, o direito de emitir a nossa opinião sobre a organização do cortejo.

O percurso do sambódromo
No final do Carnaval de 2009, apelámos à necessidade de serem tomadas medidas no sentido de ser alterado o percurso – eventualmente mudada a localização. Os dirigentes da Associação do Carnaval da Bairrada foram sensíveis ao apelo e à necessidade, e o percurso este ano teve um novo local de dispersão. Ouvimos da parte de alguns dirigentes das escolas de samba a opinião de que o percurso é muito maior, a evolução da escola de samba, que se fazia em cinquenta minutos, se fez, em 2010, em cerca de uma hora e quarenta. De qualquer forma, e na nossa opinião, feita na óptica do espectador, o percurso feito este ano revelou-se uma boa opção.

O som e o atraso
Em 2010, também não foram significativos os problemas com o som e com o atraso no início do desfile. Já havíamos verificado esta situação em 2009, e registámo-lo também este ano. Fazemos referência a este aspecto porque entendemos que, no que respeita à hora de início dos cortejos, se tratou, durante muitos e muitos anos, de um defeito crónico do Carnaval da Mealhada.
No domingo, no entanto, registou-se um longo tempo de intervalo entre a terceira e a quarta escola a desfilar. O problema, segundo pudemos apurar, terá sido de natureza técnica com uma das escolas de samba, facto que terá obrigado a organização a alterar a ordem previamente estabelecida para a saída das escolas no corso. O resultado do atraso levou a que muitas pessoas se fossem embora – mais do que o normal – e que a última escola fizesse parte do percurso já de noite. Esse facto foi prejudicial para o espectáculo e para as escolas em causa (a que teve os problemas e a última a desfilar). Compreendemos que há sempre problemas e imponderáveis que todos lamentamos. Consideramos, no entanto, que, através do sistema de som, deveria ter sido dada uma explicação e feito um apelo para que os espectadores não abandonassem o sambódromo. Na terça-feira tudo correu de forma impecável a este nível.

Espectadores
Enriqueceria, de sobremaneira, o espectáculo apresentado pelas escolas de samba se cada uma – ou todas em conjunto – distribuísse pelos espectadores uma brochura com o seu roteiro, com a explicação do enredo e com uma breve apresentação do significado de cada uma das alas, destaques e diferentes figurantes. Seria uma forma de o espectador ter uma melhor percepção do que estava a ver e, assim, o valorizará, certamente.

A avaliação das escolas de samba
A avaliação feita pelo Jornal da Mealhada é já um dado adquirido. E ainda bem. Todas as escolas colaboraram, com a entrega de todas as informações relativas ao que iam apresentar no sambódromo, mas, também, com contributos relativos à própria organização da avaliação. Colaborações que se revelaram muito positivas. Por outro lado, o facto de em 2010 os resultados globais das escolas serem muito superiores aos de 2009 – todas as cinco escolas têm, em 2010, uma pontuação superior à pontuação da escola que em 2009 ficou em segundo lugar – demonstra a preocupação das escolas em melhorar e em procurar superar deficiências. Essa é a grande vitória da avaliação.

O luso, do luso-brasileiro
O Carnaval na Mealhada é Luso-Brasileiro. Deve procurar ser o melhor de Portugal nesta característica. Estamos convencidos que já é o Carnaval mais brasileiro de Portugal. No entanto, é necessário que não se perca a dimensão popular e crítica característica do Entrudo português. Essa dimensão também faz parte do nosso Carnaval. O saudoso Grupo Macacu é elemento fundador do Carnaval da Mealhada, mais recentemente o Grupo Sapatada mantém uma tradição bonita. Encadeados pelo brilho da brasilidade do nosso Carnaval pode dar a ideia de que depreciamos a dimensão portuguesa. Não é verdade. Os grupos de crítica merecem o nosso aplauso e elogio, recebendo uma palavra de agradecimento colectivo e de incentivo a continuarem e a aumentarem em número e em criatividade.

O futuro do Carnaval
No final do Carnaval do ano passado, lembrámos que em 2009 se haviam completado trinta anos desde o primeiro Carnaval da Criança, festa infantil que, durante duas décadas se realizou no Domingo Magro. Repetimos o apelo que fizemos há um ano: O número de pequenos desfiles carnavalescos com crianças fantasiadas que se realizaram nesta época carnavalesca, por todo o concelho da Mealhada, justifica que se ponha em cima da mesa a hipótese de voltar a realizar-se o Carnaval da Criança — Carnaval Infantil da Bairrada, que era o seu nome — integrado nos festejos do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, nos moldes do que se fazia. Entendemos que poderia ser um ponto a constar no protocolo a celebrar entre a Câmara Municipal da Mealhada e a Associação do Carnaval da Bairrada, para 2011. Trata-se, afinal, do futuro do Carnaval da Mealhada.

