
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
[1164.] Exmo Sr. Ministro das Finanças...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010
[1163.] Da crise política II
Todos os partidos da oposição, todos, à saída disseram que tinham dito ao presidente que seriam intransigentes relativamente à subida de impostos e/ou reduções fiscais e relativamente à não diminuição da despesa pública. Ou seja, só não há orçamento aprovável se o Governo não quiser. Governo e Partido Socialista que, na reunião com o presidente enviou Almeida Santos (que nem deputado é, apesar de ser o presidente do partido), Franscisco Assis e mais duas pessoas que não identifico pelas fotografias. Mesmo que estas duas pessoas sejam secretários de Estado (e acho que não são), o facto de não ter ido a Belém alguém importante na Comissão Nacional do Partido e no Secretariado, nem ter ido um Ministro de Estado, revela bem a importância que o Governo está a dar ao problema.
O Governo está-se a marimbar para isto tudo. Quer fazer vergar os partidos da oposição obrigando-os a voltar atrás naquilo que têm dito e exigido, com a ameaça de uma demissão que sabem que não se concretiza, de facto, nos próximos dez meses.
O presidente fez o que lhe competia, mas se não houver acordo a culpa é do Governo que ainda não cedeu um centimetro.
Se o Governo não cede, não é aos partidos que cabe a responsabilidade da eventual demissão e consequente crise política!
[1162.] Novo Labour 2010
Depois das eleições de 6 de Maio, no Reino Unido, e da derrota de Gordon Brown e do Partido Trabalhista, abriu a campanha interna para a sucessão. Aqui, [1013.], em 10 de Maio, analisando o assunto - que me parece muito interessante - manifestei o meu entusiasmo pela eleição do candidato mais forte, David Miliband.David Miliband (na foto à esquerda) foi o último Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Trabalhista, fez um grande lugar e é um homem com características de liderança notáveis. Tony Blair chamava-lhe 'The Brains'. Já cheguei mesmo a afirmar que se trata de um líder europeu de futuro.
Assim que ficou claro que Nick Clegg, líder dos liberais-democratas, aceitava coligar-se com David Cameron para governar, o que afastava os trabalhistas definitivamente do poder, David Miliband anunciou a sua candidatura a líder do Labour. Foi o primeiro a fazê-lo.
Outros candidatos se lhe seguiram, nomeadamente o irmão mais novo de David, Ed Miliband (à direita na foto), que foi Ministro do Ambiente e da Energia no Governo de Brown. Os dois irmãos cedo se tornaram os mais fortes candidatos à liderança, apesar de haver mais três candidatos.
Ed é menos politizado, mais retórico. David é mais consistente, mas foi o aliado inglês nos crimes de Guantanamo. Ed é mais de esquerda, David é mais pragmático.
No sábado, 25 de Setembro, os trabalhistas foram a votos. Numa espécie de eleição "roda-bota-fora", em quatro rodadas, os Miliboys foram os preferidos... até ao round final.
No primeiro round ganhou David, com 37,78%, face a 34,33% de Ed. No segundo round volta a ganhar o irmão mais velho: 38,89% contra 37,47% de Ed. No terceiro round a vantagem ainda é de David com 42,72% face aos 41,26% de Ed.
No final, mesmo no finalzinho, Ed ganha ao irmão mais velho quando alcança 50,65% dos mais de 300 mil votos dos trabalhistas ingleses. Mesmo na quarta ronda, os deputados e os militantes continuaram a preferir David, mas os 'affiliated members' (pessoal dos sindicatos) passaram a preferir Ed.
David morreu na praia, perdeu por 1,30% dos votos, e nada mais nada menos do que para o seu irmão mais novo... O herdeiro de Tony Blair já disse que jamais entraria em luta com o irmão - as lutas fraticidas no seio dos partidos aqui ganha especial significado. Não fará parte do Governo sombra liderado pelo irmão. O que é pena. Ed Miliband, eleito há poucos dias já lidera sondagens - pela primeira vez em muitos anos - e está à frente de David Cameron, que ainda estará em estado de graça.
O lema de Ed Miliand é "A New Generation for Change" e garante: "A new generation leads our party, humble about our past and idealistic about aou future. It is a generation which thirsts for change. This week, we embark on the journey back to power” [É uma nova geração a guiar o nosso partido, humilde em relação ao nosso passado e idealista sobre o nosso futuro. É uma geração que tem sede de mudança. Esta semana, vamos embarcámos na viagem de volta ao poder].
Não resisto a colocar aqui dois videos, que achei hilariantes enquanto procurava saber mais sobre a eleição de sept. 25th.
Este primeiro video é o de Ed Miliband. Fala da Nova Geração para a mudança. Os primeiros dois minutos são interessantes - até porque fala do irmão -, o terceiro minuto é ridículo. No último minuto deste discurso de quase uma hora (que naturalmente não ouvi todo), Ed fala de optimismo: "Nós somos os optimistas na política de hoje. Por isso temos de ser humildes em relação ao nosso passado, temos de compreender a necessidade de mudança, temos de inspirar as pessoas com a nossa visão da sociedade. Temos de fazer passar a mensagem: Uma nova geração tomou conta do Labour. Uma geração optimista sobre o nosso país, optimista sobre o nosso mundo, optimista sobre o poder da política. Nós somos os optimistas, e juntos mudaremos a Grã-Bretanha".
