quarta-feira, 30 de junho de 2010

[1077.] Dia vencido 30.06.10

- Li um artigo muitíssimo interessante de Carlos Jalali (Docente da Secção Autónoma de Ciências Sociais, Jurídicas e Políticas da Universidade de Aveiro - o coordenador daquele mestrado a que me candidatei, entrei, paguei e não cheguei a frequentar). «Os cidadãos e a política em Portugal: um divórcio por mútuo consentimento?», um texto fantástico daqueles que só se pode guardar (a menos que alguém ponha a revista no lixo...)
O autor fala de um conjunto de questões sobre a "Crise das Democracias", nomeadamente dos novos 3 D's da Democracia em Portugal - usados por Pedro Magalhães em 2004. É um daqueles textos que todos os que gostam de politica deviam ler.

Cito uma ideia que, mesmo não sendo inovadora, dá que pensar e explica tanta coisa...
«Ao mesmo tempo, este [o] distanciamento entre cidadãos e a política não é necessariamente negativo para governantes – pelo menos a curto prazo. Como refere Martin Wattenberg (2000), obter mandatos com menos votos “é o equivalente da General Motors obter os mesmos lucros com menos carros vendidos”. O afastamento entre cidadãos e política leva a menor accountability (ou, pelo menos, accountability perante menos cidadãos) e, consequentemente, maior autonomia e liberdade de acção para os agentes políticos. O argumento de Wattenberg sugere assim um «mútuo consentimento» neste aparente divórcio entre cidadãos e política. Inevitavelmente a história do nosso país ajuda a explicar este distanciamento.»

A não perder.

[1076.] Mercurii dies

O futuro do país no verbo ‘Educar’

Já manifestámos a nossa opinião de que a Justiça foi a área que se constitui como o maior fracasso do Portugal Democrático, o país do ‘depois do vinte e cinco de Abril’. Acontecimentos continuados no tempo, analisadas as evoluções do que tem sido o esforço do país na área da Educação nas últimas décadas e aferidos resultados, chegamos à conclusão de que há razões para considerarmos esta como a nossa maior frustração. Foi a área em que mais investimos (ou julgámos investir), em que mais energias despendemos (ou dissemos despender) e, infelizmente, é a lacuna maior que nos põe em causa enquanto Estado-Nação.
Um país que ‘já tantos mundos deu ao Mundo’, uma pátria de gente que se espalhou pelos cantos de todo o globo, não é capaz de procurar nos outros países o que melhor fazem pela sua Educação? Porque procura, a cada momento, reinventar a roda, para rebolar até lado nenhum?
Insiste-se em conjugar o verbo ‘Educar’ sempre no presente e nunca no futuro. Insiste-se em conjugar o verbo ‘Educar’, às escondidas dos verbos ‘Instruir’, ‘Disciplinar’, ‘Aprender’, ‘Apreender’, ‘Formar’, ‘Empreender’, ‘Fazer’, ‘Ser’. Por outro lado, tudo indica que a conjugação preferida se faz de mão dada com os verbos ‘Domesticar’, ‘Desautorizar’, ‘Brincar’, ‘Distrair’…
A resolução que antecipa a fusão dos agrupamentos de escolas até agora existentes em unidades de gestão com a inclusão dos estabelecimentos de ensino secundário faz todo o sentido. Bastaria lembrar o facto de a escolaridade obrigatória ter passado de nove para doze anos (do final do 3.º ciclo para o final do secundário), bastaria lembrar o facto de todas ou quase todas as escolas secundárias terem, também, alunos do 3.º ciclo que estavam fora dos agrupamentos de escolas para justificar essa medida. Medida que está prevista desde 2003, nos tempos em que o Governo era de outro partido – no caso de uma coligação de partidos. O que não se compreende nesta decisão é – onde é que já ouvimos isto? – o tempo e o modo.
Fundir agrupamentos – acabando com equipas de gestão –, um ano depois de ter sido decretada a eleição de directores e, em consequência disso, delineadas estratégias para uma coisa chamada ‘cultura de escola’ e projectos educativos para três anos, será correcto? Dar a estes directores, a cumprirem o primeiro terço do mandato, em Junho, informação de que cessam o trabalho para que foram eleitos, daí a três meses, e naquela altura do ano em que há, ao mesmo tempo, exames, avaliações para fazer e preparações para o próximo ano lectivo, será honesto?
Este exemplo, a par de outros, que não são, não foram, nem serão avaliados e, por isso, muitas vezes, tornam a escola ideal para os pais na escola surreal para os filhos está a embrutecer as nossas crianças e os nossos jovens e a torná-los seres deprimidos, frustrados, infelizes, amorfos e flácidos. Por um lado, tomamos medidas para aumentar a exigência, por outro facilitamos. Por um lado tornamos a escola mais agradável com outras condições logísticas, por outro tornamo-la insuportável limitando as crianças a lugares confinados e a horários que uma centena de anos de luta proletária contesta para fábricas, mas não despreza para escolas.
É preciso tomar uma opção drástica e essencial sobre o que queremos para os nossos jovens. Que Capacidades, Competências e Atitudes queremos que tenham em cada momento da sua vida escolar. Que definamos o tipo de escolas para cada tipo de formação (tecnológica, profissional, para prosseguimento de estudo, etc.).
Seria pedir muito a um Governo que definisse, gerando consenso alargado no Parlamento, o que quer Portugal para a Educação Nacional na próxima década? Faltarão razões para os estadistas do Portugal Democrático perceberem que é essencial que se faça um Pacto de Regime (com partidos, Presidente da República, Conselho de Estado, Parceiros Sociais, Pais, Funcionários e Estudantes) para que se estabeleça, até 2020, seja qual for o partido a formar Governo, um rumo, um conjunto de medidas e objectivos a estarem satisfeitos no final dessa década? Seria contrário ao respeito pelas diferenças de opinião e criatividade dos governos? Seria algo ideologicamente amorfo? Que interessará isso quando os portugueses forem a terra de cegos onde quem tem um olho emigra? Nos últimos anos, cem mil já o fizeram…

