terça-feira, 19 de outubro de 2010

[1182.] Reflexões Peregrinas #4



Na Estrada de Santiago
Madredeus


Na Estrada de Santiago
Madredeus

Carreiro
Deserto
Tão longe
E tão perto
Anseio
Secreto
Encontro
Mais certo

Caminha
Na estrada
De Santiago
Na estrada
Marcada
Por tanto passo
Ao longo
Dos séculos

Passaram
Milhões
A vista
Cansada
De tantas
Paixões

Percorre
A estrada
De Santiago
Estrada
Marcada
Por tanto passo

E como
Se sente
Tão Acompanhado
Se não vê
Mais gente
Nem tem
Ninguém ao lado

Caminha
Na estrada
De Santiago
Na estrada
Marcada
Por tanto passo

[1181.] Marti Dies



A Estrada da Montanha
Album 'Metafonia'
Madredeus & A Banda Cósmica

Através de comunicado à imprensa, é hoje divulgada a informação de que o projecto 'Madredeus & A Banda Cósmica' termina a sua existência na próxima segunda-feira, 25 de Outubro, quando for lançado o seu terceiro albúm "Castelo de Areia".

Pelo conteúdo do referido comunicado, percebe-se que o último albúm foi produzido no ano passado e que A Banda Cósmica terminou em Dezembro, por falta de meios. Não conseguiu perceber se Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade terminam, também, e definitivamente com os Madredeus.

Eu sou grande fã dos Madredeus. Deve ser das poucas coisas em que fui mesmo aficionado, de os ir ver a sitios longinquos e esquisitos, de ter os albuns todos, de acompanhar todas as movimentações durante a maior parte da sua vida. Confesso que com a saída de Teresa Salgueiro, Fernando Judice e José Peixoto, a coisa esmoreceu e apesar de gostar da sonoridade deste projecto com a Banda Cósmica - também porque admiro muitissimo Pedro Ayres Magalhães - nunca me mostrei muito disponível para lhes devotar a dedicação de outrora. Não tenho nenhum dos albuns desta segunda vida dos Madredeus que acabaram por ser, se calhar, mais uma estadia nos Cuidados Continuados do que uma vida real e concreta.

Hoje, com esta noticia, sinto um misto de tristeza, porque acabaram os Madredeus, mas também de alivio... porque já não eram os meus Madredeus!



Estes Madredeus:


A Estrada do Monte

Album Lisboa (ao vivo no Coliseu dos Recreios) de 1992
Madredeus

Uma das minhas músicas preferidas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

[1180.] Hoje

Hoje é dia de CERNUNNOS
Cernnunos é o nome de um dos deuses celtas mais antigos e também conhecido como Deus Cornífero, por ser muitas vezes representado como um homem com chifres adornando a cabeça. É o deus da fertilidade, da abundância, e Patrono da Caça para os povos antigos. Às vezes era representado alimentando animais; também podia mudar de forma e aparecer como cobra, lobo ou veado.
Na vertente Britânia Continental da Tradicão Céltica, Cernunnos também assumia um importante papel como Consorte da
Deusa Tríplice. O deus é também gentil com os animais silvestres. Na forma do Deus Cornudo, ele é por vezes representados por chifres em sua cabeça, que simbolizam sua conexão com tais bestas. Em tempos mais antigos, acreditava-se que a caça era uma das atividades regidas pelo deus, enquanto a domesticação dos animais era vista como voltada à deusa.
Os domínios do deus incluíam as florestas intocadas pelas mãos humanas, os desertos escaldantes e as altas montanhas. As estrelas, por serem na verdade sóis distantes, são por vezes associadas a seu domínio.
Símbolos normalmente utilizados para representá-lo ou cultuá-lo incluem a espada, chifres, a lança, a vela, ouro, bronze, diamante, a foice, a flecha, o bastão mágico, o tridente, facas e outros. Criaturas a ele sagradas incluem o touro ,o cão, a cobra, o peixe, o dragão, o lobo, o javali, a águia, o falcão ,o tubarão, os lagartos e muitos mais.

[1183.] Reflexões Peregrinas #3

E enquanto dois apostolos seguiam para Emaus, no dia da Ressurreicao, Jesus chegou ao pé deles e, sem que eles o Reconhecessem disse:

«Que palavras são essas que, caminhando trocais entre vós? E porque estais tristes?
E, respondendo um, cujo nome era Cléopas, disse-lhe: És tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias?»
(Lc 24, 17-18).

Eles contaram o que se passou e Jesus respondeu: "E nao tinha de ser assim?"

Caminhar é encontrar. Mas num acto em que só encontra quem procura. Dificilmente aquele que não se dispõe a procurar encontrará seja o que for.

Tal como estes dois caminhantes de Emaús se cruzaram com Cristo, falaram com Ele, responderam a perguntas que Ele lhes colocou e não o conseguiram reconhecer.

O Caminho também é assim. O Caminho dá-nos respostas, assim saibamos nós saber fazer as perguntas.

O Caminho encontra-nos, se nos tivermos predisposto a procurar!