O segundo discuros é anterior ao primeiro e é de David. Um discurso fantástico de quem perdeu e que fala como se tivesse ganho, onde até fala do que, provavelmente, o ajudou a perder, a Guerra no Afeganistão. Um daqueles discursos para guardar! Este discuros ouvi-o todo, os minutos quatro e cinco são fantásticos!
[1161.] 'In remembrance'
Foi a Rute Melo, jornalista do Diário As Beiras, que me chamou a atenção para o objecto. Tenho pena de não ter conseguido falar com as pessoas que a lá deixaram. Este é um bom exemplo de homenagem simples mas muito respeitadora aos que pereceram nos campos de batalha!
[1160.] Mercurii dies

O Presidente da República presidiu às cerimónias militares de evocação dos 200 anos da Batalha do Bussaco. O Chefe de Estado deslocou-se ao concelho da Mealhada, foi recebido no Palace Hotel do Bussaco pelo Presidente da Câmara Municipal da Mealhada – que estava acompanhado do Ministro da Defesa e do Chefe do Estado Maior do Exército – participou nas cerimónias militares e partiu.
A vinda ao Bussaco deu-se entre vários compromissos do Chefe de Estado no litoral do país, todos eles dedicados à temática do Mar, enquanto área estratégica do desenvolvimento de Portugal. Cavaco Silva esteve no Bussaco pouco mais de hora e meia. Participou na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas, proferiu um discurso, cumprimentou as centenas de pessoas que ali se haviam deslocado para o ver e saiu. Cavaco Silva não participou na inauguração da nova exposição multimédia do Museu Militar do Bussaco – que nesse dia fez 100 anos. Cavaco Silva – que no final desse dia havia de dizer que já andava a comer bacalhau há dois dias – não almoçou na terra da Mesa com Quatro Maravilhas, deixando ao Duque de Kent a presidência do repasto no Palace Hotel do Bussaco, no final das comemorações.
A passagem do Presidente – que não deixa de ser uma grande honra e um motivo de orgulho – pelo concelho cuja a Assembleia Municipal, há três meses, aprovou, por maioria, um voto de repúdio pelo seu “comportamento no falecimento” de José Saramago, reduziu-se ao essencial. Aliás, tão essencial como o “comportamento” nas exéquias fúnebres. Em ambas as situações – permitam-nos a opinião pessoal – o presidente agiu com coerência.
O discurso do Presidente da República foi, aparentemente, simples e circunstancial. Quando terminou, os jornalistas presentes – que esperariam um recado objectivo na véspera da recepção aos líderes dos partidos com assento parlamentar – garantiriam que nada disse de especial, para além de um apelo final à união em benefício da segurança e do desenvolvimento da Pátria!
Cavaco Silva é um homem hábil e profundamente metódico. O que disse no Bussaco, não se percebe de uma só leitura.
Desde a primeira linha do discurso, o Presidente da República transporta quem o ouve para a manhã de 27 de Setembro de 1810. A prelecção do Chefe de Estado, nalguns momentos com recursos estilísticos próximos da poética – o que não deixa de ser surpreendente em quem é acusado de ter falta de cultura geral –, fala “da angústia do sofrimento humano lado a lado com o esplendor da coragem e do patriotismo”. Da “raiva dos vencidos e o júbilo dos vitoriosos”.
Cavaco Silva fala de um Portugal, em 1808, desmembrado e fraco, apoiado e já subjugado a uma elite estrangeira paternalista. “Os portugueses”, no entanto, “distinguiram-se sobretudo no combate corpo a corpo, à baioneta, olhando nos olhos o inimigo, aí onde a coragem individual é submetida à maior das provas”.
O Presidente da República justifica a ida ao Bussaco com o “cumprimento de um compromisso solene: o de manter viva a memória do seu exemplo de dedicação à Pátria”.
A transposição que Cavaco Silva faz para a manhã de 27 de Setembro de 1810 é tal, que chega a encarnar a figura do oficial português que se vê na contingência de “empolgar os seus soldados”. E Cavaco encarna mesmo o personagem, “com voz, trémula de emoção, mas determinada, quebrando o silêncio”. O Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas, num tipo de discurso que nunca lhe tínhamos ouvido, fala, mesmo, aos “soldados de Portugal”. Ouve-se o que Cavaco acha que deve ter sido dito há duzentos anos, ou o que ele, como Chefe de Estado quer dizer hoje, aos portugueses de 2010?
“Temos de vencer”, diz Cavaco, “porque nós não combatemos para conquistar, mas para não sermos conquistados. Nós não combatemos para invadir, mas para obrigar o invasor a retroceder. Nós não combatemos para mudar os outros, mas para que não nos mudem a nós pela força. Porque nós combatemos para defender a nossa Pátria. Defendemos a nossa vida, a nossa maneira de viver (…) defendemos a nossa sobrevivência como Nação soberana, para que possamos continuar a ser quem somos e a ter o direito de agir de acordo com a nossa vontade”.
