quarta-feira, 13 de outubro de 2010

[1174.] Mercurii dies

Da urbanidade

A deposição e tratamento dos resíduos sólidos domésticos são problemas sérios das sociedades contemporâneas. As famílias hodiernas produzem quantidades enormes de lixo. Resíduos – em grande parte orgânicos – de que as famílias se querem ver livre, rapidamente. Para isso, tantas e tantas vezes, perante um caixote de lixo cheio – e muitas vezes cheio de caixas de papelão não espalmadas e de outros resíduos que deviam estar noutros locais – chegam a deixar os sacos com restos de comida na via pública, ou a arremessar os referidos sacos com esse material para terrenos baldios.


É fácil atribuir à Câmara Municipal a responsabilidade de, aos domingos à noite, nas ruas da cidade da Mealhada, os espaços que circundam os contentores de lixo doméstico serem autênticas lixeiras a céu aberto. Perante tal evidência, qualquer um seria capaz de decretar que o número de contentores é insuficiente. Então, o problema resolver-se-ia com mais contentores? Não cremos. Poderia também dizer-se que o problema é a falta de recolha de lixo doméstico ao domingo. Mas o problema vai muito para além disso.
Nalgumas regiões da Europa, em França por exemplo, não se vêem caixotes de lixo doméstico nas ruas. Prática que nos parece de aplaudir – os contentores de lixo doméstico são feios e custam dinheiro. Os moradores têm – em casa ou no prédio – um contentor, onde depositam o lixo doméstico, que só é colocado na rua a uma determinada hora – geralmente à noite – e posteriormente retirado, depois da passagem dos camiões de recolha, à hora marcada. Os contentores estão identificados e quem não os retirar é multado. As ruas mantêm-se limpas e, de certa forma, fica salvaguardada a saúde pública.
Se os franceses são capazes de ter o lixo em casa durante um dia inteiro, não são capazes os mealhadenses? O problema é de falta de educação cívica e, acima de tudo, de falta de urbanidade – característica de quem sabe viver em sociedade e em comunidades populacionais de tamanho significativo. E se ensinar os adultos a reciclar foi uma conquista, que surgiu como uma moda, e resultou de uma forte pressão na escola dos filhos, ensinar as famílias a gerir melhor os lixos domésticos vai ter de seguir o mesmo método. E rapidamente.
A rua, o espaço público, não é espaço de ninguém. É espaço de todos, é comum. Também não é espaço da Câmara ou da Junta de Freguesia. É espaço de todos, porque todos o utilizamos e (ainda) não pagamos impostos para isso. Não podemos todos ser prejudicados, na nossa saúde pública, com a falta de urbanidade de alguns (poucos, mas salientes).
Assim, se a situação não se resolver com a educação, resolve-se com a repressão e não se vê outra alternativa senão as entidades autárquicas aprovarem um regulamento através do qual sejam punidas, com multas e contra-ordenações, as pessoas que depositam lixo doméstico no chão, mesmo que ao lado dos caixotes de lixo, as pessoas que não depositarem o lixo doméstico devidamente ensacado, as empresas e estabelecimentos que não colocarem os caixotes de papelão, espalmados, no eco-pontos respectivos, entre outras. É de elementar urbanidade!

Editorial do Jornal da Mealhada de 13 de Outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

[1173.] Marti dies



CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Poema de Rosália de Castro. Música de José Niza.

Aqui, pela voz de Adriano Correia de Oliveira

(...)

«Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará»

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

[1172.] Lunae dies

Da importância de um Senado

«O Presidente da República presidiu, hoje, à cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa, aos três antigos Presidentes da República ainda vivos que lhe antecederam no cargo: António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.
A homenagem decorreu no âmbito da cerimónia de Abertura do Ano Académico e das Comemorações dos 100 anos da República Portuguesa, que decorreu na Aula Magna da Reitoria da Universidade.»
À noite, os três antigos Chefes de Estado participaram no programa da RTP 1 'Prós e Contras', moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, subordinado ao tema: "Portugal em busca do Futuro". A palestra - mais do que um debate - foi muito interessante. Eanes parece mais polido, mais denso, do que quando foi Presidente da República, apresentou uma aparência mais dandy e solta. Soares apresentou-se igual a si mesmo, a única curiosidade acabou por ser a estranha confluência de pontos de vista e concordâncias com um dos seus primeiros inimigos viscerais, Eanes, precisamente. Também Sampaio foi mais incisivo, mais militante, mostrou-se bastante assertivo, liberto e interventivo. Sofreu da falta de profissionalismo de Fátima Campos Ferreira que, em duas ou três situações o afrontou e numa delas esteve muito perto de o humilhar.
Ouvir estes três homens (e eu acredito que, apesar de só ter podido votar no último, nunca votaria em nenhum) mostrou-se importante e o teor da palestra merecia ser guardado para memória futura. Estes três cidadãos tiveram em mãos decisões importantes da vida nacional e são responsáveis por muito do que de bom e de mau aconteceu em Portugal desde a eleição do primeiro, há quase 35 anos. A sua experiência merece ser ouvida.
Os três dissolveram o Parlamento, os três viveram crises económicas, os três tiveram Governos incompetentes, os três tiveram conflitos com primeiros-ministros, os três tiveram cooperação estratégica. Qualquer um dos três tem consciência da grave situação do País politico.
Deixaram mensagens de esperança e de exaltação da mobilização dos portugueses.

Esta palestra sublinhou a necessidade e a falta que faz ao país um Senado, onde a voz destes três homens possa ser ouvida. Um Senado e a redução para metade do número de deputados seria uma medida prudente, honesta e higiénica!

Nesta foto, para além do sorriso excessivamente expansivo do actual titular do cargo, mostram-se quatro das personalidades mais importantes da História Nacional. Quatro personalidades que têm, ainda, alguma coisa para dar e que podem ajudar o Chefe de Estado em exercicio na missão patriótica e hercúlea que tem pela frente.

domingo, 10 de outubro de 2010

[1171.] Mealhada, há 100 anos_III

Mealhada, 10 de Outubro de 1910

«Porém só em 10 de Outubro às duas da tarde, a Comissão Municipal Republicana vai de novo aos Paços do Concelho onde, na presença do Administrador do Concelho, Manuel de Oliveira Rocha, se reúne sob a presidência de Manuel Ruivo de Figueiredo, não por ser o presidente da Comissão Republicana, mas por ser o cidadão mais velho, tal como a Lei (Código Administrativo de 1896) definia, procedeu à eleição dos cargos que iriam ser ocupados na Comissão Executiva da Câmara Municipal Republicana. Por escrutínio secreto foram eleitos cargo a cargo. "Para presidente foram votados o cidadão Joaquim da Cruz com quatro votos e o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo com quatro votos" e "para vice-presidente foram votados o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo, com quatro votos, e o cidadão José Ferreira de Carvalho, com um voto".

JOAQUIM DA CRUZ

Face a esta votação, Joaquim da Cruz passou a desempenhar o cargo tornando-se o primeiro Presidente Republicano da Câmara Municipal da Mealhada, sucedendo ao conselheiro Augusto Simões d'Abreu, monárquico, que, apesar de ter sido eleito nas eleições de 1908 e de ter sido destituído, fez questão de estar presente na posse do seu sucessor republicano.»

Carlos Cabral, in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

[1170.] Mealhada, há 100 anos_II

Mealhada, 8 de Outubro de 1910

«No dia seguinte, 8 de Outubro, é emitido um telegrama pela Comissão Republicana do seguinte teor:
"Ministro do Interior - Lisboa. Comissão Municipal Republicana da Mealhada e Povo reunido hontem cinco horas da tarde na sala das sessões Paços Concelho Proclamou a República Portuguesa legalmente constituída e saúda Governo - A Comissão" (assinam os membros).

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

[1169.] Mealhada, há 100 anos_I

Mealhada, 7 de Outubro de 1910

«Eram dezassete horas do dia 7 de Outubro de 1910 [56 horas depois de proclamada na varanda da Câmara Municipal de Lisboa] quando na 'sala das sessões dos Paços do Concelho' se apresentou a Comissão Republicana constituída por Manuel Ruivo de Figueiredo que era seu presidente, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz e Evaristo de Souza. O presidente desta Comissão Republicana faz uma alocução aos republicanos presentes dos quais se conhecem os nomes de cinquenta e quatro que, porque sabiam ler e escrever, assinaram o respectivo nome numa declaração de apoio ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano. Com o aplauso dos presentes, Manuel Ruivo de Figueiredo hasteou a bandeira da República. Recorde-se que nessa altura a bandeira verde rubra ainda não era a bandeira de Portugal, tendo como principal diferença, para além do 'escudo', a colocação do vermelho junto à haste e o verde para o exterior, como no 31 de Janeiro de 1891.»

Declaração de apoio de municipes do concelho da Mealhada ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano'
«Manuel Ruivo de Figueiredo, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz, Evaristo de Souza, Manuel Rosal, Augusto Figueiredo (lente do Instituto de Agronomia), António Augusto da Costa Simões Canova, Manuel Duarte da Pega (advogado), António Ferreira da Costa (professor), António Simões Bispo, António Cerveira, Joaquim Pereira dos Santos, Augusto Lopes d'Andrade, Jeronymo Marques dos Santos, Alexandre Casimiro, Pedro Jacintho, Manuel da Cruz, Romão Rodrigues dos Santos, Luiz Duarte dos Santos, Adelino Augusto Paiva, António Felix Machado, Maximiniano da Conceição, José Lopes Lourenço, José Augusto Neves Pedrosa, Adelino Augusto Cerveira, António d'Azevedo Pinho (major), Annibal Souza, Affonso Guedes Gouveia, Bernardo Nogueira de Seabra, António José Baptista, Eduardo Augusto Moraes (professor), Frutuoso Rodrigues Breda (recebedor do concelho), Annibal da Costa Alemão (escrivão da Fazenda), Manuel Rodrigues Breda de Melo, Abílio Dias dos Santos (amanuense da Câmara), Francisco Fernandes Russo, Augusto Simões d'Abreu [último presidente da Câmara Municipal da Mealhada na Monarquia, foi eleito nas eleições de 01.11.1908] , Guilherme Ignácio da Costa Baptista, Eugénio d'Oliveira Couceiro, Luiz Pinto de Miranda, Luiz Alves da Cunha (chefe da Estação do Telegrapho postal), Manuel Rodrigues Pinto (aspirante da Fazenda), Francisco Joaquim Varella, Joaquim Francisco de Mello (amanuense da Administração), José Iria Pereira d'Oliveira, Basilio Filippe da Silva, José da Costa Pereira, Joaquim Ferreira, Joaquim Gomes, Alberto Lopes dos Santos, Joaquim Christina Neves (2.º guarda-fios na Mealhada) e António Maria dos Santos (2.º guarda-fios na Mealhada).»