Editorial do Jornal da Mealhada de 17 de Fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010


"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão do seu corpo... mas o livro é outra coisa, o livro é uma extensão da memória e da imaginação"
(Jorge Luís Borges)
HISTÓRIAS SEM FIM é o enredo do Académicos do Salgueiro, a 'minha escola' do Rio de Janeiro. Rumo ao bicampeonato, a escola branca e rubra vai 'botá pá quebrá'.
AXÉ!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

[911.] Mercurii dies

A berlusconização de Sócrates

A divulgação do conteúdo de conversas telefónicas é, à partida, uma coisa execrável. A divulgação do conteúdo de conversas telefónicas, resultado de escutas feitas no âmbito da investigação de um processo judicial, é abominável. A divulgação de conversas telefónicas integradas em processos judiciais entretanto arquivados pelo Ministério Público é lamentável. A divulgação de opiniões na comunicação social feita com base em declarações de terceiras pessoas no que comummente se pode classificar como diz-que-disse, não tem suporte moral e deontológico e, por isso, não deve ser incentivado nem consentido. Estes actos, sejam eles feitos por órgãos de comunicação social sejam por colaboradores, mesmo que jornalistas credenciados, digam eles respeito a pessoas titulares de órgãos de soberania ou não, são repudiáveis.
Acreditamos, no entanto, que têm consciência disso, e partilham desta opinião, os directores dos órgãos de comunicação social que divulgaram as escutas telefónicas que dão conta de que o primeiro-ministro de Portugal, alegadamente, se envolveu numa estratégica com vista ao condicionamento de órgãos de comunicação social por via económica e administrativa. Acreditamos que, apesar disso, terá sido em nome do interesse informativo e do direito dos portugueses à informação que entenderam publicar esse conteúdo que, a provar-se ser verdadeiro, é sério e muito grave.
Partilhamos a opinião de que há que saber distinguir a mensagem do mensageiro. O mensageiro – a comunicação social – pode não ter procedido de uma maneira por todos aceitável. Mas, por outro lado, não se pode ignorar que é relevante a mensagem que põe em causa o carácter de um titular de um cargo público. As escutas telefónicas que envolvem o primeiro-ministro são muito sérias e, pese embora poderem não constituir crime – assim o entendeu o Ministério Público –, constituem um comportamento censurável e repudiante.
Julgar sumariamente o primeiro-ministro e condená-lo imediatamente com base nos dados de que dispomos, seria usar um recurso idêntico ao que condenávamos. É por isso que entendemos que o primeiro-ministro devia apresentar explicações, sem demora, a propósito do conteúdo das escutas que parecem indiciar a existência de uma estratégia de constrangimento da TVI, no sentido de afastar José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes, de uma estratégia de constrangimento do jornal Público e de afastamento do seu antigo director José Manuel Fernandes, de uma estratégia de constrangimento do Correio da Manhã, de Mário Crespo. Para além das classificações do trabalho de jornalistas com epítetos como jornalismo de sarjeta ou calhandrice.
O primeiro-ministro tem obrigação de dar esclarecimentos e devia fazê-lo quanto antes. Não está em causa, desta vez, se beneficiou ou não um consórcio empresarial na obtenção de uma licença – como poderá ter sucedido no caso Freeport. Não está em causa se foi benefíciado na obtenção do seu grau académico. Já nada disso está em causa. Hoje estamos perante a suspeita de que o chefe do Governo move influências pessoais e estatais – usando meios e predicados exclusivos do Estado – para, em beneficio próprio, pessoal, controlar a comunicação social, procurando afastar os jornalistas e os órgãos de comunicação social que teriam mostrado ser menos apoiantes. Trata-se de uma acusação muito grave, que no caso de não ser verdadeira não pode, de maneira nenhuma, continuar a pesar ou impender sobre o chefe do Governo. Pelo que José Sócrates, e nesse sentido deviam aconselhá-lo os seus mais próximos, devia explicar-se de forma inequívoca. Consideramos que, para já, não há razões para exigir que se demita, como alguns parecem sugerir. Mas o esclarecimento deve ser rápido e satisfatório.
Em Itália, o primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi, é um magnata da comunicação social. Comprou os órgãos informativos que lhe permitem minimizar, junto dos italianos, a sua imagem de homem corrupto e mafioso, com deficiências de carácter. Fê-lo com o seu próprio património e só depois se abalançou na chefia do Governo. Segundo as acusações a que aludimos, José Sócrates procuraria, a partir de São Bento, controlar a comunicação social, com recurso aos meios das empresas públicas e do Estado, com o objectivo de domesticar quem lhe parece mais hostil. Não serão, apenas, duas faces da mesma moeda?