Se tivermos deixado tudo para o Seguir!

[1184.] What can you do for your country...

Na TSF pergunta-se a figuras públicas "o que podem fazer pelo país". As respostas não têm sido brilhantes, o que também não ajuda a Nação... Eu próprio, certamente, não saberia fazer melhor... mas considero que não pode deixar de se dizer que, aos homens e mulheres de hoje, cabe:
- Serem promotores de esperança junto dos que os rodeiam;
- Serem portadores de sentido de acção, de intervenção, de militância, de luta e defesa dos valores que acreditam, pelo incentivo ou pelo exemplo "desse serviço" de intervenção, de acção pelo que acreditamos;
- Serem bons cidadãos, bons pais e mães, bons filhos, bons amigos, bons profissionais, bons vizinhos, bons colegas, bons ouvintes, serem simplesmente bons.

domingo, 17 de outubro de 2010

[1179.] Reflexões Peregrinas # 1

«O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, deixa a tua familia e a casa do teu pai para a terra que Eu te mostrarei. E abencoar-Te-Ei e engrandecerEi o teu nome e tu serás uma benção!»
(Gen 12, 1-2)


Caminhar, peregrinar é um acto libertário. É uma expressão de liberdade, de libertação. É, também, um acto de Amor. De Amor aos Outros - porque é Amor à Liberdade -, de Amor por Nós próprios.
A Nação de Israel nasce com um desafio, como um caminho!
Sai da tua terra, deixa a tua familia! Vai! Procura-te!

sábado, 16 de outubro de 2010

[1178.] O Orçamento

Na manhã de sexta-feira, 15 de Outubro, durante a manhã, José Socrates, no Parlamento, dirigindo-se a Miguel Macedo - líder da bancada do PSD -, proclamava de forma eloquente e vigorosa:

«Não há quem perceba! Fazem-se apostas: O que é que o PSD vai fazer? Vai votar a favor? Vai abster-se? Vai votar contra?
Ó senhor deputado: O que lhe quero dizer é que esta incerteza é negativa para o país. E, portanto, se lhe posso dizer alguma coisa neste momento, é que é momento de o PSD terminar com o tabu! Terminem com o tabu!»

Miguel Macedo ainda respondeu ao primeiro-ministro dizendo-lhe que se tinha pressa que apresentasse o orçamento mais cedo e que o PSD não iria pronunciar-se sobre um documento que não conhecia.

O dia 15 de Outubro é o último dia do prazo que o Governo dispõe para apresentar o Orçamento de Estado na Assembleia da República. Durante a manhã, José Sócrates insurgia-se pelo facto de o PSD ainda não ter dito de que forma iria votar o documento que ainda não conhecia, mas só às 23h 25m ( 35 minutos antes de o prazo terminar) é que o Ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, entregava duas pens, supostamente, com o Orçamento de Estado para 2011. Isto depois de sucessivos adiamentos e dos representantes dos partidos andarem a tarde toda à espera do documento.

Afinal as pens não traziam o Orçamento, traziam o articulado da Proposta de Lei do Orçamento, mas os Mapas e os documentos de apoio, os numerozinhos que são o Orçamento... nada, nem vê-los. Só no dia seguinte (hoje, portanto) de manhã é que os tais mapas seriam entregues e só hoje, às 15 horas é que o Ministro das Finanças fazia uma apresentação pública - aos portugueses, "aos mercados" e às "agências de rating" - do documento..

Está bom de ver que, na manhã de sexta-feira, 15 de Outubro, não só o PSD não conhecia o documento sobre o qual o Primeiro-ministro exigia que se pronunciasse, como o próprio Primeiro-ministro não o conheceria, por que o documento, pura e simplesmente, na manhã de sexta-feira ainda não estava pronto!

É preciso ter muita lata!

ADENDA!
18.10.10 - 11h
O CDS denuncia que falta pelo menos um Mapa no Orçamento... Quer dizer, faltar não falta... O Governo repetiu o Mapa do ano passado referente às transferências para as Empresas Públicas... e logo este mapa! Talvez colasse... se os partidos não precisam de ler o documento para definirem se o aprovam ou não aprovam - como sugeria o PM na sexta-feira de manhã, também nem vão notar que o mapa das transferências para as empresas públicas é o do ano passado!
18.10.10 - 17h 20m
O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (não é o Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento, é mesmo o dos Assuntos Fiscais), Sérgio Vasques, reconhece ao Jornal de Negócios que o Orçamento tem erros que vão ser corrigidos.
Um quarto de hora antes, era a Ascendi, da Mota Engil, um fornecedor, portanto, que informava o Jornal de Négócios que o quadro da "reposição do equilibrio financeiro da empresa" também estava errado!
19.10.10 - 16h 50m
Hoje de manhã, quando estava a escrever isto, tendo-me informado com um Deputado da Nação, percebi que "o Mapa que elenca as transferências do Estado, através do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, para despesas de funcionamento de estruturas autónomas como a Fundação Mata do Bussaco – à hora do fecho desta edição, na manhã de terça-feira, 19 de Outubro – não tinha ainda dado entrada na Assembleia da República, nem, por maioria de razão, havia sido distribuído aos deputados da Comissão de Agricultura. Pelo que, não é, ainda, conhecido o valor que o Estado entregará à Fundação responsável pela Mata Nacional do Bussaco para as suas despesas de funcionamento na missão que, o próprio Estado, legalmente lhe conferiu".