Na véspera de receber os líderes dos partidos políticos num momento em que, a três meses de eleições presidenciais, Cavaco Silva sabe que a crise politica é iminente e que nenhuma das soluções possíveis é vantajosa para a Nação, o Chefe de Estado usa da poesia para se mascarar de oficial de um exército de miseráveis para exortar a inspiração e a esperança “na nossa vida colectiva enquanto povo”.
“No passado os Portugueses souberam, sempre, vencer a adversidade e decidir, em liberdade, o seu próprio futuro como Nação soberana e independente. (…) Também hoje, para vencer os grandes desafios que enfrentamos, dependemos sobretudo da nossa determinação e do nosso esforço colectivo”, concluiu Cavaco.
O presidente da República: que sabe que não pode dissolver a Assembleia da República; que sabe que não pode obrigar a oposição a aceitar um orçamento que contraria o que tem propalado nos últimos meses; que sabe que não pode impedir o Governo de se demitir e de estar em gestão e campanha eleitoral nos próximos nove meses; que sabe que estando aberta a campanha eleitoral presidencial tem pelos menos quatro personagens a contestar tudo o que faz ou diz diante das televisões; que sabe que já não controla o que quer que seja, declara: “Temos o dever, perante os nossos antepassados e perante nós próprios, de nos unirmos em torno de soluções corajosas, justas e responsáveis que permitam assegurar um futuro de desenvolvimento, segurança e bem-estar para Portugal”.
O Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas falou à Nação e disse muito mais do que à primeira vista foi entendido. Falou da sua própria impotência perante a realidade dos dias de hoje. Falou da situação limite em que a Nação se encontra. E tudo o que disse foi em frente “aos soldados de Portugal”, foi aos “soldados de Portugal”.
Não se ouviu, nas televisões uma palavra proferida no Bussaco. O discurso (ao contrário de todos os outros) não está disponível no sítio da presidência [Foi colocado na madrugada de 29 de Setembro, já depois do fecho da edição impressa do JM]. Cavaco arriscou e exortou o exército a manifestar-se, disse muito mais do que seria de esperar. Mesmo que muito poucos o tenham entendido. Talvez tenha falado para memória futura.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
[1158.] Visto isto
ANTÓNIO BARRETO, citado no Diário As Beiras
No Diário das Beiras de hoje, 28.09.10
«Segundo o sociólogo António Barreto, a totalidade dos direitos dos cidadãos inscritos na Constituição Portuguesa não são “compatíveis” com o período de crise económica que o país atravessa.
As declarações do sociólogo foram feitas ontem (27) à noite, em Coimbra, no final de uma palestra sobre “Desenvolvimento Regional de Cidadania”, promovida pelo Rotary Club de Coimbra/Olivais.
À Lusa, o antigo ministro disse ser crucial operar uma distinção entre direitos fundamentais e direitos sociais e económicos, numa altura tão difícil.
“Vamos à Constituição e vemos que o cidadão português tem todos os direitos e mais alguns. Tem direito à saúde e educação de graça, à habitação”, lembrou António Barreto, garantindo que estes direitos não são, de momento, “compatíveis” com o estado das finanças públicas.
O sociólogo acrescentou que tem de ser feita a distinção “entre os direitos que devem ser absolutamente invioláveis – direito à privacidade, à integridade humana individual, direito à boa reputação, de voto, de expressão, de circulação – e os outros, que são interessantes, importantes, mas não são do mesmo nível de inviolabilidade como são os outros”.
António Barreto concluiu ainda que é contra a abertura de um processo de revisão constitucional nesta altura. Para o antigo governante, este processo deveria ser feito “daqui a seis meses ou um ano, depois da eleição do presidente da República e devia ser feita com mais calma”.»
Estas afirmações se viessem de um qualquer tipo da Direita eram classificadas como fascistas. Vindas de um intelectual - que muito aprecio - paladino da Esquerda são o quê?
[1159.] Marti dies
A Caruma - 'Pedra na mão' - 2010
Ouvi os A Caruma na TSF com o 'Nossa Senhora do SIS'. Achei piada, e ficou no ouvido que "estas pernas não são património!", dirigidas ao "homem de ontem ainda mais parvo do que tu!". Fica de facto no ouvido. O Pedro Costa fez o resto, a busca do nome do grupo no Facebook e o videoclip no 'Chá com Porradas' avivaram o interesse com a informação adicional de serem uns tipos da Marinha Grande que merecem ser ouvidos.
Têm uma sonoridade muito engraçada, a vocalista, o ritmo, o uso de uma tuba, e o intervencionismo das letras (só lhes conheço estes dois temas) faz-me lembrar a espanhola Bebé e os Deolinda.
Esta música é um troppo mais 'interventiva' (será o termo?)... dificilmente passará na TSF, mas é muito boa!
Pedro: Comprarei o album assim que haja guito!
[1157.] Da crise política
Percebo a estratégia do Governo para culpabilizar o PSD pela alegada falta de solidariedade na aprovação do Orçamento de Estado para 2011, mas não percebo os fazedores de opinião que num contorcionismo maquiavélico insistem em beneficiar o infrator.
Vamos lá ver se nos entendemos.
