quarta-feira, 10 de novembro de 2010

[1209.] Mercurii dies

A responsabilidade criminal dos governantes

O líder do maior partido da oposição, Pedro Passos Coelho, na passada sexta-feira, 5 de Novembro, em Viana do Castelo, (num entusiasmo pré-eleitoral?) defendeu que “aqueles que conduzem a maus resultados e a incumprimentos” – agentes políticos enquadre-se – “devem ser responsabilizados civil e criminalmente”. Estas declarações surgem como corolário de uma semana marcada pela viabilização do orçamento de Estado para 2011, com a abstenção do PSD, e ao mesmo tempo, e estranhamente, na opinião dos especialistas, marcada pelo aumento do juro da dívida soberana portuguesa e pela agressividade discursiva do PSD no debate do orçamento… que viabilizou.
As declarações de Pedro Passos Coelho foram imediatamente contestadas pelo porta-voz do Partido Socialista, que as classificou como “indignas e irreflectidas”. Também Vieira da Silva, ministro da Economia, se apressou a acusar Pedro Passos Coelho de falta de conhecimento das regras do Estado de Direito, “onde todos, sem excepção, estão sujeitos à lei”.
Se as declarações de Passos Coelho são incendiárias, as dos representantes do PS e do Governo são incompreensíveis. Passos Coelho terá usado de uma demagogia primária, ao dizer o que o povão há muito sussurra, e terá recorrido a um argumentário populista – esquecendo (ou procurando fazer esquecer?) que a cumplicidade também é criminalmente punível. Mas não será a ideia descabida, apenas, a quem tem alguma coisa a temer?
Marcelo Rebelo de Sousa criticou o momento escolhido pelo líder dos social-democratas para proferir este tipo de considerações, mas – talvez colocando a borla de académico constitucionalista – não deixa de salientar que já há institutos jurídicos que responsabilizam criminalmente os políticos. “Há mesmo um crime de violação das normas de execução orçamental” terá dito o constitucionalista no seu programa televisivo de comentário politico, acrescentando: “pode alargar-se os crimes de gestão danosa”. Para logo acrescentar: “Eles existem na lei, a aplicação na prática é que tem sido muito discutível!”.
Uma ética de responsabilidade – na actual conjuntura sociológica da realidade ocidental de esgotamento e falência do conceito de autoridade – só se consegue imprimir pela força e pela criminalização. A lógica da imunidade parlamentar para uso livre de uma retórica exacerbada devia ter acabado com a falência do parlamentarismo rotativista do fim da Monarquia e da Primeira República. O dolo e a negligência, na gestão da res publica devem ser tão censuráveis como em qualquer outra dimensão social do homem que vive em comunidades. E é por aí que segue o primado da lei e a igualdade formal dos homens perante a lei. Porque razão é punido um profissional que agiu com negligência na sua acção laboral e não é punido um deputado que produziu uma lei danosa para a comunidade? Dirão sempre alguns que a urna eleitoral julga os maus políticos. Julgará? Será isso verdade? Será o direito plebiscitário da simpatia eleitoral justo? Será sequer direito?

A maioria de esquerda do Parlamento da Islândia, em 28 de Setembro de 2010, aprovou uma moção que determinava a apresentação a tribunal especial do primeiro-ministro que levou o país à bancarrota, o conservador Geir Haarde, por alegada negligência no que resultou no colapso bancário de Outubro de 2008. Dias antes foi tomada idêntica medida relativamente a três outros dignitários do Governo de Haarde – o ministro das Finanças, do mesmo Partido da Independência que o chefe do Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do partido social-democrata, e o ministro do Comércio.
A responsabilização – seja criminal ou meramente civil – dos políticos, como se vê, não é um exclusivo da Direita ou da Esquerda. Trata-se, acima de tudo, de um sinal dado à classe política – islandesa, portuguesa, ou outra qualquer – “de que a imunidade política pouco vale quando o interesse nacional está em jogo”. Se até um voluntário pode ser responsabilizado criminalmente pelos seus actos, porque razão não o é um politico? A quem, tantas e tantas vezes – apesar das excepções – falta sentido de Serviço e sobeja ganância?

Por questões de espaço, a versão impressa do Editorial do Jornal da Mealhada de 10.11.10 foi (consideravelmente) adaptada relativamente a este texto.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

[1208.] Marti dies



I Have a Dream, Martin Luther King
by Will.I.Am

Hoje, Dia Mundial Contra o Racismo!

domingo, 7 de novembro de 2010

[1207.] Solis dies



OS PILARES DA TERRA

A adaptação do best-seller de Ken Follet por Ridley Scot

A TVI está a divulgar a informação de que a série "Os Pilares da Terra", realizada por Ridley Scot, estreia amanhã. A informação está no site, mas não está na programação... Em noite de Futebol, espero que não haja confusões.

Trata-se de uma estreia pela qual aguardo há vários meses. O tema interessa e até deu para imaginário do V. ACANUC, na Rebordosa em Julho passado. Uma série (em 8 episódios?) a não perder. Infelizmente marcada para as segundas-feiras!

[ADENDA - 08.11.10] - Aconteceu o que se temia. A série, apesar de anunciada, no próprio anuncio da TVI como "faz-se história em televisão", não foi para o ar. A TVI faz história não cumprindo o que promete, se calhar é isso! Palhaços!

sábado, 6 de novembro de 2010

[1206.] Saturni dies


«Ergue a luz da tua espada, para a estrada se ver!»

Hoje, dia 6 de Novembro, assinala-se, pela segunda vez desde a sua canonização, em 26 de Abril de 2009, pelo Papa Bento XVI, a solenidade de São Nuno de Santa Maria, o Santo Condestável.
Em Saturni dies, dia de poesia, fica o poema ‘Nuno Alvares Pereira’, inscrito na Mensagem, de Fernando Pessoa. Um poema bonito, forte e muito encorajador, que remata com uma imagem muito bonita e especialmente inspiradora em momentos de crise e desalento nacional: «Ergue a luz da tua espada, para a estrada se ver!».


Nuno Alvares Pereira
Primeira Parte - Brasão - IV - A Coroa

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!

MENSAGEM, de Fernando Pessoa

Não vivemos uma crise tão severa e tão brutal como a de 1383-1385, na qual Nuno Alvares Pereira teve um papel importante e, também ele, foco de esperança, de alento e de santidade. Mas faz sentido lembrarmos o seu testemunho de bravura, de coragem, de clareza, de determinação, de ambição, de santidade e de não-resignação perante as agruras do caminho.

Ala Arriba!
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

[1205.] Veneris dies

Ecce mulier

Odete Isabel

Amanhã, 6 de Novembro, passam 174 anos sobre a criação, por decreto de Mouzinho de Albuquerque, assinado pela Rainha D.Maria II de Portugal, do concelho da Mealhada. Ao longo destes quase dois séculos, e acompanhando os rebuliços da história de Portugal foram alguns os homens que dirigiram os destinos deste Município, certamente sempre imbuídos do espírito de serviço público, de promoção da qualidade de vida e de bem-estar dos seus concidadãos. Não são do domínio público generalizado o nome de todos eles uma vez que, em 8 de Novembro de 1880 um incêndio na Câmara destruiu 44 anos de registos históricos municipais.

A primeira vez em que todos os mealhadenses puderam votar e escolher um presidente da Câmara, nas primeiras eleições democráticas para o poder local, em 1976, escolheram uma mulher, a lista mais votada foi a do Partido Socialista, encabeçada por Maria Odete dos Santos da Isabel.

Odete Isabel, mealhadense da Póvoa, licenciada em Ciências Farmacêuticas e a trabalhar nos Hospitais da Universidade de Coimbra, foi a primeira presidente da Câmara da Mealhada eleita democraticamente. Foi, também, a única. Cumpriu apenas um mandato e só mais tarde, em 1999, é que outra mulher tomaria o lugar de vereadora na Câmara da Mealhada.

Reza a lenda que dirigiu a autarquia numa altura conturbada. Para além do Processo Revolucionário Em Curso ela e a sua equipa acabaram por ensaiar um modelo de gestão descentralizada do Estado que até essa altura era completamente incipiente. Terão tomado nas mãos um concelho – como quase todos os do país, nessa altura – onde a luz eléctrica não estava generalizada, com uma rede viária municipal precária, com problemas de coesão, entre muitos outros que pessoalmente não consigo já identificar.

Uma grande senhora da Democracia, que hoje saudamos e homenageamos!

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

[1204.] Iovis dies

"A Morte de Sócrates"

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), em 1787
Metropolitan, Nova Iorque

"A Morte de Sócrates" é um ícone da pintura neoclássica. David, o seu autor, esteve ao serviço de Robespierre e de Napoleão Bonaparte, e procurou mostrar, sempre, que "a arte está acima das ideias". Nesta obra, o pintor retrata Sócrates [Σωκράτης, o filósofo ateniense] teorizando sobre a imortalidade da alma, enquanto procurava justificar a sua escolha pela sentença de morte, ao invés da renúncia às suas teses, mostrando que as ideias estão acima das paixões humanas.
De Σωκράτης nunca se saberá se foi um teimoso, se um cobarde, se um herói. Às vezes tenho medo e pergunto-me a mim mesmo se já não é esta "tentação para o abismo", para o sucidio em vez da renuncia e do reconhecimento do erro que move os nossos politicos e, especialmente, os que não estando a ter resultados parecem procurar representar exactamente o contrário, numa especie de dimensão paralela que procuram 'vender', mas na qual só eles acreditam (ou finjem acreditar).

[1203.] Dia Vencido 03.11.10














Depois de uma longa novela política, o Orçamento Geral do Estado foi ontem aprovado, na generalidade, com os votos a favor do PS, os votos contra do PCP, BE, CDS e PEV, e a abstenção do PSD.