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

[1176.] Marcha dos Combatentes da Rotunda




Marcha dos Combatentes da Rotunda

O Vitorino é, provavelmente, um dos mais interessantes e bem-sucedido poetas, compositores e cantores de pendão nacionalista. O que prova aos ignorantes que o Nacionalismo não é um exclusivo da Direita e que na Esquerda também há uma forte corrente nacionalista, acima de tudo, em Portugal, sempre defendida pelo PCP.

Não sei se Vitorino é o autor da letra, mas "Queda do Império" é um tema lindissimo. A forma como tem celebrizado a "Maria da Fonte" - uma marcha proto-revolucionária contra o cabralismo - é extraordinária. Agora, talvez com a comemoração do centenário da República, apareceu com a "Marcha dos Combatentes da Rotunda". Também não conheço o autor da letra, nem se é inédita ou não, a internet também ainda não parece dispor dessa informação... Mas que é bonita é. O videoclip, aqui publicado, também está muito inteligente.

Ouvi esta música como genérico da série "O Segredo de Miguel Zuzarte", exibida na RTP1 em 9 e 10 de Outubro, a adaptação de Pedro Lopes à obra homónima de Mário Ventura. E gostei logo, desde aí!

Parabéns!

Nota histórica: A Rotunda é a actual Praça Marquês de Pombal (cujo monumento só lá está desde 1934). Em 1910 a Rotunda era quase um dos limites da cidade de Lisboa e foi lá que, cerca de duzentos revolucionários republicanos se entricheiraram nas vésperas do 5 de Outubro. Apesar de estarem a ser bombardeados pelas tropas, lideradas por Paiva Couceiro, conseguiram resistir até ao final dos confrontos e à Proclamação da República às 9 horas da manhã de 5 de Outubro. Os revoltosos foram liderados pelo Oficial da Armada António Machado dos Santos, depois do Almirante Cândido dos Reis se ter suicidado. Machado dos Santos, - que viria a ser figura proeminente da I República, foi Ministro do Interior no tempo de Sidónio Pais, pese embora ter sido assassinado em 19.10.1921, na Noite Sangrenta, juntamente com António Granjo (primeiro-ministro) e Carlos da Maia - ficou conhecido como o Herói da Rotunda.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

[1175.] Eu voto CAVACO!

As Eleições Presidenciais estão marcadas. Realizar-se-ão a 23 de Janeiro de 2011. Daqui a 102 dias. Tudo indica que o actual detentor do cargo, Aníbal Cavaco Silva, se recandidate. O professor de Finanças que é, também, o português que mais tempo tem acumulado de exercício de funções políticas - o que lhe confere grande experiência, tem consciência do cargo que exerce e sabe que não pode escolher a data para o anúncio da sua recandidatura de ânimo leve.
Cavaco Silva sabe que no dia em que confirmar ao país que é candidato, perante os olhos dos seus adversários e dos seus oponentes, e, também, perante a comunicação social - filtro importante entre ele e os portugueses -, deixará de ser o Chefe de Estado para passar a ser o candidato presidencial e isso vai trazer-lhe dificuldades acrescidas e uma espécie de perda de legitimidade (pelo menos subjectiva).
Compreende-se que não quisesse anunciar a sua candidatua antes das comemorações oficiais do Centenário da República - teria de fazer um discurso de Estado de forma limpa e clara. O que poderia não ser tão fácil de perspectivar é o que hoje se conhece como o tabu do Orçamento. Cavaco tem de apresentar a sua candidatura com alguma urgência, mas sabe que não o pode fazer antes de saber se vai ter de aceitar a demissão do Governo ou não. Como homem de Estado que é sabe que nos procedimentos que vão ter de ser tomados no caso de o Governo se demitir - a auscultação aos partidos politicos, o convite ao partido maioritário para formar novo governo, etc., etc., etc. vai ter de ser feitos sem mácula e na plenitude da legimitimidade objectiva e subjectiva do Chefe de Estado. No caso de o Orçamento não passar e do Governo se demitir, é possível que o processo se arraste pelo menos por mais um mês... Deixando Cavaco Silva com muito pouco tempo para se apresentar, montar e fazer campanha.

Os timmings que se apresentam a Cavaco Silva são muito dificeis, e não se percepciona nenhuma vaga de fundo a pouco mais de três meses das eleições presidenciais. O que não deixa de ser preocupante!
Apresente a sua candidatura quando apresentar, uma coisa parece-me certa: Eu Voto Cavaco!