Editorial do Jornal da Mealhada de 30 de Junho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

[1075.] Dia vencido 29.06.10

- Hoje foi publicado o último número do jornal '24 horas'.
Nunca fui fã, confesso.
Não farei parte dos herdeiros deprimidos, mas fui ensinado que nunca deve deixar de se lamentar a morte de alguém.
Como diria Ernest Hemingway, os sinos dobram sempre por nós!
Como diria hoje Fernando Moura, o jornal hoje esgotou porque as pessoas adoram homenagear os mortos que não valorizaram em vida. E, também eu, comprei a última edição do '24 horas'
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

- Perguntaram-me um dia que noticia gostava de publicar um dia.
Tenho ideia que respondi na altura que sonhava um dia escrever no jornal que dirijo a noticia da resolução do problema da gestão da Mata Nacional do Bussaco. Felizmente esse dia chegou. E vivi-o com a mesma intensidade com que publiquei, hoje, a noticia do inicio das obras da Extensão de Saúde de Barcouço.
Para quem esteve envolvido em tarefas politico partidárias e viveu o ambiente e as guerras criadas a propósito deste e de outros temas, e para quem, ao mesmo tempo, gosta tanto desta terra e tem pelos seus conterrâneos tanto respeito e admiração como eu tenho, não pode ser indiferente ver que, finalmente, e materialmente, o problema está a resolver-se e a nova Extensão de Saúde vai ser mesmo contruída.
É me realmente indiferente que seja construída por um governo do partido A ou B. Está a ser construída e isso é motivo de grande alegria, mesmo que tenha tantos anos de atraso.

[1074.] Marti dies... em dia de duelo ibérico

Poderíamos exortar Afonso Henriques, Nuno Alvares Pereira?
Prefiro - hoje, só hoje - Amália Rodrigues e o «Fados dos Caracóis»



E que logo à noite nos possamos sentir vingados de nos terem roubado Ceuta e Olivença!

[1073.] Hoje...

Hoje
a Igreja Católica assinalada a solenidade de
São Pedro e São Paulo
dois discipulos de Cristo (Paulo não o terá chegado a conhecer) considerados como as colunas da Igreja, os fundadores da Cristandade. Conheciam-se bem, e consta que não se gramavam. Acabaram por morrer em Roma, os dois, em martírio, com três anos de diferença. Os seus cadáveres foram escondidos juntose são os pais da Igreja.
Simão Pedro, o pescador que se tornou pescador de homens e pedra da Igreja. Saulo de Tarso, o perseguidor de cristão que se converte pela Luz e se torna no mais fervoroso dos discipulos de Cristo.
Duas personagens muito interessantes.
*
* ** *
O Papa Bento XVI, sempre atento a estas solenidades, comunicou ontem, nas vésperas da solenidade, que ia criar um novo 'ministério' na Cúria Romana - o Governo da Santa Sé.
O Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, "com a tarefa principal de promover a renovada evangelização nos Países onde já ressoou o primeiro anuncio da fé e estão presentes Igrejas de antiga fundação, mas que estão a viver uma progressiva secularização da sociedade e uma espécie de eclipse do sentido de Deus”.
Dito de outra forma, criou um organismo para olhar e atender às necessidades espirituais (e da Igreja) naqueles países que, sendo maioritariamente católicos, começam a fazer dissipar essa missão. O Papa refere-se, naturalmente, a nações fidelíssimas como Portugal e Espanha, por exemplo, onde já foram aprovadas leis que contrariam o que o Papa já chamou de 'Ecologia do Homem', como o Aborto, o Casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outras.
O objectivo é
«combater um eclipse do sentido de Deus que está a atingir a sociedade,
em particular no mundo ocidental»,
disse o Papa.
Uma vez mais, a Igreja manifesta-se atenta.
Espero que o Papa e este novo Conselho saibam ajudar a Igreja a estar mais presente na vida das pessoas, a fazer esta Nova Evangelização com os leigos e de forma inteligente.

[1072.] Hoje...


Antoine de Saint-Exupery,
o homem que conheceu o Principezinho
fez hoje 110 anos.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

[1071.] Dia vencido 28.06.10

Tem vinte e poucos anos.
É licenciada já depois de Bolonha.
Talvez prefira ser caixa no Intermarché a trabalhar no curso que tirou.
Candidatou-se a um programa de estágios na adminsitração central.
Estágios esses que começam na quinta-feira, 1 de Julho.
Fez testes, exames, entrevistas e tudo indica que será admitida.
Esses estágios começam na quinta-feira, 1 de Julho, daqui a dois dias.
Já ligou dezenas de vezes, mandou mail a perguntar, mas a resposta oficial, a lista a dizer se foi admitida ao estágio ou não, não saiu.
Estágio que começa na quinta-feira, 1 de Julho.
Se for admitida terá de ir para Lisboa viver.
E apresentar-se a 1 de Julho.
Daqui a dois dias.
Tem um emprego.
Se for admitida tem de avisar o patrão de que vai sair daqui a dois dias.
Ninguém lhe dá uma resposta, e o tempo esgota-se.