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

[1168.] Mercurii dies

A Verdade em Tempos de Cólera
Os desafios de uma República Nova – Parte I

“A República nasce, em Portugal, de um sonho lindo”. Um sonho de Igualdade, em que todos são cidadãos, em que todos são iguais perante a Lei, perante o Estado, perante as oportunidades e a esperança, em que todos podem ter o destino nas suas próprias mãos. Um sonho libertário, em que todos são responsáveis pela promoção do bem-comum, na defesa intransigente da dignidade de cada um e do seu semelhante, na obediência a direitos invioláveis e a deveres intransmissíveis. Quando passam cem anos sobre a implantação da República em Portugal, e mesmo sem procurar imaginar ou conhecer em que condições viviam os nossos antepassados, não podemos deixar de reconhecer que as promessas do alvorecer de um novo regime eram galvanizadoras e motivantes.
Pouco interessa, hoje, saber se as promessas foram cumpridas ou não. Se o banho de sangue na rotunda – o de quem lutava pela mudança e o de quem defendia o que acreditava – não fazia antever a instabilidade de dezasseis anos de terrorismo de Estado. Dezasseis anos de libertinagem que justificaram mais quarenta e oito de ordem, primeiro, e de restrição e castramento a seguir. Interessa pensar mais no hoje e no amanhã, do que no ontem. Apesar de ser fundamental conhecer o ontem, porque ele e as suas cicatrizes continuam no presente.
O centenário da República surge na nossa vida colectiva num momento particularmente difícil. Um momento de crise social muito forte sustentada na consciência de vivermos numa severa crise de valores e perante uma completa falta de liderança na classe dirigente e nas instituições. Depois de uma semana em que o apelo à unidade e à convergência entre partidos políticos foi insultado com tomadas de posição unilaterais de finca-pé e de proclamação de, ainda, mais medidas de austeridade, o país mergulha numa depressão profundíssima.
Na intervenção que proferiu nas cerimónias oficiais do 5 de Outubro, Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, citou António Teixeira de Sousa, o último chefe de Governo da Monarquia, para justificar a queda do regime: “A monarquia estava cercada de republicanos e indiferentes”. “É a conjugação perversa das duas realidades que tantas vezes abala os alicerces de um regime: de um lado, a indiferença do povo; do outro, a incapacidade dos agentes políticos para encontrar soluções ajustadas às necessidades concretas do país”, acrescentou Cavaco Silva.
Portugal, como há cem anos, vive hoje um momento de profunda indiferença do povo e de manifesta incapacidade dos agentes políticos para encontrar as soluções para as necessidades do país.
Uma indiferença que resulta do facto de as pessoas estarem completamente estranguladas pela dupla face de uma aguçada espada que, por um lado, dá demasiadas garantias sociais a quem podendo trabalhar sobrevive à custa do erário público através de prestações sociais; e, por outro, obriga as pessoas a trabalhar para conseguirem angariar os meios financeiros necessários ao cumprimento de obrigações que o consumismo fomentou e incentivou durante décadas. Há os que são indiferentes porque o que está os favorece, há os que são indiferentes porque não têm liberdade para agirem de maneira diferente.
Acresce uma manifesta incapacidade dos agentes políticos que já é, por todos, reconhecida. Uma incapacidade que resultará, eventualmente, da falta de conhecimentos técnicos, da falta de experiência do mundo do trabalho e do quotidiano das empresas e das instituições, da falta de responsabilização política do sistema, da falta de liderança e de poder de galvanização, da falta de consciência comunitária da vida, da falta de consciência de co-responsabilidade social, da falta de espírito e de educação para o serviço, de falta de memória e de conhecimento do sentido da história, da falta de independência relativamente ao sistema e ao exercício de cargos públicos, da falta de inteligência e coragem para falar verdade.
“Há cem anos, como hoje, o essencial é a vida concreta das pessoas”, afirmou Cavaco, na terça-feira. E a vida concreta dos portugueses é penosa. Hoje é penosa, mas amanhã, com o IVA a 23 por cento – quase um quarto do preço de um produto – será ainda pior.
A vida concreta dos portugueses joga-se num tabuleiro em que, na Educação, “os filhos são órfãos de pais vivos”. Pais que não têm tempo, nem paciência para eles, não tem alegria, carinho e amor para lhes dar esperança. Na assistência aos mais idosos, os velhos preferem ir para depósitos em vez de irem para casa dos filhos que fizeram nascer, para não incomodar e para não chatear, mas também para não ajudar e para não contribuir. Os portugueses não reconhecem o seu código de valores no sistema judicial, que não lhes dá, colectivamente, o sentimento de segurança que a Justiça tem por obrigação proporcionar. A organização da Saúde não presta a todos, por igual, acesso eficaz à prestação de cuidados básicos. Na gestão financeira e económica do Estado não há uma comunhão clara entre o que os portugueses sentem na pele e as prioridades de investimento enunciadas pelos governantes. Os jovens estão a emigrar porque não são capazes de encontrar futuro em Portugal. A noite esconde caixotes de lixo dos hipermercados que se enchem de novos pobres a quem a vergonha se perdeu com a vitória da fome.
Portugal atravessa um momento decisivo da sua história. Um momento em que está em causa a própria coesão nacional, esse “bem precioso” e fundamental. E a cada momento decisivo se joga a escolha entre o catastrofismo e a oportunidade. Entre o fado, o fatalismo, a tragédia e o chamamento ao D.Sebastião, e a oportunidade de reformar, de refundar, de renovar, de reordenar, de reerguer.
Frei Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, que depois de um comentário fabuloso e assertivo na SIC Notícias, tem sido visto e comentado em todas as redes sociais, dizia, nesse registo: “Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores”. Da sua intervenção sai a exortação a “começar a sonhar espaços novos”, e acrescentava: “Temos de deixar de enfrentar os desafios novos com as soluções velhas”. “Despedir os políticos profissionais para empregar os profissionais na Politica”, era uma sugestão, “Construir um projecto social diferente”, era outra, “Ter coragem para formar consciência crítica, inteligente e corajosa”, era mais outra, “Deixar de educar para o ter e passar a formar para o Ser e para o ser com os outros”, era ainda outra.
Não faltarão razões para lutar pelo sonho lindo de sermos todos iguais e todos igualmente felizes. Um sonho que pode ser uma utopia, uma utopia que vale cada dia da nossa vida, porque é na felicidade dos outros que encontraremos a nossa própria felicidade.
O primeiro desafio deste Tempo Novo, desta República Nova – compreenda-se o adjectivo longe das referências sidonistas e da Primeira República –, da Quarta República, se se preferir, é o da coragem – do Povo e dos Políticos – “para dizer que o Rei vai nu, por mais engravatado que pareça estar”, como diz Frei Fernando Ventura. Coragem para dizer a Verdade, toda a Verdade, mesmo em tempos de cólera.

Editorial do Jornal da Mealhada de 6 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

