quarta-feira, 23 de março de 2011

[1308.] Realidades (para além dos cenários) de crise IV

Várias pessoas me perguntaram hoje, ao longo do dia, qual era a minha opinião sobre a demissão (esperada, mas na altura tão só eventual) do primeiro-ministro. Facto que me obrigou a pensar no assunto...

É óbvio que não é bom para ninguém - especialmente para o país - que o Chefe do Governo se demita antes de terminar o mandato para o qual foi investido. Resulta claro que não é bom que o Chefe do Executivo saia do leme, num momento em que o país atravessa uma crise financeira e económica muito séria. É liquido que não é positivo ter um Governo de gestão num momento em que o executivo tem previsto pôr no mercado 9,5 mil milhões de euros de dívida pública, um PEC para apresentar aos parceiros europeus até Abril e, eventualmente, pedir a intervenção do Fundo Europeu de Estabilização e do FMI.

Acontece que o Governo Sócrates e o seu primeiro-ministro davam sinais de um desgaste profundo, de uma falta de respeito total por órgãos de soberania e parceiros sociais, uma total desconsideração pelos portugueses. Ou seja, notava-se já, desde a alguns meses - não sou tão radical a ponto de dizer que desde a tomada de posse - que o Governo estava desnorteado e sem solução possível para a maior parte dos problemas do país.

Ao mesmo tempo, percebeu-se (com as declarações de alguns ministros) que Sócrates não conseguia remodelar o Governo, porque, possivelmente, não conseguiria arranjar ninguém para ocupar os lugares e trabalhar a seu lado. E este sinal é péssimo para um Governo.

A necessidade que o primeiro-ministro tinha (como têm e terão todos) de dar aos mercados sinais de confiança obrigou-o a proferir discursos de uma quase esquizofrenia, em que às segundas, quartas e sextas dizia que o país estava óptimo, com sinais de recuperação e execução orçamental notáveis, que era o campeão disto e daquilo, e às terças, quintas e sábados anunciava ao país a necessidade de mais medidas de auteridade. Ninguém aguentava mais esta bipolaridade.

A demissão de Sócrates foi, portanto uma benção. Porque neste momento, José Sócrates era parte do problema, e não parte da solução. Ou seja, qualquer outra pessoa seria capaz de convencer os portugueses e os mercados a aceitarem uma determinada medida - mesmo que dificil. Mas Sócrates já não é capaz de o fazer.
O problema não é o Governo, nem o Partido Socialista - outro primeiro-ministro deste partido fá-lo-ia, tenho a certeza. O problema é José Sócrates que já não conseguia mobilizar as pessoas, ser levado a sério.

Cavaco aceitará na sexta-feira o pedido de demissão do primeiro-ministro. Todos os partidos sugerirão que dissolva o parlamento e marque eleições. Cavaco poderia pedir ao PS que formasse novo Governo, não esqueçamos. Mas todos vão pedir eleições.
Eleições que trarão novos problemas e novas dificuldades, mas digamos que podem bem ser os dois passos que se dão atrás, para que, com um novo primeiro-ministro, possamos dar três em frente! Um novo primeiro-ministro que, eventualmente, até anunciará ao país as mesmas medidas que o parlamento agora vedou a Sócrates. Mas será outra pessoa, e isso, agora, é relevante.

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[1307.] Mercurii dies

Pelos que tombaram pela Pátria (de novo)

Assinalou-se no dia 15 de março – com sessão presidida pelo Chefe de Estado –, o 50.º aniversário da Guerra, conhecida em Portugal como "do Ultramar" ou "Colonial", conhecida nas antigas colónias do Império Português como "da Libertação". Na comunicação social portuguesa, o aniversário foi amplamente assinalado por alturas do 4 de fevereiro – dia em que se assinalou a "Revolta de Luanda", com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional, acção considerada como o início da luta armada em Angola. O Presidente da República e o Chefe do Estado-maior das Forças Armadas entenderam assinalar o acontecimento no dia em que o primeiro reforço militar embarcou de Lisboa para Luanda, e, curiosamente, se deu o ataque das UPA a civis no norte de Angola.

Em abril de 2008, em dois editoriais em que lembrámos os 90 anos da Batalha de La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial, na região da Flandres, na Bélgica, e onde se integraram vinte mil soldados do Corpo Expedicionário Português – a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578 – assinalámos a necessidade de se implantar na cidade da Mealhada um monumento especialmente erigido para homenagear os combatentes na Guerra Colonial portuguesa (1961-1974).
Desde 2007 que um grupo de antigos militares mealhadenses – que fizeram comissão na Guiné – se reúne anualmente e tem promovido a homenagem aos militares da Guerra Colonial em cada uma das freguesias do concelho. Em cada um delas tem sido erigido um monumento cuja edificação tem sido apoiada pelas juntas de freguesia. Uma iniciativa que nos parece muito salutar e digna do maior elogio.
Este grupo voltará a reunir-se no sábado, dia 2 de abril, desta feita em Casal Comba, e a eles, especialmente, renovamos o desafio que já aqui alvitrámos em 2008: o da construção de um monumento na sede do concelho com dignidade suficiente para nele se reverem não só os antigos militares mealhadenses, não só os familiares dos dezassete jovens do concelho que tombaram em África – que regularmente depositam flores nas lápides que se encontram anexas ao monumento aos mortos na Primeira Grande Guerra, no jardim municipal –, mas todos os portugueses que necessitam de assumir a Guerra Colonial como parte do nosso passado coletivo recente, com fortíssimas implicações no presente.
No decorrer da semana passada, um colaborador do Jornal da Mealhada, bom amigo desta casa, buscando uma edição antiga onde dera a mesmíssima sugestão – no Jornal da Mealhada de 10 de setembro de 2003 – disponibilizava-se para ajudar nessa demanda, a da construção de um monumento próprio para homenagear os combatentes da Guerra Colonial na sede do concelho. Disponibilidade essa a que o Jornal da Mealhada – a redação e a gerência da empresa proprietária – se associam.
Fará sentido que este monumento nasça, em primeiro lugar, da vontade e do esforço das pessoas, do grupo dos antigos militares da Guiné que já está organizado, e que só mais tarde se associem as autarquias locais – porque temos a certeza que se associarão. Há gestos que ganham significado se resultarem da vontade e do gesto dos homens, antes de o serem pela ação do Estado.

São muitas as dezenas de convívios de militares participantes na Guerra Colonial, que se realizam na Mealhada. Na Internet há vários sítios que divulgam esses encontros. Eles, de certo modo, funcionam como meio de exorcizar angústias, medos e frustrações, por meio do convívio entre pessoas que, juntas, ultrapassaram dificuldades, presenciaram coisas e factos muitos dos quais traumatizantes e, porventura, inimagináveis para tantos de nós. Pessoas que criaram, entre si, laços de cumplicidade, de solidariedade, de amizade. Reúnem-se na Mealhada, acreditamos, por uma questão de centralidade geográfica e de oferta de restauração.
A construção de um monumento na cidade da Mealhada, no jardim ou no Parque da Cidade, por exemplo, em homenagem aos combatentes da Guerra Colonial — a todos eles —, constituiria, também, uma forma de reconhecimento nacional e de referência para todos estes grupos de antigos militares que aqui se reúnem. Como aqui se concentram, aqui teriam um lugar digno, especial, para homenagear os que, como eles, estiveram envolvidos em conflitos militares pela pátria. Uma iniciativa que, certamente, teria o apoio das associações de veteranos de guerra e constituiria um gesto de justiça.

Fica, de novo, a sugestão.