Apesar de viabilizar o Orçamento, com a abstenção, o PSD foi duro nas criticas e chegou mesmo a falar-se que as informações dadas aos mercados estavam a ser contraditórias.

Uma coisa resulta de todo este processo: Já é só o pragmatismo que governa Portugal. Os partidos políticos, mesmo a oposição, resignaram-se ao pragmatismo de fazer o que tem de ser feito, independentemente do que poderia considerar-se correcto.

E o pragmatismo é coisa perigosa. Porque, em última análise, a suspensão da Democracia, em nome do pragmatismo resulta na mais descaracterizada das ditaduras, a do pragmatismo, ele mesmo!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

[1201.] Americana


Os mandatos politicos dos parlamentares americanos - Senadores e Representantes - não começam e terminam todos ao mesmo tempo. São todos de quatro anos, mas desfasados dois anos. Ou seja, de dois em dois anos há eleições e as maiorias podem mudar com a substituição de metade dos lugares. Quando há, também, a eleição do Presidente da União são as 'General Elections', quando não há são as 'Mid-terms Elections'. As eleições nos Estados Unidos da América decorrem à terça-feira, na primeiro terça-feira do mês de Novembro. Ontem houve eleições. Amanhã faz dois anos que Barack Obama foi eleito.

Dos resultados de ontem pode dizer-se que o estado de graça de Obama acabou. Os republicanos venceram as eleições intercalares, conquistaram a câmara baixa do Congresso - a Câmara dos Representantes - e por pouco não conseguiam garantir uma maioria no Senado. O Partido Democrata, no entanto, conseguiu manter a maioria no Senado com 51 senadores democratas, face a 47 republicanos.

O mandato de Obama até aqui está, segundo alguns garantem, aquém das expectativas que os americanos formularam, e que, desde sempre, se percebeu que era exageradas. Houve problemas que não conseguiu resolver e a sensação que dá - pelo menos a nós europeus - é que a sua grande obra até agora, o Sistema Nacional de Saúde, não agradou tanto aos americanos como seria de esperar. Daqui para a frente a coisa não vai melhorar, até porque Obama vai estar condicionado pela necessária negociação que vai ter de fazer com os Representantes republicanos.

Acontece que estes republicanos já não são os de John McCain, que apesar de ter Sarah Pallin como vice-presidente, era um moderado. Os republicanos, agora, têm ao seu lado o 'Tea Party Movement' - uma facção demagógica, populista, ultra-conservadora de contestação generalizada a impostos, ao governo federal, é anti-capitalista, isolacionista e anti-imigração, com certas franjas de apoiantes completamente lunáticas, mas genuinamente americanos e populares.

Luís Naves, no blogue Albergue Espanhol, afirma o seguinte:

«A política americana deverá mudar nos próximos dois anos, embora com esta vitória mitigada seja difícil perceber para onde irá o país. A América será talvez uma nação mais impaciente e dividida; menos interventiva no mundo, apesar de não se poder dar a esse luxo; mais fechada e intolerante; mais desigual. Podemos esperar dois anos de impasse e talvez até de paralisia.
O Tea Party é também um movimento baseado num novo tipo de comunicação. Os media tradicionais deixaram de controlar a sociedade e a fragmentação criou um tipo de especialista que pode transmitir as mensagens mais alucinadas a uma audiência limitada, mas com uma força que os meios tradicionais não tinham.
As milhares de organizações locais funcionam em rede e de forma descentralizada. Parece cacofonia, mas é na realidade um mecanismo inovador, barato e altamente eficaz, embora só possa ser mantido por escasso tempo e para conseguir um determinado efeito com base numa ideia simples. Neste caso, os eleitores querem que os políticos funcionem de outra maneira, querem "mudanças em Washington". E, não tarda muito, acho que vamos começar a ver estas ideias também por aqui, só que em vez de Washington os protestos vão referir Lisboa ou Bruxelas.»

A ver vamos...

A Campanha das Mid-terms não teve o impacto e o brilhantismo da de 2008. Mas de qualquer forma está aqui um exemplo de um anuncio do Partido Democrata, apelando ao 'Não Voto' Republicano. Ao dar com isto lembrei-me que seria fácil os estrategas do PSD copiarem o modelo para as hipotéticas eleições legislativas da Primavera de 2011. Mas depois, dei por mim a pensar que, em Portugal, mesmo com o tom ácido com que tem sido vivida a política nacional e recitado o discurso parlamentar, provavelmente nunca o nosso pudor daria azo a este tipo de campanha. Mesmo que fosse merecida e justa!





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[1202.] Mercurii dies

Notas de actualidade

1. Orçamento do Estado para 2011
A análise sobre o que se passa na cabeça dos dignitários do Estado nem sempre é de fácil compreensão para os cidadãos. Dificilmente algum dia perceberemos – mesmo que os protagonistas um dia o procurem explicar – o que se passou verdadeiramente nas últimas duas semanas no âmbito da negociação entre Governo e PSD para a viabilização do Orçamento do Estado para 2011.
A forma como os partidos da oposição foram pressionados para aprovar o documento antes mesmo de o conhecerem, a forma como o documento foi apresentado, a forma como decorreram as primeiras negociações e de como acabaram sem acordo, o conteúdo da reunião do Conselho de Estado de 29 de Outubro, as pressões do Conselho Europeu, as reuniões secretas em casa de Catroga, tudo isso, situado na estratosfera da Alta Política nos faz pensar, eventualmente até especular sobre o que se passou na verdade, que pressões foram realmente valorizadas, quem ganhou e quem perdeu, de facto. Provavelmente teremos de esperar pelas biografias política de alguns dos protagonistas, eventualmente por alguma entrevista. De qualquer forma há curiosidade em perceber “o que foi isto!”.

2. Política no feminino
Dilma Roussef, candidata do Partido dos Trabalhadores à presidência da República Federativa do Brasil é a primeira mulher eleita para a Chefia do Estado do maior país da América Latina, uma República com 121 anos. A antiga guerrilheira marxista, antiga ministra das Minas e Energia de Lula da Silva, e, mais tarde, sua ministra da Casa Civil e braço direito do presidente metalúrgico torna-se a 17.ª mulher no mundo – na actualidade – a exercer o cargo de Chefe de Estado ou de Governo. Em 192 países da ONU, hoje, apenas 16 são governados por mulheres ou têm mulheres na chefia do Estado.
O que não deixa de ser curioso é que Dilma Roussef tornar-se-á, a partir de 1 de Janeiro de 2011, na líder do maior país da América Latina e na 11.ª mulher a ocupar um lugar na chefia do Estado de um dos 33 países deste subcontinente. Desde 1974, altura em que na Argentina Isabel Peron sucedeu ao marido, já mais dez mulheres ocuparam cargos de chefia de Estado. No caso da Argentina, até mais do que uma vez.
Também na Europa há casos dignos de registo como na Finlândia e na Irlanda – em que mulheres já sucederam a mulheres e em que Chefe de Estado e Chefe de Governo eram, igualmente, mulheres. Seria desonesto não lembrar, ainda, que no Reino Unido, na Holanda e na Dinamarca, a Chefia de Estado cabe uma rainha. Registo também para os poucos casos na Europa em que as mulheres ocuparam chefia de Governo pelo menos uma vez (Ângela Merkel, na Alemanha, Edit Cresson, em França, e Margaret Thatcher, no Reino Unido).
E a análise remete-nos, então, para Portugal. Portugal que nunca teve uma Presidente da República. Que em quarenta anos de igualdade formal de género teve apenas uma candidata a Presidente da República, Maria de Lurdes Pintassilgo, que, por sua vez, havia sido a única portuguesa a exercer o cargo de primeira-ministra (apesar de ter sido nomeada num Governo de iniciativa presidencial). Portugal que em trinta e seis anos de democracia teve apenas duas mulheres na liderança de partidos políticos, Maria José Nogueira Pinto e Manuela Ferreira Leite, sendo esta a única a, em tese, poder considerar-se candidata a primeira-ministra.
Quatro anos depois da Lei das Quotas para o exercício de cargos políticos, o que é que mudou em Portugal.

3. Festas e aniversários
As medidas de austeridade não nos obrigam a deixar de festejar e de assinalar com expressividade as datas que fazem parte do nosso património identitário. Mais importante do que o gasto que se faz é o valor pedagógico, intrínseco e comunitário que as acções comemorativas preconizam.
Na semana em que com o Congresso Internacional sobre a Batalha do Bussaco terminam as comemorações dos duzentos anos do 27 de Setembro de 1810, e termina o mês de Outubro, o das comemorações do Centenário da República é tempo de pensar nas próximas festividades – mesmo que feitas em clima de austeridade.
No próximo sábado, 6 de Novembro, assinala-se o 174.º aniversário da criação do concelho da Mealhada. Ou seja, dentro de um ano, observar-se-á o seu 175.º aniversário, uma data “redonda” e propícia à evocação do melhor do nosso espírito identitário. A um ano de distância fica a sugestão, para que alguém vá pensando no assunto sem ter o argumento de que ninguém tinha avisado.

Editorial do Jornal da Mealhada de 3 de Novembro de 2010

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

[1197.] Hoje

*
Hoje, o fio dos dias faz 4 anos!
+
E transforma-se de um blogue numa página pessoal. Nada muda. Apenas o aspecto, e a possibilidade de mais informações serem divulgadas, sem porem em causa o 'blogging'.
Foram quatro anos muito interessantes, com um feedback espectacular. Espero que a mudança não desiluda os fãs.
Na prática, agora como dantes, «Nada nos é indiferente!»
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[1200.] Marti dies



«A Mi Manera»
Gipsy Kings cantam «A Mi Manera», uma adaptação do My Way, tema celebrizado por Frank Sinatra.