Hoje ouviu na televisão que o Governo adiou, hoje, a entrada em vigor do pagamento das SCUTS do norte para daqui a um mês.
Entrada em vigor que estava marcada para 1 de Julho, daqui a dois dias.
Estava no emprego.
Começou a chorar.
Se o Governo adia as portagens nas SCUTS, também pode adiar a entrada em vigor dos estágios, de que ainda não há, sequer registo de colocação.
E pode adiar uma semana, um mês, um ano... Com a mesma falta de escrupulos com que antecipa para anular logo a seguir.

Mas que merda de país é este?
Em que não posso confiar é no Estado que me governa!

E entretanto 1 de Julho é já depois de amanhã!

Infelizmente esta não é uma história ficcionada!
É real!
É do Portugal de hoje!

https://www.bep.gov.pt/pages/estagios/default.aspx

Às duas da manhã de 29 de Junho, com quarenta e seis horas de antecedência, ela descobre que foi colocada.
Que tem de estar no Instituto da Segurança Social, IP na manhã de quinta-feira, 1 de Julho...

[1070.] Lunae dies... e o Deus que não dorme

Em 1966, no final do Campeonato do Mundo de Futebol, o golo do inglês Geoff Hurst, que não era, foi, e os bifes conquistaram o caneco aos alemães.

Ontem, no Campeonato do Mundo da Africa do Sul, em Futebol, o golo do inglês Frank Lampard, que era, não foi, e os alemães mandaram os bifes para casa.

Agora, digam lá que Deus não existe, que não há justiça, que não sei quê, não sei que mais!
Afinal, quem com ferros mata, com ferros morre!

Ehehehe!

domingo, 27 de junho de 2010

[1069.] Dia vencido 27.06.10

O Dr. Soares, hoje, em Arcos de Valdevez voltou a marcar a agenda política. Foi homenageado e consigo as suas teses proféticas sobre o País, a Ibéria, a Europa e o Mundo. Está encontrado o novo Elias depois da morte de José Saramago. Mostrando que não é político distraído, nem estratega de trazer por casa, deu palco ao seu candidato presidencial, Fernando Nobre - sem lhe declarar o apoio que implicaria dissidência do PS e que vai guardar para uma inevitabilidade mais tardia -, mandou farpas a Cavaco e escreveu num barquinho de papel três ideias que considera importantes (fundamentais) para Portugal.

O que eu não percebo é por que é que tendo acesso tão facilitado ao Chefe do Governo, não lhas dá directamente e as deita ao rio...

[1068.] Dia vencido 27.06.10

Já afirmei que a Justiça foi o maior fracasso de Portugal depois do vinte e cinco de Abril. No entanto, estou cada dia mais convencido que a Educação deve ser encarada como a nossa maior frustração. Foi a área em que mais investimos, em que mais energias dispendemos e, infelizmente é a lacuna que nos põe em causa enquanto Estado-Nação.
Esta situação dos agrupamentos fundidos um ano depois de ter sido decretada a eleição de directores a par de outras medidas que, se bem pensadas tornam a escola ideal para os pais na escola surreal para os filhos está a embrutecer as nossas crianças e os nossos jovens e a torná-los seres deprimidos, frustrados, infelizes, amorfos e flácidos.
Por um lado tomamos medidas para aumentar a exigência, por outro facilitamos. Por um lado tornamos a escola mais agradável com outras condições logisticas, por outro tornamo-la insuportável limitando as crianças a lugares confinados.

É preciso tomar uma opção drástica e essencial sobre o que queremos para os nossos jovens. Que Capacidades, Competências e Atitudes queremos que tenham em cada momento da sua vida escolar. Que definamos o tipo de escolas para cada tipo de formação (tecnológica, profissional, para prosseguimento de estudo, etc.).

Eu acredito que no principio de 2011 o Governo de Portugal tenha mudado. Espero que esse Governo defina, gerando consenso alargado no Parlamento, o que quer Portugal para a Educação Nacional na próxima década. Se não tiver mudado o Governo, ou se o novo Governo não tiver maioria absoluta no Parlamento, é essencial que se faça um Pacto de Regime (com partidos, Presidente da República, Conselho de Estado, Parceiros Sociais, Pais, Funcionários e Estudantes)nesse sentido. E que fique estabelecido que até 2020, seja qual for o partido a formar Governo vai prosseguir o conjunto de medidas e objectivos estabelecidos nesse Pacto.

[1064.] Mercurii dies... mesmo ausente

A José Saramago

O Nobel português da Literatura, José Saramago, faleceu na passada sexta-feira, a escassos meses de completar 88 anos. A morte de um homem é sempre de lamentar e por isso se ouviram elogios e o apelo ao esquecer de polémicas, como se ser polémico não fosse a maior qualidade do autor de “Caim” e do “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Portaram-se à altura da dignidade que merece um dos maiores escritores portugueses os dignitários do Estado português – porque também aqui a falta de coerência soaria a falso. Três dias de luto nacional e orgulho de saber que apesar de exilado, José Saramago desejou que os seus restos mortais permanecessem em Portugal.
José Saramago foi dos melhores polemistas portugueses. Pôs-nos a discutir, a tomar partido, a amar e a odiar. Pedir que se esqueçam polémicas na hora da sua morte – a morte que ele próprio parodiava – seria diminuir o homem. E isso não fazemos.
Recorremos, por isso, a um texto publicado por outro grande polemista, Abílio Duarte Simões, no Correio de Coimbra, em 15 de Outubro de 1998, dias depois do anúncio de que Saramago receberia o prémio Nobel da Academia Sueca. Um texto provocatório de alguém que respeitamos profundamente. Um texto, “Carta a Saramago”, sem vírgulas, sem pontos, sem medo, sem pudor, com ousadia, com uma pontinha de arrogância, com graça… de alguém que José Saramago não encontrará no Céu, mas que nem por ser padre se dava ao trabalho de se achar incapaz de falar com quem não seria tão tolerante como ele.