Em Agosto, Pedro Passos Coelho, julgo que no Pontal, apresentou os pressupostos para o apoio do PSD à viabilização do Orçamento de Estado para 2011. Fê-lo antempadamente (os criticos até o acusaram de estar a criar instabilidade antes do tempo), e declarou: Apoiaremos um Orçamento que não suba impostos e que diminua a despesa pública. O líder do PSD chegou até a clarificar que, por subida de impostos entendia, também, a redução de beneficios fiscais (ideia de que o CDS é paladino).
Em Agosto, o Governo estaria já a preparar o Orçamento - pelo menos assim se espera!
Em Agosto a posição do PSD ficou absolutamente clara.
Em Agosto Pedro Passos Coelho foi severamente criticado por estar a falar de orçamento tão cedo.
No inicio de Setembro, antes de 9 de Setembro (data limite para o Presidente dissolver a Assembleia da República) o PSD clarificou ainda que entendia que, uma vez já apresentados os seus pressupostos não fazia sentido discutir o orçamento antes de o Governo o terminar e apresentar.
Em meados de Setembro, já depois de 9 de Setembro, o Governo chama o PSD (e apenas o PSD) para encenar uma negociação do Orçamento. Mesmo assim, Passos Coelho vai a São Bento. E ouve que o Governo tenciona subir os impostos, nomeadamente o imposto sobre o consumo.
Passos Coelho garante que, assim, não há entendimento possível.
Em Nova Iorque - se fosse em Madrid seria crime de lesa-pátria - o Primeiro-ministro ameaça com a demissão que sabe que só se consubstanciaria daqui a 9 meses por imperativos constitucionais.
De quem é o ónus do fracasso da negociação?

Se passamos o tempo a exultar a política da seriedade e dos principios, faz sentido, agora, beneficiar os chicos-espertos?
Se o primeiro-ministro é mitómano, não serve.
Se não compreende o que é uma negociação, não serve.
Se não entende os sinais da economia, não serve.
Se está preocupado com eleições - legislativas e presidenciais -, não serve.
Se o Orçamento que tem para apresentar é mau, não serve.
Se não serve, demita-se! Mas demita-se mesmo e passe o cargo de primeiro-ministro ao ministro de Estado ou a outro gajo qualquer.
E eu continuo sem perceber como é que os fazedores de opinião não percebem que o gajo é perigoso!
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
[1156.] Lunae dies
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
[1155.] Mercurii dies
Não será fácil para nós, hoje, imaginar a aflição dos nossos antepassados, em 1810 – e antes, em 1807 e 1808 –, perante a informação de que mais de sessenta e cinco mil soldados franceses se deslocavam a caminho da capital do país, saqueando e destruindo tudo o que se lhes deparava pela frente. Sabendo, então, que eles estavam no caminho dos franceses e que o destino dos seus haveres, do pouco que teriam ganho de centenas de anos de feudalismo, estaria, assim à mercê de um invasor. Apesar de viver, ciclicamente, períodos de grande crise e instabilidade, há mais de 150 anos que em Portugal não se travavam guerras ou batalhas.
O pouco que poderemos sugestionar – até porque temos a tranquilidade do conhecimento histórico do nosso lado – é que os nossos antepassados terão tido medo, terão procurado pôr-se a salvo, terão procurado, com dignidade, preservar o que tinham. Ou então não…
Depois da ‘conquista’ de Almeida, em Agosto de 1810, Arthur Wellesley, visconde de Wellington, comandante supremo das forças anglo-lusas, terá dado ordem de evacuação a todas as populações que se encontravam no caminho dos franceses até Lisboa. Quando chegaram a Viseu, por exemplo, em meados de Setembro, os franceses encontraram uma cidade abandonada, desprovida de tudo, e sem os seus nove mil cidadãos residentes.
Os relatos que nos chegam hoje – duzentos anos passados – do comportamento da população face ao avanço dos invasores estarão, certamente, emoldurados pela apologética heróica da versão dos vencedores, mas não há dúvidas, com os registos de que dispomos, de que os portugueses enfrentaram esta dificuldade com coragem e determinação.
Registos de que foram queimadas as sementeiras e os bens alimentares que não poderiam ser evacuados ou escondidos, para que os franceses não se servissem deles. Registos de que só ficaram para trás os animais velhos, terrenos queimados e água envenenada para prejuízo do invasor que, com a criatividade de afamado gastrónomo, acabou por criar iguarias como a chanfana ou a lampantana mortaguense.
Com a coragem de quem destrói o que é seu para que outros disso não se usem, os nossos antepassados, por terras de Mortágua, Anadia e Mealhada, especialmente, deram testemunho heróico de patriotismo e bravura. Ao que tudo tem pouco importa perder parte. Ao que nada tem, a perda de parte é questão de sobrevivência. E muitas pessoas – contados como danos colaterais? – perderam a vida, mesmo não sendo soldados. Muitas terão sido agredidas e violadas, muitas terão sido as sequelas deixadas pelo invasor.
Mais do que Wellington, ou os soldados profissionais, o verdadeiro herói do Bussaco foi o povo português. Um povo feito de homens e mulheres que, não tendo podido fugir para o Brasil, como os dignitários do Estado viveram, na pele, as agruras da invasão.