[1174.] Mercurii dies

Da urbanidade

A deposição e tratamento dos resíduos sólidos domésticos são problemas sérios das sociedades contemporâneas. As famílias hodiernas produzem quantidades enormes de lixo. Resíduos – em grande parte orgânicos – de que as famílias se querem ver livre, rapidamente. Para isso, tantas e tantas vezes, perante um caixote de lixo cheio – e muitas vezes cheio de caixas de papelão não espalmadas e de outros resíduos que deviam estar noutros locais – chegam a deixar os sacos com restos de comida na via pública, ou a arremessar os referidos sacos com esse material para terrenos baldios.


É fácil atribuir à Câmara Municipal a responsabilidade de, aos domingos à noite, nas ruas da cidade da Mealhada, os espaços que circundam os contentores de lixo doméstico serem autênticas lixeiras a céu aberto. Perante tal evidência, qualquer um seria capaz de decretar que o número de contentores é insuficiente. Então, o problema resolver-se-ia com mais contentores? Não cremos. Poderia também dizer-se que o problema é a falta de recolha de lixo doméstico ao domingo. Mas o problema vai muito para além disso.
Nalgumas regiões da Europa, em França por exemplo, não se vêem caixotes de lixo doméstico nas ruas. Prática que nos parece de aplaudir – os contentores de lixo doméstico são feios e custam dinheiro. Os moradores têm – em casa ou no prédio – um contentor, onde depositam o lixo doméstico, que só é colocado na rua a uma determinada hora – geralmente à noite – e posteriormente retirado, depois da passagem dos camiões de recolha, à hora marcada. Os contentores estão identificados e quem não os retirar é multado. As ruas mantêm-se limpas e, de certa forma, fica salvaguardada a saúde pública.
Se os franceses são capazes de ter o lixo em casa durante um dia inteiro, não são capazes os mealhadenses? O problema é de falta de educação cívica e, acima de tudo, de falta de urbanidade – característica de quem sabe viver em sociedade e em comunidades populacionais de tamanho significativo. E se ensinar os adultos a reciclar foi uma conquista, que surgiu como uma moda, e resultou de uma forte pressão na escola dos filhos, ensinar as famílias a gerir melhor os lixos domésticos vai ter de seguir o mesmo método. E rapidamente.
A rua, o espaço público, não é espaço de ninguém. É espaço de todos, é comum. Também não é espaço da Câmara ou da Junta de Freguesia. É espaço de todos, porque todos o utilizamos e (ainda) não pagamos impostos para isso. Não podemos todos ser prejudicados, na nossa saúde pública, com a falta de urbanidade de alguns (poucos, mas salientes).
Assim, se a situação não se resolver com a educação, resolve-se com a repressão e não se vê outra alternativa senão as entidades autárquicas aprovarem um regulamento através do qual sejam punidas, com multas e contra-ordenações, as pessoas que depositam lixo doméstico no chão, mesmo que ao lado dos caixotes de lixo, as pessoas que não depositarem o lixo doméstico devidamente ensacado, as empresas e estabelecimentos que não colocarem os caixotes de papelão, espalmados, no eco-pontos respectivos, entre outras. É de elementar urbanidade!

Editorial do Jornal da Mealhada de 13 de Outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

[1173.] Marti dies



CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Poema de Rosália de Castro. Música de José Niza.

Aqui, pela voz de Adriano Correia de Oliveira

(...)

«Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará»

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

[1172.] Lunae dies

Da importância de um Senado

«O Presidente da República presidiu, hoje, à cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa, aos três antigos Presidentes da República ainda vivos que lhe antecederam no cargo: António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.
A homenagem decorreu no âmbito da cerimónia de Abertura do Ano Académico e das Comemorações dos 100 anos da República Portuguesa, que decorreu na Aula Magna da Reitoria da Universidade.»
À noite, os três antigos Chefes de Estado participaram no programa da RTP 1 'Prós e Contras', moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, subordinado ao tema: "Portugal em busca do Futuro". A palestra - mais do que um debate - foi muito interessante. Eanes parece mais polido, mais denso, do que quando foi Presidente da República, apresentou uma aparência mais dandy e solta. Soares apresentou-se igual a si mesmo, a única curiosidade acabou por ser a estranha confluência de pontos de vista e concordâncias com um dos seus primeiros inimigos viscerais, Eanes, precisamente. Também Sampaio foi mais incisivo, mais militante, mostrou-se bastante assertivo, liberto e interventivo. Sofreu da falta de profissionalismo de Fátima Campos Ferreira que, em duas ou três situações o afrontou e numa delas esteve muito perto de o humilhar.
Ouvir estes três homens (e eu acredito que, apesar de só ter podido votar no último, nunca votaria em nenhum) mostrou-se importante e o teor da palestra merecia ser guardado para memória futura. Estes três cidadãos tiveram em mãos decisões importantes da vida nacional e são responsáveis por muito do que de bom e de mau aconteceu em Portugal desde a eleição do primeiro, há quase 35 anos. A sua experiência merece ser ouvida.
Os três dissolveram o Parlamento, os três viveram crises económicas, os três tiveram Governos incompetentes, os três tiveram conflitos com primeiros-ministros, os três tiveram cooperação estratégica. Qualquer um dos três tem consciência da grave situação do País politico.
Deixaram mensagens de esperança e de exaltação da mobilização dos portugueses.