[1166.] Luna dies

Hoje, 4 de Outubro, é Dia de São Francisco de Assis. São Francisco é o santo da minha devoção. E o seu ideário (político?) acabou por ser um importante pilar da minha formação espiritual.
Francisco de Assis é um revolucionário na transição dos séculos XII e XIII. Numa altura particularmente radical, o rapaz rico de Assis, filho do mercador da cidade e da francesa com quem ele casou, o rapaz é um playboy, um esbanjador, até à conversão. Uma conversão que se faz de modo muito simples: "Reconstroi a minha Igreja!". Nunca se saberá se Deus que falou a Francisco na Cruz de São Damião lhe pedia que reconstruísse aquela capela em ruína, se a Igreja Católica, a de Pedro já nessa altura com mais de mil anos.
O despojamento dos bens materiais, a vida simples de contemplação da natureza que Franscisco adopta é uma afronta para a Igreja dos palácios, do ouro, da escravatura e da opulência da hierarquia. A pobreza de Cristo é, nessa altura, importante tema de discussão teológica para dirimir e definir quem tinha razão no duelo - muito mais político que teológico. [A este propósito, imperdível o enredo de 'O Nome da Rosa', de Humberto Eco que o cinema adapta, mais tarde]
Franscisco é o homem do culto da natureza como obra de Deus. 'O Cântico das Criaturas' é, ainda hoje, peça poética de rara beleza. E também aí revoluciona. Ao chamar irmão ao Fogo, irmã à Água, e irmãos aos animais - porque todos criaturas de Deus -, Francisco coloca toda a criação num mesmo pé de igualdade. Numa sociedade teocrática - com Deus no meio - o colocar do homem (criado à imagem e semelhança de Deus) ao mesmo nível dos cavalos, dos porcos, dos bois ou das galinhas, não pode ser pacífico. Mas Franscisco fá-lo.
Francisco é um 'primeiro' ecologista (ECO é casa em grego). O 'pobrezinho de Assis' - a imagem ainda hoje existe - é o santo padroeiro da protecção da Natureza, e por isso hoje é, também, Dia Mundial do Animal.
O que faz algum sentido relembrar no Ano Internacional da Biodiversidade!
Visitei Assis em Setembro de 1996, quando fazia o Inter-rail com Nuno Cruz, mano velho. A ida à cidade da Umbria não estava nos planos iniciais e faz-se já 'no regresso'.
Nos primeiros dias em Itália, em Piza, tinhamos comprado dois taus, um para cada um. Eu já nessa altura era um 'fransciscanista'. O tema interessava-me desde há um ano a essa parte, incentivado pelo contacto (indirecto) com Rui Costa e com os Jovens Cristãos de Luso, que, nessa altura, me forneceram muito material para que eu aprofundasse o meu interesse.
A compra do tau, que eu já cobiçara tantas vezes, nomeadamente ao Bruno Coimbra que nessa altura costumava usar um, fez-me discutir o tema com o Nuno, nessa viagem de quinze dias - eu com 17 anos ele com 18. E quando uma pessoa fala do que gosta influencia.
Em Atenas, no fim de uma almoço que não existiu, oiço, com estupefacção, o Nuno sugerir a passagem por Assis a caminho de Veneza, já no regresso. Foi fantástico.
Chegámos a Assis de noite. A estação de comboio era muito florida e bonita. Às escuras, de mochila às costas, fomos até ao albergue, ao 'Ostello della Pace'. Quando acordámos e abrimos a janela, num dia frio e cinzento, deparámos-nos com uma imagem muito parecida com a da fotografia que está acima. A cidade de Assis triunfava deitada sobre a montanha.
Subimos a encosta e vistámos a cidade. A tranquilidade, a claridade da cidade, a nossa paz de espírito fizeram o Nuno dizer - mais vezes do que seria de esperar -: "Isto parece Casal Comba!".
E se calhar ao Nuno parecia. Mas não por estar na fralda da serra, nem pela morfologia do espaço (e até tem parecenças), mas pelo facto de sentir em casa. Em Assis ele sentia-se em casa. E eu também!
Espero voltar em breve!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[1165.] Exmo Sr. Ministro das Finanças...

Exmo. Sr. Ministro das Finanças,


Prossigo, na medida das minhas possibilidades e conhecimentos, e cheio de fervor patriótico, na prossecução da resposta à exortação de Vossa Excelência aos portugueses para lhe "dizerem" onde é que ainda se podia cortar na despesa do Estado.
Uma vez mais, recorro à minha condição de português que paga impostos, que cumpre com as suas obrigações cívicas, sociais e políticas (longe das campanhas eleitorais e dos fantasmas que elas provocam nos que, aparentemente, sentem o chão a ruir), para, por este meio, dar o meu contributo para esta causa patriótica e informá-lo, com a humildade com que um burro da Mealhada - repito que também aqui os há, e dos bons (até os exportamos para o norte) - se dirige a um doutorado em Finanças (ou vice-versa), das oportunidades que se lhe deparam a si, que governa, para cortar na despesa.

E que tal começar pelos 3.706.630 euros mensais de salários que auferem os 20 senhores, abaixo elencados, fieis servidores do Estado em instituições e empresas públicas?


Ora, sendo certo que o salário do Senhor Presidente da República, o mais alto magistrado da Nação, rondará os 10 mil euros mensais, não considera Vossa Excelência que será exagerado um servidor público ganhar 42 vezes mais, como o Dr.Fernando Pinto, ou até mesmo 6 vezes mais, como a Dr.ª Fernanda Meneses?
É certo que são funcionários de institutos da administração autonoma do Estado, e de empresas público-privadas, mas, não sendo funcionários públicos são servidores do Estado.

Poderão dizer alguns que se trata de pessoas hiper-qualificadas que desempenham relevantes funções e que se não forem bem pagas sairão para o sector privado e o Estado ficará apenas com os restos. Podem dizê-lo, mas, tanto Vossa Excelência, que é doutor em Finanças, como um burro como eu, sabemos que isso não é verdade.


E eu até sou solidário com a sua proposta - em Janeiro de 2010 - de reduzir o seu próprio salário se a situação económica não melhorasse, atrevo-me a indagar: Se estes 20 senhores auferissem tanto (imagine Vossa Excelência quanta honra) como o Senhor Presidente da República, estas empresas e instituições precisariam de tanto dinheiro dos cofres do Estado? Seguramente que não - atrevo-me a responder, logo, Vossa Excelência - só com estes 20 - pouparia 3,5 milhões de euros por mês (49 milhões de poupança em cada ano).

Convirá Vossa Excelência que é maquia significativa.

Renovo o meu intento de - assim me ajude o engenho e a arte - continuar a responder ao seu desafio patriótico e, assim, ajudar Vossa Excelência a cumprir com a sua missão.
Uma vez mais declaro (por que há quem diga na minha terra exportadora de burros que "a inveja é como uma unha encravada") que prescindo, desde já, de qualquer remuneração que Vossa Excelência possa querer auferir-me, na certeza, porém, de que o meu desejo de retribuição passa pela concretização da demissão do chefe do Governo, podendo Vossa Excelência - apesar de tudo - ocupar a presidência do Conselho de Ministros até à realização de eleições.

Não me parece que seja, para vós e para a Nação, grande sacrificio.

Com os melhores cumprimentos
Nuno Canilho

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

[1164.] Exmo Sr. Ministro das Finanças...

Exmo. Sr. Ministro das Finanças,
Ontem, Vossa Excelência, na conferência de imprensa depois da reunião extraordinária do Conselho de Ministro, exortou os portugueses a "dizerem-lhe" onde é que ainda se podia cortar na despesa do Estado.
Na qualidade de português que paga impostos, que cumpre com as suas obrigações cívicas, sociais e políticas, venho, por este meio, dar o meu contributo para esta causa patriótica e informá-lo, com a humildade com que um burro da Mealhada - porque também aqui os há, e dos bons - se dirige a um doutorado em Finanças (ou vice-versa), das oportunidades que se lhe deparam a si, que governa, para cortar na despesa.
E que tal começar pelas 13740 instituições que parasitam o Estado?

Artigo do Diário de Notícias de 22 de Setembro. Clicando em cima liga à edição online
Procurarei - assim me ajude o engenho e a arte - continuar a responder ao seu desafio patriótico e, assim, ajudar Vossa Excelência a cumprir com a sua missão.
Prescindo, desde já, de qualquer remuneração que Vossa Excelência possa querer auferir-me, na certeza, porém, de que o meu desejo de retribuição passa pela concretização da demissão do chefe do Governo, podendo Vossa Excelência - apesar de tudo - ocupar a presidência do Conselho de Ministros até à realização de eleições. Não me parece que seja, para vós e para a Nação, grande sacrificio.
Com os melhores cumprimentos
Nuno Canilho.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

[1163.] Da crise política II

«No respeito pelas opções de cada força partidária, o Presidente da República apelou a que os partidos políticos desenvolvam todos os esforços para alcançar em torno do Orçamento de Estado para 2011 os entendimentos que considerem necessários para a realização dos superiores interesses nacionais». Pode ler-se no comunicado divulgado pela Presidência da República, depois das audiências que o presidente concedeu ontem e hoje aos partidos políticos.

Todos os partidos da oposição, todos, à saída disseram que tinham dito ao presidente que seriam intransigentes relativamente à subida de impostos e/ou reduções fiscais e relativamente à não diminuição da despesa pública. Ou seja, só não há orçamento aprovável se o Governo não quiser. Governo e Partido Socialista que, na reunião com o presidente enviou Almeida Santos (que nem deputado é, apesar de ser o presidente do partido), Franscisco Assis e mais duas pessoas que não identifico pelas fotografias. Mesmo que estas duas pessoas sejam secretários de Estado (e acho que não são), o facto de não ter ido a Belém alguém importante na Comissão Nacional do Partido e no Secretariado, nem ter ido um Ministro de Estado, revela bem a importância que o Governo está a dar ao problema.

O Governo está-se a marimbar para isto tudo. Quer fazer vergar os partidos da oposição obrigando-os a voltar atrás naquilo que têm dito e exigido, com a ameaça de uma demissão que sabem que não se concretiza, de facto, nos próximos dez meses.
O presidente fez o que lhe competia, mas se não houver acordo a culpa é do Governo que ainda não cedeu um centimetro.
Se o Governo não cede, não é aos partidos que cabe a responsabilidade da eventual demissão e consequente crise política!

[1162.] Novo Labour 2010

Depois das eleições de 6 de Maio, no Reino Unido, e da derrota de Gordon Brown e do Partido Trabalhista, abriu a campanha interna para a sucessão. Aqui, [1013.], em 10 de Maio, analisando o assunto - que me parece muito interessante - manifestei o meu entusiasmo pela eleição do candidato mais forte, David Miliband.
David Miliband (na foto à esquerda) foi o último Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Trabalhista, fez um grande lugar e é um homem com características de liderança notáveis. Tony Blair chamava-lhe 'The Brains'. Já cheguei mesmo a afirmar que se trata de um líder europeu de futuro.
Assim que ficou claro que Nick Clegg, líder dos liberais-democratas, aceitava coligar-se com David Cameron para governar, o que afastava os trabalhistas definitivamente do poder, David Miliband anunciou a sua candidatura a líder do Labour. Foi o primeiro a fazê-lo.
Outros candidatos se lhe seguiram, nomeadamente o irmão mais novo de David, Ed Miliband (à direita na foto), que foi Ministro do Ambiente e da Energia no Governo de Brown. Os dois irmãos cedo se tornaram os mais fortes candidatos à liderança, apesar de haver mais três candidatos.
Ed é menos politizado, mais retórico. David é mais consistente, mas foi o aliado inglês nos crimes de Guantanamo. Ed é mais de esquerda, David é mais pragmático.