Editorial do Jornal da Mealhada de 23 de março de 2011

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[1306.] "Pedro dos Leitões" - II

[IMAGENS PARA A POSTERIDADE]
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Balcão do Pedro dos Leitões, em 13 de Novembro de 1959
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Em primeiro plano, da esquerda para a direita, Augusto Castela (Nini), Alvaro, Xico, Celso e o meu avô Hilário.
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terça-feira, 22 de março de 2011

[1305.] Realidades (para além dos cenários) de crise III

"Um Apelo Angustiado" de Mário Soares


O "Apelo Angustiado" de Mário Soares, publicado hoje no Diário de Notícias, procura pressionar o Presidente da República. Soares considera que o Chefe do Estado é o único que "tem possibilidade de intervir, ser ouvido e impedir a catástrofe anunciada". Para Mário Soares, a catástrofe anunciada é a demissão do Governo e a marcação de eleições legislativas.
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Curiosamente, há precisamente uma semana, a 15 de março, o carismático fundador do Partido Socialista, no mesmo Diário de Notícias, juntava-se às vozes criticas em relação à ação do primeiro-ministro. Acusou Sócrates de cometer "erros graves" que "irão custar caro" ao primeiro-ministro. E, nessa altura, não afastava o cenário de eleições antecipadas no imediato.
Entre os erros de Sócrates, Soares dizia estarem os factos de não ter "informado, pedagogicamente, os portugueses, quanto às medidas tomadas e à situação real do País" e de, "nos últimos dias", ter negociado "o PEC IV sem informar o Presidente da República, o Parlamento e os Parceiros Sociais". Para Soares, estes erros "foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis, que irão custar-lhe caro".
Perante este cenário, o antigo Chefe de Estado não excluia, há uma semana, a possibilidade de eleições no imediato e colocava dois cenários ao Presidente da República. Soares criticava os dois cenários que identificava: o de Cavaco marcar eleições e o de Cavaco não marcar eleições. Dizia Soares que não marcar eleições seria "deixar que o Governo - e o PS, o que é mais grave - fiquem a fritar em lume brando? Com que vantagem para o futuro?".

É engraçado como é que Soares mudou de ideias numa semana. Há uma semana não demitir o Governo era "uma fritura em lume brando sem vantagens para o futuro". Agora, é uma "catástrofe anunciada". Estranho...
Talvez o antigo timoneiro do socialismo democrático tenha percebido que, agora, é a sério! Ou procure emendar a mão, fazendo esquecer que tem sido um dos coveiros de Sócrates e uma voz critica que tem ajudado ao avolumar da contestação ao primeiro-ministro.

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[1304.] Realidades (para além dos cenários) de crise II

Na madrugada de terça-feira, os jornais diários garantem que o Governo cai amanhã... Eu não sou tão optimista. Mas o i, por exemplo, di-lo perentoriamente.


No estertor do Socratismo, sobressaem hoje três ministros que são exemplo absoluto do desnorte da liderança política do primeiro-ministro e do que tem sido o rumo do país, pelo menos desde Setembro de 2009.


PEDRO SILVA PEREIRA, o trauliteiro, elogia a orquestra do Titanic. Insiste naquela arrogância completamente descabida, de quem insiste em ditar chavões em que nem ele próprio acredita, para que conste da memorabilia de um tempo estranho. Há momentos, na SIC Noticias, estava a ouvir o Ministro da Presidência - sem ver a imagem - e na minha cabeça "vi" aquele ministro do Saddam Hussein, o ministro da informação Muhammed Saeed al-Sahaf, que insistia em desmentir o óbvio e o que já era vísivel por todos. Este ficará, certamente, como o fulano mais low profile e sórdido do socratismo.
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AUGUSTO SANTOS SILVA, o caceteiro. O autor (material) da célebre frase: Quem se mete com o PS leva!
Como ministro da Defesa que se preze, leva a defesa do Governo ao extremo de criticar o Chefe de Estado, e comandante supremo das Forças Armadas e, cinco minutos depois, estar a trabalhar com o homem cheio de salamaleques e atenções.
O ministro Santos Silva mostrou, nos últimos meses, a fase de um poder que persegue, que não perdoa, que intimida, que por muito libertário que seja, não entende outra linguagem que não seja a Lei de Talião e a velha máxima jacobita do "quem não é por mim, é contra mim!".
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LUÍS AMADO, o sensato. É, provavelmente, o melhor ministro do Governo. Apesar de algumas vezes na arte da diplomacia a história - essa sacana - lhe tirar razão, a verdade é que foi alguém que sempre deu a cara pela verdade, sem o discurso maldoso e da maldade.
Alguém que há meses pede para ser substituído e que Sócrates não se pode dar ao luxo de perder. Hoje Amado garantiu: "Estamos há demasiado tempo a jogar aos dados com o destino da economia portuguesa e dos portugueses".
E hoje mesmo, um jornalista perguntou: "Não é do Governo a responsabilidade da abertura da crise política, por se ter comprometido com a União Europeia antes de apresentar o PEC ao País?". O sensato ministro Amado respondeu: "Eventualmente, esse juízo já foi feito, tem havido muitas leituras sobre isso, como lhe disse gostaria que isso não se tivesse passado, passou-se..."

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segunda-feira, 21 de março de 2011

[1303.] Realidades (para além dos cenários) de crise

O CDS/PP é um partido fundamental no panorama político português. É um partido que, sendo um pequeno partido, se afirmou nos últimos anos como estando preparado para integrar o "arco do poder". Na verdade, no mandato da AD, em 1979, foi do CDS que sairam os dois mais distintos ministros daquele governo, Freitas do Amaral e Amaro da Costa. Nos Governos Durão Barroso e Pedro Santa Lopes, um dos melhores ministros foi, sem sombra de dúvida, António Bagão Félix - ministro do Trabalho e Solidariedade Social no Governo Barroso e ministro das Finanças no Governo Santana Lopes.

O CDS tem o problema de ser um partido demasiado dependente do seu líder carismático, é certo. Mas afastou-se do caminho da demagogia política popularucha que o caracterizava antes de 2004, e afirmou-se como um partido de gente eficiente, activa, criativa, corajosa e responsável. A perenidade e estabilidade ideológica do CDS/PP é muito importante para um governo nacional - assim como para governos municipais, por exemplo.

No congresso que acabou ontem, em Viseu, o líder do CDS/PP mostrou-se determinado, mostrou-se responsável e isso é importante. Importante para a “coligação alargada de mudança” que Pedro Passos Coelho hoje enunciou. Faz todo o sentido que CDS/PP, PSD e MEP se apresentem a votos e obtenham os votos dos portugueses, para depois, se coligarem na formação de um Governo estável e credível.

"É Agora ou Nunca", como disse Portas, em Viseu.

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domingo, 20 de março de 2011

[1302.] Fecha-se um ciclo

Foi "decretada" hoje, 20.03.11, a abertura do processo eleitoral para a Junta do Núcleo Centro-Norte da região de Coimbra do CNE. As eleições foram marcadas para 18 de junho, mas ainda há muita coisa para fazer antes de darmos por terminado o mandato. Há, ainda, a reunião de avaliação do AcaSecNuc e do Plano Trienal, marcada para o próximo domingo, 27 de março, há relatórios de contas e de actividades para fazer... mas a verdade é que, com a abertura do processo eleitoral começa aquele sentimento - de que eu gosto particularmente - de avaliação e de fim de ciclo.

Ao longo deste mandato - que começou em 8 de junho de 2008 - submetemo-nos a experiências arriscadas, experimentámos métodos de trabalho e de ação que, agora, importa avaliar. Independentemente da avaliação global e institucional, a verdade é que, na minha opinião, conseguimos concretizar todos os objectivos a que nos propusemos e conseguimos testar muitas das coisas em que acreditávamos, mas que nunca haviam visto a luz do dia. Juntámos pessoas diferentes, de sensibilidades distintas, a pensar e a remar na mesma direção, a construir coisas inovadoras, além do que tantas vezes julgávamos ser possível. Manifestámos espirito de corpo, união e muita, muita ação.