Esta palestra sublinhou a necessidade e a falta que faz ao país um Senado, onde a voz destes três homens possa ser ouvida. Um Senado e a redução para metade do número de deputados seria uma medida prudente, honesta e higiénica!

Nesta foto, para além do sorriso excessivamente expansivo do actual titular do cargo, mostram-se quatro das personalidades mais importantes da História Nacional. Quatro personalidades que têm, ainda, alguma coisa para dar e que podem ajudar o Chefe de Estado em exercicio na missão patriótica e hercúlea que tem pela frente.

domingo, 10 de outubro de 2010

[1171.] Mealhada, há 100 anos_III

Mealhada, 10 de Outubro de 1910

«Porém só em 10 de Outubro às duas da tarde, a Comissão Municipal Republicana vai de novo aos Paços do Concelho onde, na presença do Administrador do Concelho, Manuel de Oliveira Rocha, se reúne sob a presidência de Manuel Ruivo de Figueiredo, não por ser o presidente da Comissão Republicana, mas por ser o cidadão mais velho, tal como a Lei (Código Administrativo de 1896) definia, procedeu à eleição dos cargos que iriam ser ocupados na Comissão Executiva da Câmara Municipal Republicana. Por escrutínio secreto foram eleitos cargo a cargo. "Para presidente foram votados o cidadão Joaquim da Cruz com quatro votos e o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo com quatro votos" e "para vice-presidente foram votados o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo, com quatro votos, e o cidadão José Ferreira de Carvalho, com um voto".

JOAQUIM DA CRUZ

Face a esta votação, Joaquim da Cruz passou a desempenhar o cargo tornando-se o primeiro Presidente Republicano da Câmara Municipal da Mealhada, sucedendo ao conselheiro Augusto Simões d'Abreu, monárquico, que, apesar de ter sido eleito nas eleições de 1908 e de ter sido destituído, fez questão de estar presente na posse do seu sucessor republicano.»

Carlos Cabral, in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

[1170.] Mealhada, há 100 anos_II

Mealhada, 8 de Outubro de 1910

«No dia seguinte, 8 de Outubro, é emitido um telegrama pela Comissão Republicana do seguinte teor:
"Ministro do Interior - Lisboa. Comissão Municipal Republicana da Mealhada e Povo reunido hontem cinco horas da tarde na sala das sessões Paços Concelho Proclamou a República Portuguesa legalmente constituída e saúda Governo - A Comissão" (assinam os membros).

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

[1169.] Mealhada, há 100 anos_I

Mealhada, 7 de Outubro de 1910

«Eram dezassete horas do dia 7 de Outubro de 1910 [56 horas depois de proclamada na varanda da Câmara Municipal de Lisboa] quando na 'sala das sessões dos Paços do Concelho' se apresentou a Comissão Republicana constituída por Manuel Ruivo de Figueiredo que era seu presidente, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz e Evaristo de Souza. O presidente desta Comissão Republicana faz uma alocução aos republicanos presentes dos quais se conhecem os nomes de cinquenta e quatro que, porque sabiam ler e escrever, assinaram o respectivo nome numa declaração de apoio ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano. Com o aplauso dos presentes, Manuel Ruivo de Figueiredo hasteou a bandeira da República. Recorde-se que nessa altura a bandeira verde rubra ainda não era a bandeira de Portugal, tendo como principal diferença, para além do 'escudo', a colocação do vermelho junto à haste e o verde para o exterior, como no 31 de Janeiro de 1891.»

Declaração de apoio de municipes do concelho da Mealhada ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano'
«Manuel Ruivo de Figueiredo, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz, Evaristo de Souza, Manuel Rosal, Augusto Figueiredo (lente do Instituto de Agronomia), António Augusto da Costa Simões Canova, Manuel Duarte da Pega (advogado), António Ferreira da Costa (professor), António Simões Bispo, António Cerveira, Joaquim Pereira dos Santos, Augusto Lopes d'Andrade, Jeronymo Marques dos Santos, Alexandre Casimiro, Pedro Jacintho, Manuel da Cruz, Romão Rodrigues dos Santos, Luiz Duarte dos Santos, Adelino Augusto Paiva, António Felix Machado, Maximiniano da Conceição, José Lopes Lourenço, José Augusto Neves Pedrosa, Adelino Augusto Cerveira, António d'Azevedo Pinho (major), Annibal Souza, Affonso Guedes Gouveia, Bernardo Nogueira de Seabra, António José Baptista, Eduardo Augusto Moraes (professor), Frutuoso Rodrigues Breda (recebedor do concelho), Annibal da Costa Alemão (escrivão da Fazenda), Manuel Rodrigues Breda de Melo, Abílio Dias dos Santos (amanuense da Câmara), Francisco Fernandes Russo, Augusto Simões d'Abreu [último presidente da Câmara Municipal da Mealhada na Monarquia, foi eleito nas eleições de 01.11.1908] , Guilherme Ignácio da Costa Baptista, Eugénio d'Oliveira Couceiro, Luiz Pinto de Miranda, Luiz Alves da Cunha (chefe da Estação do Telegrapho postal), Manuel Rodrigues Pinto (aspirante da Fazenda), Francisco Joaquim Varella, Joaquim Francisco de Mello (amanuense da Administração), José Iria Pereira d'Oliveira, Basilio Filippe da Silva, José da Costa Pereira, Joaquim Ferreira, Joaquim Gomes, Alberto Lopes dos Santos, Joaquim Christina Neves (2.º guarda-fios na Mealhada) e António Maria dos Santos (2.º guarda-fios na Mealhada).»