Ofereceram-me um CD com esta música em 1996/1997, por aí, e ouvi este tema centenas de vezes. No outro dia senti saudades. Aqui está!

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[1199.] Imagens à minha volta

Há imagens à minha/nossa volta que muitas vezes nem delas nos apercebemos, nem sobre elas perdemos 30 segundos de atenção. Estas não estão nesse lote...

I.

Há mais de um ano que periodicamente vou a Cercosa, uma freguesia no sudeste do concelho de Mortágua. E desde a primeira ou segunda vez que lá fui, vindo do Vale de Ana Justa, reparei na inscrição que está colocada no portão do cemitério: «Aqui te espero».

A informação é arrepiantemente engraçada! E digna de resgisto, hoje, Dia dos Fieis Defuntos.

No cemitério da Marmeleira, a localidade fronteiriça a norte, também lá há uma inscrições engraçadas e no cemitério de Vilarinho do Bairro, a informação de que os cavalheiros devem tirar o chapéu antes de entrar também é digna de resgisto. Lá passando, com tempo, a ver se registo a imagem. Para já fica esta.


Cemitério de Cercosa
Concelho de Mortágua
II.

Também em Cercosa, no centro da localidade, o Largo onde está o minimercado e uma taberna tem um nome curioso! «Largo do Senhor da Paciência»! Eu nem sabia que havia um 'Senhor da Paciência'... Mas até que fazia falta, porque a Paciência é uma das Sete Virtudes e faz sentido preservá-la. Não sei se é o patrono de Cercosa, mas bem podia ser!

Cercosa
Concelho de Mortágua

[1196.] Hoje


Confesso que fiquei completamente escandalizado com a Grande Reportagem que a SIC passou ontem à noite. O cemitério onde estão os soldados portugueses mortos na Guerra do Ultramar, em Mueda - no norte de Moçambique -, está completamente abandonado, cheio de capim e árvores.

Fiquei horrorizado com a informação e completamente solidário com a estupefacção dos familiares dos três soldados citados ao verem o local onde estão os seus entes queridos sepultados (abanonados).

Na nossa cultura ocidental, o culto dos mortos é muito importante. Acima de tudo para os vivos que têm de prosseguir a sua vida, fazendo o seu luto para que tudo regresse à normalidade. Saber que os seus familiares estão sepultados naquelas condições é dramático, mesmo que já tenham passado quatro décadas.

Não me sai da cabeça a interrogação dos irmãos de um deles: "O nosso irmão está nesse sítio?". "Se o levaram para lá, tinham obrigação de o ter trazido!", responde outro.

E é verdade! Seja o Estado, seja a Liga dos Combatentes tem obrigação de os trazer para cá ou comprar o terreno onde está o cemitério e tratá-lo com a dignidade que merece quem morreu pelo que a Pátria o obrigou a defender.

Um país que não honra os seus mortos, não merece ser respeitado!





Grande Reportagem SIC
«Esquecidos», exibido em 01.11.10

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[1195.] Hoje e ontem...

As palavras têm os seus significados e os dias também.

É, aliás, esta máxima que procura ser sublinhada neste blogue.

O dia 1 de Novembro é, para os católicos (apostólicos romanos) o 'Dia de Todos os Santos'. Por sua vez, o dia 2 de Novembro é o 'Dia dos Fiéis Defuntos'.

São dias distintos. E com missões 'catequéticas' diferentes. Como o primeiro é feriado e o segundo é o mais querido pelas pessoas que não esquecem os seus entes queridos, quase todos fazem no feriado o que deviam fazer no dia 2. E faz sentido, mas a utilidade não deve, no entanto, suplantar a intenção que preside à criação destas duas solenidades.

«A festa do dia de Todos-os-Santos [1 de Novembro] é celebrada em honra de todos os santos e mártires, [re]conhecidos ou não. A Igreja Católica celebra a Festum omnium sanctorum a 1 de novembro. A Igreja Ortodoxa, por exemplo, celebra esta festividade no primeiro domingo depois do Pentecostes, fechando a época litúrgica da Páscoa. Na Igreja Luterana o dia é celebrado principalmente para lembrar que todas as pessoas batizadas são santas e também aquelas pessoas que faleceram no ano que passou.»

«Desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar sua posição (cf. Tobias 12,12; Jó 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e se apóia em uma prática de quase dois mil anos.»

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

[1194.] Lunae dies

Dilma Roussef foi eleita 36.ª Presidente da República Federativa do Brasil
Dilma Roussef, candidata do Partido dos Trabalhadores, à presidência da República do Brasil é a primeira mulher eleita para a Chefia do Estado do maior país da América Latina, uma República com 121 anos. Mas Dilma Roussef é, ainda, a 11.ª chefe de Estado de um dos 33 países da América Latina.
Em contrapartida, neste momento, em 192 Estados da ONU, só 17 são governados (ou liderados) por mulheres.
Portugal nunca teve uma Presidente da República, teve apenas uma candidata a Presidente da República, que havia sido a única Primeira-ministra (e nomeada). Teve apenas uma candidata a Primeira-ministra e apenas duas líderes partidárias.

domingo, 31 de outubro de 2010

[1198.] Hoje

Bolinhos e bolinhós

A primeira vez que eu vi esta coisa dos 'Bolinhos e bolinhós' foi em Coimbra, ali à volta do 31 de Outubro, algures entre as Amarelas e o Moçambique - essa saudosa casa de jogos onde hoje se come uma pizza fantástica da Diana e do Ovelha. Eram uns putos com umas caixas de papelão recortada com uma carantonha com uma vela lá dentro... Nunca achei grande piada áquilo... Os miudos pediam moedas ou doces, não sei bem.
No outro dia, enquanto investigava na wikipédia - será possível? - por causa da tradição dos 'Fiéis Defuntos' descobri que essa tradição dos 'bolinhos e bolinhós' apesar de menos popular é mais antiga do que o Halloween que a tradição anglo-saxónica e o espirito consumista nos fez exultar.
Aqui está o que pude ler, a fonte vale o que vale:
«Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o pão-por-deus de porta em porta. As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocam dentro dos seus sacos de pano. É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’. Esta tradição teve origem em Lisboa em 1756 (precisamente um ano depois do terramoto que destruiu Lisboa). Em 1 de Novembro de 1755 ocorreu o terramoto que destruiu Lisboa, no qual morreram milhares de pessoas e a população da cidade, que era na sua maioria pobre, ainda mais pobre ficou. Como a data do terramoto coincidiu com uma data com significado religioso (1 de Novembro), de forma espontânea, no dia em que se cumpria o primeiro aniversário do terramoto, a população aproveitou a solenidade do dia para desencadear, por toda a cidade, um peditório, com a intenção de minorar a situação paupérrima em que ficaram. As pessoas, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão, dado grassar a fome pela cidade. E as pessoas pediam: "Pão por Deus". Esta tradição perpetuou-se no tempo, sendo sempre comemorada neste dia e tendo-se propagado gradualmente a todo o país. Até meados do séc. XX, o "Pão-por-Deus" era uma comemoração que minorava as necessidades básicas das pessoas mais pobres (principalmente na região de Lisboa). Noutras zonas do país, foram surgindo variações na forma e no nome da comemoração. A designação indicada acima (Dia dos Bolinhos) em Lisboa nunca foi utilizada, nem era sequer conhecido este nome. Nas décadas de 60 e 70 do séc. XX, a data passou a ser comemorada, mais de forma lúdica, do que pelas razões que criaram a tradição e havia regras básicas, que eram escrupulosamente cumpridas: - Só podiam andar a pedir o "Pão-por-Deus", crianças até aos 10 anos de idade (com idades superiores as pessoas recusavam-se a dar). - As crianças só podiam andar na rua a pedir o "Pão-por-Deus" até ao meio-dia (depois do meio-dia, se alguma criança batesse a uma porta, levava um "raspanete", do adulto que abrisse a porta). A partir dos anos 80 a tradição foi gradualmente desaparecendo e, actualmente, raras são as pessoas que se lembram desta tradição.»

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

[1192.] Mercurii dies

O que podes fazer pelo teu país?

A frase é atribuída a John F. Kennedy, presidente-mártir dos Estados Unidos da América, que ocupou a Casa Branca de 1961 a 1963: “Não perguntes o que pode o teu país fazer por ti, mas o que podes fazer tu pelo teu país!”. A expressão está a completar meio século desde que foi proferida pela primeira vez e é especialmente citada em fases complicadas da vida das sociedades ocidentais, desde então.
O dito serve, desde há poucas semanas, sob a forma de desafio, para os jornalistas da emissora TSF ajudarem na exortação à resiliência e à esperança e dos portugueses. Para tal, têm perguntado a figuras públicas nacionais – na maior parte dos casos ligadas à acção política e cívica – “o que pode cada um fazer pelo país?”.
As respostas só surpreendem por serem quase todas iguais… Os entrevistados, por norma, começam por dizer que o que podem fazer é o que já fazem. E começar com um auto-elogio quase nunca é bom sinal – até porque, pelo que se tem visto, o que tem sido feito, sendo bom estará longe de ser o necessário e o adequado para que vivamos a nossa vida colectiva com tranquilidade e prosperidade.
Ao ouvir estes depoimentos no rádio, várias conclusões – quase todas negras, ou pelo menos cinzentas – nos assolam. Em primeiro lugar os nossos lideres estão auto-satisfeitos e isso é meio caminho andado para a resignação. Em segundo lugar, reconheça-se que os efeitos não serão todos positivos e que se calhar ou estamos a fazer pouco pelo país, ou estamos a fazer mal, ou então não estamos a fazer o que devia ser feito.
As épocas de crise são óptimas oportunidades de mudança – mudança de comportamento, mudança de atitudes, mudança de vida. Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido, especialmente em períodos críticos da vida do seu país, terá dito que as catástrofes, para um optimista, eram sempre grandes oportunidades e factores de esperança. Mas também não interessa mudar só por mudar – e como estamos em maré de citações – nem “mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma”, como escreveu Tomás de Lampedusa em ‘O Leopardo’.
É esse novo rumo que nos falta descobrir. Um novo rumo que poderá não ser necessariamente ou estritamente político. Um novo rumo que nos faça sermos, individualmente, promotores de esperança junto dos que nos rodeiam. Um novo rumo que nos faça ser bons cidadãos, bons pais e mães, bons filhos, bons amigos, bons profissionais, bons vizinhos, bons colegas, bons ouvintes, sermos simplesmente bons. Um novo rumo que nos faça acatar a autoridade dos mais velhos, dos professores, dos mais sábios, sem subserviências nem autoritarismos. E acima de tudo um novo rumo cheio de sentido de acção, de intervenção, de militância, de luta e defesa dos valores que acreditamos, pelo incentivo ou pelo exemplo "desse serviço".