Foi um mandato extraordinário. De que me orgulho muitissimo!
Obrigado a todos por esta experiência!

[1301.] Sawa bona


WWF - We Are All Connected from Troublemakers.tv on Vimeo.

Segundo uma ancestral filosofia africana - Ubuntu - "não interessa em que parte do mundo vivemos, todos partilhamos valores e aspirações fundamentais muito semelhantes: prezamos a família, amamos os nossos filhos, queremos aproveitar ao máximo as nossas vidas e fazer diferença no mundo, buscamos uma sensação de segurança e desfrutamos das nossas amizades". Segundo o Ubuntu, a carateristica de sermos humanos obriga-nos à responsabilidade de termos de amar, respeitar e nos entregarmos ao "próximo". Porque ao dar-nos ao próximo estamos a fomentar a retribuição cósmica que nos fortalecerá a nós próprios, num ciclo de bem-estar que não se quebra.

Uma pessoa só é pessoa pela conexão humana. Estamos todos unidos, somos todos irmãos, num mesmo corpo, peregrinos neste planeta que tomámos de arrendamento. Pelo que quando um de nós tem fome, estamos todos mal-nutridos. Quando um homem é maltratado, todos sentimos dor. Quando uma criança sofre, é sobre o rosto de todos nós que correm as lágrimas. "Ao reconhecermos a humanidade uns nos outros, reconhecemos no nosso vínculo inquebrável à nossa condição humana!"

Isto parece filosofia barata, mas é muito reconfortante. Acreditem, mesmo muito reconfortante.

sábado, 19 de março de 2011

[1300.] A perigosa ingerência

As democracias ocidentais sabem (deviam saber) que são muito perigosas as ingerências - mesmo que humanitárias - em palcos próximos do território europeu. A figura da ingerência humanitária - usada na guerra dos balcãs - mostrou-se, reconheçamos, muito fraca das pernas em termos de relevância do Direito Internacional. O que se terá ganho em real politik perde-se no precedente aberto, quase sempre, pela justiça dos vencedores e falsos moralistas.

Independentemente de Kadafi estar, na realidade, a massacrar civis, a verdade é que na Libia se vive uma guerra civil, com duas frentes bélicas, para a qual as Nações polidas e civilizadas devem contribuir com soluções de Paz e não com a ingerência de quem toma uma posição contra um dos beligerantes.

No caso em concreto, parece estranho que a ação política da coligação internacional se faça sentir - mesmo que com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas - num momento em que o conflito parecia estar a acabar, verificando-se um controle por parte das forças de Kadafi. É verdade que muitas chancelarias europeias - como a nossa, por exemplo - decretaram o fim do regime de Kadafi cedo de mais, e que agora é preciso que o fim do regime tenha lugar, de modo a que não seja necessário dar uma pirueta e "dar um beijo no próprio rabo".

Tomara que as forças da coligação - com um estranho excesso de zelo de Sarkozy (que Kadafi ameaçara com "revelações escaldantes") e a gratuita beligerância torie de Cameron, bem como a traiçãozinha tímida de Berlusconi e Sócrates, depois das simpáticas visitas à tenda do "líder fraternal e guia da revolução da Líbia" - consigam neutralizar as tropas e armas e o próprio Kadafi, o mais depressa possível. A bem de todos.

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[1299.] O nome das coisas

Contrariamente ao que afirma José Socrates e Pedro Silva Pereira, o chumbo do PEC 4, e a queda do Governo não é uma crise política.

Crise politica é que vivemos hoje.

A queda do Governo, neste momento, é a única solução para sairmos da crise política.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

[1298.] "Pedro dos Leitões"

Há locais que são mais que espaço físico. Povoam o imaginário pessoal, a história das nossas vidas, e foram o tabuleiro dos jogos, das travessuras e das brincadeiras da nossa infância. Olhar para o espaço físico onde sentimos as camadas da nossa própria história é uma visão de nós mesmos.

Pouco depois de ter nascido, com poucos meses de vida fui viver para a casa pré-fabricada da ladeira do "Pedro", hoje, Rua Alvaro Pedro, em Sernadelo. Foi ali que vivi até aos 14 anos. E o restaurante era o prolongamento da minha casa, apesar de haver espaços onde eu só entrava com autorização superior.

Sou sobrinho-neto de Alvaro Pedro - lá em casa conhecido como "o padrinho". A esposa, "a madrinha Eulália", conhecida em Sernadelo como a "Maria da Emília", era irmã do meu avô Hilário. Foram "os padrinhos" que ajudaram os meus pais numa altura particularmente dificil do inicio da vida da nossa recem criada família e sempre me trataram com especial carinho. O restaurante nunca foi o "Pedro". O restaurante - aquele espaço - era, é ainda hoje, na linguagem das meias palavras que têm as famílias, pura e simplesmente, o restaurante.

O meu avô Hilário foi uma personagem importante na criação daquela casa. Na transformação de um pequeno comércio de bomba de gasolina num restaurante de topo, na casa referência da Mealhada, como a "Sala de Jantar da Europa". Não começou a trabalhar lá no inicio da casa, e não esteve lá tanto tempo como muitos dos seus cunhados e de quase todos os seus sobrinhos. Mas ainda hoje, no património dos sentimentos do imaginário daquela casa, o ti'Hilarito é figura mítica. Uma figura de que me orgulho muitíssimo.

Hoje, quando vi o panorama de destruição na zona interior, no coração do restaurante, fiquei incomodado e emocionei-me ao ver a tristeza das pessoas para quem aquele espaço é o ganha-pão. Pessoas, umas meus familiares, sangue do meu sangue, outras quase isso - algumas que ainda me saúdam com um "bom-dia menino" -, com quem não posso deixar de me solidarizar num momento de incerteza, de dificuldade e de muita, muita, mesmo muita angústia.

Que a Força os ilumine, os ajude e nos ajude a nós todos para que os possamos consolar, apoiar, e fazer acreditar que em cada porta que se fecha, há outra que se abre. A crer na máxima do optimismo - esse sentimento tão necessários nos tempos de hoje - de que uma catástrofe é, sempre, uma oportunidade. Ou como dizia Inácio de Loyola: "Uma desgraça é sempre uma oportunidade para outras Graças".

Recomeçar, reconstruir, reerguer o sonho antigo de um homem como Alvaro Pedro - que foi um génio e, acima de tudo, um visionário, que certamente teve sucessos e fracassos - é um legado, é a herança. Uma reconstrução que permitirá resolver problemas antigos, inovar, fazer a diferença, ir mais além, construir o futuro.

Força. Muita Força. Estarei disponível para ajudar, sempre.




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quinta-feira, 17 de março de 2011

[1297.] 6...5...4...3...2...

A situação politica nacional, neste momento, assemelha-se àquele jogo infantil da "bomba". A bomba vai explodir, toda a gente sabe isso, e os jogadores, já em contagem decrescente, fazem passar a bomba de mão em mão, para que exploda em qualquer lado, menos entre os seus dedos. Perde quem tiver o azar de lhe explodir a bomba nas mãos.

Toda a gente sabe que o Governo vai cair e que vamos ter de ir para eleições antecipadas. Todos os líderes partidários e o Presidente da República querem ir para eleições o quanto antes. Acontece que nenhum quer ser acusado de ser o responsável pela marcação de eleições. Porque tal facto será relevante na dialética da campanha eleitoral, e principalmente, porque a queda do Governo trará consigo a entrada do FMI e do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Nem Sócrates nem Passos Coelho querem ser acusados de abrir a porta às medidas draconianas do Fundo Monetário Internacional.