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

[1168.] Mercurii dies

A Verdade em Tempos de Cólera
Os desafios de uma República Nova – Parte I

“A República nasce, em Portugal, de um sonho lindo”. Um sonho de Igualdade, em que todos são cidadãos, em que todos são iguais perante a Lei, perante o Estado, perante as oportunidades e a esperança, em que todos podem ter o destino nas suas próprias mãos. Um sonho libertário, em que todos são responsáveis pela promoção do bem-comum, na defesa intransigente da dignidade de cada um e do seu semelhante, na obediência a direitos invioláveis e a deveres intransmissíveis. Quando passam cem anos sobre a implantação da República em Portugal, e mesmo sem procurar imaginar ou conhecer em que condições viviam os nossos antepassados, não podemos deixar de reconhecer que as promessas do alvorecer de um novo regime eram galvanizadoras e motivantes.
Pouco interessa, hoje, saber se as promessas foram cumpridas ou não. Se o banho de sangue na rotunda – o de quem lutava pela mudança e o de quem defendia o que acreditava – não fazia antever a instabilidade de dezasseis anos de terrorismo de Estado. Dezasseis anos de libertinagem que justificaram mais quarenta e oito de ordem, primeiro, e de restrição e castramento a seguir. Interessa pensar mais no hoje e no amanhã, do que no ontem. Apesar de ser fundamental conhecer o ontem, porque ele e as suas cicatrizes continuam no presente.
O centenário da República surge na nossa vida colectiva num momento particularmente difícil. Um momento de crise social muito forte sustentada na consciência de vivermos numa severa crise de valores e perante uma completa falta de liderança na classe dirigente e nas instituições. Depois de uma semana em que o apelo à unidade e à convergência entre partidos políticos foi insultado com tomadas de posição unilaterais de finca-pé e de proclamação de, ainda, mais medidas de austeridade, o país mergulha numa depressão profundíssima.
Na intervenção que proferiu nas cerimónias oficiais do 5 de Outubro, Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, citou António Teixeira de Sousa, o último chefe de Governo da Monarquia, para justificar a queda do regime: “A monarquia estava cercada de republicanos e indiferentes”. “É a conjugação perversa das duas realidades que tantas vezes abala os alicerces de um regime: de um lado, a indiferença do povo; do outro, a incapacidade dos agentes políticos para encontrar soluções ajustadas às necessidades concretas do país”, acrescentou Cavaco Silva.
Portugal, como há cem anos, vive hoje um momento de profunda indiferença do povo e de manifesta incapacidade dos agentes políticos para encontrar as soluções para as necessidades do país.
Uma indiferença que resulta do facto de as pessoas estarem completamente estranguladas pela dupla face de uma aguçada espada que, por um lado, dá demasiadas garantias sociais a quem podendo trabalhar sobrevive à custa do erário público através de prestações sociais; e, por outro, obriga as pessoas a trabalhar para conseguirem angariar os meios financeiros necessários ao cumprimento de obrigações que o consumismo fomentou e incentivou durante décadas. Há os que são indiferentes porque o que está os favorece, há os que são indiferentes porque não têm liberdade para agirem de maneira diferente.
Acresce uma manifesta incapacidade dos agentes políticos que já é, por todos, reconhecida. Uma incapacidade que resultará, eventualmente, da falta de conhecimentos técnicos, da falta de experiência do mundo do trabalho e do quotidiano das empresas e das instituições, da falta de responsabilização política do sistema, da falta de liderança e de poder de galvanização, da falta de consciência comunitária da vida, da falta de consciência de co-responsabilidade social, da falta de espírito e de educação para o serviço, de falta de memória e de conhecimento do sentido da história, da falta de independência relativamente ao sistema e ao exercício de cargos públicos, da falta de inteligência e coragem para falar verdade.
“Há cem anos, como hoje, o essencial é a vida concreta das pessoas”, afirmou Cavaco, na terça-feira. E a vida concreta dos portugueses é penosa. Hoje é penosa, mas amanhã, com o IVA a 23 por cento – quase um quarto do preço de um produto – será ainda pior.
A vida concreta dos portugueses joga-se num tabuleiro em que, na Educação, “os filhos são órfãos de pais vivos”. Pais que não têm tempo, nem paciência para eles, não tem alegria, carinho e amor para lhes dar esperança. Na assistência aos mais idosos, os velhos preferem ir para depósitos em vez de irem para casa dos filhos que fizeram nascer, para não incomodar e para não chatear, mas também para não ajudar e para não contribuir. Os portugueses não reconhecem o seu código de valores no sistema judicial, que não lhes dá, colectivamente, o sentimento de segurança que a Justiça tem por obrigação proporcionar. A organização da Saúde não presta a todos, por igual, acesso eficaz à prestação de cuidados básicos. Na gestão financeira e económica do Estado não há uma comunhão clara entre o que os portugueses sentem na pele e as prioridades de investimento enunciadas pelos governantes. Os jovens estão a emigrar porque não são capazes de encontrar futuro em Portugal. A noite esconde caixotes de lixo dos hipermercados que se enchem de novos pobres a quem a vergonha se perdeu com a vitória da fome.
Portugal atravessa um momento decisivo da sua história. Um momento em que está em causa a própria coesão nacional, esse “bem precioso” e fundamental. E a cada momento decisivo se joga a escolha entre o catastrofismo e a oportunidade. Entre o fado, o fatalismo, a tragédia e o chamamento ao D.Sebastião, e a oportunidade de reformar, de refundar, de renovar, de reordenar, de reerguer.
Frei Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, que depois de um comentário fabuloso e assertivo na SIC Notícias, tem sido visto e comentado em todas as redes sociais, dizia, nesse registo: “Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores”. Da sua intervenção sai a exortação a “começar a sonhar espaços novos”, e acrescentava: “Temos de deixar de enfrentar os desafios novos com as soluções velhas”. “Despedir os políticos profissionais para empregar os profissionais na Politica”, era uma sugestão, “Construir um projecto social diferente”, era outra, “Ter coragem para formar consciência crítica, inteligente e corajosa”, era mais outra, “Deixar de educar para o ter e passar a formar para o Ser e para o ser com os outros”, era ainda outra.
Não faltarão razões para lutar pelo sonho lindo de sermos todos iguais e todos igualmente felizes. Um sonho que pode ser uma utopia, uma utopia que vale cada dia da nossa vida, porque é na felicidade dos outros que encontraremos a nossa própria felicidade.
O primeiro desafio deste Tempo Novo, desta República Nova – compreenda-se o adjectivo longe das referências sidonistas e da Primeira República –, da Quarta República, se se preferir, é o da coragem – do Povo e dos Políticos – “para dizer que o Rei vai nu, por mais engravatado que pareça estar”, como diz Frei Fernando Ventura. Coragem para dizer a Verdade, toda a Verdade, mesmo em tempos de cólera.