Editorial do Jornal da Mealhada de 27 de Outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

[1190.] Lunae dies

Governo e PSD negoceiam, há três dias, viabilização do Orçamento Geral do Estado para 2011.
Um pequeno passo para o futuro do país, um grande passo para uma nova concepção que o políticos portugueses têm de ter no sentido de perceberem o que são as responsabilidades dos Governos, as responsabilidades das oposições, o Serviço e o Bem-Comum dos portugueses.

Gostava que a acção política, tal como a conhecíamos, tivesse acabado com este momento...

Parece-me que, para além de PSD e de Governo, à mesa das negociações está... Água de Luso... mas parece que tiraram os rótulos das garrafas... Terão sido nervos, ou o medo de má publicidade?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

[1189.] Reflexões Peregrinas #7

«Até aqui chegaste!»,
(Job, 38, 11)
gritou Deus a Job.
E perguntou-lhe:


«Onde está o Caminho da Luz?»
(Job, 38, 19)

[1187.] Iovis dies

O Cerco de Lisboa por D. Afonso Henriques
Óleo sobre tela, 1070 x 800 mm, pintado em 1840
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal
Em 21 de Outubro de 1147 (há 863 anos) Dom Afonso Henriques, há quatro anos Rei de Portugal, com a ajuda dos Cruzados europeus regressados da Segunda Cruzada, aceitou a rendição da cidade de al-Lixbûnâ, pelos dignitários árabes, a quem impunha um cerco desde o dia 1 de Julho.
A tomada da cidade pelos cristão aconteceria, definitivamente, três dias depois.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

[1188.] Reflexões Peregrinas #6

Ele chamou Pedro, João e Tiago e estes acompanharam-no ao jardim das Oliveiras.
Jesus sabia o que ia acontecer, que ia ser preso e morrer, e pediu aos três que velassem com Ele. Em grande sofrimento, a suar sangue, pediu ao Pai que o aliviasse do que ia acontecer, mas logo acrescentou:
«Mas faça-se a Tua Vontade e não a Minha»

Tinha de ser assim! Era uma missão!

(Mt 26, 38)

Há Missão no Caminhar!

Uma missão que não é de super-heróis, mas uma missão de quem caminha consigo próprio. 'Fazer o caminho' é uma expressão interessante que une as ideias de que "O mais importante não é chegar, é fazer o caminho!" com a uma outra ideia de que o "caminho se faz caminhando".

Mas é possível fazer o Caminho e não chegar?

Chegar é parte essencial da Missão. A vontade de chegar é o que faz caminhar, é o que faz resistir às advertências do corpo, à dor, a um sofrimento físico que é intenso. A Missão reside no facto de ter conseguido provar a si próprio que era capaz, que o adiar da desistência foi a escolha acertada.

E quando chegar, sentir o prazer de se sentir completo e pensar consegui cumprir esta missão.

Esta. Apenas esta. Porque há muitas outras e a maior parte das quais ainda nem descobrimos.

[1185.] Mercurii dies

A Intifada do Orçamento de Estado para 2011

O Orçamento do Estado português para 2011 parece estar mais próximo dos tratados de paz do conflito israelo-palestiniano do que de um instrumento de gestão e organização financeira e económica de uma República democrática europeia. Toda a comunidade exige aos beligerantes que cheguem a acordo e estabeleçam a Paz, mas nenhum deles estaria interessado em fazê-la não fossem as pressões e consequências internacionais da birra. Aliás, ambos declararam a Intifada, ambos falam de necessidade vital, ambos prefeririam e estão preparados para a guerra.
No caso, e perdoe-se a metáfora, os beligerantes são os dois maiores partidos políticos portugueses que, para usar uma imagem da história política portuguesa, estão “num pântano”, que é hoje a situação política nacional e entre “a espada e a parede”. Para o Governo o único aspecto interessante do Orçamento parece ser a oportunidade que este lhe está a proporcionar de ver os partidos da oposição a desdizerem tudo o que têm dito e, no fim, aprovarem, contrariados, um documento que classificaram de nefasto para o país. Para o principal partido da Oposição fazer cair o Governo poderia ser a oportunidade para chegar ao poder, numa altura em que já se começam a pressentir contestações internas pela demora do líder em chegar São Bento, com a consequente “partilha dos despojos”.
Não interessa saber qual dos dois protagonistas é a potência ocupante, nem qual é o revoltoso ocupado. A nenhum – do ponto de vista do interesse partidário simples – interessa que o Orçamento passe. Mas a pressão do Presidente da República (do que está em exercício, dos antigos e dos candidatos a futuro), da Comissão Europeia, da Banca, dos investidores estrangeiros, das Agências de Rating, e, pasme-se, até do Embaixador dos Estados Unidos, parece obrigar a que o Tratado de Paz seja mesmo assinado, mesmo que os signatários, contrariados, se olhem de soslaio à espera da desistência, na última hora, do parceiro de tango.
No momento que fechamos a presente edição [manhã de 19.10.10] não se sabe, ainda, qual o sentido de voto que a Comissão Politica Nacional do PSD e o Conselho Nacional do partido vão definir para a votação do Orçamento. Sem querermos ser profetas, antevê-se que os social-democratas apresentem um conjunto de modificações ao documento [20.10.10 - confirma-se!] que, a serem aceites pelo Governo resultem na abstenção do principal partido da oposição. Como a vontade é pouca, as propostas vão ser “puxadas” [20.10.10 - confirma-se! Os radicais do PS criticaram-nas severamente. Vitalino Canas disse que só cortavam na receita, ignorando que a extinção das PPP corta, fortemente, as despesas]. E como a vontade do Governo também é pouca, a negociação vai ser muito difícil [20.10.10 - confirma-se! O porta-voz classificou as propostas do PSD de inaceitáveis] e lenta [20.10.10 - confirma-se! A Conferência de líderes no Parlamento adiou para 2 e 3 de Novembro a votação do documento]. No fim as exigências vão ser, genericamente, aceites. E o tratado de paz vai ser assinado, ou seja, o orçamento passa. Mas será apenas isso, porque esta guerra – como a do Médio Oriente – vai continuar até que um dos beligerantes tombe.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

[1186.] Reflexões Peregrinas #5

O dia de pesca estava a ser miseravel. Um estranho chega à beira do lago e diz ao grupo onte esta Pedro e Tiago:
«faz-te ao largo».
Ao inicio pensavam que era a gozar. Mas foram. E quase romperam as redes com tanto peixe. Quando chegaram a terra
«deixaram tudo e seguiram-no!»
até ao fim, para sempre. Até ao martirio! E tu?
(Lc 5, 4-11)

Caminhar é desprendimento.

E desprendimento é des-apego. É desagarrar. É um soltar desinteressado, humilde, simples, quase de purificação.

E desprendimento é generosidade, é magnaminidade. É ser maior, por se fazer mais pequeno. É ser mais que a aparência, que o que se vê, para se ser sentindo.

E desprendimento é renuncia. É radicalidade, é acção, é pujança é querer ser como se tem que ser e não ser como impõem os cânones.

Se um estranho me testasse como Cristo testou Pedro e Tiago, que resposta daria eu? Viraria as costas e pensaria "É maluco"? Que outra motivação teria eu para pensar de outra maneira.

Nunca sabemos quando estamos a ser testados. Nunca sabemos o que é teste e o que é provação. Nunca somos verdadeiramente felizes até perder a felicidade que julgávamos não ter?

O Caminho também é assim. O Caminho doi mesmo quando não se pisa. Doi mesmo quando não há bolhas. Doi mesmo quando no conforto da casa vemos os peregrinos passarem à nossa porta, seja para sul seja para norte. E não fazer o caminho também pode ser um teste. Um teste que já falhámos à partida. Uma falha que é castigada, pela ausência de castigo e pela solidão.

O Caminho é uma solidão que doi mais quando não se vive.

Deixaram tudo e seguiram! E terão passado o teste?

[1182.] Reflexões Peregrinas #4



Na Estrada de Santiago
Madredeus


Na Estrada de Santiago
Madredeus

Carreiro
Deserto
Tão longe
E tão perto
Anseio
Secreto
Encontro
Mais certo

Caminha
Na estrada
De Santiago
Na estrada
Marcada
Por tanto passo
Ao longo
Dos séculos

Passaram
Milhões
A vista
Cansada
De tantas
Paixões

Percorre
A estrada
De Santiago
Estrada
Marcada
Por tanto passo

E como
Se sente
Tão Acompanhado
Se não vê
Mais gente
Nem tem
Ninguém ao lado

Caminha
Na estrada
De Santiago
Na estrada
Marcada
Por tanto passo

[1181.] Marti Dies



A Estrada da Montanha
Album 'Metafonia'
Madredeus & A Banda Cósmica

Através de comunicado à imprensa, é hoje divulgada a informação de que o projecto 'Madredeus & A Banda Cósmica' termina a sua existência na próxima segunda-feira, 25 de Outubro, quando for lançado o seu terceiro albúm "Castelo de Areia".