Este jogo da "bomba" tem estratégias, como tem qualquer jogo. Interessa ter a "bomba" na mão nos momentos finais de modo a lançá-la a quem não tenha hipótese de se libertar dela. É mais ou menos isso que está a fazer o primeiro-ministro. Parece-me.

O PCP, o CDS e o Bloco não têm muito a perder com este jogo. São aqueles jogadores que têm a capacidade de começar a contagem - nomeadamente com a apresentação das moções de censura -, mas sabem que a bomba não rebentará nas suas mãos. Nenhum destes partidos tem capacidade para aprovar uma moção de censura, nem serão determinantes na votação de qualquer documento estratégico que obrigue à demissão do Governo.
O Bloco apresentou uma moção para se antecipar ao PCP, e não teve qualquer cuidado em redigir um texto que permitisse a adesão do CDS ou do PSD.
O PCP pode vir a ser o censor que se segue, e também não deve dar-se ao trabalho de fazer com que o texto possa ser aprovado pela direita.
O Bloco e o PCP serão os partidos que menos interesse têm em eleições. O primeiro porque teve um resultado extraordinário em 2009, e dificilmente aumentará o número de deputados - até porque os problemas internos estão a agudizar-se no Consórcio das Esquerdas. E o PCP há anos que cada vez que vai a votos perde deputados e isso não lhe interessa nada.
O CDS, no entanto, não apresentará uma moção que não tenha o apoio implicito do PSD. No próximo fim-de-semana o partido de Portas reúne em Congresso, e cheira-me que para marcar a agenda politica, anuncie a apresentação de uma moção de censura.

Pedro Passos Coelho está a ser pressionado para fazer cair o Governo. Passadas as eleições presidenciais, e eleito Cavaco, não há o medo de o PSD contribuir para a não reeleição do presidente, e os barões estão ansiosos por ir a votos e voltar ao poder. O líder não quer o poder a qualquer preço, quando ainda não conseguiu munir-se de todas as ferramentas - pessoas e estratégias - para ser primeiro-ministro com tranquilidade. Acontece que o PSD é um partido que não aguenta a ausência de poder durante muito tempo, e essa turbulência política está a mexer com os social-democratas. Se não houver eleições dentro de poucos meses, as vozes vão começar a pedir a cabeça de Coelho... e Rio está à espreita! Até porque a manutenção do PS no Governo só se faz se este tiver o apoio do PSD.
O líder da oposição recebeu a bomba com o anuncio do PEC4, devolveu a bomba a Sócrates no sábado, e o PS voltou a devolver-lha com a declaração de Sócrates a dramatizar. Passos hoje manda a bomba para Cavaco, que por sua vez a mandou para o PS, que hoje já diz que o PEC4 é negociável se o PSD quiser... e se não quiser perde o jogo. E a bomba está, de novo, nas mãos de Coelho.

José Sócrates armou uma ratoeira ao PSD com este PEC4. Anunciou as medidas de austeridade no dia em que tinha de as levar a Bruxelas, tendo-as mantido escondidas no debate da moção de censura do BE. O primeiro-ministro sabia que o PSD não está em condições de chumbar a substância das medidas, porque, aparentemente, elas são necessárias e porque foram impostas por Bruxelas. Mas Sócrates sabia que o PSD não podia aceitar a forma como as medidas foram tomadas - sem aprovação no Conselho de Ministros, às escondidas, sem informação ao Presidente, sem informação à concertação social e, acima de tudo, sem negociação prévia com a oposição. Ou seja, para que eles não possam aprovar estas medidas - e lhes exploda a bomba na mão - temos de viciar a forma. E foi isso que Sócrates fez. Fez o pior possível, para ter a certeza de que o PSD não aprove estas medidas.

Pode perguntar-se: Mas que interesse tem Sócrates em sair do poder, neste momento? A resposta é simples, Sócrates, de facto, não está agarrado ao poder, mas percebeu que está num pântano, que já não pode fazer muito mais pela confiança dos mercados e dos portugueses, que não consegue remodelar o Governo, que tem ministros exaustos a pedir para sair por Amor de Deus - como o Amado. Sócrates tem o partido a minar a sua liderança e já percebeu que tem de sair. Não acredito que esteja a promover uma politica da terra queimada, até porque quer regressar, mas quer ver-se livre deste problema o quanto antes.

Resta Cavaco. O presidente não quer ser o agente da queda do Governo. Vai fazer o tudo por tudo para que o Governo caia no Parlamento, mas a coisa não está fácil. Cavaco não quer ser acusado de estar a favorecer a Direita, e sabe que tem a Esquerda à perna - uma esquerda que se recusa a aplaudir um discurso de um Chefe de Estado eleito por 53 por cento dos portugueses votantes.
Cavaco tem a perfeita noção de que a queda do Governo será o caos económico, que ele sabe ser inevitável, mas não quer ser ele a ter a bomba na mão quando rebentar.

Os tempos não são nada fáceis! E a contagem continua... e continuará

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quarta-feira, 16 de março de 2011

[1296.] 50 anos da Guerra Colonial... ou da Libertação?