Editorial do Jornal da Mealhada de 10 de Fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Todos pela Liberdade 11 Fev 13h30 Frente à A.R.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

[909.]

«República, a revolução que continua longe do consenso»

in Jornal PÚBLICO de 31 de Janeiro de 2010

Na edição de domingo do Público, na página 2, num texto assinado por Luís Miguel Queirós, - com o título "Uma revolução democrática ou a vitória de extremistas", é apresentada a ideia de que, mesmo no meio académico, não é consensual a leitura factual das conquistas e do que foram os primeiros anos da República em Portugal (1910 - 1926). O texto é interessante e contrapõe posições como a de Rui Ramos - coordenador da recente publicação 'História de Portugal' -, de Manuel Loff, que colabora na elaboração de um 'Dicionário da República e do Republicanismo', e de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, autores da 'História da Primeira República'.
Os quatro autores (ou três grupos se juntarmos Rosas e Rollo autores do mesmo livro) são concordantes na identificação dos falhanços da Primeira República... E para sintetizar isso até cito Rosas (em entrevista ao i): "A Primeira República falhou no essencial: Democratizar o país!". A este respeito Rui Ramos acrescenta: "Nos anos 20, Portugal era um dos poucos regimes europeus sem sufrágio universal [o voto era vedado aos analfabetos e às mulheres]. Só em 1915 foram convocadas as primeiras eleições gerais".
Mas os quatro autores discordam em tudo o resto.
A falta de consenso intelectual a este respeito é total. Na introdução do 'História da Primeiro República', os autores apresentam o contraponto de duas linhas de posição sobre esta matéria que se vão degladiar ao longo do resto deste ano de Centenário da República.

Por um lado a corrente «que encara o republicanismo como pouco mais do que uma conspiração maçónica-radical de alguns intelectuais urbanos subversivos, sedentos de poder e carentes de escrúpulos». Que Rosas/Rollo consideram estar em 'reaparecimento' e 'reafirmação' numa linha "a meio-caminho entre a história e a política, de forte cunho monárquico-conservador" e que "constitui uma reedição do discurso propagandistico do Estado Novo"... Deve estar a referir-se à 'malta' do 31 da Armada... digo eu!


Por outro lado a corrente «de uma certa ortodoxia maçónica-republicanista acriticamente glorificadora». Deve estar a referir-se aqueles republicanos ceguetas que ainda andam à procura do Rei para o matar outra vez!

[908.]

Esta estátua da República [colocada na Sala do Plenário da Assembleia da República, no palácio de São Bento, em Lisboa] foi esculpida num bloco de mármore de Carrara inicialmente destinado ao talhamento da estátua régia de D. Manuel II, pelas mãos de Moreira Rato. O fim da Monarquia acabou por dar diferente utilidade ao material que, entregue a Anjos Teixeira, viria a celebrar a nova era política portuguesa de forma assaz nacionalista.
Apenas para melhor reconhecimento iconográfico foi representada de barrete frígio, mas ao invés de vestida com as usuais roupas do povo que a tornavam demasiado lasciva para o gosto académico e conservador português, foi classicamente togada, trazendo uma capa pelos ombros e simulando um passo.
A diferença não se confina a essa imagem dignificada, afectada pela estética tradicionalista nacional: com efeito, a esfera armilar com o escudo e as quinas que segura na mão esquerda, sublinha a demarcação do padrão, fazendo dela, não apenas mais uma alegoria à República, mas sim a representação específica da República Portuguesa.