Carta a Saramago

Excelentíssimo senhor José Saramago deixe que um pobre proletário lhe dê os parabéns atrasados mas sem culpa depois de tantos já o terem feito desde capitalistas muitos a socialistas alguns comunistas onde é que eles estão parabéns porque não é por acaso que se ganha um prémio de cento e quarenta milhões de escudos que seriam escudos de mais para qualquer internacionalista amigo da classe operária menos para vossa excelência que um comunista também tem o direito de gozar as delícias do ignóbil capitalismo mesmo que o contrário não seja verdadeiro e se essas delícias puderem ser gozadas numa paradisíaca ilha ainda melhor mesmo para quem não acredita no paraíso do além e não consegue criar iguais paraísos para todos os seus semelhantes porque a verdade é que somos todos iguais mas sempre há-de haver uns poucos mais iguais que muitos outros porque assim é que dá luta e se acabassem as desigualdades o que é que se havia de escrever se alguém ler estas minhas palavras é capaz de duvidar da sinceridade dos parabéns mas eles são mesmo a sério também a sério lhe quero dizer que não percebi o seu desagrado pelo que escreveu o jornal do papa quando lhe chamou comunista inveterado eu pensava que dizer isto era um elogio sagrado a um reconhecido laico até fui ver aos dicionários e lá vem que inveterado significa enraizado arreigado arraigado crónico tudo palavras bonitas e elogiosas de modo que como disse não percebi o desencanto pois também não acredito que não querendo ser inveterado seja envergonhado visto que logo no dia seguinte li um artigo de vossa excelência a explicar o que significa ser escritor comunista hoje também não percebi os comentários de alguns senhores professores da faculdade de letras da universidade de coimbra dizendo que as palavras do jornal romano lembravam velhos processos inquisitoriais e assim nos lembraram eles a todos velhas estórias que também aconteceram depois do vinte e cinco de abril transformando jornais em patíbulos coisas que já nem adianta lembrar mas sempre gostava de saber como é que esses senhores professores reagiriam se os alunos lhes apresentassem para avaliação certos textos que só se sabe onde começam e onde acabam “com parábolas esta das parábolas deve ter sido piada dos académicos suecos mas ninguém leva a mal com parábolas transcrevia sustentadas pela imaginação, ironia e compaixão, a permitir captar continuamente uma realidade ilusória” termino com um pedido nunca escreva nada sobre Marx em Staline que possa impressionar os marxistas se os houver nem os estalinistas se tiverem existido mais vale achincalhar aqueles que sabem e praticam o dever de perdoar esses mesmos desgostos sempre compram os livros não interferem nos circuitos de comercialização não montam máquinas publicitárias podem não concordar com o que lêem mas perdoam sempre mesmo aos que sabem o que fazem.

Abílio Duarte Simões

[1063.] Mercurii dies... mesmo ausente

O 10 de Junho e os veteranos
Segunda parte

O discurso, na íntegra, de António Barreto no 10 de Junho de 2010

O Dia dos Portugueses ou, oficialmente, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, comemorado em 2010, tem um significado especial. Na verdade, assistimos esta manhã a um desfile das nossas Forças Armadas precedido de uma extensa delegação de Veteranos, de Antigos Combatentes, mais singelamente de combatentes dos exércitos em todas as guerras e conflitos em que Portugal esteve envolvido desde meados do século XX. Ao ver desfilar umas dezenas de antigos combatentes, de todos os teatros de acção militar em que Portugal participou, não sentimos vontade nem necessidade de lhes perguntar pela guerra, pela crença ou pela época. Sentimos apenas obrigação de, pelo reconhecimento, pagar uma dívida. Sentimos orgulho por saber que é a primeira vez na história que tal acontece e que está aberta a via para a eliminação de uma divisão absurda entre Portugueses. Com efeito, é a primeira vez que, sem distinções políticas, se realiza esta homenagem de Portugal aos seus veteranos. Centenas de milhares de soldados portugueses combateram em nome do seu país, do nosso país, desde os inícios do século XX até à actualidade. Já não há sobreviventes do Corpo Expedicionário Português enviado para Flandres, na 1ª Grande Guerra Mundial, nem das forças que, no mesmo conflito, lutaram em África. O último veterano dessa guerra, José Maria Baptista, morreu a 14 de Dezembro de 2002.