Editorial do Jornal da Mealhada de 6 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

[1166.] Luna dies

Hoje, 4 de Outubro, é Dia de São Francisco de Assis. São Francisco é o santo da minha devoção. E o seu ideário (político?) acabou por ser um importante pilar da minha formação espiritual.
Francisco de Assis é um revolucionário na transição dos séculos XII e XIII. Numa altura particularmente radical, o rapaz rico de Assis, filho do mercador da cidade e da francesa com quem ele casou, o rapaz é um playboy, um esbanjador, até à conversão. Uma conversão que se faz de modo muito simples: "Reconstroi a minha Igreja!". Nunca se saberá se Deus que falou a Francisco na Cruz de São Damião lhe pedia que reconstruísse aquela capela em ruína, se a Igreja Católica, a de Pedro já nessa altura com mais de mil anos.
O despojamento dos bens materiais, a vida simples de contemplação da natureza que Franscisco adopta é uma afronta para a Igreja dos palácios, do ouro, da escravatura e da opulência da hierarquia. A pobreza de Cristo é, nessa altura, importante tema de discussão teológica para dirimir e definir quem tinha razão no duelo - muito mais político que teológico. [A este propósito, imperdível o enredo de 'O Nome da Rosa', de Humberto Eco que o cinema adapta, mais tarde]
Franscisco é o homem do culto da natureza como obra de Deus. 'O Cântico das Criaturas' é, ainda hoje, peça poética de rara beleza. E também aí revoluciona. Ao chamar irmão ao Fogo, irmã à Água, e irmãos aos animais - porque todos criaturas de Deus -, Francisco coloca toda a criação num mesmo pé de igualdade. Numa sociedade teocrática - com Deus no meio - o colocar do homem (criado à imagem e semelhança de Deus) ao mesmo nível dos cavalos, dos porcos, dos bois ou das galinhas, não pode ser pacífico. Mas Franscisco fá-lo.
Francisco é um 'primeiro' ecologista (ECO é casa em grego). O 'pobrezinho de Assis' - a imagem ainda hoje existe - é o santo padroeiro da protecção da Natureza, e por isso hoje é, também, Dia Mundial do Animal.
O que faz algum sentido relembrar no Ano Internacional da Biodiversidade!
Visitei Assis em Setembro de 1996, quando fazia o Inter-rail com Nuno Cruz, mano velho. A ida à cidade da Umbria não estava nos planos iniciais e faz-se já 'no regresso'.
Nos primeiros dias em Itália, em Piza, tinhamos comprado dois taus, um para cada um. Eu já nessa altura era um 'fransciscanista'. O tema interessava-me desde há um ano a essa parte, incentivado pelo contacto (indirecto) com Rui Costa e com os Jovens Cristãos de Luso, que, nessa altura, me forneceram muito material para que eu aprofundasse o meu interesse.
A compra do tau, que eu já cobiçara tantas vezes, nomeadamente ao Bruno Coimbra que nessa altura costumava usar um, fez-me discutir o tema com o Nuno, nessa viagem de quinze dias - eu com 17 anos ele com 18. E quando uma pessoa fala do que gosta influencia.
Em Atenas, no fim de uma almoço que não existiu, oiço, com estupefacção, o Nuno sugerir a passagem por Assis a caminho de Veneza, já no regresso. Foi fantástico.
Chegámos a Assis de noite. A estação de comboio era muito florida e bonita. Às escuras, de mochila às costas, fomos até ao albergue, ao 'Ostello della Pace'. Quando acordámos e abrimos a janela, num dia frio e cinzento, deparámos-nos com uma imagem muito parecida com a da fotografia que está acima. A cidade de Assis triunfava deitada sobre a montanha.
Subimos a encosta e vistámos a cidade. A tranquilidade, a claridade da cidade, a nossa paz de espírito fizeram o Nuno dizer - mais vezes do que seria de esperar -: "Isto parece Casal Comba!".
E se calhar ao Nuno parecia. Mas não por estar na fralda da serra, nem pela morfologia do espaço (e até tem parecenças), mas pelo facto de sentir em casa. Em Assis ele sentia-se em casa. E eu também!
Espero voltar em breve!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[1165.] Exmo Sr. Ministro das Finanças...