No sábado, 25 de Setembro, os trabalhistas foram a votos. Numa espécie de eleição "roda-bota-fora", em quatro rodadas, os Miliboys foram os preferidos... até ao round final.
No primeiro round ganhou David, com 37,78%, face a 34,33% de Ed. No segundo round volta a ganhar o irmão mais velho: 38,89% contra 37,47% de Ed. No terceiro round a vantagem ainda é de David com 42,72% face aos 41,26% de Ed.
No final, mesmo no finalzinho, Ed ganha ao irmão mais velho quando alcança 50,65% dos mais de 300 mil votos dos trabalhistas ingleses. Mesmo na quarta ronda, os deputados e os militantes continuaram a preferir David, mas os 'affiliated members' (pessoal dos sindicatos) passaram a preferir Ed.


David morreu na praia, perdeu por 1,30% dos votos, e nada mais nada menos do que para o seu irmão mais novo... O herdeiro de Tony Blair já disse que jamais entraria em luta com o irmão - as lutas fraticidas no seio dos partidos aqui ganha especial significado. Não fará parte do Governo sombra liderado pelo irmão. O que é pena. Ed Miliband, eleito há poucos dias já lidera sondagens - pela primeira vez em muitos anos - e está à frente de David Cameron, que ainda estará em estado de graça.


O lema de Ed Miliand é "A New Generation for Change" e garante: "A new generation leads our party, humble about our past and idealistic about aou future. It is a generation which thirsts for change. This week, we embark on the journey back to power” [É uma nova geração a guiar o nosso partido, humilde em relação ao nosso passado e idealista sobre o nosso futuro. É uma geração que tem sede de mudança. Esta semana, vamos embarcámos na viagem de volta ao poder].


Não resisto a colocar aqui dois videos, que achei hilariantes enquanto procurava saber mais sobre a eleição de sept. 25th.



Este primeiro video é o de Ed Miliband. Fala da Nova Geração para a mudança. Os primeiros dois minutos são interessantes - até porque fala do irmão -, o terceiro minuto é ridículo. No último minuto deste discurso de quase uma hora (que naturalmente não ouvi todo), Ed fala de optimismo: "Nós somos os optimistas na política de hoje. Por isso temos de ser humildes em relação ao nosso passado, temos de compreender a necessidade de mudança, temos de inspirar as pessoas com a nossa visão da sociedade. Temos de fazer passar a mensagem: Uma nova geração tomou conta do Labour. Uma geração optimista sobre o nosso país, optimista sobre o nosso mundo, optimista sobre o poder da política. Nós somos os optimistas, e juntos mudaremos a Grã-Bretanha".



O segundo discuros é anterior ao primeiro e é de David. Um discurso fantástico de quem perdeu e que fala como se tivesse ganho, onde até fala do que, provavelmente, o ajudou a perder, a Guerra no Afeganistão. Um daqueles discursos para guardar! Este discuros ouvi-o todo, os minutos quatro e cinco são fantásticos!

[1161.] 'In remembrance'

Eu não me canso de elogiar a forma como na Grã-Bretanha são tratados os veteranos de Guerra. Não me canso mesmo. Na segunda-feira de manhã, durante as cerimónias militares do 27 de Setembro, com a presença do Presidente da República de Portugal, do Duque de Kent e do descendente do Duque de Wellington, um casal inglês abeirou-se da retaguarda do monumento que assinala a Batalha e deixou lá este objecto: Trata-se de um poppy, uma papoila, da Royal British Legion - uma espécie de Liga dos Combatentes britânica - criada para homenagear os mortos em combate. Esta poppy está alocada a uma cruz, para deposição nos campos de batalha (só a flor é colocada na lapela entre os dias 1 e 11 de Novembro de cada ano). A cruz tem a inscrição 'In remembrance', em memória, e é depois assinada. Esta tem a inscrição "the women of War", eu não consigo perceber exactamente o que quer dizer.
Foi a Rute Melo, jornalista do Diário As Beiras, que me chamou a atenção para o objecto. Tenho pena de não ter conseguido falar com as pessoas que a lá deixaram. Este é um bom exemplo de homenagem simples mas muito respeitadora aos que pereceram nos campos de batalha!

[1160.] Mercurii dies

Um discurso para memória futura?


O Presidente da República presidiu às cerimónias militares de evocação dos 200 anos da Batalha do Bussaco. O Chefe de Estado deslocou-se ao concelho da Mealhada, foi recebido no Palace Hotel do Bussaco pelo Presidente da Câmara Municipal da Mealhada – que estava acompanhado do Ministro da Defesa e do Chefe do Estado Maior do Exército – participou nas cerimónias militares e partiu.
A vinda ao Bussaco deu-se entre vários compromissos do Chefe de Estado no litoral do país, todos eles dedicados à temática do Mar, enquanto área estratégica do desenvolvimento de Portugal. Cavaco Silva esteve no Bussaco pouco mais de hora e meia. Participou na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas, proferiu um discurso, cumprimentou as centenas de pessoas que ali se haviam deslocado para o ver e saiu. Cavaco Silva não participou na inauguração da nova exposição multimédia do Museu Militar do Bussaco – que nesse dia fez 100 anos. Cavaco Silva – que no final desse dia havia de dizer que já andava a comer bacalhau há dois dias – não almoçou na terra da Mesa com Quatro Maravilhas, deixando ao Duque de Kent a presidência do repasto no Palace Hotel do Bussaco, no final das comemorações.
A passagem do Presidente – que não deixa de ser uma grande honra e um motivo de orgulho – pelo concelho cuja a Assembleia Municipal, há três meses, aprovou, por maioria, um voto de repúdio pelo seu “comportamento no falecimento” de José Saramago, reduziu-se ao essencial. Aliás, tão essencial como o “comportamento” nas exéquias fúnebres. Em ambas as situações – permitam-nos a opinião pessoal – o presidente agiu com coerência.
O discurso do Presidente da República foi, aparentemente, simples e circunstancial. Quando terminou, os jornalistas presentes – que esperariam um recado objectivo na véspera da recepção aos líderes dos partidos com assento parlamentar – garantiriam que nada disse de especial, para além de um apelo final à união em benefício da segurança e do desenvolvimento da Pátria!
Cavaco Silva é um homem hábil e profundamente metódico. O que disse no Bussaco, não se percebe de uma só leitura.

Desde a primeira linha do discurso, o Presidente da República transporta quem o ouve para a manhã de 27 de Setembro de 1810. A prelecção do Chefe de Estado, nalguns momentos com recursos estilísticos próximos da poética – o que não deixa de ser surpreendente em quem é acusado de ter falta de cultura geral –, fala “da angústia do sofrimento humano lado a lado com o esplendor da coragem e do patriotismo”. Da “raiva dos vencidos e o júbilo dos vitoriosos”.
Cavaco Silva fala de um Portugal, em 1808, desmembrado e fraco, apoiado e já subjugado a uma elite estrangeira paternalista. “Os portugueses”, no entanto, “distinguiram-se sobretudo no combate corpo a corpo, à baioneta, olhando nos olhos o inimigo, aí onde a coragem individual é submetida à maior das provas”.
O Presidente da República justifica a ida ao Bussaco com o “cumprimento de um compromisso solene: o de manter viva a memória do seu exemplo de dedicação à Pátria”.
A transposição que Cavaco Silva faz para a manhã de 27 de Setembro de 1810 é tal, que chega a encarnar a figura do oficial português que se vê na contingência de “empolgar os seus soldados”. E Cavaco encarna mesmo o personagem, “com voz, trémula de emoção, mas determinada, quebrando o silêncio”. O Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas, num tipo de discurso que nunca lhe tínhamos ouvido, fala, mesmo, aos “soldados de Portugal”. Ouve-se o que Cavaco acha que deve ter sido dito há duzentos anos, ou o que ele, como Chefe de Estado quer dizer hoje, aos portugueses de 2010?
“Temos de vencer”, diz Cavaco, “porque nós não combatemos para conquistar, mas para não sermos conquistados. Nós não combatemos para invadir, mas para obrigar o invasor a retroceder. Nós não combatemos para mudar os outros, mas para que não nos mudem a nós pela força. Porque nós combatemos para defender a nossa Pátria. Defendemos a nossa vida, a nossa maneira de viver (…) defendemos a nossa sobrevivência como Nação soberana, para que possamos continuar a ser quem somos e a ter o direito de agir de acordo com a nossa vontade”.
Na véspera de receber os líderes dos partidos políticos num momento em que, a três meses de eleições presidenciais, Cavaco Silva sabe que a crise politica é iminente e que nenhuma das soluções possíveis é vantajosa para a Nação, o Chefe de Estado usa da poesia para se mascarar de oficial de um exército de miseráveis para exortar a inspiração e a esperança “na nossa vida colectiva enquanto povo”.
“No passado os Portugueses souberam, sempre, vencer a adversidade e decidir, em liberdade, o seu próprio futuro como Nação soberana e independente. (…) Também hoje, para vencer os grandes desafios que enfrentamos, dependemos sobretudo da nossa determinação e do nosso esforço colectivo”, concluiu Cavaco.
O presidente da República: que sabe que não pode dissolver a Assembleia da República; que sabe que não pode obrigar a oposição a aceitar um orçamento que contraria o que tem propalado nos últimos meses; que sabe que não pode impedir o Governo de se demitir e de estar em gestão e campanha eleitoral nos próximos nove meses; que sabe que estando aberta a campanha eleitoral presidencial tem pelos menos quatro personagens a contestar tudo o que faz ou diz diante das televisões; que sabe que já não controla o que quer que seja, declara: “Temos o dever, perante os nossos antepassados e perante nós próprios, de nos unirmos em torno de soluções corajosas, justas e responsáveis que permitam assegurar um futuro de desenvolvimento, segurança e bem-estar para Portugal”.
O Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas falou à Nação e disse muito mais do que à primeira vista foi entendido. Falou da sua própria impotência perante a realidade dos dias de hoje. Falou da situação limite em que a Nação se encontra. E tudo o que disse foi em frente “aos soldados de Portugal”, foi aos “soldados de Portugal”.
Não se ouviu, nas televisões uma palavra proferida no Bussaco. O discurso (ao contrário de todos os outros) não está disponível no sítio da presidência [Foi colocado na madrugada de 29 de Setembro, já depois do fecho da edição impressa do JM]. Cavaco arriscou e exortou o exército a manifestar-se, disse muito mais do que seria de esperar. Mesmo que muito poucos o tenham entendido. Talvez tenha falado para memória futura.