Depois daquele conflito, as guerras foram, durante décadas, poupadas aos Portugueses. Só a partir de finais dos anos 1950 os soldados e outras forças militarizadas voltaram a encontrar-se em situações de combate aberto, primeiro no então Ultramar português, depois em múltiplos teatros de guerra, em associação com forças armadas dos nossos aliados da NATO e da União Europeia e em missões organizadas sob a égide das Nações Unidas. Independentemente das opiniões de cada um, para o Estado português todos estes soldados foram Combatentes, são hoje Antigos Combatentes ou Veteranos, mas, sobretudo, são iguais. Não há, entre eles, diferenças de género, de missão ou de função. São Veteranos e foram soldados de Portugal. É assim que deve ser. Em Portugal ou no estrangeiro, no Continente ou no Ultramar, na Metrópole ou nas Colónias, as Forças Armadas portuguesas marcaram presença em vários teatros de guerra e em diversas circunstâncias. Militares portugueses lutaram em terra, no mar ou no ar, cumpriram os seus deveres e executaram as suas missões. Em Goa, em Angola, em Moçambique, na Guiné, no Kosovo, em Timor ou no Iraque. Todos fizeram o seu esforço e ofereceram o seu sacrifício, seguindo determinações políticas superiores. As decisões foram, como deve ser, as do Estado português e do poder político do dia. Mas há sempre algo que ultrapassa esse poder. O sacrifício da vida implica algo mais que essa circunstância: é, para além das vicissitudes históricas e dos ciclos de vida política, a permanência do Estado. Os soldados cumprem as suas missões por diversos motivos. Por dever. Por convicção. Por obrigação inescapável. Por desempenho profissional. Por sentido patriótico, político ou moral. Só cada um, em sua consciência, conhece as razões verdadeiras. Mas há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate. Na verdade, em todos os episódios de guerra referidos e noutros mais, há fenómenos de natureza diversa. Houve decisões políticas de carácter exclusivamente nacional, mas também houve actos de colaboração em missões multinacionais, como houve decisões estratégicas colectivas das alianças de que Portugal é membro. Também conhecemos decisões políticas tomadas em vários quadros: com e sem legitimidade democráticas, com e sem referenda parlamentar. E até, finalmente, situações em que o Parlamento fica aquém daquela que deveria ser a sua função. Com efeito, a Constituição e as leis não obrigam, infelizmente, a que as missões no estrangeiro sejam aprovadas pelo Parlamento. Apenas admitem o “acompanhamento do envolvimento” militar no estrangeiro, o que nem sempre é rigorosamente cumprido. A análise destas diferenças pode ser importante do ponto de vista político, histórico e intelectual. Mas, no plano do reconhecimento de um povo, do respeito devido e do esforço do soldado, essas distinções são secundárias ou inúteis. Foram, simplesmente, militares portugueses que tudo deram ou tudo arriscaram. É esse o reconhecimento devido. Um antigo combatente não pode nem deve ser tratado de colonialista, fascista, democrata ou revolucionário de acordo com conveniências ou interesses menores. A sua origem, a sua classe social, a sua etnia, as suas crenças ou a sua forma de vínculo às Forças Armadas são, a este propósito, indiferentes: foram, simplesmente, soldados portugueses. Pelo sacrifício, pela duração e pelas implicações políticas, as guerras do Ultramar foram evidentemente as que mais marcaram as gerações das últimas décadas. Mas, ao longo dos trinta anos de democracia e de compromissos internacionais, muitas centenas ou milhares de cidadãos portugueses estiveram presentes em teatros de guerra e em missões de protecção da paz ou de mediação. Novos sacrifícios foram feitos, vidas foram interrompidas, carreiras e famílias suspensas. Todos esses militares, os de Luanda ou do Líbano, os da Guiné ou da Bósnia, merecem o nosso respeito. São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos. Nós, todos, os que fizeram ou não, os que concordaram ou não com as guerras, sem distinção de época, de governo ou de cor política. Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos. É certo que há, aqui e ali, expressão de gratidão ou respeito, numa unidade, numa autarquia, numa instituição, numa lei ou numa localidade. Mas, em termos gerais e permanentes, o esquecimento ou a indiferença são superiores. Sobretudo por omissão do Estado. Dos aspectos materiais aos familiares, passando pelos espirituais e políticos, o Estado cumpre mal o seu dever de respeito perante aqueles a quem tudo se exigiu. Em cada momento, em cada conflito, houve quem tivesse ideias diferentes e se opusesse à intervenção militar. Uns, mesmo nessas condições, cumpriram as ordens oficiais, outros recusaram-se. Por oportunidade, por convicção política, por uma interpretação diferente do interesse nacional, houve refracção e objecção. Em certos casos, pensava-se que as operações militares não tinham sido referendadas pelo povo soberano ou eram contrárias à ética e ao interesse nacional. Noutros casos, faltava o assentimento parlamentar. Aliás, o acompanhamento parlamentar do envolvimento militar é deficiente, apesar de estatuído pela Constituição. Houve soldados que combateram sob um regime autoritário, outros em regime democrático. Houve soldados que combateram integrados em forças nacionais, outros em forças aliadas ou internacionais. Como houve soldados que, de outras origens étnicas então e tendo hoje nacionalidade diferente, serviram nas Forças Armadas portuguesas. Em 1974, jovens militares decidiram derrubar o regime autoritário e dar uma oportunidade à democracia. Outros tentaram estabelecer um novo regime político que eventualmente limitaria as liberdades. Outros ainda ficaram independentes e equidistantes. Enquanto outros, finalmente, teriam preferido continuar sob o regime anterior. Prefiro os primeiros, os que ajudaram a fundar o Estado democrático. Mas, pelo sacrifício das suas vidas e pelo cumprimento dos seus deveres, respeito-os todos. Qualquer guerra ou envolvimento militar é controverso e suscita opiniões diversas e contraditórias. É assim no Afeganistão ou no Iraque. Foi assim no Ultramar. Como também na Flandres, nas Linhas de Torres ou em Aljubarrota. Essas divergências podem ser legítimas e compreensíveis. Traduzem ideias, interesses, convicções e doutrinas diferentes. Assim como versões diversas do interesse nacional. Mas isso não justifica a ausência de respeito por aqueles que combateram, que correram riscos, que ficaram feridos ou deram a sua vida. As diferenças de opinião e de crença não devem impedir de respeitar todos os que fizeram a guerra, com convicção ou por obediência ao poder político, desde que, evidentemente, o tenham feito sem abuso. Merecem as pensões que lhes são devidas. Merecem atenção e cuidado. Merecem um Dia do Combatente oficialmente estabelecido. Merecem que as suas associações sejam consideradas de utilidade pública. Merecem estar presentes nas cerimónias públicas e oficiais. Mas sobretudo merecem respeito. Os Portugueses são parcos em respeito pelos seus mortos e até o Estado não é muito explícito no cumprimento desse dever. Pois bem: está chegada a altura de eliminar as diferenças entre bons e maus soldados, entre Veteranos de nome e Veteranos anónimos, entre recordados e esquecidos. Pela Pátria ou pelo seu País, pelo Estado ou pela sua profissão, foi pela sua comunidade nacional que todos eles combateram e se sacrificaram. É possível que o comportamento do Estado, a atitude de políticos e os sentimentos de cidadãos para com os militares sejam determinados, em parte, pela avaliação que se faz do modo como deram ou retiraram apoio a certos dirigentes e a certas formas de regime. Não se nega o facto. Mas, perante o antigo combatente, recusa-se o juízo de valor. Aos Veteranos e antigos Combatentes que hoje estiveram connosco pela primeira vez, nada se lhes pede. Nada devem aos seus contemporâneos. Nós é que estamos em dívida para com eles. São o Estado e a sociedade que lhes devem algo. O que lhes pedimos hoje foi muito simples: aceitem a homenagem que o Estado e os Portugueses vos prestaram! Não estamos aqui a festejar a guerra, mas sim os soldados! E não há melhor dia, do que o Dia de Portugal, para o fazer.