Esta bravura dos nossos antepassados bem pode, hoje, ser tomada como exemplo e como incentivo à nossa resistência colectiva às dificuldades. Em 26 de Junho de 2010, em Sobral de Monte Agraço, por ocasião das Comemorações dos Duzentos Anos das Linhas de Torres, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, recorria ao legado dos nossos antepassados para falar dos dias de hoje: “Celebramos, invocando o seu exemplo, a capacidade de resistência e a capacidade de sofrimento dos portugueses. Os esforços e os sacrifícios que fizeram asseguraram a nossa liberdade. Mas também se fundavam na esperança de uma vida melhor. Aqueles que pegaram em armas, aqueles que resistiram acreditaram no futuro enquanto possibilidade, como ultrapassagem das limitações do presente. Tiveram a esperança de que fossem os portugueses a tomar por si as decisões que marcariam o seu destino. Também hoje, como sempre, se espera que sejamos nós próprios a tomar as decisões que se impõem. Diz-se que suportamos mal as contrariedades, sobretudo quando exigem esforço. Importa que, para além da coragem episódica e da urgência, para além da coragem como virtude ocasional, como impulso, tenhamos também a coragem da constância, a capacidade de manter firme e duradouramente uma posição que seja indispensável à construção de um futuro melhor”.
Há duzentos anos, os nossos antepassados eram camponeses que humilharam os exércitos da maior potência militar da época.
“Em Portugal combateu um povo que quis continuar a ser livre. Por isso são importantes momentos como este, momentos em que contamos a nós próprios estórias acerca daquilo que somos e daquilo que conseguimos fazer. Essa é a nossa herança mais valiosa, porque encerra em si memórias e valores que nos distinguem e nos unem. Aqueles portugueses fizeram o impossível apesar dos sofrimentos e dos sacrifícios a que foram submetidos. A todos causou espanto a capacidade dos portugueses para suportar as consequências da estratégia adoptada. O General Wellington foi bem claro, em Agosto de 1810 na sua Proclamação ao Povo de Portugal: ‘Os portugueses vêem agora que não têm outro remédio para o mal que os ameaça senão a determinação para a resistência. Resistência e determinação para tornar o avanço do inimigo o mais difícil possível, tirando-lhe do caminho tudo o que é valioso ou que possa contribuir para a sua subsistência ou para frustrar o seu progresso’”, exaltava Cavaco Silva.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
[1154.] Mercurii dies
Os seiscentos e cinquenta mil votos que contribuíram para a eleição das “7 Maravilhas Naturais de Portugal” não elegeram a Mata Nacional do Bussaco. A noticia, não sendo uma surpresa – essa possibilidade esteve sempre em cima da mesa, desde o inicio – não deixa de proporcionar um certo paladar de frustração em todos os que se empenharam na promoção do Bussaco, votaram e foram acompanhando, com entusiasmo, o evoluir da candidatura e a superação das sucessivas etapas.
Na noite em que foram conhecidos os resultados, e já depois da consagração das “7 Maravilhas Naturais de Portugal”, no Facebook – uma das redes sociais que serviu como plataforma para grande parte da campanha feita em prol do Bussaco – alguém (que não identificamos por não termos pedido autorização) declarava: “Não vencemos mas ganhámos! Ganhámos em proximidade, em preocupação, em maior atenção ao rico património natural que é o nosso! E este é o desafio que não pode terminar aqui! Ser finalista criou um espírito que agora não pode retroceder! Parabéns a todos os que se empenharam em eleger a mata do Buçaco. Parabéns a todos os que foram eleitos!”.
Este comentário reflecte bem e vai ao encontro do que procurámos salientar no Editorial que publicámos a 1 de Setembro: “A importância deste concurso está muito mais na campanha, no burburinho e na divulgação das candidaturas que permitiu, do que no valor intrínseco da distinção no futuro. Também neste caso – e esta é apenas a nossa opinião – o caminho é mais importante do que o acto de chegar ou de ser o primeiro”.
Uns acreditam que se trata de sorte, outros falarão em coincidências, alguns dirão que é a Providência. O que é um facto é que este concurso das “7 Maravilhas Naturais de Portugal” apareceu na altura ideal, surgiu como a grande oportunidade, o óptimo argumento para – depois de criada a Fundação Bussaco – se restabelecerem e fortalecerem os laços entre aquele património e a população. E a oportunidade foi aproveitada com grande sucesso, e isso sim, é digno de registo.
“Do caminho feito ficam três garantias. A primeira é a de que o Bussaco é um património natural riquíssimo (mesmo que tenha sido plantado pelo homem, não deixa de ser uma grande obra da natureza) que não tem paralelo em Portugal. A segunda garantia é a de que o facto de não ser, ainda, Património da Humanidade é, apenas, circunstancial e de natureza meramente política. A terceira garantia é a de que a comunidade da região e do concelho da Mealhada, especialmente, recebeu a ‘devolução’ do Bussaco de braços abertos e está ansiosa por se envolver na sua requalificação e em causas comuns de mobilização colectiva”, dissemo-lo há quinze dias e sublinhamo-lo hoje, especialmente.