Editorial do Jornal da Mealhada de 29 de Setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

[1158.] Visto isto

«Nem todos os direitos podem conviver com a crise!»
ANTÓNIO BARRETO, citado no Diário As Beiras



No Diário das Beiras de hoje, 28.09.10
«Segundo o sociólogo António Barreto, a totalidade dos direitos dos cidadãos inscritos na Constituição Portuguesa não são “compatíveis” com o período de crise económica que o país atravessa.
As declarações do sociólogo foram feitas ontem (27) à noite, em Coimbra, no final de uma palestra sobre “Desenvolvimento Regional de Cidadania”, promovida pelo Rotary Club de Coimbra/Olivais.
À Lusa, o antigo ministro disse ser crucial operar uma distinção entre direitos fundamentais e direitos sociais e económicos, numa altura tão difícil.
“Vamos à Constituição e vemos que o cidadão português tem todos os direitos e mais alguns. Tem direito à saúde e educação de graça, à habitação”, lembrou António Barreto, garantindo que estes direitos não são, de momento, “compatíveis” com o estado das finanças públicas.
O sociólogo acrescentou que tem de ser feita a distinção “entre os direitos que devem ser absolutamente invioláveis – direito à privacidade, à integridade humana individual, direito à boa reputação, de voto, de expressão, de circulação – e os outros, que são interessantes, importantes, mas não são do mesmo nível de inviolabilidade como são os outros”.
António Barreto concluiu ainda que é contra a abertura de um processo de revisão constitucional nesta altura. Para o antigo governante, este processo deveria ser feito “daqui a seis meses ou um ano, depois da eleição do presidente da República e devia ser feita com mais calma”.»

Estas afirmações se viessem de um qualquer tipo da Direita eram classificadas como fascistas. Vindas de um intelectual - que muito aprecio - paladino da Esquerda são o quê?

[1159.] Marti dies

A Caruma - 'Pedra na mão' - 2010

Ouvi os A Caruma na TSF com o 'Nossa Senhora do SIS'. Achei piada, e ficou no ouvido que "estas pernas não são património!", dirigidas ao "homem de ontem ainda mais parvo do que tu!". Fica de facto no ouvido. O Pedro Costa fez o resto, a busca do nome do grupo no Facebook e o videoclip no 'Chá com Porradas' avivaram o interesse com a informação adicional de serem uns tipos da Marinha Grande que merecem ser ouvidos.

Têm uma sonoridade muito engraçada, a vocalista, o ritmo, o uso de uma tuba, e o intervencionismo das letras (só lhes conheço estes dois temas) faz-me lembrar a espanhola Bebé e os Deolinda.

Esta música é um troppo mais 'interventiva' (será o termo?)... dificilmente passará na TSF, mas é muito boa!

Pedro: Comprarei o album assim que haja guito!

[1157.] Da crise política

Desculpem, mas não percebo o que se está a passar!

Percebo a estratégia do Governo para culpabilizar o PSD pela alegada falta de solidariedade na aprovação do Orçamento de Estado para 2011, mas não percebo os fazedores de opinião que num contorcionismo maquiavélico insistem em beneficiar o infrator.

Vamos lá ver se nos entendemos.

Em Agosto, Pedro Passos Coelho, julgo que no Pontal, apresentou os pressupostos para o apoio do PSD à viabilização do Orçamento de Estado para 2011. Fê-lo antempadamente (os criticos até o acusaram de estar a criar instabilidade antes do tempo), e declarou: Apoiaremos um Orçamento que não suba impostos e que diminua a despesa pública. O líder do PSD chegou até a clarificar que, por subida de impostos entendia, também, a redução de beneficios fiscais (ideia de que o CDS é paladino).
Em Agosto, o Governo estaria já a preparar o Orçamento - pelo menos assim se espera!
Em Agosto a posição do PSD ficou absolutamente clara.
Em Agosto Pedro Passos Coelho foi severamente criticado por estar a falar de orçamento tão cedo.

No inicio de Setembro, antes de 9 de Setembro (data limite para o Presidente dissolver a Assembleia da República) o PSD clarificou ainda que entendia que, uma vez já apresentados os seus pressupostos não fazia sentido discutir o orçamento antes de o Governo o terminar e apresentar.

Em meados de Setembro, já depois de 9 de Setembro, o Governo chama o PSD (e apenas o PSD) para encenar uma negociação do Orçamento. Mesmo assim, Passos Coelho vai a São Bento. E ouve que o Governo tenciona subir os impostos, nomeadamente o imposto sobre o consumo.

Passos Coelho garante que, assim, não há entendimento possível.

Em Nova Iorque - se fosse em Madrid seria crime de lesa-pátria - o Primeiro-ministro ameaça com a demissão que sabe que só se consubstanciaria daqui a 9 meses por imperativos constitucionais.

De quem é o ónus do fracasso da negociação?
Se passamos o tempo a exultar a política da seriedade e dos principios, faz sentido, agora, beneficiar os chicos-espertos?

Se o primeiro-ministro é mitómano, não serve.
Se não compreende o que é uma negociação, não serve.
Se não entende os sinais da economia, não serve.
Se está preocupado com eleições - legislativas e presidenciais -, não serve.
Se o Orçamento que tem para apresentar é mau, não serve.

Se não serve, demita-se! Mas demita-se mesmo e passe o cargo de primeiro-ministro ao ministro de Estado ou a outro gajo qualquer.

E eu continuo sem perceber como é que os fazedores de opinião não percebem que o gajo é perigoso!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

[1156.] Lunae dies

200 anos da Batalha do Bussaco

O Chefe de Estado presidiu às cerimónias militares de evocação da batalha. Cavaco Silva proferiu um discurso aparentemente simples e circunstancial. Quando terminou, os jornalistas presentes garantiram: Não disse nada de especial, para além de um apelo final à união em benefício da segurança e do desenvolvimento da Pátria! Ao ouvir isto, alguém do staff do presidente esboçou um enigmático sorriso. Seria necessário fazer uma leitura mais atenta, antes de tirar ilações...

Cavaco Silva é um homem hábil e profundamente metódico. O que disse no Bussaco, não se percebe de uma só leitura. O Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas falou à Nação e disse muito mais do que à primeira vista foi entendido. Não se ouviu, nas televisões uma palavra proferida no Bussaco. O discurso ainda não está disponível no sitio da presidência. Cavaco arriscou e disse muito mais do que seria de esperar. Mesmo que muito poucos o tenham entendido. Talvez tenha falado para memória futura.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

[1155.] Mercurii dies

Os heróis do Bussaco

Não será fácil para nós, hoje, imaginar a aflição dos nossos antepassados, em 1810 – e antes, em 1807 e 1808 –, perante a informação de que mais de sessenta e cinco mil soldados franceses se deslocavam a caminho da capital do país, saqueando e destruindo tudo o que se lhes deparava pela frente. Sabendo, então, que eles estavam no caminho dos franceses e que o destino dos seus haveres, do pouco que teriam ganho de centenas de anos de feudalismo, estaria, assim à mercê de um invasor. Apesar de viver, ciclicamente, períodos de grande crise e instabilidade, há mais de 150 anos que em Portugal não se travavam guerras ou batalhas.
O pouco que poderemos sugestionar – até porque temos a tranquilidade do conhecimento histórico do nosso lado – é que os nossos antepassados terão tido medo, terão procurado pôr-se a salvo, terão procurado, com dignidade, preservar o que tinham. Ou então não…
Depois da ‘conquista’ de Almeida, em Agosto de 1810, Arthur Wellesley, visconde de Wellington, comandante supremo das forças anglo-lusas, terá dado ordem de evacuação a todas as populações que se encontravam no caminho dos franceses até Lisboa. Quando chegaram a Viseu, por exemplo, em meados de Setembro, os franceses encontraram uma cidade abandonada, desprovida de tudo, e sem os seus nove mil cidadãos residentes.
Os relatos que nos chegam hoje – duzentos anos passados – do comportamento da população face ao avanço dos invasores estarão, certamente, emoldurados pela apologética heróica da versão dos vencedores, mas não há dúvidas, com os registos de que dispomos, de que os portugueses enfrentaram esta dificuldade com coragem e determinação.
Registos de que foram queimadas as sementeiras e os bens alimentares que não poderiam ser evacuados ou escondidos, para que os franceses não se servissem deles. Registos de que só ficaram para trás os animais velhos, terrenos queimados e água envenenada para prejuízo do invasor que, com a criatividade de afamado gastrónomo, acabou por criar iguarias como a chanfana ou a lampantana mortaguense.
Com a coragem de quem destrói o que é seu para que outros disso não se usem, os nossos antepassados, por terras de Mortágua, Anadia e Mealhada, especialmente, deram testemunho heróico de patriotismo e bravura. Ao que tudo tem pouco importa perder parte. Ao que nada tem, a perda de parte é questão de sobrevivência. E muitas pessoas – contados como danos colaterais? – perderam a vida, mesmo não sendo soldados. Muitas terão sido agredidas e violadas, muitas terão sido as sequelas deixadas pelo invasor.
Mais do que Wellington, ou os soldados profissionais, o verdadeiro herói do Bussaco foi o povo português. Um povo feito de homens e mulheres que, não tendo podido fugir para o Brasil, como os dignitários do Estado viveram, na pele, as agruras da invasão.
Esta bravura dos nossos antepassados bem pode, hoje, ser tomada como exemplo e como incentivo à nossa resistência colectiva às dificuldades. Em 26 de Junho de 2010, em Sobral de Monte Agraço, por ocasião das Comemorações dos Duzentos Anos das Linhas de Torres, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, recorria ao legado dos nossos antepassados para falar dos dias de hoje: “Celebramos, invocando o seu exemplo, a capacidade de resistência e a capacidade de sofrimento dos portugueses. Os esforços e os sacrifícios que fizeram asseguraram a nossa liberdade. Mas também se fundavam na esperança de uma vida melhor. Aqueles que pegaram em armas, aqueles que resistiram acreditaram no futuro enquanto possibilidade, como ultrapassagem das limitações do presente. Tiveram a esperança de que fossem os portugueses a tomar por si as decisões que marcariam o seu destino. Também hoje, como sempre, se espera que sejamos nós próprios a tomar as decisões que se impõem. Diz-se que suportamos mal as contrariedades, sobretudo quando exigem esforço. Importa que, para além da coragem episódica e da urgência, para além da coragem como virtude ocasional, como impulso, tenhamos também a coragem da constância, a capacidade de manter firme e duradouramente uma posição que seja indispensável à construção de um futuro melhor”.
Há duzentos anos, os nossos antepassados eram camponeses que humilharam os exércitos da maior potência militar da época.
“Em Portugal combateu um povo que quis continuar a ser livre. Por isso são importantes momentos como este, momentos em que contamos a nós próprios estórias acerca daquilo que somos e daquilo que conseguimos fazer. Essa é a nossa herança mais valiosa, porque encerra em si memórias e valores que nos distinguem e nos unem. Aqueles portugueses fizeram o impossível apesar dos sofrimentos e dos sacrifícios a que foram submetidos. A todos causou espanto a capacidade dos portugueses para suportar as consequências da estratégia adoptada. O General Wellington foi bem claro, em Agosto de 1810 na sua Proclamação ao Povo de Portugal: ‘Os portugueses vêem agora que não têm outro remédio para o mal que os ameaça senão a determinação para a resistência. Resistência e determinação para tornar o avanço do inimigo o mais difícil possível, tirando-lhe do caminho tudo o que é valioso ou que possa contribuir para a sua subsistência ou para frustrar o seu progresso’”, exaltava Cavaco Silva.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