[1062.] Mercurii dies... mesmo ausente

O 10 de Junho e os veteranos

O discurso mais marcante do último 10 de Junho – no que às comemorações oficiais promovidas pela presidência da República diz respeito – foi, na nossa opinião, o do presidente da comissão organizadora, o sociólogo, académico e antigo político, António Barreto. O autor do extraordinário trabalho ‘Portugal, um Retrato Social’ abordou uma temática que consideramos importante e do foro patriótico: O respeito que o Estado e a Nação devem aos seus veteranos de guerra.



Já por várias vezes falámos no assunto neste espaço. Trata-se de uma questão de respeito pelos que se sacrificaram pelo Estado – sem o discutir ou com ele concordar –, pelos que, em nome desse mesmo Estado, representaram Portugal em responsabilidades limite para o género humano, a de matar e de sobreviver. “Há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate”, afirmou António Barreto no discurso que elogiamos.

Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, os veteranos de guerra portugueses participaram – e abriram – o desfile militar das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 2010. Foi um gesto da presidência da República que ganha sentido com o discurso de António Barreto. “São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos”, afirmou António Barreto no discurso que proferiu, perante o Chefe de Estado, enquanto presidente da comissão organizadora das comemorações.
E António Barreto tem razão. E quando comparamos as formas como ingleses, americanos e franceses, por exemplo, acarinham os seus veteranos de guerra – em Inglaterra as pessoas usam uma papoila na lapela de 1 a 11 de Novembro de cada ano em sua homenagem, por exemplo – somos obrigados a reconhecer que muito há, ainda por fazer para que justiça seja feita.

Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de Junho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

[1067.] Dia vencido 26.06.10

Ontem na Assembleia Municipal de Mortágua, hoje na Assembleia Municipal de Penacova, o assunto das fusões de agrupamentos verticais de escolas está mesmo a aquecer o país (e o chamado "Interior" de forma especial). Realidades diferentes mostram necessidades diferentes de resolver problemas diferentes...
O que parece simples de perceber é que medidas tomadas sobre a forma de veredicto (sem discussão nem sensibilização das pessoas) dá em inevitável asneira.
Há um ano as escolas estavam em polvorosa a eleger directores (que até podiam vir de fora da escola mas que tinham de garantir estratégia e "cultura de escola"(?) para um mandato de três anos). Agora, tudo isso vai ao ar - e o Governo até só mudou em parte - e regista-se que nada disso era importante.
Independentemente de estar a favor ou contra a fusão dos agrupamentos (concordo com a ideia que é de 2003, do ministro David Justino - como bem lembrou ontem Afonso Abrantes, na Assembleia Municipal de Mortágua), a verdade é que este constante mudar de regras, de estratégias e de principios em nada pode beneficiar a Educação Nacional.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

[1066.] Dia vencido 25.06.10

Sócrates afirma que a tarefa/preocupação/obrigação de um político é/deve ser dar esperança aos portugueses. Diz ele que é 'puxar pela energia das pessoas'. Até é capaz de ter razão.
O problema é quando o faz de forma falsa e mentirosa, quando o faz faltando à verdade, quando ilude e falseia. O problema é que cumprindo essa tarefa/preocupação/obrigação de forma tão zelosa transmite a ideia de que vive num país diferente, com o qual os portugueses não reconhecem qualquer semelhança. O problema é quando num dia pede sacrificios e no outro garante que o pior já passou põe em causa uma outra tarefa/preocupação/obrigação de um politico, o compromisso com a verdade e com a confiança que as pessoas a si depositaram para gerir o que é de todos.
Aí não há motivação possível. Só há descrédito, não só nele, mas em tudo o que ele representa.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

[1065.] Dia vencido 24.06.10

Eu e a Inês fomos (estamos) a viver (por enquanto) na parte norte da Avenida Dr.Luís Navega, uma das mais compridas artérias do centro da cidade da Mealhada. Com a nossa "instalação", a população residente naquele lado da rua aumentou 40 por cento. É engraçado!

sábado, 12 de junho de 2010

O Dia



Voltarei às lides bloguísticas lá para Julho!