Pelo conteúdo do referido comunicado, percebe-se que o último albúm foi produzido no ano passado e que A Banda Cósmica terminou em Dezembro, por falta de meios. Não conseguiu perceber se Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade terminam, também, e definitivamente com os Madredeus.

Eu sou grande fã dos Madredeus. Deve ser das poucas coisas em que fui mesmo aficionado, de os ir ver a sitios longinquos e esquisitos, de ter os albuns todos, de acompanhar todas as movimentações durante a maior parte da sua vida. Confesso que com a saída de Teresa Salgueiro, Fernando Judice e José Peixoto, a coisa esmoreceu e apesar de gostar da sonoridade deste projecto com a Banda Cósmica - também porque admiro muitissimo Pedro Ayres Magalhães - nunca me mostrei muito disponível para lhes devotar a dedicação de outrora. Não tenho nenhum dos albuns desta segunda vida dos Madredeus que acabaram por ser, se calhar, mais uma estadia nos Cuidados Continuados do que uma vida real e concreta.

Hoje, com esta noticia, sinto um misto de tristeza, porque acabaram os Madredeus, mas também de alivio... porque já não eram os meus Madredeus!



Estes Madredeus:


A Estrada do Monte

Album Lisboa (ao vivo no Coliseu dos Recreios) de 1992
Madredeus

Uma das minhas músicas preferidas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

[1180.] Hoje

Hoje é dia de CERNUNNOS
Cernnunos é o nome de um dos deuses celtas mais antigos e também conhecido como Deus Cornífero, por ser muitas vezes representado como um homem com chifres adornando a cabeça. É o deus da fertilidade, da abundância, e Patrono da Caça para os povos antigos. Às vezes era representado alimentando animais; também podia mudar de forma e aparecer como cobra, lobo ou veado.
Na vertente Britânia Continental da Tradicão Céltica, Cernunnos também assumia um importante papel como Consorte da
Deusa Tríplice. O deus é também gentil com os animais silvestres. Na forma do Deus Cornudo, ele é por vezes representados por chifres em sua cabeça, que simbolizam sua conexão com tais bestas. Em tempos mais antigos, acreditava-se que a caça era uma das atividades regidas pelo deus, enquanto a domesticação dos animais era vista como voltada à deusa.
Os domínios do deus incluíam as florestas intocadas pelas mãos humanas, os desertos escaldantes e as altas montanhas. As estrelas, por serem na verdade sóis distantes, são por vezes associadas a seu domínio.
Símbolos normalmente utilizados para representá-lo ou cultuá-lo incluem a espada, chifres, a lança, a vela, ouro, bronze, diamante, a foice, a flecha, o bastão mágico, o tridente, facas e outros. Criaturas a ele sagradas incluem o touro ,o cão, a cobra, o peixe, o dragão, o lobo, o javali, a águia, o falcão ,o tubarão, os lagartos e muitos mais.

[1183.] Reflexões Peregrinas #3

E enquanto dois apostolos seguiam para Emaus, no dia da Ressurreicao, Jesus chegou ao pé deles e, sem que eles o Reconhecessem disse:

«Que palavras são essas que, caminhando trocais entre vós? E porque estais tristes?
E, respondendo um, cujo nome era Cléopas, disse-lhe: És tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias?»
(Lc 24, 17-18).

Eles contaram o que se passou e Jesus respondeu: "E nao tinha de ser assim?"

Caminhar é encontrar. Mas num acto em que só encontra quem procura. Dificilmente aquele que não se dispõe a procurar encontrará seja o que for.

Tal como estes dois caminhantes de Emaús se cruzaram com Cristo, falaram com Ele, responderam a perguntas que Ele lhes colocou e não o conseguiram reconhecer.

O Caminho também é assim. O Caminho dá-nos respostas, assim saibamos nós saber fazer as perguntas.

O Caminho encontra-nos, se nos tivermos predisposto a procurar!

Se tivermos deixado tudo para o Seguir!

[1184.] What can you do for your country...

Na TSF pergunta-se a figuras públicas "o que podem fazer pelo país". As respostas não têm sido brilhantes, o que também não ajuda a Nação... Eu próprio, certamente, não saberia fazer melhor... mas considero que não pode deixar de se dizer que, aos homens e mulheres de hoje, cabe:
- Serem promotores de esperança junto dos que os rodeiam;
- Serem portadores de sentido de acção, de intervenção, de militância, de luta e defesa dos valores que acreditam, pelo incentivo ou pelo exemplo "desse serviço" de intervenção, de acção pelo que acreditamos;
- Serem bons cidadãos, bons pais e mães, bons filhos, bons amigos, bons profissionais, bons vizinhos, bons colegas, bons ouvintes, serem simplesmente bons.

domingo, 17 de outubro de 2010

[1179.] Reflexões Peregrinas # 1

«O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, deixa a tua familia e a casa do teu pai para a terra que Eu te mostrarei. E abencoar-Te-Ei e engrandecerEi o teu nome e tu serás uma benção!»
(Gen 12, 1-2)


Caminhar, peregrinar é um acto libertário. É uma expressão de liberdade, de libertação. É, também, um acto de Amor. De Amor aos Outros - porque é Amor à Liberdade -, de Amor por Nós próprios.
A Nação de Israel nasce com um desafio, como um caminho!
Sai da tua terra, deixa a tua familia! Vai! Procura-te!

sábado, 16 de outubro de 2010

[1178.] O Orçamento

Na manhã de sexta-feira, 15 de Outubro, durante a manhã, José Socrates, no Parlamento, dirigindo-se a Miguel Macedo - líder da bancada do PSD -, proclamava de forma eloquente e vigorosa:

«Não há quem perceba! Fazem-se apostas: O que é que o PSD vai fazer? Vai votar a favor? Vai abster-se? Vai votar contra?
Ó senhor deputado: O que lhe quero dizer é que esta incerteza é negativa para o país. E, portanto, se lhe posso dizer alguma coisa neste momento, é que é momento de o PSD terminar com o tabu! Terminem com o tabu!»

Miguel Macedo ainda respondeu ao primeiro-ministro dizendo-lhe que se tinha pressa que apresentasse o orçamento mais cedo e que o PSD não iria pronunciar-se sobre um documento que não conhecia.

O dia 15 de Outubro é o último dia do prazo que o Governo dispõe para apresentar o Orçamento de Estado na Assembleia da República. Durante a manhã, José Sócrates insurgia-se pelo facto de o PSD ainda não ter dito de que forma iria votar o documento que ainda não conhecia, mas só às 23h 25m ( 35 minutos antes de o prazo terminar) é que o Ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, entregava duas pens, supostamente, com o Orçamento de Estado para 2011. Isto depois de sucessivos adiamentos e dos representantes dos partidos andarem a tarde toda à espera do documento.

Afinal as pens não traziam o Orçamento, traziam o articulado da Proposta de Lei do Orçamento, mas os Mapas e os documentos de apoio, os numerozinhos que são o Orçamento... nada, nem vê-los. Só no dia seguinte (hoje, portanto) de manhã é que os tais mapas seriam entregues e só hoje, às 15 horas é que o Ministro das Finanças fazia uma apresentação pública - aos portugueses, "aos mercados" e às "agências de rating" - do documento..

Está bom de ver que, na manhã de sexta-feira, 15 de Outubro, não só o PSD não conhecia o documento sobre o qual o Primeiro-ministro exigia que se pronunciasse, como o próprio Primeiro-ministro não o conheceria, por que o documento, pura e simplesmente, na manhã de sexta-feira ainda não estava pronto!

É preciso ter muita lata!

ADENDA!
18.10.10 - 11h
O CDS denuncia que falta pelo menos um Mapa no Orçamento... Quer dizer, faltar não falta... O Governo repetiu o Mapa do ano passado referente às transferências para as Empresas Públicas... e logo este mapa! Talvez colasse... se os partidos não precisam de ler o documento para definirem se o aprovam ou não aprovam - como sugeria o PM na sexta-feira de manhã, também nem vão notar que o mapa das transferências para as empresas públicas é o do ano passado!
18.10.10 - 17h 20m
O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (não é o Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento, é mesmo o dos Assuntos Fiscais), Sérgio Vasques, reconhece ao Jornal de Negócios que o Orçamento tem erros que vão ser corrigidos.
Um quarto de hora antes, era a Ascendi, da Mota Engil, um fornecedor, portanto, que informava o Jornal de Négócios que o quadro da "reposição do equilibrio financeiro da empresa" também estava errado!
19.10.10 - 16h 50m
Hoje de manhã, quando estava a escrever isto, tendo-me informado com um Deputado da Nação, percebi que "o Mapa que elenca as transferências do Estado, através do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, para despesas de funcionamento de estruturas autónomas como a Fundação Mata do Bussaco – à hora do fecho desta edição, na manhã de terça-feira, 19 de Outubro – não tinha ainda dado entrada na Assembleia da República, nem, por maioria de razão, havia sido distribuído aos deputados da Comissão de Agricultura. Pelo que, não é, ainda, conhecido o valor que o Estado entregará à Fundação responsável pela Mata Nacional do Bussaco para as suas despesas de funcionamento na missão que, o próprio Estado, legalmente lhe conferiu".

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

[1176.] Marcha dos Combatentes da Rotunda




Marcha dos Combatentes da Rotunda

O Vitorino é, provavelmente, um dos mais interessantes e bem-sucedido poetas, compositores e cantores de pendão nacionalista. O que prova aos ignorantes que o Nacionalismo não é um exclusivo da Direita e que na Esquerda também há uma forte corrente nacionalista, acima de tudo, em Portugal, sempre defendida pelo PCP.