Tivemos oportunidade de, na pessoa do presidente da Fundação Mata do Bussaco, antes mesmo de se saberem os resultados divulgados a 11 de Setembro, retribuir o agradecimento que dirigiu ao Jornal da Mealhada por “toda a amizade e carinho que tem demonstrado pela Mata Nacional do Buçaco, pela promoção e divulgação da nossa Região, do nosso Património e da nossa Mata!”. Nessa altura, fizemos questão de salientar que o Jornal da Mealhada procurará estar, sempre, – com a parcialidade de quem tem como mote ser um jornal “regionalista”, com vinte e cinco anos, criado “na defesa intransigente dos interesses da região onde se insere” – na linha da frente de todas as causas que promovam o património, os valores e as pessoas do concelho da Mealhada e da região. Continuaremos sempre prontos para Servir.
Editorial do Jornal da Mealhada de 15 de Setembro de 2010
O trecho a itálico não foi publicado na edição impressa do Jornal da Mealhada
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
[1153.] Escola de Sernadelo I
Primeira Parte
Andei à procura de dados, mas eu nesse tempo ainda não sabia escrever. Andei a vasculhar nos albuns fotográficos em casa da minha mãe, mas nada. Não encontro nada que me ajude a determinar o dia em que me estreei nas lides estudantis...
Terá sido em Outubro. As aulas, há vinte e cinco anos, começavam em Outubro... (Roam-se os putos que começaram este ano a 13 de Setembro! E que já aqui andam aos guinchos para nos infernizar os miolos).
A minha primeira escola foi a de Sernadelo e a minha primeira professora foi a Dona Maria Eugénia, da Pampilhosa, esposa do professor Augusto Dias, que me antecedeu no cargo de Director do Jornal da Mealhada.
A escola de Sernadelo era, na altura, cor-de-rosa, e sofreria uma grande remodelação no interior no ano seguinte. Não me lembro bem como era neste Outubro de 1985... lembro-me que era imensa e que o quadro dos alunos da primeira classe era uma velha ardósia preta, quadrada que a escola ainda conserva.
Lembro-me dos meus colegas. De quase todos. Daqueles de quem gostava mais e dos que gostava menos. Eramos alunos das quatro classes na mesma sala. No ano seguinte seria diferente. Mas nesse primeiro ano a molhada era total.
Tinha aulas só à tarde e passava a manhã a brincar lá em baixo, na residencial da minha avó onde agora resido com a Inês.
Lembro-me de ir para a escola num dia cinzento (ou seria eu próprio), de ir logo sozinho e de esperarmos o carro vermelho da professora, um Renault, com a euforia de quem espera que ele não apareça. Lembro-me, mais tarde, da fila para corrigir os trabalhos de casa - intermináveis - e de "quem ir ao ar perder o lugar". Lembro-me da tensão da régua e dos ralhetes da professora. Lembro-me do recreio - sempre passado ao pé das raparigas - e de ir fazer as minhas necessidades fisiológicas a casa - que era colada à escola. Lembro-me do meu primeiro manual escolar - horroso, cor-de-rosa com um caracol na capa (e de o Diogo uma vez o ter rasgado em várias parte). Lembro-me de, como bom bairradino e filho de um vendedor de automóveis, ter começado por saber escrever 'pipa' e 'popó'.
Foi há 25 anos.
Arre!
domingo, 12 de setembro de 2010
[1152.] Bussaco falhou eleição das Sete Maravilhas Naturais
A Declaração Oficial foi feita esta noite, sábado, 11 de Setembro, no Porto de Mar em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, na Região Autónoma dos Açores.
As Sete Maravilhas Naturais de Portugal são:
- LAGOA DAS SETE CIDADE, Ilha de São Miguel, Região Autónoma dos Açores - Zonas Aquáticas Não Marinhas;
- PORTINHO DA ARRÁBIDA, Distrito de Setubal - Praias e Falésias;
- FLORESTA LAURISSILVA, Região Autónoma da Madeira - Florestas e Matas;
- PAISAGEM VULCÂNICA DA ILHA DO PICO, Região Autónoma dos Açores - Grandes Relevos;
- GRUTAS DE MIRA D'AIRE, Distrito de Leiria - Grutas e Cavernas;
- RIA FORMOSA, Distrito de Faro - Zonas Aquáticas;
- PARQUE NATURAL DA PENEDA GERÊS, Distrito de Braga - Areas Protegidas.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Duzentos anos depois da Grande Batalha, que marcas ficaram na paisagem, nas tradições, na cultura e nos rostos das gentes?quarta-feira, 8 de setembro de 2010
[1150.] Mercurii dies
Com a leitura da sentença – ou da sua súmula? – do tribunal de primeira instância, na passada sexta-feira, termina um capítulo importante – apenas isso – do famoso ‘Processo Casa Pia’, no qual foram julgadas – e agora condenadas – algumas figuras públicas nacionais pela prática de abuso sexual de menores, que estavam à guarda do Estado, internos numa instituição pública.
O processo nasce, depois de tomar proporções públicas, na sequência de uma reportagem da SIC e do Expresso, em Novembro de 2002. No entanto, desde os finais da década de setenta do século passado que o Estado conhecia denúncias de que havia a prática de lenocínio com jovens casapianos.