Adeus! Até ao meu regresso, com novo estado civil!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

[1061.] Mercurii dies na véspera do '10 de Junho'

10 Junho e a história de um feriado político

Evoca-se amanhã, 10 de Junho, Portugal, Luís Vaz de Camões e as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. O Chefe do Estado presidirá às cerimónias oficiais, em Faro, e condecorará trinta e cinco personalidades e duas instituições portuguesas de reconhecido mérito. Feriado nacional – desde o inicio do Estado Novo, na década de 30 do século passado –, e ocorrendo nos últimos dias do calendário escolar, nem na escola se falará no seu significado. Continuarão os portugueses a pensar que ser patriota é ter uma bandeira nacional hasteada na janela de casa, como lhes foi sugerido em Junho de 2004. Ou que é tocar uma corneta de plástico comprada num posto de combustível, como o consumismo bacoco parece fazer crer em Junho de 2010.
Escusando-nos a chorar, por agora, mágoas sobre a falta de pedagogia do patriotismo – ou matriotismo, como sugeria Natália Correia –, exaltaríamos a história do feriado em si, do ‘10 de Junho’, para justificar a cultura do símbolos ao serviço da ideologia, do regime – de todos eles – ou do sistema, como agora parece ser mais popular dizer.
A história do ‘10 de Junho’ começa como um acto provocatório – e não é sempre assim que começam as grandes coisas em Portugal? –. Em 1880, em plena monarquia constitucional, a Sociedade Geografia de Lisboa, contra uma aparente apatia governamental, decide comemorar, com pompa e circunstância, o terceiro centenário da morte do maior poeta português Luís Vaz de Camões. O culminar dos festejos assinalar-se-ia a 10 de Junho, dia em que a tradição recordava como o do seu perecimento. Na comissão organizadora das festividades pontificavam nomes conhecidos, como o de Teófilo Braga, Sebastião Magalhães Lima ou Ramalho Ortigão. Nomes de ilustres republicanos que tomariam papel preponderante no governo de Portugal, trinta anos depois. Diria Teófilo Braga, mais tarde: “A festa da nossa primeira glória literária e artística foi simultânea por todo o território português, e fez-se por fundações fecundas de iniciativa individual, pela cooperação activa dos municípios, que compreenderam que eram os representantes directos da liberdade nacional, e pelo acordo de todas as classes sociais. O Centenário de Camões excedeu tudo quanto era possível prever”. Os republicanos portugueses viram nestas comemorações uma oportunidade igualmente importante como a que fora aproveitada pelos oposicionistas italianos nas comemorações da morte de Petrarca, em 1874, ou pelos radicais franceses na comemoração de Voltaire e Rousseau, em 1878. E o republicanismo aproveitou o sucesso.


Caricatura de Bordalo Pinheiro
Camões, com o barrete republicano, com o povo na retaguarda, acossa o Rei, Carlos de Bragança, e o chefe do Governo, Anselmo Braancamp.
Na legenda pode ler-se: "Camões agradece aos altos poderes do Estado não terem ido à sua procissão e terem-n'o feito republicano, com o que muito ganhou a idea"

Com a implantação da República e a abolição de muitos dos feriados nacionais observados – quase todos religiosos – o Estado cria a possibilidade de os municípios terem um dia de feriado municipal. Alguns municípios aproveitaram feriados já observados, como a Quinta-feira da Ascensão, na Mealhada e em muitos municípios da Bairrada. Outros, como Lisboa, optaram por escolher outra data. 10 de Junho, o Dia de Camões, passou, então, a ser feriado municipal em Lisboa.
Seriam Oliveira Salazar e António Ferro que resgatariam a memória de Camões para exaltação dos ideais nacionalistas e da justificação histórica e imperialista do regime do Estado Novo. Logo depois de 1933, o dia 10 de Junho tornar-se-ia Dia de Camões e de Portugal, comemorado com pompa e circunstância em todo o Império. “Camões era o génio da pátria na sua dimensão mais esplendorosa”, justificava Ferro. Os lisboetas passaram a gozar feriado municipal em 13 de Junho, Dia de Santo António.

Inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 10 de Junho de 1944. No seu discurso, Oliveira Salazar proclama o Dia de Camões e de Portugal, como Dia da Raça Portuguesa.


Na inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 10 de Junho de 1944, Oliveira Salazar rebaptizaria o dia nacional como Dia de Camões, de Portugal e da Raça. A partir de 1963, quando a Guerra Colonial já se estendia por um segundo ano, a glorificação patriótica tornou o dia como de memória dos mortos e de homenagem às Forças Armadas Portuguesas. Tornaram-se objecto de propaganda do regime e de comiseração colectiva as sessões solenes de entrega de medalhas às viúvas e aos pais dos soldados mortos no ultramar português.


Criança com a medalha de um militar, atribuída a título póstumo.





A Revolução dos Cravos, logo após o 25 de Abril de 1974, e o Processo Revolucionário Em Curso (PREC) retiraram do 10 de Junho o simbolismo do Dia de Portugal e a denominação de Dia da Raça. O dia continuou a ser observado como feriado obrigatório, mas passa a ser, apenas, Dia de Camões. No Decreto-Lei n.º 210-A/75, de 18 de Abril, o governo de Vasco Gonçalves estabelece que o Dia de Portugal passa a comemorar-se a 25 de Abril. E assim acontecerá até 1978.
Um decreto-lei de 1977, DL 80/77 de 4 de Março, volta a alterar a designação do 10 de Junho, passando este a homenagear, para além de Camões, também a emigração na diáspora, sendo acrescentada a designação “das Comunidades Portuguesas”.
Terá sido o esforço da sociedade civil organizada, nomeadamente pelo Movimento Nacional Luís de Camões, presidido pelo Capitão Leal Marques – residente em Mortágua com ligação familiar e afectiva à Mealhada – que conseguiu que se voltasse a comemorar o Dia de Portugal a 10 de Junho. O Decreto-Lei n.º 39-B/78 de 2 de Março de 1978, do governo de Mário Soares, promulgado por Ramalho Eanes, estabelece a denominação que ainda hoje se reconhece no 10 de Junho: Dia de Camões, de Portugal, e das Comunidades Portuguesas.
Ainda hoje o 10 de Junho é de comemoração cautelosa. “Caiu o Carmo e a Trindade” quando o actual Presidente da República retomou as paradas militares e quando, chamou ao dia, Dia da Raça. Perceber que a mudança dos tempos e a perenidade da história valoriza a nossa cultura e tradição é, também, um gesto de patriotismo.