[1154.] Mercurii dies

O Bussaco e as Sete Maravilhas

Os seiscentos e cinquenta mil votos que contribuíram para a eleição das “7 Maravilhas Naturais de Portugal” não elegeram a Mata Nacional do Bussaco. A noticia, não sendo uma surpresa – essa possibilidade esteve sempre em cima da mesa, desde o inicio – não deixa de proporcionar um certo paladar de frustração em todos os que se empenharam na promoção do Bussaco, votaram e foram acompanhando, com entusiasmo, o evoluir da candidatura e a superação das sucessivas etapas.
Na noite em que foram conhecidos os resultados, e já depois da consagração das “7 Maravilhas Naturais de Portugal”, no Facebook – uma das redes sociais que serviu como plataforma para grande parte da campanha feita em prol do Bussaco – alguém (que não identificamos por não termos pedido autorização) declarava: “Não vencemos mas ganhámos! Ganhámos em proximidade, em preocupação, em maior atenção ao rico património natural que é o nosso! E este é o desafio que não pode terminar aqui! Ser finalista criou um espírito que agora não pode retroceder! Parabéns a todos os que se empenharam em eleger a mata do Buçaco. Parabéns a todos os que foram eleitos!”.
Este comentário reflecte bem e vai ao encontro do que procurámos salientar no Editorial que publicámos a 1 de Setembro: “A importância deste concurso está muito mais na campanha, no burburinho e na divulgação das candidaturas que permitiu, do que no valor intrínseco da distinção no futuro. Também neste caso – e esta é apenas a nossa opinião – o caminho é mais importante do que o acto de chegar ou de ser o primeiro”.
Uns acreditam que se trata de sorte, outros falarão em coincidências, alguns dirão que é a Providência. O que é um facto é que este concurso das “7 Maravilhas Naturais de Portugal” apareceu na altura ideal, surgiu como a grande oportunidade, o óptimo argumento para – depois de criada a Fundação Bussaco – se restabelecerem e fortalecerem os laços entre aquele património e a população. E a oportunidade foi aproveitada com grande sucesso, e isso sim, é digno de registo.
“Do caminho feito ficam três garantias. A primeira é a de que o Bussaco é um património natural riquíssimo (mesmo que tenha sido plantado pelo homem, não deixa de ser uma grande obra da natureza) que não tem paralelo em Portugal. A segunda garantia é a de que o facto de não ser, ainda, Património da Humanidade é, apenas, circunstancial e de natureza meramente política. A terceira garantia é a de que a comunidade da região e do concelho da Mealhada, especialmente, recebeu a ‘devolução’ do Bussaco de braços abertos e está ansiosa por se envolver na sua requalificação e em causas comuns de mobilização colectiva”, dissemo-lo há quinze dias e sublinhamo-lo hoje, especialmente.

Tivemos oportunidade de, na pessoa do presidente da Fundação Mata do Bussaco, antes mesmo de se saberem os resultados divulgados a 11 de Setembro, retribuir o agradecimento que dirigiu ao Jornal da Mealhada por “toda a amizade e carinho que tem demonstrado pela Mata Nacional do Buçaco, pela promoção e divulgação da nossa Região, do nosso Património e da nossa Mata!”. Nessa altura, fizemos questão de salientar que o Jornal da Mealhada procurará estar, sempre, – com a parcialidade de quem tem como mote ser um jornal “regionalista”, com vinte e cinco anos, criado “na defesa intransigente dos interesses da região onde se insere” – na linha da frente de todas as causas que promovam o património, os valores e as pessoas do concelho da Mealhada e da região. Continuaremos sempre prontos para Servir.

Editorial do Jornal da Mealhada de 15 de Setembro de 2010
O trecho a itálico não foi publicado na edição impressa do Jornal da Mealhada

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

[1153.] Escola de Sernadelo I

As minhas bodas de prata estudantis

Primeira Parte

Andei à procura de dados, mas eu nesse tempo ainda não sabia escrever. Andei a vasculhar nos albuns fotográficos em casa da minha mãe, mas nada. Não encontro nada que me ajude a determinar o dia em que me estreei nas lides estudantis...
Terá sido em Outubro. As aulas, há vinte e cinco anos, começavam em Outubro... (Roam-se os putos que começaram este ano a 13 de Setembro! E que já aqui andam aos guinchos para nos infernizar os miolos).
A minha primeira escola foi a de Sernadelo e a minha primeira professora foi a Dona Maria Eugénia, da Pampilhosa, esposa do professor Augusto Dias, que me antecedeu no cargo de Director do Jornal da Mealhada.
A escola de Sernadelo era, na altura, cor-de-rosa, e sofreria uma grande remodelação no interior no ano seguinte. Não me lembro bem como era neste Outubro de 1985... lembro-me que era imensa e que o quadro dos alunos da primeira classe era uma velha ardósia preta, quadrada que a escola ainda conserva.
Lembro-me dos meus colegas. De quase todos. Daqueles de quem gostava mais e dos que gostava menos. Eramos alunos das quatro classes na mesma sala. No ano seguinte seria diferente. Mas nesse primeiro ano a molhada era total.
Tinha aulas só à tarde e passava a manhã a brincar lá em baixo, na residencial da minha avó onde agora resido com a Inês.
Lembro-me de ir para a escola num dia cinzento (ou seria eu próprio), de ir logo sozinho e de esperarmos o carro vermelho da professora, um Renault, com a euforia de quem espera que ele não apareça. Lembro-me, mais tarde, da fila para corrigir os trabalhos de casa - intermináveis - e de "quem ir ao ar perder o lugar". Lembro-me da tensão da régua e dos ralhetes da professora. Lembro-me do recreio - sempre passado ao pé das raparigas - e de ir fazer as minhas necessidades fisiológicas a casa - que era colada à escola. Lembro-me do meu primeiro manual escolar - horroso, cor-de-rosa com um caracol na capa (e de o Diogo uma vez o ter rasgado em várias parte). Lembro-me de, como bom bairradino e filho de um vendedor de automóveis, ter começado por saber escrever 'pipa' e 'popó'.