O ‘Processo Casa Pia’ nasce num momento em que em Portugal já se assistia a uma grave crise na credibilidade do sistema judicial. Recordamos que, em 2002, já era notório o sentimento colectivo de que “os processos dos poderosos acabavam todos por prescrever” – os casos Melancia, Costa Freire, Zezé Beleza provavam-no. Perante o escândalo da rede de pedofilia, como na altura se chamou, os operadores do ‘Poder Judicial’ português – todos eles – estabeleceram que o ‘Processo Casa Pia’ teria de ser um caso exemplar. A maneira como o sistema conseguisse resolver um processo com esta complexidade, e com esta atenção mediática – causada pela repugnância dos crimes em causa e pela notoriedade dos acusados –, revelar-se-ia fundamental para a credibilização da Justiça. Assim se pensava no final de 2002.
Este peso, a pressão, a responsabilidade de ter nas suas costas “a sobrevivência do sistema judicial e, em consequência, da Democracia e do Estado de Direito”, não pode ter beneficiado o trabalho dos envolvidos na investigação. Era preciso arranjar suspeitos com rapidez. Era preciso que esses suspeitos fossem, de facto, figuras públicas com notoriedade, para responder às expectativas iniciais.
O julgamento tinha que acontecer da mesma maneira, de forma célere, sem incidentes processuais relevantes – dentro do possível com sete arguidos e um milhar de testemunhas – e, da sentença, tinham que resultar condenações. Independentemente da culpa dos acusados – que não discutimos por não conhecermos o processo, nem nos arriscarmos a tecer considerações ‘pelo que nos parece’ – este processo, na demanda da moralização, só poderia ter os efeitos contrários.
A Justiça quer-se distanciada do burburinho para ser justa – por isso, na imagem, é cega. Por outro lado, mais do que um sistema operativo de administração de uma função soberana do Estado de promoção de igualdade material e defesa da segurança e tranquilidade colectivas, a Justiça é um sentimento. Uma dimensão subjectiva através da qual as pessoas se sentem ou não tranquilas com o sistema e, em consequência, com a comunidade onde estão inseridas. Num caso em que cada sessão de julgamento é comentada na televisão, por pessoas que não conhecem o processo, não há possibilidade de promover a tranquilização e credibilização. Ou seja, este processo nunca poderia – em tempo algum – beneficiar a credibilidade no sistema judicial português.
Oito anos passados, o ‘Processo Casa Pia’ acaba, então, por ser mais do que um processo-crime ou caso de justiça. Foi um conjunto de muitos outros processos. Foi, desde logo, um processo de credibilização da Justiça portuguesa. Uma tentativa que hoje se percebe amplamente frustrada. Foi um processo de consciencialização de que o segredo de Justiça é um mito e de promoção do mito de que o poder desregrado da comunicação social é um direito. Foi um processo de purga política – lembremos as escutas a Ferro Rodrigues, António Costa e Jaime Gama, e os efeitos que provocaram. Foi, também, um processo em que foi notória a fragilidade do sistema judicial à manipulação do poder político – com as alterações à la carte feitas ao Código Penal e ao Código de Processo Penal, ‘encomendadas’ para casos concretos. Foi um processo da demissão e desresponsabilização do Estado no que de repugnante acontece com crianças que estão à sua guarda.
Infelizmente, não há razões para, com a leitura da sentença e a condenação dos prevaricadores, nos sentirmos mais tranquilos.
Editorial do Jornal da Mealhada de 8 de Setembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
[1149.] Marti dies
Porque já começaram as Vindimas. Porque esta é uma daquelas músicas bem escritas, com bom poema. Porque o Vinho é português - seja do Porto (há videiras na Ribeira?) ou da Bairrada. Aqui fica a homenagem a quem faz vinho "fruto da videira e do trabalho do Homem"!
Vinho Do Porto
Letra de Carlos Paião
Primeiro a serra semeada terra a terra
Nas vertentes da promessa
Nas vertentes da promessa
Depois o verde que se ganha ou que se perde
Quando a chuva cai depressa
Quando a chuva cai depressa
E nasce o fruto quantas vezes diminuto
Como as uvas da alegria
Como as uvas da alegria
E na vindima vão as cestas até cima
Com o pão de cada dia
Com o pão de cada dia
Suor do rosto pra pisar e ver o mosto
Nos lagares do bom caminho
Nos lagares do bom caminho
Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado
Generoso como o vinho
Generoso como o vinho
E pelo rio vai dourado o nosso brio
Nos rabelos duma vida
Nos rabelos duma vida
E para o mundo vão garrafas cá do fundo
De uma gente envaidecida
De uma gente envaidecida
Vinho do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira mar
À beira Porto
À vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o nosso mar
Vinho do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira mar
À beira Porto
À vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o desconforto
Para o que anda torto
Neste navegar
Por isso há festa não há gente como esta
Quando a vida nos empresta uns foguetes de ilusão
Vem a fanfarra e os míudos, a algazarra
Vai-se o povo que se agarra pra passar a procissão
E são atletas, corredores de bicicletas
E palavras indiscretas na boca de algum rapaz
E as barracas mais os cortes nas casacas
Os conjuntos, as ressacas e outro brinde que se faz
Vinho do Porto vou servi-lo neste cálice
Alicerce da amizade em Portugal
É o conforto de um amor tomado aos tragos
Que trazemos por vontade em Portugal
Se nós quisermos entornar a pequenez
Se nós soubermos ser amigos desta vez
Não há champanhe que nos ganhe
Nem ninguém que nos apanhe
Porque o vinho é português
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
[1148.] Lunae dies
domingo, 5 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
[1146.] Iovis dies
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
[1145.] Mercurii dies
Não nos envergonhamos de afirmar que fomos dos primeiros apoiantes da candidatura da Mata Nacional do Bussaco às 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Acompanhámos cada passo da candidatura e – com a parcialidade de quem tem como mote ser um jornal “regionalista”, “na defesa intransigente dos interesses da região onde se insere” – fomos apelando à mobilização e ao voto de todos os nossos leitores na única candidatura finalista dos distritos de Aveiro, Coimbra e Viseu ou localizada num raio de várias centenas de quilómetros.