O Presidente da República decidiu assinalar, ontem, 15 de março, o 50.º aniversário da Guerra, conhecida em Portugal como "do Ultramar" ou "Colonial", conhecida nas antigas colónias do Império Português como "da Libertação".
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Na comunicação social portuguesa, o aniversário foi amplamente assinalado por alturas do 4 de fevereiro - dia em que se assinalou a "Revolta de Luanda", com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional, acção considerada como o início da luta armada em Angola.
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Se entendermos a Guerra Colonial como a resposta a um ataque "terrorista" de movimentos de libertação, então, faz sentido assinalarmos o inicio da Guerra no dia em que esse ataque se deu. Se considerarmos que uma guerra começa no dia em que é dada uma resposta armada, em que começa o conflito - a luta bilateral, portanto - então o dia que devemos assinalar é o 15 de março.
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Foi precisamente a 15 de março de 1961 que se deu, no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, o embarque de quatro companhias de Caçadores para reforço da guarnição de Angola.
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No mesmo dia, curiosamente, tinha início a rebelião dirigida pela UPA (União dos Povos de Angola, organização liderada por Holden Roberto, fundada em 1954, em Leopoldville, radicada, inicialmente no nacionalismo bacongo). Esta rebelião de 15 de março teve lugar no Norte de Angola, e deu-se contra os colonos portugueses e algumas populações negras, causando centenas de vítimas a quem os rebeldes cortaram as cabeças. Com o ataque da UPA, começava a vertente da guerra não virada contra os "interesses do poder colonizador" - como acontecera com os ataques de 4 de fevereiro -, mas contra os brancos e as populações negras que com eles colaboravam.
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Atente-se que não eu disse que o ataque da UPA foi contra os "colonos". Eu disse que foi contra os "brancos e as populações negras" que não lhes eram hostis. Porque muitos desses brancos que foram decapitados no 15 de março eram muito mais angolanos do que os rebeldes da UPA - muitos deles da tribo bacongo, é certo, mas congoleses. Holden Roberto, por exemplo, nem sequer português sabia falar!
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A Guerra começava, então, a 15 de março de 1961, em Angola. Como um barril de pólvora que explode depois de muitas fontes de ignição o rodearem. Fontes de ignição como os movimentos de libertação africanos, como a falta de investimento da parte do Governo português em muitas regiões ultramarinas, como a pressão das potências da Guerra Fria no continente africano, como o distanciamento dos poderes públicos metropolitanos face às realidades coloniais, entre muitos outros fatores.
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Uma guerra que começou em 4 de fevereiro, ou 15 de março de 1961 e se prolongou por 14 penosos anos, mobilizando toda uma geração de homens portugueses, e transformando outras tantas mulheres e mães. Uma guerra que termina com o 25 de abril de 1974 - que ajuda a acontecer (por boas ou más razões) -, apesar de só em 1975 acabar de facto, e que deixa uma marca fundamental na história de Portugal.
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Guerra Colonial
1961-1974
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14 anos
Mais de 800000 mobilizados
100000 doentes e feridos
8831 mortos
[3250 mortos em Angola, 2962 em Moçambique e 2700 na Guiné; 8290 soldados pertencentes ao Exército, 346 à Força Aérea e 195 à Marinha; 4027 pereceram em combate, 1480 em acidentes de viação, 785 em acidentes com armas de fogo e 1998 devido a outras causas.]
140000 soldados com disturbios psicológicos
663.401.203 € gastos com as operações
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Fonte:
Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes
Angola 61, de Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus
Cronologia da Guerra Colonial, de José Brandão
Associação dos Deficientes das Forças Armadas
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«Combatentes
Importa reconhecer que os soldados portugueses foram, em África, soldados de excepção. Fizeram da distância e da saudade um desafio a vencer, assumiram a falta de recursos como razão para a iniciativa e para a adaptabilidade, tomaram a juventude e os seus receios, temperados pela camaradagem e pelo patriotismo, como ingredientes para uma conduta digna e, muitas vezes, heróica. (...)
Foi a capacidade de sofrimento e o exemplo de coragem das mulheres de Portugal, a quem tantos sacrifícios foram pedidos, pela ausência ou perda dos seus, e que tudo suportaram na sua solidão e nos seus silêncios, tantas vezes esquecidas.
Foi o enorme desafio vencido por aqueles que, regressados de África, tiveram que refazer as suas vidas, começando tudo de novo, fazendo apelo ao espírito empreendedor e à capacidade de lutar que sempre os caracterizaram. Foi toda uma rede de apoios e de afectos criada no seio das famílias e do País, que facilitaram a sua integração no tecido laboral e social, ultrapassando as muitas dificuldades criadas pelo ambiente instável que se vivia.
(...)
Às gerações mais novas, é importante transmitir o testemunho de quem enfrentou a adversidade ombro a ombro com aqueles a quem confiava a vida e por quem a daria também; o testemunho de quem conhece a relevância de valores como a solidariedade, o profissionalismo, o mérito e a honra, a família e o País.
País que será mais bem defendido se contar com a mais-valia da vossa experiência e da vossa participação activa, como exemplo e fonte de motivação para os mais jovens que, tendo crescido num ambiente de maior conforto e de paz, enfrentam o futuro num Mundo incerto, onde as crises e o conflito não deixam de ser uma constante.
Combatentes,
A vossa geração criou, também, as condições para que Portugal seja um País democrático, mais livre, mais solidário e mais aberto ao Mundo. Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.
Como Portugueses, não haverá causa maior do que dedicarmos o nosso esforço e a nossa iniciativa ao serviço da Nação e dos combates que é necessário continuar a vencer, para promover um futuro mais justo, mais seguro e mais próspero para todos. Juntos, continuaremos a afirmar Portugal.
(...)
Viva Portugal.»
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Discurso do Presidente da República, ontem, 15 de março, curiosamente no Forte do Bom Sucesso, na cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º Aniversário do início da Guerra em África.
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[1295.] Mercurii dies