Não sei se Vitorino é o autor da letra, mas "Queda do Império" é um tema lindissimo. A forma como tem celebrizado a "Maria da Fonte" - uma marcha proto-revolucionária contra o cabralismo - é extraordinária. Agora, talvez com a comemoração do centenário da República, apareceu com a "Marcha dos Combatentes da Rotunda". Também não conheço o autor da letra, nem se é inédita ou não, a internet também ainda não parece dispor dessa informação... Mas que é bonita é. O videoclip, aqui publicado, também está muito inteligente.

Ouvi esta música como genérico da série "O Segredo de Miguel Zuzarte", exibida na RTP1 em 9 e 10 de Outubro, a adaptação de Pedro Lopes à obra homónima de Mário Ventura. E gostei logo, desde aí!

Parabéns!

Nota histórica: A Rotunda é a actual Praça Marquês de Pombal (cujo monumento só lá está desde 1934). Em 1910 a Rotunda era quase um dos limites da cidade de Lisboa e foi lá que, cerca de duzentos revolucionários republicanos se entricheiraram nas vésperas do 5 de Outubro. Apesar de estarem a ser bombardeados pelas tropas, lideradas por Paiva Couceiro, conseguiram resistir até ao final dos confrontos e à Proclamação da República às 9 horas da manhã de 5 de Outubro. Os revoltosos foram liderados pelo Oficial da Armada António Machado dos Santos, depois do Almirante Cândido dos Reis se ter suicidado. Machado dos Santos, - que viria a ser figura proeminente da I República, foi Ministro do Interior no tempo de Sidónio Pais, pese embora ter sido assassinado em 19.10.1921, na Noite Sangrenta, juntamente com António Granjo (primeiro-ministro) e Carlos da Maia - ficou conhecido como o Herói da Rotunda.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

[1175.] Eu voto CAVACO!

As Eleições Presidenciais estão marcadas. Realizar-se-ão a 23 de Janeiro de 2011. Daqui a 102 dias. Tudo indica que o actual detentor do cargo, Aníbal Cavaco Silva, se recandidate. O professor de Finanças que é, também, o português que mais tempo tem acumulado de exercício de funções políticas - o que lhe confere grande experiência, tem consciência do cargo que exerce e sabe que não pode escolher a data para o anúncio da sua recandidatura de ânimo leve.
Cavaco Silva sabe que no dia em que confirmar ao país que é candidato, perante os olhos dos seus adversários e dos seus oponentes, e, também, perante a comunicação social - filtro importante entre ele e os portugueses -, deixará de ser o Chefe de Estado para passar a ser o candidato presidencial e isso vai trazer-lhe dificuldades acrescidas e uma espécie de perda de legitimidade (pelo menos subjectiva).
Compreende-se que não quisesse anunciar a sua candidatua antes das comemorações oficiais do Centenário da República - teria de fazer um discurso de Estado de forma limpa e clara. O que poderia não ser tão fácil de perspectivar é o que hoje se conhece como o tabu do Orçamento. Cavaco tem de apresentar a sua candidatura com alguma urgência, mas sabe que não o pode fazer antes de saber se vai ter de aceitar a demissão do Governo ou não. Como homem de Estado que é sabe que nos procedimentos que vão ter de ser tomados no caso de o Governo se demitir - a auscultação aos partidos politicos, o convite ao partido maioritário para formar novo governo, etc., etc., etc. vai ter de ser feitos sem mácula e na plenitude da legimitimidade objectiva e subjectiva do Chefe de Estado. No caso de o Orçamento não passar e do Governo se demitir, é possível que o processo se arraste pelo menos por mais um mês... Deixando Cavaco Silva com muito pouco tempo para se apresentar, montar e fazer campanha.

Os timmings que se apresentam a Cavaco Silva são muito dificeis, e não se percepciona nenhuma vaga de fundo a pouco mais de três meses das eleições presidenciais. O que não deixa de ser preocupante!
Apresente a sua candidatura quando apresentar, uma coisa parece-me certa: Eu Voto Cavaco!

[1174.] Mercurii dies

Da urbanidade

A deposição e tratamento dos resíduos sólidos domésticos são problemas sérios das sociedades contemporâneas. As famílias hodiernas produzem quantidades enormes de lixo. Resíduos – em grande parte orgânicos – de que as famílias se querem ver livre, rapidamente. Para isso, tantas e tantas vezes, perante um caixote de lixo cheio – e muitas vezes cheio de caixas de papelão não espalmadas e de outros resíduos que deviam estar noutros locais – chegam a deixar os sacos com restos de comida na via pública, ou a arremessar os referidos sacos com esse material para terrenos baldios.


É fácil atribuir à Câmara Municipal a responsabilidade de, aos domingos à noite, nas ruas da cidade da Mealhada, os espaços que circundam os contentores de lixo doméstico serem autênticas lixeiras a céu aberto. Perante tal evidência, qualquer um seria capaz de decretar que o número de contentores é insuficiente. Então, o problema resolver-se-ia com mais contentores? Não cremos. Poderia também dizer-se que o problema é a falta de recolha de lixo doméstico ao domingo. Mas o problema vai muito para além disso.
Nalgumas regiões da Europa, em França por exemplo, não se vêem caixotes de lixo doméstico nas ruas. Prática que nos parece de aplaudir – os contentores de lixo doméstico são feios e custam dinheiro. Os moradores têm – em casa ou no prédio – um contentor, onde depositam o lixo doméstico, que só é colocado na rua a uma determinada hora – geralmente à noite – e posteriormente retirado, depois da passagem dos camiões de recolha, à hora marcada. Os contentores estão identificados e quem não os retirar é multado. As ruas mantêm-se limpas e, de certa forma, fica salvaguardada a saúde pública.
Se os franceses são capazes de ter o lixo em casa durante um dia inteiro, não são capazes os mealhadenses? O problema é de falta de educação cívica e, acima de tudo, de falta de urbanidade – característica de quem sabe viver em sociedade e em comunidades populacionais de tamanho significativo. E se ensinar os adultos a reciclar foi uma conquista, que surgiu como uma moda, e resultou de uma forte pressão na escola dos filhos, ensinar as famílias a gerir melhor os lixos domésticos vai ter de seguir o mesmo método. E rapidamente.
A rua, o espaço público, não é espaço de ninguém. É espaço de todos, é comum. Também não é espaço da Câmara ou da Junta de Freguesia. É espaço de todos, porque todos o utilizamos e (ainda) não pagamos impostos para isso. Não podemos todos ser prejudicados, na nossa saúde pública, com a falta de urbanidade de alguns (poucos, mas salientes).
Assim, se a situação não se resolver com a educação, resolve-se com a repressão e não se vê outra alternativa senão as entidades autárquicas aprovarem um regulamento através do qual sejam punidas, com multas e contra-ordenações, as pessoas que depositam lixo doméstico no chão, mesmo que ao lado dos caixotes de lixo, as pessoas que não depositarem o lixo doméstico devidamente ensacado, as empresas e estabelecimentos que não colocarem os caixotes de papelão, espalmados, no eco-pontos respectivos, entre outras. É de elementar urbanidade!

Editorial do Jornal da Mealhada de 13 de Outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

[1173.] Marti dies



CANTAR DE EMIGRAÇÃO

Poema de Rosália de Castro. Música de José Niza.

Aqui, pela voz de Adriano Correia de Oliveira

(...)

«Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará»

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

[1172.] Lunae dies

Da importância de um Senado

«O Presidente da República presidiu, hoje, à cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa, aos três antigos Presidentes da República ainda vivos que lhe antecederam no cargo: António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.
A homenagem decorreu no âmbito da cerimónia de Abertura do Ano Académico e das Comemorações dos 100 anos da República Portuguesa, que decorreu na Aula Magna da Reitoria da Universidade.»
À noite, os três antigos Chefes de Estado participaram no programa da RTP 1 'Prós e Contras', moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, subordinado ao tema: "Portugal em busca do Futuro". A palestra - mais do que um debate - foi muito interessante. Eanes parece mais polido, mais denso, do que quando foi Presidente da República, apresentou uma aparência mais dandy e solta. Soares apresentou-se igual a si mesmo, a única curiosidade acabou por ser a estranha confluência de pontos de vista e concordâncias com um dos seus primeiros inimigos viscerais, Eanes, precisamente. Também Sampaio foi mais incisivo, mais militante, mostrou-se bastante assertivo, liberto e interventivo. Sofreu da falta de profissionalismo de Fátima Campos Ferreira que, em duas ou três situações o afrontou e numa delas esteve muito perto de o humilhar.
Ouvir estes três homens (e eu acredito que, apesar de só ter podido votar no último, nunca votaria em nenhum) mostrou-se importante e o teor da palestra merecia ser guardado para memória futura. Estes três cidadãos tiveram em mãos decisões importantes da vida nacional e são responsáveis por muito do que de bom e de mau aconteceu em Portugal desde a eleição do primeiro, há quase 35 anos. A sua experiência merece ser ouvida.
Os três dissolveram o Parlamento, os três viveram crises económicas, os três tiveram Governos incompetentes, os três tiveram conflitos com primeiros-ministros, os três tiveram cooperação estratégica. Qualquer um dos três tem consciência da grave situação do País politico.
Deixaram mensagens de esperança e de exaltação da mobilização dos portugueses.

Esta palestra sublinhou a necessidade e a falta que faz ao país um Senado, onde a voz destes três homens possa ser ouvida. Um Senado e a redução para metade do número de deputados seria uma medida prudente, honesta e higiénica!