Exmo. Sr. Ministro das Finanças,


Prossigo, na medida das minhas possibilidades e conhecimentos, e cheio de fervor patriótico, na prossecução da resposta à exortação de Vossa Excelência aos portugueses para lhe "dizerem" onde é que ainda se podia cortar na despesa do Estado.
Uma vez mais, recorro à minha condição de português que paga impostos, que cumpre com as suas obrigações cívicas, sociais e políticas (longe das campanhas eleitorais e dos fantasmas que elas provocam nos que, aparentemente, sentem o chão a ruir), para, por este meio, dar o meu contributo para esta causa patriótica e informá-lo, com a humildade com que um burro da Mealhada - repito que também aqui os há, e dos bons (até os exportamos para o norte) - se dirige a um doutorado em Finanças (ou vice-versa), das oportunidades que se lhe deparam a si, que governa, para cortar na despesa.

E que tal começar pelos 3.706.630 euros mensais de salários que auferem os 20 senhores, abaixo elencados, fieis servidores do Estado em instituições e empresas públicas?


Ora, sendo certo que o salário do Senhor Presidente da República, o mais alto magistrado da Nação, rondará os 10 mil euros mensais, não considera Vossa Excelência que será exagerado um servidor público ganhar 42 vezes mais, como o Dr.Fernando Pinto, ou até mesmo 6 vezes mais, como a Dr.ª Fernanda Meneses?
É certo que são funcionários de institutos da administração autonoma do Estado, e de empresas público-privadas, mas, não sendo funcionários públicos são servidores do Estado.

Poderão dizer alguns que se trata de pessoas hiper-qualificadas que desempenham relevantes funções e que se não forem bem pagas sairão para o sector privado e o Estado ficará apenas com os restos. Podem dizê-lo, mas, tanto Vossa Excelência, que é doutor em Finanças, como um burro como eu, sabemos que isso não é verdade.


E eu até sou solidário com a sua proposta - em Janeiro de 2010 - de reduzir o seu próprio salário se a situação económica não melhorasse, atrevo-me a indagar: Se estes 20 senhores auferissem tanto (imagine Vossa Excelência quanta honra) como o Senhor Presidente da República, estas empresas e instituições precisariam de tanto dinheiro dos cofres do Estado? Seguramente que não - atrevo-me a responder, logo, Vossa Excelência - só com estes 20 - pouparia 3,5 milhões de euros por mês (49 milhões de poupança em cada ano).

Convirá Vossa Excelência que é maquia significativa.

Renovo o meu intento de - assim me ajude o engenho e a arte - continuar a responder ao seu desafio patriótico e, assim, ajudar Vossa Excelência a cumprir com a sua missão.
Uma vez mais declaro (por que há quem diga na minha terra exportadora de burros que "a inveja é como uma unha encravada") que prescindo, desde já, de qualquer remuneração que Vossa Excelência possa querer auferir-me, na certeza, porém, de que o meu desejo de retribuição passa pela concretização da demissão do chefe do Governo, podendo Vossa Excelência - apesar de tudo - ocupar a presidência do Conselho de Ministros até à realização de eleições.

Não me parece que seja, para vós e para a Nação, grande sacrificio.

Com os melhores cumprimentos
Nuno Canilho