Avaliando o Carnaval da Bairrada de 2011

O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada de 2011 poderá ter sido o melhor de que há memória no sambódromo Luís Marques, na zona desportiva da Mealhada. Felizmente, já no ano passado tivemos a mesma afirmação, o que revela que o progresso qualitativo no maior evento cultural do concelho da Mealhada está em crescendo. As ameaças de mau tempo, de algum frio – especialmente na terça-feira – poderão, em parte, justificar a fraca participação de público, a que acrescentamos um patente desinvestimento na promoção externa do evento, por parte da organização.
De qualquer forma, a verdade é que as escolas se apresentaram melhor e de forma relativamente homogénea – como se viu nos resultados do Concurso de Escolas de Samba do Jornal da Mealhada –, na qualidade das fantasias, na exuberância da apresentação dos enredos, no cuidado com coreografias e musicalidade.
O Carnaval na Mealhada está cada vez melhor, é certo, e afirma-se como a referência nacional relativamente à vertente brasileira do carnaval português. Num tempo de crise financeira, em que aos promotores de marcas fortes se exige que primem pela diferenciação, através de uma especialização de alta qualidade, o Carnaval Luso-brasileiro da Bairrada é, de facto, o mais brasileiro de Portugal.
Tal como temos feito em anos anteriores, investimo-nos do direito de chamar a nós, também, de emitir a nossa opinião sobre a organização do cortejo.
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O percurso do sambódromo
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O percurso do desfile no sambódromo continua a ser um factor negativo no carnaval mealhadense. No final do Carnaval de 2009, apelámos à necessidade de serem tomadas medidas no sentido de ser alterado o percurso – eventualmente mudada a localização, e os dirigentes da Associação do Carnaval da Bairrada foram sensíveis ao apelo e à necessidade, e o percurso em 2010 teve um novo local de dispersão, o que se revelou como um aspecto positivo.
Em 2011 manteve-se o percurso, mas o esforço de melhoria deve continuar a ser implementado. Seria interessante que os organizadores do desfile e as escolas de samba ponderassem a possibilidade de encurtar o percurso, de o limitar a uma das retas do complexo – com notórias melhorias ao nível da propagação do som – e experimentassem fazer um “recuo da bateria”. Este sistema – possível no sambódromo mealhadense –, usado no Rio de Janeiro, permite que a bateria, a componente musical da escola, que lhe dá mais alegria, possa apresentar-se no primeiro quarto da escola, estacione numa reentrância do percurso, faça passar à sua frente toda a escola e se reintegre no cortejo à frente da alegoria.
Fica o contributo.
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O som e o atraso
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Em 2011, voltaram a não ser significativos os problemas com o som e com o atraso no início do desfile. Já havíamos verificado esta situação em 2009 e em 2010, e registámo-lo também este ano. Fazemos referência a este aspecto porque entendemos que, no que respeita à hora de início dos cortejos, se tratou, durante muitos e muitos anos, de um defeito crónico do Carnaval na Mealhada.
No domingo, no entanto, voltou a registar-se um longo tempo de intervalo entre a quarta e a quinta escola a desfilar, especialmente, na parte final do percurso. O problema poderá ter resultado da aliança de questões técnicas com a evolução da própria escola. A forma como cada escola se apresenta no desfile, e progride na avenida é uma questão técnica e é uma componente do espetáculo. Mas a espera não beneficia a apreciação do espetador, pelo que acreditamos que uma mudança nas características do próprio percurso – com a limitação a uma reta – beneficiaria, também, esta componente.
De qualquer forma, e sublinhamos, reconheça-se a capacidade de eliminar – esperamos que de vez – o problema do atraso no inicio do cortejo.
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Revista Abre-alas
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Enriqueceu, de sobremaneira, o espectáculo apresentado pelas escolas de samba – assim o garante o público espetador – o facto de existir um roteiro, um libretto, se se preferir, com a explicação do enredo e com uma breve apresentação do significado de cada uma das alas, destaques e diferentes figurantes de cada uma das escolas que desfilou. Essa publicação foi editada pelo Jornal da Mealhada, com o Alto Patrocínio da Associação de Carnaval da Bairrada e com a ajuda preciosa de todas as escolas de samba. O espectador teve uma melhor percepção do que estava a ver, valorizou o trabalho das escolas, e criou-se uma publicação que servirá de acervo histórico para a posteridade.
A revista Abre-alas é mais uma publicação da JM – Jornal da Mealhada, Lda, que procuraremos ir melhorando e desenvolvendo nas próximas edições do carnaval.
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A avaliação das escolas de samba
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A avaliação feita pelo Jornal da Mealhada continua como um dado adquirido. E ainda bem – assim pensamos. Uma vez mais, todas as escolas colaboraram, com a entrega de todas as informações relativas ao que iam apresentar no sambódromo, mas, também, com contributos relativos à própria organização da avaliação. Colaborações que se revelaram, uma vez mais, muito positivas. Em 2011 os resultados globais das escolas foram muito superiores aos de 2010, já assim tinha sido no ano passado. Fica demonstrada a preocupação das escolas em melhorar e em procurar superar deficiências. Essa é a grande vitória da avaliação.
As justificações dos jurados estão publicadas no sítio oficial da Internet do Jornal da Mealhada – uma inovação de 2011 –, em nome do esforço de melhoria coletiva do espetáculo e do concurso.
Ao nível da organização do concurso registaram-se dificuldades este ano, imponderáveis, que com a compreensão de todos, com a colaboração de todos e com os sacrifícios de alguns foram ultrapassados. A JM – Jornal da Mealhada, Lda agradece, de forma penhorada, a disponibilidade e colaboração muito empenhada de Ana Filipa Pereira, de Nuno Semedo, que, com Carla Carvalheira, compuseram a Comissão Técnica do Concurso.
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O Carnaval e as crianças
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No final do Carnaval de 2009, lembrámos que nesse mesmo ano se havia completado trinta anos desde o primeiro Carnaval da Criança, festa infantil que, durante duas décadas se realizou no Domingo Magro. Na altura interpelámos a Associação do Carnaval da Bairrada e, até, a Câmara Municipal da Mealhada – entidade que de ano para ano ganhou preponderância em termos de politica educativa – sobre o assunto. Não obtivemos respostas.
O Carnaval da Criança acabou porque, de certa forma, a organização de um desfile infantil escolar implica um trabalho suplementar da parte de professores, que sobrecarregava os docentes de sobremaneira. A verdade é que nos últimos anos – especialmente na Mealhada e em Luso – os desfiles infantis de Carnaval estão a reaparecer, o que revela que está a ser recuperada a dimensão e a oportunidade pedagógica que o Carnaval pode proporcionar às crianças. Ora se os desfiles estão a regressar, porque não voltar a organizar um desfile grande – com dimensão e notoriedade – ao nível concelhio? Deixámos este desafio em 2009, em 2010, e atrevemo-nos a repeti-lo agora, uma vez que consideramos que estão mais que reunidas as condições para fazer renascer o Carnaval Infantil da Bairrada.
“Trata-se, afinal, do futuro”, repetimos.
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O Carnaval e o orçamento
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O Carnaval na Mealhada é o maior evento cultural do município. Dizemo-lo sem pudor. É um disparate pensar que se trata de um fenómeno exclusivo das freguesias da Mealhada e de Casal Comba. Abarca energias de pessoas de todo o concelho e de freguesias limítrofes no concelho de Cantanhede. É um disparate afirmar que se trata de um evento que dura algumas horas durante dois dias num ano. O Carnaval é um espetáculo efémero, é certo, mas que envolve pessoas durante quase todo o ano.
O Carnaval é cultura, e requer um investimento considerável. Trata-se de um espetáculo efémero e dispendioso – há que reconhecê-lo sem complexos. O investimento em Cultura – assim como em Educação – é contabilisticamente complexo, especialmente quando estamos a falar de artes efémeras, mas nem por isso deixa de ser importante numa sociedade que se quer cada vez mais evoluída e desenvolvida.
O Carnaval Luso-brasileiro terá tido em 2011 – dados nunca facilmente acessíveis – um orçamento de 180 mil euros. A Câmara da Mealhada proporciona um apoio financeiro de 90 mil euros (menos dez por cento do que em 2010) e um apoio logístico muito considerável e – pelo menos para nós – dificilmente contabilizável. A entidade promotora – a Associação do Carnaval da Bairrada – terá ainda outras receitas, nomeadamente, de bilheteira, de exploração da tenda gigante e de patrocinadores.
Para muitos pode considerar-se um investimento supérfluo, e a opinião pública concelhia facilmente determinaria que seria uma despesa a abolir no orçamento municipal. Não integramos esse grupo. Ao contrário, pensamos que o orçamento do Carnaval da Bairrada deve ser aumentado com o incremento de receitas próprias, e que, gradualmente, fará sentido aumentar o investimento público (não só municipal).
A análise comparativa com outros carnavais portugueses – muitos deles de qualidade muito inferior ao da Mealhada – deve servir-nos de referência neste exercício.
Se é certo que carnavais como o de Estarreja, da Figueira da Foz e de Sines têm orçamentos próximos do da Mealhada – na maior parte com menos investimento municipal –, a verdade é que há cortejos em que o investimento é multiplicado por dois ou por três. Os carnavais de Torres Vedras e de Ovar, por exemplo, têm orçamentos na casa do meio milhão de euros – com a Câmara a pagar quase tudo. Os carnavais de Loulé e da Madeira custam 350 mil euros, e o da Nazaré 210 mil euros.
É certo que, na nossa óptica são gastos que consideramos exagerados, mas fará sentido pensar que sem investimento – nomeadamente na promoção do evento enquanto marca nacional da cultura e do turismo – dificilmente haverá retorno.
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Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de março de 2011
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terça-feira, 15 de março de 2011

[1294.] A Luta É Alegria!


Na linguagem leninista eu sou um reacionário.
Acredito que a Revolução não é a melhor agente da mudança e prefiro as Reformas implementadas pelas democracias constitucionais.
Mas gosto muito do folclore revolucionário. Agrada-me esteticamente. Pelo peso político, pelo peso histórico, pela dimensão utópica e fantasiosa. Tenho pena de, racionalmente, não conseguir aderir à Revolução, para além do gosto pelo folclore.
Mas subscrevo, completamente, a afirmação "A Luta É Alegria!", nome da música dos "Homens da Luta", que ganhou o Festival da Canção de 6 de março último, e que - assim espero - representará Portugal no Festival da Eurovisão da Canção, na Alemanha. Não votei porque não me apercebi do fenómeno, mas teria votado com gosto. Para além de uma ou outra frase "anti-reacionária", subscrevo, também, a letra da música.
Porque a Luta é, de facto, Alegria. Porque a Luta é fundamental. Porque é na Rua, a gritar, que os Povos avançam, . Porque é verdadeiramente transformadora a energia de uma manifestação, da união de esforços em prol de um interesse comum!
Porque é preciso lutar contra o desânimo, contra a desconfiança, contra o desespero, contra o "cinto apertado" e contra as lamurias e o "ar carregado" e "enraivecido".
Coloquei aqui no blogue - [1281.] - a canção dos Deolinda "Que Parva que eu sou", assim que dela tive conhecimento. Fui dos primeiros a fazê-lo. Escrevi um Editorial no Jornal da Mealhada e no FRONTAL sobre o assunto [1291.]. Parece-me ser uma musica mais inteligente e mais bem concebida do que a do Jel e do Falâncio. A dos Deolinda é mais fatalista, é mais faduncha, é mais resignada, a dos Homens da Luta é mais popular, é mais esperançosa, é mais alegre, é mais motivadora!
Ambas nos lembram, de que É a Hora de fazer alguma coisa pelo país, pela sociedade construída pelos nossos pais e avós, por nós próprios e pelo futuro!
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[1293.] Elogio ao Afonso Costa?