Nesta foto, para além do sorriso excessivamente expansivo do actual titular do cargo, mostram-se quatro das personalidades mais importantes da História Nacional. Quatro personalidades que têm, ainda, alguma coisa para dar e que podem ajudar o Chefe de Estado em exercicio na missão patriótica e hercúlea que tem pela frente.

domingo, 10 de outubro de 2010

[1171.] Mealhada, há 100 anos_III

Mealhada, 10 de Outubro de 1910

«Porém só em 10 de Outubro às duas da tarde, a Comissão Municipal Republicana vai de novo aos Paços do Concelho onde, na presença do Administrador do Concelho, Manuel de Oliveira Rocha, se reúne sob a presidência de Manuel Ruivo de Figueiredo, não por ser o presidente da Comissão Republicana, mas por ser o cidadão mais velho, tal como a Lei (Código Administrativo de 1896) definia, procedeu à eleição dos cargos que iriam ser ocupados na Comissão Executiva da Câmara Municipal Republicana. Por escrutínio secreto foram eleitos cargo a cargo. "Para presidente foram votados o cidadão Joaquim da Cruz com quatro votos e o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo com quatro votos" e "para vice-presidente foram votados o cidadão Manuel Ruivo de Figueiredo, com quatro votos, e o cidadão José Ferreira de Carvalho, com um voto".

JOAQUIM DA CRUZ

Face a esta votação, Joaquim da Cruz passou a desempenhar o cargo tornando-se o primeiro Presidente Republicano da Câmara Municipal da Mealhada, sucedendo ao conselheiro Augusto Simões d'Abreu, monárquico, que, apesar de ter sido eleito nas eleições de 1908 e de ter sido destituído, fez questão de estar presente na posse do seu sucessor republicano.»

Carlos Cabral, in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

[1170.] Mealhada, há 100 anos_II

Mealhada, 8 de Outubro de 1910

«No dia seguinte, 8 de Outubro, é emitido um telegrama pela Comissão Republicana do seguinte teor:
"Ministro do Interior - Lisboa. Comissão Municipal Republicana da Mealhada e Povo reunido hontem cinco horas da tarde na sala das sessões Paços Concelho Proclamou a República Portuguesa legalmente constituída e saúda Governo - A Comissão" (assinam os membros).

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

[1169.] Mealhada, há 100 anos_I

Mealhada, 7 de Outubro de 1910

«Eram dezassete horas do dia 7 de Outubro de 1910 [56 horas depois de proclamada na varanda da Câmara Municipal de Lisboa] quando na 'sala das sessões dos Paços do Concelho' se apresentou a Comissão Republicana constituída por Manuel Ruivo de Figueiredo que era seu presidente, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz e Evaristo de Souza. O presidente desta Comissão Republicana faz uma alocução aos republicanos presentes dos quais se conhecem os nomes de cinquenta e quatro que, porque sabiam ler e escrever, assinaram o respectivo nome numa declaração de apoio ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano. Com o aplauso dos presentes, Manuel Ruivo de Figueiredo hasteou a bandeira da República. Recorde-se que nessa altura a bandeira verde rubra ainda não era a bandeira de Portugal, tendo como principal diferença, para além do 'escudo', a colocação do vermelho junto à haste e o verde para o exterior, como no 31 de Janeiro de 1891.»

Declaração de apoio de municipes do concelho da Mealhada ao 'Governo legal constituído em Portugal desde cinco d'Outubro que é Republicano'
«Manuel Ruivo de Figueiredo, José Ferreira de Carvalho, Adriano Cerveira Baptista, Joaquim da Cruz, Evaristo de Souza, Manuel Rosal, Augusto Figueiredo (lente do Instituto de Agronomia), António Augusto da Costa Simões Canova, Manuel Duarte da Pega (advogado), António Ferreira da Costa (professor), António Simões Bispo, António Cerveira, Joaquim Pereira dos Santos, Augusto Lopes d'Andrade, Jeronymo Marques dos Santos, Alexandre Casimiro, Pedro Jacintho, Manuel da Cruz, Romão Rodrigues dos Santos, Luiz Duarte dos Santos, Adelino Augusto Paiva, António Felix Machado, Maximiniano da Conceição, José Lopes Lourenço, José Augusto Neves Pedrosa, Adelino Augusto Cerveira, António d'Azevedo Pinho (major), Annibal Souza, Affonso Guedes Gouveia, Bernardo Nogueira de Seabra, António José Baptista, Eduardo Augusto Moraes (professor), Frutuoso Rodrigues Breda (recebedor do concelho), Annibal da Costa Alemão (escrivão da Fazenda), Manuel Rodrigues Breda de Melo, Abílio Dias dos Santos (amanuense da Câmara), Francisco Fernandes Russo, Augusto Simões d'Abreu [último presidente da Câmara Municipal da Mealhada na Monarquia, foi eleito nas eleições de 01.11.1908] , Guilherme Ignácio da Costa Baptista, Eugénio d'Oliveira Couceiro, Luiz Pinto de Miranda, Luiz Alves da Cunha (chefe da Estação do Telegrapho postal), Manuel Rodrigues Pinto (aspirante da Fazenda), Francisco Joaquim Varella, Joaquim Francisco de Mello (amanuense da Administração), José Iria Pereira d'Oliveira, Basilio Filippe da Silva, José da Costa Pereira, Joaquim Ferreira, Joaquim Gomes, Alberto Lopes dos Santos, Joaquim Christina Neves (2.º guarda-fios na Mealhada) e António Maria dos Santos (2.º guarda-fios na Mealhada).»

Carlos Cabral
in Pampilhosa Uma Terra e Um Povo, Revista do GEDEPA, n.º 16 - Julho de 1997, pp.71 ss.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

[1168.] Mercurii dies

A Verdade em Tempos de Cólera
Os desafios de uma República Nova – Parte I

“A República nasce, em Portugal, de um sonho lindo”. Um sonho de Igualdade, em que todos são cidadãos, em que todos são iguais perante a Lei, perante o Estado, perante as oportunidades e a esperança, em que todos podem ter o destino nas suas próprias mãos. Um sonho libertário, em que todos são responsáveis pela promoção do bem-comum, na defesa intransigente da dignidade de cada um e do seu semelhante, na obediência a direitos invioláveis e a deveres intransmissíveis. Quando passam cem anos sobre a implantação da República em Portugal, e mesmo sem procurar imaginar ou conhecer em que condições viviam os nossos antepassados, não podemos deixar de reconhecer que as promessas do alvorecer de um novo regime eram galvanizadoras e motivantes.
Pouco interessa, hoje, saber se as promessas foram cumpridas ou não. Se o banho de sangue na rotunda – o de quem lutava pela mudança e o de quem defendia o que acreditava – não fazia antever a instabilidade de dezasseis anos de terrorismo de Estado. Dezasseis anos de libertinagem que justificaram mais quarenta e oito de ordem, primeiro, e de restrição e castramento a seguir. Interessa pensar mais no hoje e no amanhã, do que no ontem. Apesar de ser fundamental conhecer o ontem, porque ele e as suas cicatrizes continuam no presente.
O centenário da República surge na nossa vida colectiva num momento particularmente difícil. Um momento de crise social muito forte sustentada na consciência de vivermos numa severa crise de valores e perante uma completa falta de liderança na classe dirigente e nas instituições. Depois de uma semana em que o apelo à unidade e à convergência entre partidos políticos foi insultado com tomadas de posição unilaterais de finca-pé e de proclamação de, ainda, mais medidas de austeridade, o país mergulha numa depressão profundíssima.
Na intervenção que proferiu nas cerimónias oficiais do 5 de Outubro, Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, citou António Teixeira de Sousa, o último chefe de Governo da Monarquia, para justificar a queda do regime: “A monarquia estava cercada de republicanos e indiferentes”. “É a conjugação perversa das duas realidades que tantas vezes abala os alicerces de um regime: de um lado, a indiferença do povo; do outro, a incapacidade dos agentes políticos para encontrar soluções ajustadas às necessidades concretas do país”, acrescentou Cavaco Silva.
Portugal, como há cem anos, vive hoje um momento de profunda indiferença do povo e de manifesta incapacidade dos agentes políticos para encontrar as soluções para as necessidades do país.
Uma indiferença que resulta do facto de as pessoas estarem completamente estranguladas pela dupla face de uma aguçada espada que, por um lado, dá demasiadas garantias sociais a quem podendo trabalhar sobrevive à custa do erário público através de prestações sociais; e, por outro, obriga as pessoas a trabalhar para conseguirem angariar os meios financeiros necessários ao cumprimento de obrigações que o consumismo fomentou e incentivou durante décadas. Há os que são indiferentes porque o que está os favorece, há os que são indiferentes porque não têm liberdade para agirem de maneira diferente.
Acresce uma manifesta incapacidade dos agentes políticos que já é, por todos, reconhecida. Uma incapacidade que resultará, eventualmente, da falta de conhecimentos técnicos, da falta de experiência do mundo do trabalho e do quotidiano das empresas e das instituições, da falta de responsabilização política do sistema, da falta de liderança e de poder de galvanização, da falta de consciência comunitária da vida, da falta de consciência de co-responsabilidade social, da falta de espírito e de educação para o serviço, de falta de memória e de conhecimento do sentido da história, da falta de independência relativamente ao sistema e ao exercício de cargos públicos, da falta de inteligência e coragem para falar verdade.
“Há cem anos, como hoje, o essencial é a vida concreta das pessoas”, afirmou Cavaco, na terça-feira. E a vida concreta dos portugueses é penosa. Hoje é penosa, mas amanhã, com o IVA a 23 por cento – quase um quarto do preço de um produto – será ainda pior.
A vida concreta dos portugueses joga-se num tabuleiro em que, na Educação, “os filhos são órfãos de pais vivos”. Pais que não têm tempo, nem paciência para eles, não tem alegria, carinho e amor para lhes dar esperança. Na assistência aos mais idosos, os velhos preferem ir para depósitos em vez de irem para casa dos filhos que fizeram nascer, para não incomodar e para não chatear, mas também para não ajudar e para não contribuir. Os portugueses não reconhecem o seu código de valores no sistema judicial, que não lhes dá, colectivamente, o sentimento de segurança que a Justiça tem por obrigação proporcionar. A organização da Saúde não presta a todos, por igual, acesso eficaz à prestação de cuidados básicos. Na gestão financeira e económica do Estado não há uma comunhão clara entre o que os portugueses sentem na pele e as prioridades de investimento enunciadas pelos governantes. Os jovens estão a emigrar porque não são capazes de encontrar futuro em Portugal. A noite esconde caixotes de lixo dos hipermercados que se enchem de novos pobres a quem a vergonha se perdeu com a vitória da fome.
Portugal atravessa um momento decisivo da sua história. Um momento em que está em causa a própria coesão nacional, esse “bem precioso” e fundamental. E a cada momento decisivo se joga a escolha entre o catastrofismo e a oportunidade. Entre o fado, o fatalismo, a tragédia e o chamamento ao D.Sebastião, e a oportunidade de reformar, de refundar, de renovar, de reordenar, de reerguer.
Frei Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, que depois de um comentário fabuloso e assertivo na SIC Notícias, tem sido visto e comentado em todas as redes sociais, dizia, nesse registo: “Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores”. Da sua intervenção sai a exortação a “começar a sonhar espaços novos”, e acrescentava: “Temos de deixar de enfrentar os desafios novos com as soluções velhas”. “Despedir os políticos profissionais para empregar os profissionais na Politica”, era uma sugestão, “Construir um projecto social diferente”, era outra, “Ter coragem para formar consciência crítica, inteligente e corajosa”, era mais outra, “Deixar de educar para o ter e passar a formar para o Ser e para o ser com os outros”, era ainda outra.
Não faltarão razões para lutar pelo sonho lindo de sermos todos iguais e todos igualmente felizes. Um sonho que pode ser uma utopia, uma utopia que vale cada dia da nossa vida, porque é na felicidade dos outros que encontraremos a nossa própria felicidade.
O primeiro desafio deste Tempo Novo, desta República Nova – compreenda-se o adjectivo longe das referências sidonistas e da Primeira República –, da Quarta República, se se preferir, é o da coragem – do Povo e dos Políticos – “para dizer que o Rei vai nu, por mais engravatado que pareça estar”, como diz Frei Fernando Ventura. Coragem para dizer a Verdade, toda a Verdade, mesmo em tempos de cólera.