[907.] Mercurii dies

Do 31 de Janeiro ao 5 de Outubro
A propósito do centenário da implantação da República

Começaram no domingo, no Porto, as comemorações oficiais do centenário da implantação da República em Portugal. A escolha da data foi uma homenagem à luta dos republicanos. No Porto, em 31 de Janeiro de 1891, deu-se a primeira tentativa de implantação da República com a intervenção de militares e de dirigentes do Partido Republicano Português. Até 5 de Outubro de 1910, data em que os republicanos foram finalmente bem sucedidos, a luta pela mudança de regime em Portugal teve sucessos e frustrações, momentos de expansão e de contracção. Momentos como os das manifestações académicas contra a ditadura de João Franco, chefe de Governo, o ‘Golpe do Elevador da Biblioteca’, o regicídio de Carlos de Bragança, estes dois últimos no princípio do ano de 1908, constituem, a par do 31 de Janeiro de 1891 e de outros acontecimentos, passos de um longo processo que levou à implantação da República. Como é redutor fazer passar a ideia de que a mudança de regime político foi um acontecimento daquele dia 5 de Outubro, ou dos dias anteriores, está de parabéns a Comissão para a Comemoração do Centenário da República ao sublinhar a dimensão do processo que se tornou visível aos olhos do público dezanove anos antes, em 31 de Janeiro de 1891.

República Portuguesa

(Plenário da Assembleia da República, obra de Anjos Teixeira)


Faz todo o sentido, haverá até urgência, em comemorar a República. Isto não é o mesmo que dizer que há necessidade, justificação, até, para exaltar a I República e algumas opções tomadas nessa época. Ao fim de trinta e seis anos de democracia pluripartidária e de Estado de Direito, de vivência plena da República, ao mesmo tempo que nos é dito que há uma crise de valores, que obrigará a medidas na adaptação do sistema político, é necessário debater a República, e perceber o que é a República moderna para a qual devemos caminhar nos dias de hoje.
Entendemos que faz sentido haver uma comemoração nacional do centenário da República e que, nessa circunstância, faz sentido haver comemorações locais, ao nível das freguesias, por iniciativa popular e ou das Juntas, e, também, ao nível de todo município, promovidas pela comunidade e ou pela Câmara Municipal. O concelho da Mealhada não é excepção.
O espírito republicano, no concelho da Mealhada, teve terreno mais propício na freguesia da Pampilhosa. Os pampilhosenses, pela sua génese sociológica, provavelmente, pelo espírito comunitário e sentido do colectivo, ansiaram e receberam de braços abertos a República. As lojas maçónicas da Pampilhosa, a Associação de Socorros Mútuos, o Grémio de Instrução e Recreio, entre muitas outras colectividades, oficializadas ou não, são o fruto de uma visão da sociedade muito mais liberal, progressista e colectivista do que a que existia na Mealhada, no Luso, ou em Anadia, por exemplo. No ano em que a Pampilhosa assinala o vigésimo quinto aniversário da sua elevação a vila – em Setembro –, faria todo o sentido, no nosso entender, associar estes dois aniversários.
Homenagear as personalidades pampilhosenses do princípio do século XX, fundadoras de tantas vontades e iniciativas, no grupo das quais pontificava Joaquim da Cruz, seria um acto de justiça. Em 2010, em princípio, deixará de funcionar como escola a Thomaz da Cruz, estabelecimento fundado por Joaquim da Cruz. Tal facto constitui, assim pensamos, mais uma razão para reavivar a memória do homem que foi o primeiro presidente da Câmara Municipal após a implantação da República, que podemos considerar como exemplo de verdadeiro republicano.
A Câmara Municipal da Mealhada e a Junta de Freguesia da Pampilhosa serão, certamente, sensíveis à justiça da homenagem a Joaquim da Cruz e aos pampilhosenses seus contemporâneos e correligionários, e à necessidade de comemoração do centenário da República.

Joaquim da Cruz

(1884 - 1975)
A comemoração da República no concelho da Mealhada deve, ainda, passar pelas escolas – pelas Actividades de Enriquecimento Curricular, por exemplo –, através de concursos, de aulas interactivas, de palestras e colóquios, deve passar pela divulgação de trabalhos sobre a primeira década do século passado, por exposições sobre o tema. Entendemos que há material e capital humano para ser feita, no concelho da Mealhada, uma comemoração do centenário da República arrojada, justa para os nossos antepassados que no município procuraram cumprir os seus ideais, e materializar, em acções, esses valores de progresso humano, valores de justiça e de igualdade entre todas as pessoas.

Editorial do Jornal da Mealhada de 3 de Fevereiro de 2010