Num intervalo entre o almoço tardio e o curativo, televisionámos um programa na RTP2 sobre o sindicalismo na I República. Entre o paradoxo de ter sido o período histórico em que mais direitos foram dados aos trabalhadores e o facto de ter sido a altura em que os trabalhadores mais oprimidos foram - em que manif sem mortos não era a sério - ouvimos Fernando Rosas a garantir que Afonso Costa, o Principe da I República, era conhecido como "o racha-sindicalistas".

E demos por nós a pensar no assunto, num momento em que a GNR tem de proteger camionistas de serem apedrejados por colegas de profissão, em que o direito a não fazer greve é retribuído com uma pedra na testa. Em que se multiplicam piquetes não para fazer valer direitos ou pontos de vista, mas para combater - ferozmente - os "fura-greves".

E demos por nós a pensar no assunto, num dia em que os trabalhadores do Metropolitano de Lisboa decidiram fazer uma paragem a uma terça-feira entre as 6h30m e as 10 horas da manhã. Precisamente a hora em que cerca de dois milhões de portugueses precisam de transporte para ir de suas casas para o trabalho. Portugueses que chegaram atrasados ao emprego porque os senhores grevistas entenderam que era precisamente na hora de ponta que haviam de manifestar os seus direitos. Assim se mostra que o sindicalismo português acha que só prejudicando as pessoas, causando alarme social e rebuliço é que faz ouvir a sua voz, como se o Governo estivesse preocupado com isso!

Não entendemos este tipo de sindicalismo!
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sexta-feira, 11 de março de 2011

[1292.] de regresso

Depois de uma inusitada paragem de duas semanas, motivada por inesperadas questões de saúde e consequente período de convalescença, estamos de regresso.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

[1291.] Mercurii dies

“Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar”

A música está a causar sensação em blogues e em jornais nacionais. O grupo musical Deolinda – grupo de música popular portuguesa, inspirado pelo fado e pelas suas origens tradicionais – deu dois concertos nos coliseus e, no do Porto, apresentou o tema “Que Parva Que Eu Sou” – uma espécie de narrativa dos jovens portugueses, na casa dos vinte-trinta anos, “da geração sem remuneração”, “casinha dos pais” ou “nem-nem” (nem trabalha, nem estuda).
O grupo já havia apresentado, em álbuns anteriores, temas “de intervenção”, como “Movimento Perpétuo Associativo” – no primeiro albúm, que carateriza tão bem o cidadão português –, depois o “Fado Notário” – sobre a legalização do casamento gay – ou depois “Garçonete Da Casa De Fado” – sobre a emigração de brasileiros –, e depois 'A Problemática Colocação de Mastro' – sobre o mastro milionário de Paredes para comemorar o centenário da República.
“Que Parva que Eu Sou” está a promover debate pela avaliação feita pelo autor da letra de uma geração de portugueses que se mostra muito frustrada. Uns estão a usar a música para criticar o Governo Sócrates, outros procuram ir mais longe.
Na verdade, e temos de reconhecer isso mesmo, estas pessoas que hoje têm entre 25 e 35 anos, são as que estavam na escola no início da década de 90 do século passado, quando se implementaram as reformas da Educação do Governo Cavaco.
Esta geração de que fala a Deolinda é a primeira geração europeia – do Erasmus, da cidadania europeia e global. Esta geração é a filha da dos que implementaram a democracia em Portugal, da dos que terminaram com a Guerra Colonial. Interessará avaliar porque razão esta geração se mostra tão deprimida, tão tristonha? Interessará avaliar porque razão os mais brilhantes desta geração sentem necessidade de sair do seu país e da sua comunidade, para irem trabalhar para o estrangeiro, ou para Lisboa?

Editorial de 23 de fevereiro de 2011 do Jornal da Mealhada


[1281.] Hymno

Melhor versão no Youtube

Terei que voltar ao tema, quanto mais não seja por causa DISTO

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

[1290.] Mercurii dies

Mensagem no Dia de B.-P. aos participantes no II ACASECNUC


Caríssimos irmãos em Cristo,

Assinalamos hoje o Dia de B.-P., altura em que procuramos homenagear o fundador do movimento escutista no dia do seu nascimento. Desde 1926 que este é, também, para os escuteiros e guias de todo o mundo, o Dia do Pensamento.
E o Dia do Pensamento deve ser encarado como uma oportunidade, estabelecida no nosso calendário, para pensarmos na nossa acção como escuteiros, no que são os nossos deveres e obrigações, no que são os nossos sonhos e desafios, “onde estamos” e “para onde queremos ir” como pessoas, como membros da comunidade, como membros de uma fraternidade universal. Ao fazermos essa reflexão estaremos a homenagear os irmãos escuteiros do nosso agrupamento, os chefes que nos ajudaram ao longo de todo o nosso percurso e, sempre, estaremos a homenagear o génio de B.-P., a dedicação de Olave Baden-Powell, dos fundadores das nossas associações escutistas e todos os que deram o seu contributo para que o movimento que nasceu em Brownsea seja hoje o maior movimento de pessoas do mundo – congregando 28 milhões seres humanos.
O génio de B.-P. é, de facto, algo extraordinário. A capacidade que teve para prever que o método baseado numa fraternidade de ar livre e de serviço seria capaz de transformar a vida de tantas pessoas é algo que poucos imaginaríamos possível. B.-P. teve uma capacidade de ver o amanhã, de conhecer a realidade do seu tempo para a poder transformar no futuro, que é admirável. B.-P. conseguiu fitar além do óbvio, ir além do seguro, no fundo, ver “Para além da Linha do Horizonte”.

“Para além da Linha do Horizonte” é o mote do nosso último ano do triénio que começou em Junho de 2008. É o tema geral desta última actividade deste mandato, o ACASECNUC. Ao longo deste triénio procurámos apresentar ao Núcleo uma linha de coerência – nos gestos e na acção pedagógica –, uma proposta de continuidade, um projecto com princípio, meio e fim. E chegámos ao fim. A avaliação será feita depois, mas a verdade é que encontramos aqui, nestes dias – com a comemoração do Dia de B.-P. – o sinal do fim da pista, do regresso a casa.

Um tema não pode ser, apenas, um enredo para ilustrar uma brincadeira. Um tema de uma actividade de escuteiros tem de servir para muito mais do que para a escolha de umas máscaras, ou para as peças à volta do fogo-de-conselho. O tema tem de ser um desafio, uma oportunidade de crescimento, a proposta para mais uma superação pessoal e colectiva. É isso que pretendemos fazer ao longo destes três anos e é isso que procuramos fazer no nosso II ACASECNUC.
O tema geral é “Para além da Linha do Horizonte”, e os imaginários de cada uma das quatro secções têm como ponto-comum: “o Futuro”. O Futuro como o que garantidamente está para além daquilo que somos capazes de ver – a linha do horizonte. Porque o que vemos é fácil de entrar nas nossas vidas, diferente é o que sabemos que pode vir a acontecer, mas que é sempre uma hipótese até acontecer de facto, ou não.

E a vivência deste ACASECNUC obrigar-nos-á a pensar no futuro. Naquilo que poderão vir a ser as nossas limitações enquanto seres humanos num planeta que Deus nos “arrendou” por tempo determinado. Um planeta cujos recursos se estão a esgotar, recursos como a água potável, os combustíveis, os alimentos. Um planeta que está a sofrer transformações de forma extremamente rápida – como o degelo, as condições e os fenómenos climatéricos extremos, a poluição do ar e da água. Dificuldades que hoje são, ainda, uma miragem, mas que um dia poderão ser reais. Nas nossas mãos está o exemplo de B.-P., há cem anos: Ter a capacidade de ver o amanhã, conhecendo a realidade do tempo para a poder transformar no futuro.