Editorial do Jornal da Mealhada de 9 de Junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

[1059.] Iovis dies em Corpus Christi


Hoje é, para os católicos, dia da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo,
vulgarmente conhecido como Dia do Corpo de Deus.
Eu prefiro a denominação original, a latina, Corpus Christi.
Esta solenidade - preceito obrigatório para todos os católicos - celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia.
Ou seja, dito de outra forma (vamos lá ver se eu consigo), nas igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana, existe o dogma (uma verdade indiscutível) de que através da repetição das palavras de Cristo na Última Ceia o pão e o vinho (na forma da hóstia e do vinho) se transformam em Corpo e Sangue de Cristo. Este fenómeno chama-se Transubstanciação - as substâncias pão e vinho transformam-se, realmente, em Corpo e Sangue.
Outras igrejas cristãs, protestantes, consideram que o fenónemo que ocorre é o da Consubstanciação - que as substâncias pão e vinho passam a ter consigo, numa dimensão meramente espiritual, o Corpo e o Sangue de Cristo.
Acredito que para a maior parte dos católicos isto seja perfeitamente irrelevante, e que, provavelmente, nem sequer possuem esta informação que, se conhecida, permitirá descodificar e perceber uma série de comportamentos e gestos litúrgicos.
Esta solenidade tem lugar 60 dias depois da Páscoa - 20 dias depois da Ascensão e na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, o que sucede ao de Pentecostes.
O Cânone 944 do Código do Direito Canónico recomenda que se faça neste dia procissão pelas vias públicas das localidades "para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo." É recomendado, também, que nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o Bispo (cân. 395).
Em Portugal, a procissão do Corpus Christi é antiquíssima. Há registo de que já no tempo do rei Afonso III ela se realizava. No entanto, há a informação de que tenha passado a ser obrigatória em 1282, por ordem de D.Dinis.
Esta procissão está associada a outras personalidades da nossa história.
Gil Vicente, o nosso primeiro dramaturgo terá sido o ourives da grandiosa custódia de Belém. A custódia é uma peça onde é colocado e transportado o Corpo de Cristo, dentro de uma superficie em vidro transparente, para veneração.
Luís de Camões, por exemplo, algures entre 1550 e 1553, decidiu, numa procissão do Corpus Christi, ferir com uma espada Gonçalo Borges, mancebo do Paço. Este gesto foi meio caminho andado para pôr o nosso poeta maior em problemas culminando com a sua ida para a India.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

[1058.] Mercurii dies

Nacional-porreirismo?

Muito se tem falado sobre a necessidade de reduzir o número de deputados na Assembleia da República. A constituição permite-o, a decisão está dependente de uma lei orgânica. Fazemos parte do grupo dos que aplaudiria a iniciativa e que até a estenderia a outros organismos do Estado, como às autarquias. Mas fazemo-lo conscientes do que pedimos, acreditando que nem todos estarão informados das consequências de tal medida.
Numa altura em que representantes e representados estão tão distantes uns dos outros, nas preocupações, nas prioridades, na observação da realidade, qualquer medida que reduza o número de representantes por representado vai intensificar a disparidade e aumentar a divergência. Havendo menos cadeiras para se sentarem os políticos, primeiro sentar-se-ão os profissionais, os decanos e só depois os jovens – muitos deles menos viciados e mais altruístas.
Por outro lado, menos deputados – eleitos através da mesma fórmula e de círculos eleitorais como os actuais – fará reduzir a diversidade partidária no parlamento e ajudará o bipartidarismo. No distrito de Aveiro, por exemplo, que elege dezasseis deputados, se for reduzido o número de mandatos, o Bloco de Esquerda e o CDS/PP deixarão de eleger deputados no parlamento nacional por este círculo. Provavelmente os pequenos partidos elegeriam em apenas nos círculos maiores.

Todas as medidas terão defeitos e virtudes. O que se poupará em salários e em benesses aos parlamentares portugueses, gastar-se-á em perda de diversidade e em oligarquização política.
Por outro lado, faria sentido iniciar o debate sobre a viabilidade de uma reforma administrativa profunda que fizesse rever o número e a viabilidade das freguesias e dos municípios portugueses. Há muitas freguesias que não têm razão de ser nos dias de hoje. São mais um empecilho do que uma facilidade à vida das pessoas, são um sorvedouro de dinheiros que acabam gastos em banalidades e fogo-de-vista.
Se numa Câmara Municipal os vereadores da oposição não têm, normalmente, pelouro atribuído, é porque não são verdadeiramente necessários para o funcionamento de um órgão colegial prático e executivo. Ou seja, se só quatro é que são necessários para que a máquina funcione, porque razão é necessário eleger sete? Não faz sentido que o líder da oposição integre o Governo para que possa cumprir as suas obrigações de oposição. Claro está que para tomar esta medida é necessário contrabalançar poderes, para que o poder de fiscalização e sufrágio democrático não seja posto em causa. Mas isso faz-se aumentando a regularidade das reuniões da Assembleia Municipal.
Os deputados não vão querer rever a lei que reduz o seu número porque isso ia diminuir a sua possibilidade de eleição. O mesmo se passa com os autarcas quanto à redução dos cargos electivos. Os portugueses não vão querer rever o mapa de freguesias porque isso vai mexer com bairrismos e aspectos de radicalismo social.
Vai ficar tudo na mesma, para não que ninguém se chateie. É o Nacional-porreirismo?

Editorial do Jornal da Mealhada de 2 de Junho de 2010