Editorial do Jornal da Mealhada de 6 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

[1166.] Luna dies

Hoje, 4 de Outubro, é Dia de São Francisco de Assis. São Francisco é o santo da minha devoção. E o seu ideário (político?) acabou por ser um importante pilar da minha formação espiritual.
Francisco de Assis é um revolucionário na transição dos séculos XII e XIII. Numa altura particularmente radical, o rapaz rico de Assis, filho do mercador da cidade e da francesa com quem ele casou, o rapaz é um playboy, um esbanjador, até à conversão. Uma conversão que se faz de modo muito simples: "Reconstroi a minha Igreja!". Nunca se saberá se Deus que falou a Francisco na Cruz de São Damião lhe pedia que reconstruísse aquela capela em ruína, se a Igreja Católica, a de Pedro já nessa altura com mais de mil anos.
O despojamento dos bens materiais, a vida simples de contemplação da natureza que Franscisco adopta é uma afronta para a Igreja dos palácios, do ouro, da escravatura e da opulência da hierarquia. A pobreza de Cristo é, nessa altura, importante tema de discussão teológica para dirimir e definir quem tinha razão no duelo - muito mais político que teológico. [A este propósito, imperdível o enredo de 'O Nome da Rosa', de Humberto Eco que o cinema adapta, mais tarde]
Franscisco é o homem do culto da natureza como obra de Deus. 'O Cântico das Criaturas' é, ainda hoje, peça poética de rara beleza. E também aí revoluciona. Ao chamar irmão ao Fogo, irmã à Água, e irmãos aos animais - porque todos criaturas de Deus -, Francisco coloca toda a criação num mesmo pé de igualdade. Numa sociedade teocrática - com Deus no meio - o colocar do homem (criado à imagem e semelhança de Deus) ao mesmo nível dos cavalos, dos porcos, dos bois ou das galinhas, não pode ser pacífico. Mas Franscisco fá-lo.
Francisco é um 'primeiro' ecologista (ECO é casa em grego). O 'pobrezinho de Assis' - a imagem ainda hoje existe - é o santo padroeiro da protecção da Natureza, e por isso hoje é, também, Dia Mundial do Animal.
O que faz algum sentido relembrar no Ano Internacional da Biodiversidade!
Visitei Assis em Setembro de 1996, quando fazia o Inter-rail com Nuno Cruz, mano velho. A ida à cidade da Umbria não estava nos planos iniciais e faz-se já 'no regresso'.
Nos primeiros dias em Itália, em Piza, tinhamos comprado dois taus, um para cada um. Eu já nessa altura era um 'fransciscanista'. O tema interessava-me desde há um ano a essa parte, incentivado pelo contacto (indirecto) com Rui Costa e com os Jovens Cristãos de Luso, que, nessa altura, me forneceram muito material para que eu aprofundasse o meu interesse.
A compra do tau, que eu já cobiçara tantas vezes, nomeadamente ao Bruno Coimbra que nessa altura costumava usar um, fez-me discutir o tema com o Nuno, nessa viagem de quinze dias - eu com 17 anos ele com 18. E quando uma pessoa fala do que gosta influencia.
Em Atenas, no fim de uma almoço que não existiu, oiço, com estupefacção, o Nuno sugerir a passagem por Assis a caminho de Veneza, já no regresso. Foi fantástico.
Chegámos a Assis de noite. A estação de comboio era muito florida e bonita. Às escuras, de mochila às costas, fomos até ao albergue, ao 'Ostello della Pace'. Quando acordámos e abrimos a janela, num dia frio e cinzento, deparámos-nos com uma imagem muito parecida com a da fotografia que está acima. A cidade de Assis triunfava deitada sobre a montanha.
Subimos a encosta e vistámos a cidade. A tranquilidade, a claridade da cidade, a nossa paz de espírito fizeram o Nuno dizer - mais vezes do que seria de esperar -: "Isto parece Casal Comba!".
E se calhar ao Nuno parecia. Mas não por estar na fralda da serra, nem pela morfologia do espaço (e até tem parecenças), mas pelo facto de sentir em casa. Em Assis ele sentia-se em casa. E eu também!
Espero voltar em breve!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[1165.] Exmo Sr. Ministro das Finanças...

Exmo. Sr. Ministro das Finanças,


Prossigo, na medida das minhas possibilidades e conhecimentos, e cheio de fervor patriótico, na prossecução da resposta à exortação de Vossa Excelência aos portugueses para lhe "dizerem" onde é que ainda se podia cortar na despesa do Estado.
Uma vez mais, recorro à minha condição de português que paga impostos, que cumpre com as suas obrigações cívicas, sociais e políticas (longe das campanhas eleitorais e dos fantasmas que elas provocam nos que, aparentemente, sentem o chão a ruir), para, por este meio, dar o meu contributo para esta causa patriótica e informá-lo, com a humildade com que um burro da Mealhada - repito que também aqui os há, e dos bons (até os exportamos para o norte) - se dirige a um doutorado em Finanças (ou vice-versa), das oportunidades que se lhe deparam a si, que governa, para cortar na despesa.

E que tal começar pelos 3.706.630 euros mensais de salários que auferem os 20 senhores, abaixo elencados, fieis servidores do Estado em instituições e empresas públicas?


Ora, sendo certo que o salário do Senhor Presidente da República, o mais alto magistrado da Nação, rondará os 10 mil euros mensais, não considera Vossa Excelência que será exagerado um servidor público ganhar 42 vezes mais, como o Dr.Fernando Pinto, ou até mesmo 6 vezes mais, como a Dr.ª Fernanda Meneses?
É certo que são funcionários de institutos da administração autonoma do Estado, e de empresas público-privadas, mas, não sendo funcionários públicos são servidores do Estado.

Poderão dizer alguns que se trata de pessoas hiper-qualificadas que desempenham relevantes funções e que se não forem bem pagas sairão para o sector privado e o Estado ficará apenas com os restos. Podem dizê-lo, mas, tanto Vossa Excelência, que é doutor em Finanças, como um burro como eu, sabemos que isso não é verdade.


E eu até sou solidário com a sua proposta - em Janeiro de 2010 - de reduzir o seu próprio salário se a situação económica não melhorasse, atrevo-me a indagar: Se estes 20 senhores auferissem tanto (imagine Vossa Excelência quanta honra) como o Senhor Presidente da República, estas empresas e instituições precisariam de tanto dinheiro dos cofres do Estado? Seguramente que não - atrevo-me a responder, logo, Vossa Excelência - só com estes 20 - pouparia 3,5 milhões de euros por mês (49 milhões de poupança em cada ano).

Convirá Vossa Excelência que é maquia significativa.

Renovo o meu intento de - assim me ajude o engenho e a arte - continuar a responder ao seu desafio patriótico e, assim, ajudar Vossa Excelência a cumprir com a sua missão.
Uma vez mais declaro (por que há quem diga na minha terra exportadora de burros que "a inveja é como uma unha encravada") que prescindo, desde já, de qualquer remuneração que Vossa Excelência possa querer auferir-me, na certeza, porém, de que o meu desejo de retribuição passa pela concretização da demissão do chefe do Governo, podendo Vossa Excelência - apesar de tudo - ocupar a presidência do Conselho de Ministros até à realização de eleições.

Não me parece que seja, para vós e para a Nação, grande sacrificio.

Com os melhores cumprimentos
Nuno Canilho