Foi há 25 anos.
Arre!

domingo, 12 de setembro de 2010

[1152.] Bussaco falhou eleição das Sete Maravilhas Naturais

Seiscentos e cinquenta mil votos escolheram as Sete Maravilhas Naturais de Portugal. A Mata Nacional do Bussaco acabou por não conseguir a eleição, ficando a consagração da Maravilha Natural da categoria Florestas e Matas para a Floresta Laurissilva - Paisagem Património da Humanidade - da Região Autónoma da Madeira.
A Declaração Oficial foi feita esta noite, sábado, 11 de Setembro, no Porto de Mar em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, na Região Autónoma dos Açores.
As Sete Maravilhas Naturais de Portugal são:
- LAGOA DAS SETE CIDADE, Ilha de São Miguel, Região Autónoma dos Açores - Zonas Aquáticas Não Marinhas;
- PORTINHO DA ARRÁBIDA, Distrito de Setubal - Praias e Falésias;
- FLORESTA LAURISSILVA, Região Autónoma da Madeira - Florestas e Matas;
- PAISAGEM VULCÂNICA DA ILHA DO PICO, Região Autónoma dos Açores - Grandes Relevos;
- GRUTAS DE MIRA D'AIRE, Distrito de Leiria - Grutas e Cavernas;
- RIA FORMOSA, Distrito de Faro - Zonas Aquáticas;
- PARQUE NATURAL DA PENEDA GERÊS, Distrito de Braga - Areas Protegidas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Duzentos anos depois da Grande Batalha, que marcas ficaram na paisagem, nas tradições, na cultura e nos rostos das gentes?
A JM - Jornal da Mealhada, Lda, procurando assinalar o bicentenário da Batalha do Bussaco e o 25.º aniversário do Jornal da Mealhada, promove, através dos seus títulos Jornal da Mealhada e jornal FRONTAL, o concurso de fotografia «Heranças da Batalha».
Os três melhores trabalhos recebem o
Prémio José A.Branquinho de Carvalho 2010.
O regulamento pode ser consultado em www.jornaldamealhada.com

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

[1150.] Mercurii dies

Os Processos Casa Pia

Com a leitura da sentença – ou da sua súmula? – do tribunal de primeira instância, na passada sexta-feira, termina um capítulo importante – apenas isso – do famoso ‘Processo Casa Pia’, no qual foram julgadas – e agora condenadas – algumas figuras públicas nacionais pela prática de abuso sexual de menores, que estavam à guarda do Estado, internos numa instituição pública.
O processo nasce, depois de tomar proporções públicas, na sequência de uma reportagem da SIC e do Expresso, em Novembro de 2002. No entanto, desde os finais da década de setenta do século passado que o Estado conhecia denúncias de que havia a prática de lenocínio com jovens casapianos.
O ‘Processo Casa Pia’ nasce num momento em que em Portugal já se assistia a uma grave crise na credibilidade do sistema judicial. Recordamos que, em 2002, já era notório o sentimento colectivo de que “os processos dos poderosos acabavam todos por prescrever” – os casos Melancia, Costa Freire, Zezé Beleza provavam-no. Perante o escândalo da rede de pedofilia, como na altura se chamou, os operadores do ‘Poder Judicial’ português – todos eles – estabeleceram que o ‘Processo Casa Pia’ teria de ser um caso exemplar. A maneira como o sistema conseguisse resolver um processo com esta complexidade, e com esta atenção mediática – causada pela repugnância dos crimes em causa e pela notoriedade dos acusados –, revelar-se-ia fundamental para a credibilização da Justiça. Assim se pensava no final de 2002.
Este peso, a pressão, a responsabilidade de ter nas suas costas “a sobrevivência do sistema judicial e, em consequência, da Democracia e do Estado de Direito”, não pode ter beneficiado o trabalho dos envolvidos na investigação. Era preciso arranjar suspeitos com rapidez. Era preciso que esses suspeitos fossem, de facto, figuras públicas com notoriedade, para responder às expectativas iniciais.
O julgamento tinha que acontecer da mesma maneira, de forma célere, sem incidentes processuais relevantes – dentro do possível com sete arguidos e um milhar de testemunhas – e, da sentença, tinham que resultar condenações. Independentemente da culpa dos acusados – que não discutimos por não conhecermos o processo, nem nos arriscarmos a tecer considerações ‘pelo que nos parece’ – este processo, na demanda da moralização, só poderia ter os efeitos contrários.
A Justiça quer-se distanciada do burburinho para ser justa – por isso, na imagem, é cega. Por outro lado, mais do que um sistema operativo de administração de uma função soberana do Estado de promoção de igualdade material e defesa da segurança e tranquilidade colectivas, a Justiça é um sentimento. Uma dimensão subjectiva através da qual as pessoas se sentem ou não tranquilas com o sistema e, em consequência, com a comunidade onde estão inseridas. Num caso em que cada sessão de julgamento é comentada na televisão, por pessoas que não conhecem o processo, não há possibilidade de promover a tranquilização e credibilização. Ou seja, este processo nunca poderia – em tempo algum – beneficiar a credibilidade no sistema judicial português.
Oito anos passados, o ‘Processo Casa Pia’ acaba, então, por ser mais do que um processo-crime ou caso de justiça. Foi um conjunto de muitos outros processos. Foi, desde logo, um processo de credibilização da Justiça portuguesa. Uma tentativa que hoje se percebe amplamente frustrada. Foi um processo de consciencialização de que o segredo de Justiça é um mito e de promoção do mito de que o poder desregrado da comunicação social é um direito. Foi um processo de purga política – lembremos as escutas a Ferro Rodrigues, António Costa e Jaime Gama, e os efeitos que provocaram. Foi, também, um processo em que foi notória a fragilidade do sistema judicial à manipulação do poder político – com as alterações à la carte feitas ao Código Penal e ao Código de Processo Penal, ‘encomendadas’ para casos concretos. Foi um processo da demissão e desresponsabilização do Estado no que de repugnante acontece com crianças que estão à sua guarda.
Infelizmente, não há razões para, com a leitura da sentença e a condenação dos prevaricadores, nos sentirmos mais tranquilos.

Editorial do Jornal da Mealhada de 8 de Setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

[1149.] Marti dies



Porque já começaram as Vindimas. Porque esta é uma daquelas músicas bem escritas, com bom poema. Porque o Vinho é português - seja do Porto (há videiras na Ribeira?) ou da Bairrada. Aqui fica a homenagem a quem faz vinho "fruto da videira e do trabalho do Homem"!

Vinho Do Porto
Letra de Carlos Paião

Primeiro a serra semeada terra a terra
Nas vertentes da promessa
Nas vertentes da promessa
Depois o verde que se ganha ou que se perde
Quando a chuva cai depressa
Quando a chuva cai depressa

E nasce o fruto quantas vezes diminuto
Como as uvas da alegria
Como as uvas da alegria
E na vindima vão as cestas até cima
Com o pão de cada dia
Com o pão de cada dia

Suor do rosto pra pisar e ver o mosto
Nos lagares do bom caminho
Nos lagares do bom caminho
Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado
Generoso como o vinho
Generoso como o vinho

E pelo rio vai dourado o nosso brio
Nos rabelos duma vida
Nos rabelos duma vida
E para o mundo vão garrafas cá do fundo
De uma gente envaidecida
De uma gente envaidecida

Vinho do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira mar
À beira Porto
À vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o nosso mar

Vinho do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira mar
À beira Porto
À vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o desconforto
Para o que anda torto
Neste navegar

Por isso há festa não há gente como esta
Quando a vida nos empresta uns foguetes de ilusão
Vem a fanfarra e os míudos, a algazarra
Vai-se o povo que se agarra pra passar a procissão
E são atletas, corredores de bicicletas
E palavras indiscretas na boca de algum rapaz
E as barracas mais os cortes nas casacas
Os conjuntos, as ressacas e outro brinde que se faz

Vinho do Porto vou servi-lo neste cálice
Alicerce da amizade em Portugal
É o conforto de um amor tomado aos tragos
Que trazemos por vontade em Portugal

Se nós quisermos entornar a pequenez
Se nós soubermos ser amigos desta vez
Não há champanhe que nos ganhe
Nem ninguém que nos apanhe
Porque o vinho é português

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

[1148.] Lunae dies

5 de Setembro de 2010
10h 55m
Abraço ao Bussaco!
Conseguimos!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

[1146.] Iovis dies

2 de Setembro de 31 a.C
BATALHA DE ACCIO
Quadro de Lorenzo A.Castro, de 1672
Em 2 de Setembro de 31 a.C, terminava por fim, em guerra, a República Romana e era criado o Império Romano, com a vitória e supremacia de Octaviano - coroado César Augusto.
A Batalha de Accio foi uma das mais importantes da Antiguidade - a ela é feita referência na Eneida, de Virgilio.
Júlio César, quando morre, adopta Octaviano como seu filho, uma vez que não teria filhos naturais legitimos (ou conhecidos). Octaviano, juntamente com Lépido e Marco António, formam o Segundo Triunvirato e governam a República.
Os conflitos são permanentes e Marco António, que passou a governar o Egipto, inicia uma ligação com Cleopatra, a herdeira do último faraó do Egipto. Marco António declara, então, que havia um filho natural da união de Júlio César com Cleópatra: Cesarion, e que esse sim, seria o herdeiro de Júlio César.
Octaviano, que tinha o apoio das legiões e do Senado, sente-se ameaçado e consegue que o Senado aprove a destituição de Marco António e uma declaração de guerra a Cleopatra.
A guerra começa, então, e o palco do xadrez político será o Mar Mediterrâneo. Marcus Vipsanius Agripa capturou a cidade grega e o porto naval de Methon que era leal a Marco António. "Marco António era um excelente soldado, no entanto a sua falta de experiência em confrontos navais foi o seu calcanhar de Aquiles". As duas frotas encontram-se, por fim, ao largo da Grécia, em Accio.
A frota romana - leal a de Octaviano - era comandada por Marcus Vipsanius Agrippa e a de Marco António apoiada pelos barcos de guerra egipcios.
O resultado foi uma vitória decisiva de Octaviano. Este - Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus - foi o primeiro e mais notável dos Imperadores Romanos, tendo adoptado o título 'César Augusto'.






quarta-feira, 1 de setembro de 2010

[1145.] Mercurii dies

5 de Setembro: Dia D do Bussaco!