(Faça-se um parênteses para deixar claro que, apesar da cerca da Mata Nacional do Bussaco se localizar, exclusivamente, no território do concelho da Mealhada – distrito de Aveiro –, não é de todo admissível que não se entenda esta candidatura – e a eventual eleição – como sendo de toda a Serra do Bussaco e, especialmente, da sua paisagem. Ou seja, integra, naturalmente, os territórios de Anadia, e, principalmente, de Mortágua – distrito de Viseu – e Penacova – distrito de Coimbra. Haverá paisagem mais caracteristicamente ‘bussaquiana’ do que a das aldeias de Trezoi, Meligioso, Moura, Sula ou Santo António do Cântaro? Essa é a paisagem do Bussaco popular, da montanha moldada pelo homem, como tão bem descreveu Fialho de Almeida).
Há poucos dias ouvíamos alguém garantir que não era justa a candidatura, na categoria de ‘Florestas e Matas’, de duas paisagens consideradas já Património da Humanidade com a Mata Nacional do Bussaco, que ainda hoje reúne razões para que se faça o apelo à requalificação, ao investimento por parte dos responsáveis governamentais. Retorquimos, na altura, que a justiça será dada pelo volume de votos e não por quaisquer outros critérios. Ganhará a candidatura que mais votos tiver. Ganhará a candidatura que for suportada por uma comunidade mais mobilizada, mais empenhada, que se mostre mais orgulhosa do seu património e da sua herança.
Choca-nos, confessamos, que no próprio nome das duas candidaturas oponentes à da Mata do Bussaco apareça a indicação “Património da Humanidade”. Também não somos indiferentes ao argumento de que não é completamente transparente o facto de o concurso ser patrocinado pelo “Turismo dos Açores” – região que conta com um quarto das candidaturas e com a realização das cerimónias de lançamento e de apresentação dos resultados. Mas já nada disso é importante, agora que o concurso está praticamente no fim.
O facto de a candidatura do Bussaco já ter estado na liderança permite-nos pensar que –depois do boom que resultou da transmissão televisiva de um programa de grande audiência em cada uma das candidaturas (de que o Bussaco também beneficiou) –, com mais um pouco mais de esforço, a eleição pode alcançar-se.
É por isso que a iniciativa “Abrace o Bussaco”, no próximo domingo, se reveste de particular importância. Trata-se de uma iniciativa que vai merecer a atenção de meios de comunicação social com carácter nacional o que permitirá difundir um último apelo ao voto, benefício que pode não ser acessível aos mais directos oponentes. Por outro lado, e talvez mais relevante, é uma realização que está a merecer o interesse e a adesão de muitas pessoas, o que é fundamental para o reconhecimento colectivo de que está feita a reconciliação dos cidadãos com o património do Bussaco. Uma reconciliação que tem benefícios económicos importantes para toda a região – como já tantas vezes aqui o demonstrámos – e que acaba por ser o que fica deste concurso, a grande vitória desta candidatura. E, isso sim, é importante e significativo.
Visitámos, recentemente, três dos sete locais que em 2007 foram consagrados como “Maravilhas de Portugal”. Em apenas um deles é feita a referência à honraria, com a bandeira – já desbotada – hasteada, discreta, ao lado do monumento. A importância deste concurso está muito mais na campanha, no burburinho e na divulgação das candidaturas que permitiu, do que no valor intrínseco da distinção no futuro. Também neste caso – e esta é apenas a nossa opinião – o caminho é mais importante do que o acto de chegar ou de ser o primeiro.
E do caminho feito ficam três garantias. A primeira é a de que o Bussaco é um património natural riquíssimo (mesmo que tenha sido plantado pelo homem, não deixa de ser uma grande obra da natureza) que não tem paralelo em Portugal. A segunda garantia é a de que o facto de não ser, ainda, Património da Humanidade é, apenas, circunstancial e de natureza meramente política. A terceira garantia é a de que a comunidade da região e do concelho da Mealhada, especialmente, recebeu a ‘devolução’ do Bussaco de braços abertos e está ansiosa por se envolver na sua requalificação e em causas comuns de mobilização colectiva.
O ‘Abraço ao Bussaco’ no próximo domingo, mais do que uma campanha de mobilização de massas é um gesto de demonstração de carinho e de acolhimento, um gesto de manifestação de afectividade e de amor – pelo regresso do filho pródigo que chegou finalmente a casa, ao convívio dos que o mais amam.
Editorial do FRONTAL de 31 de Agosto
Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de Setembro