Não nos envergonhamos de afirmar que fomos dos primeiros apoiantes da candidatura da Mata Nacional do Bussaco às 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Acompanhámos cada passo da candidatura e – com a parcialidade de quem tem como mote ser um jornal “regionalista”, “na defesa intransigente dos interesses da região onde se insere” – fomos apelando à mobilização e ao voto de todos os nossos leitores na única candidatura finalista dos distritos de Aveiro, Coimbra e Viseu ou localizada num raio de várias centenas de quilómetros.
(Faça-se um parênteses para deixar claro que, apesar da cerca da Mata Nacional do Bussaco se localizar, exclusivamente, no território do concelho da Mealhada – distrito de Aveiro –, não é de todo admissível que não se entenda esta candidatura – e a eventual eleição – como sendo de toda a Serra do Bussaco e, especialmente, da sua paisagem. Ou seja, integra, naturalmente, os territórios de Anadia, e, principalmente, de Mortágua – distrito de Viseu – e Penacova – distrito de Coimbra. Haverá paisagem mais caracteristicamente ‘bussaquiana’ do que a das aldeias de Trezoi, Meligioso, Moura, Sula ou Santo António do Cântaro? Essa é a paisagem do Bussaco popular, da montanha moldada pelo homem, como tão bem descreveu Fialho de Almeida).
Há poucos dias ouvíamos alguém garantir que não era justa a candidatura, na categoria de ‘Florestas e Matas’, de duas paisagens consideradas já Património da Humanidade com a Mata Nacional do Bussaco, que ainda hoje reúne razões para que se faça o apelo à requalificação, ao investimento por parte dos responsáveis governamentais. Retorquimos, na altura, que a justiça será dada pelo volume de votos e não por quaisquer outros critérios. Ganhará a candidatura que mais votos tiver. Ganhará a candidatura que for suportada por uma comunidade mais mobilizada, mais empenhada, que se mostre mais orgulhosa do seu património e da sua herança.
Choca-nos, confessamos, que no próprio nome das duas candidaturas oponentes à da Mata do Bussaco apareça a indicação “Património da Humanidade”. Também não somos indiferentes ao argumento de que não é completamente transparente o facto de o concurso ser patrocinado pelo “Turismo dos Açores” – região que conta com um quarto das candidaturas e com a realização das cerimónias de lançamento e de apresentação dos resultados. Mas já nada disso é importante, agora que o concurso está praticamente no fim.
O facto de a candidatura do Bussaco já ter estado na liderança permite-nos pensar que –depois do boom que resultou da transmissão televisiva de um programa de grande audiência em cada uma das candidaturas (de que o Bussaco também beneficiou) –, com mais um pouco mais de esforço, a eleição pode alcançar-se.
É por isso que a iniciativa “Abrace o Bussaco”, no próximo domingo, se reveste de particular importância. Trata-se de uma iniciativa que vai merecer a atenção de meios de comunicação social com carácter nacional o que permitirá difundir um último apelo ao voto, benefício que pode não ser acessível aos mais directos oponentes. Por outro lado, e talvez mais relevante, é uma realização que está a merecer o interesse e a adesão de muitas pessoas, o que é fundamental para o reconhecimento colectivo de que está feita a reconciliação dos cidadãos com o património do Bussaco. Uma reconciliação que tem benefícios económicos importantes para toda a região – como já tantas vezes aqui o demonstrámos – e que acaba por ser o que fica deste concurso, a grande vitória desta candidatura. E, isso sim, é importante e significativo.
Visitámos, recentemente, três dos sete locais que em 2007 foram consagrados como “Maravilhas de Portugal”. Em apenas um deles é feita a referência à honraria, com a bandeira – já desbotada – hasteada, discreta, ao lado do monumento. A importância deste concurso está muito mais na campanha, no burburinho e na divulgação das candidaturas que permitiu, do que no valor intrínseco da distinção no futuro. Também neste caso – e esta é apenas a nossa opinião – o caminho é mais importante do que o acto de chegar ou de ser o primeiro.
E do caminho feito ficam três garantias. A primeira é a de que o Bussaco é um património natural riquíssimo (mesmo que tenha sido plantado pelo homem, não deixa de ser uma grande obra da natureza) que não tem paralelo em Portugal. A segunda garantia é a de que o facto de não ser, ainda, Património da Humanidade é, apenas, circunstancial e de natureza meramente política. A terceira garantia é a de que a comunidade da região e do concelho da Mealhada, especialmente, recebeu a ‘devolução’ do Bussaco de braços abertos e está ansiosa por se envolver na sua requalificação e em causas comuns de mobilização colectiva.
O ‘Abraço ao Bussaco’ no próximo domingo, mais do que uma campanha de mobilização de massas é um gesto de demonstração de carinho e de acolhimento, um gesto de manifestação de afectividade e de amor – pelo regresso do filho pródigo que chegou finalmente a casa, ao convívio dos que o mais amam.

Editorial do FRONTAL de 31 de Agosto
Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de Setembro

terça-feira, 31 de agosto de 2010

[1144.] Marti dies



Estou além, de António Variações

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só


Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

[1142.]

Fomos de Férias!
POR TERRAS DO GRAAL
... mas já regressámos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

[1141.] Fazer o Camiño...

Ultreia e Suseia
e que Deus os Acompanhe

O João Ricardo, a Marta Paredes, a Ana Bárbara Aleixo e o Nelson Saldanha recomeçaram hoje a caminhada de ligação de Coimbra a Santiago de Compostela. Partiram hoje à noite - por volta das 22 horas - a partir de São Pedro de Rates até Valença do Minho (o objectivo pelo menos é esse). Esta é a sexta etapa: já fizeram Coimbra - Mealhada, Mealhada - Agueda (estas duas também fiz com eles), Agueda - Oliveira de Azeméis, Oliveira de Azemeis - Porto e Porto - São Pedro de Rates.

Rezo para que tudo corra bem. E acompanho-os em espirito, desejando que façam bom caminho.

Ultreia e Suseia

[ADENDA]

- Esta actividade começou a 5 de Julho de 2008, com a realização da etapa Coimbra - Mealhada [Registo AQUI][Participaram na actividade: A Bárbara, o Samuel, o Manuel António e o Nelson e eu].
- A segunda etapa, Mealhada - Agueda, realizou-se na noite de 4 para 5 de Outubro de 2008 [Registo AQUI][Participaram na actividade: A Bárbara, a Marta, o João Ricardo e o Nelson e eu. Com o apoio logístico do Fred].
- A terceira etapa, Agueda - Oliveira de Azemeis, realizou-se em 16 e 17 de Maio de 2009 [Registo AQUI][Participaram na actividade: A Marta, o João Ricardo, o Manuel António, o Samuel e o Nelson. Com o meu apoio logistico].
- A etapa seguinte, a quarta, Oliveira de Azemeis - Porto, teve lugar a 12 de Setembro de 2009. [Registo AQUI][Participaram na actividade: A Marta, o João Ricardo e o Nelson. Com o meu apoio logistico].
- A quinta etapa, Porto - São Pedro de Rates, realizou-se a 15 e 16 de Janeiro de 2010.[Participaram na actividade: A Marta, o João Ricardo, e o Nelson. Com o apoio logistico do Fred].
- A mais recente etapa, a quinta, São Pedro de Rates - Valença, teve lugar a 20,21 e 22 de Agosto de 2010.

[1140.] 2011 - Ano Europeu do Voluntariado

A Comissão Europeia declarou o ano de 2011 como Ano Europeu do Voluntariado sob o lema 'Volunteer! Make a difference.' - Voluntário! Faz a Diferença.

«Mais de 100 milhões de Europeus e Europeias estão envolvidos(as) em actividades voluntárias, são solidários(as) e, desta forma, fazem a diferença na nossa sociedade. Um estudo do Eurobarómetro em 2006 revela que 3 em cada 10 europeus/europeias afirmam ser voluntários(as) activos(as), e que perto de 80% dos(as) inquiridos(as) consideram o voluntariado uma parte importante da vida democrática na Europa.
Existe um vasto leque de noções, definições do termo “voluntariado”. No entanto, o que é comum em toda a Europa é que sempre que as pessoas se envolvem em actividades de entreajuda, de apoio àqueles que necessitam, na protecção do ambiente, em campanhas de direitos humanos, ou em acções que visam contribuir para que todos(as) usufruam de um nível de vida decente –a sociedade como um todo, assim como os(as) voluntários(as) de um ponto de vista individual, saem beneficiados e a coesão social é significativamente fortalecida.»
«Em 2011, celebrar-se-á o décimo aniversário do Ano Internacional do Voluntariado (AIV) da ONU. O AIV 2001 veio demonstrar que o interesse público de alto nível pelos voluntários e a sua contribuição na sociedade incita os governos e outros intervenientes a comprometerem-se com acções comuns. Podem ser criadas sinergias com as actividades da ONU em 2011, tirando partido do progresso obtido até agora para desenvolver uma agenda política europeia para o voluntariado “2011 +”. »

Para mais informações:

[1139.] Veneris dies

Os Velhos São os Verdadeiros Rebeldes

«Os velhos são os verdadeiros rebeldes. Os jovens, por muiro rasgados que estejam os blusões de cabedal, querem sempre conformar-se com qualquer coisa. Querem fazer parte dum movimento. Querem fazer parte de uma revolução ou de uma comunidade. Os velhos só querem fazer partes. De preferência gagas. Os velhos não têm nada a perder. Podem dizer e fazer o que lhes apetece. É por isso que os velhos, mais do que os novos, dizem quase sempre a verdade. Nós é que podemos não querer ouvi-la. Há-de reparar-se que aquilo que os velhos dizem é que «a vida é uma chatice». Nós dizemos que eles estão senis. Mas eles é que têm razão.»
Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'
A velhice, a mim, incomoda-me.
Faz-me confusão.
Não sei lidar com ela!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

[1138.] Hoje

«"Leitão só o da Mealhada", palavras de Ricardo Henriques, responsável pela tasquinha do Restaurante Típico, de Sernadelo, em Santarém [no XVI Festival Nacional de Gastronomia], na foto, à esquerda, com Duarte Simões, redactor do JM, e Messias Costa, vendedor dos vinhos Messias».
A foto é do dia 27 de Outubro de 1996
Legenda da fotografia, publicada junto da noticia sobre o Festival Nacional de Gastronomia na edição 216 do Jornal da Mealhada, de 15 de Novembro de 1996.
Hoje faria 65 anos.
Chamava-se Abílio, mas em determinada altura, enquanto redactor do Jornal da Mealhada, assinava Duarte Simões (os seus dois apelidos).
Era padre, mas só o assumia quando era necessário.
É um homem extraordinário que continua a deixar muitas saudades.