Peço-te – a ti, lobito, explorador, pioneiro e caminheiro, e ao dirigente de modo muito especial – que aceites este desafio que te lançamos, e aceites viver num futuro com características muito especiais. Um desafio que não é fácil, um desafio que requer paciência, caridade, sacrifícios e mudança de hábitos, mas um desafio cuja superação um dia poderá vir a ser muito importante.

Ser capaz de ver “Para Além da Linha do Horizonte” é o tal desafio.


Boa caça.

Quinta do Valongo, 22 de Fevereiro de 2011

Lobo Irmão
Secretário Pedagógico da JN Centro-Norte - Coimbra

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

[1289.] Mercurii dies

O ciclone de 15 de fevereiro de 1941

No passado domingo, 13 de fevereiro, passou um mês sobre as cheias que no Brasil assolaram a região serrana do Rio de Janeiro, mataram 800 pessoas, fizeram desaparecer centenas e desalojaram mais de um milhão de indivíduos, deixando um rasto de destruição épica. Sensivelmente na mesma altura, mas na Austrália, situação semelhante matou 30 pessoas, destruiu 14 mil casas e permitiu que crocodilos e tubarões se pudessem fazer passear pelas inundadas ruas de grandes centros urbanos. Sem a mesma cobertura mediática em Portugal, registaram-se no mesmo mês de janeiro de 2011, vítimas de fenómenos climatéricos, 32 mortos no Sri Lanka e 40 na África do Sul.
Há dois meses, em dezembro de 2010, 42 pessoas dos concelhos de Tomar, Ferreira do Zêzere e Sertã ficaram feridas depois da passagem e da destruição de um tornado. O fenómeno provocou prejuízos avaliados em 18 milhões de euros – mais de metade dos quais no concelho nabantino.
No próximo domingo, 20 de fevereiro, passa um ano sobre a terrível intempérie que assolou o arquipélago da Madeira, que ceifou a vida a 42 pessoas, feriu 250 e deixou mais de 600 habitantes desalojados. Um prejuízo avaliado em 217 milhões de euros, do qual os madeirenses procuraram sair imediatamente.
No sábado, 12 de fevereiro, passaram treze meses sobre o episódio que ficará conhecido como a tragédia do Haiti, um terramoto que matou 200 mil pessoas. O tsunami, no Índico, que matou mais de 230 mil pessoas foi há seis anos.
Há medida que o tempo vai passando, e que são conhecidas novas catástrofes, o fio dos dias quebra-se e esquecemos tragédias antigas, sem termos aprendido grande coisa com o passado. Porque no passado aconteceram, sempre, coisas semelhantes.
No dia 15 de fevereiro de 1941 – ontem, terça-feira, completaram-se 70 anos sobre o dia fatídico –, sábado Magro (uma semana antes do Carnaval, bem-entendido), passou pelo território português (na Europa, entenda-se) um ciclone que ceifou a vida, em toda a metrópole, a 200 pessoas. O fenómeno, que a história registaria como ‘O Ciclone’, terá provocado os piores efeitos num período compreendido em uma hora – entre o meio-dia e a uma da tarde. Rajadas de vento com 200 km/hora, resultantes de uma baixíssima pressão atmosférica (952,1 milibares, quando o normal seriam 1013 milibares) deixaram um rasto de destruição assinalável.
Percorrendo as notícias de um território virado do avesso, são curiosas algumas das informações relatadas por quem garantia “nunca ter visto nada assim”. De norte a sul apontamentos registam invulgaridades, como a estátua do Infante D.Henrique, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, que caiu ao Tejo e se perdeu, por acaso já depois da Exposição do Mundo Português. No mesmo rio, ao largo da capital do império, afundaram-se mais de cem fragatas típicas. Ao fundo foram, também, mas em Leixões, dois barcos a vapor, um de nacionalidade brasileira e outro grego.
No norte, há igrejas destruídas em Amarante, em Chaves, em Meda. O Mercado de Vila Real caiu, como ruíram as paredes de um templo romano, do século II, em Figueira de Castelo Rodrigo, o cineteatro de Arganil, parte da ‘Casa de Camões’, em Constância, ou o complexo de novos diques da Companhia das Lezírias.
Em Alhandra, a passagem devastadora do ciclone fez desaparecer parte da vila e dos seus mouchões, havendo largas dezenas de vítimas mortais e feridos graves. Soeiro Pereira Gomes, o escritor que editará em Novembro o livro “Esteiros”, com ilustrações de Álvaro Cunhal, tripulando uma frágil barca do Tejo, com mais três trabalhadores, foi um dos que se empenharam intensamente nas operações de salvamento conseguindo salvar, do Mouchão de Alhandra, mais de vinte trabalhadores.
E o registo da catástrofe espalha-se por toda o espaço metropolitano.
O Governo do Estado Novo, cinco dias depois, abriu uma linha de crédito – com vinte mil contos – para reparação de estragos e prejuízos, garantindo uma “intensificação de obras públicas para atenuação da crise de trabalho”. Oliveira Salazar mandou proibir os festejos de Carnaval, que “A hora é de trabalhar e não de festejar”. Exceção para o Carnaval de Loulé, porque era feito pelos Bombeiros para fins humanitários.
No concelho da Mealhada, chegam-nos registos testemunhais de um dia difícil de esquecer e de estragos vários. No Bussaco, assinala-se a queda de 5400 árvores de grande porte, uma verdadeira catástrofe, que poderá ter antecipado a construção de um viveiro florestal do Estado na Mealhada para reflorestar as Matas Nacionais portuguesas.
Em Sernadelo caiu a sobreira que o benemérito Augusto Cerveira de Melo doou, cujo rendimento destinara que fosse usado na compra de livros para os alunos pobres que frequentavam a escola que estava em frente, mandada construir por si, pelo seu irmão e tio há precisamente um século.
Porque a memória é coisa importante, lançamos o desafio a quem guarde lembranças ou testemunhos desse dia, que faça chegar essa informação ao Jornal da Mealhada – através de contacto pessoal, telefónico ou por e-mail – para compilação e registo dessa memória que é, acima de tudo, coletiva.
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Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de fevereiro de 2011
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

[1288.]






A Interioridade é uma atitude!

[1287.] Mercurii dies

Leitão maravilha, ou a grande oportunidade?



Foi apresentada na segunda-feira, 7 de fevereiro, mais uma iniciativa da empresa “7 Maravilhas” – damos conta do assunto na página 7 da presente edição. Depois das escolhas do património histórico e do património natural chegou a vez, agora, de os portugueses escolherem as 7 Maravilhas Gastronómicas de Portugal.
Independentemente do facto de podermos já estar cansados de tanta escolha – tem sido ao ritmo de um concurso por ano – não deixa de ser mais uma oportunidade que se abre para quem, como nós, defende a promoção e a defesa intransigente do património da nossa região. Uma região com um património gastronómico que justifica o epíteto de ‘Sala de Jantar da Europa’.
O concelho da Mealhada é o território das ‘4 Maravilhas’ – Pão, Vinho, Água e Leitão – parece-nos que a candidatura às ‘7 Maravilhas Gastronómicas’ de Portugal, mais do que uma obrigação – da Câmara Municipal ou da Associação das 4 Maravilhas – será uma inevitabilidade. No entanto, pode revelar-se, também, um problema… ou uma oportunidade.
A forma como o concurso está organizado – e há no concelho quem tenha a experiência de ter coordenado a candidatura do Bussaco nas Maravilhas Naturais – faz com que não seja viável a candidatura, una ou conjunta, das nossas ‘4 Maravilhas’. Ou seja, da ‘Mesa da Mealhada’ vamos ter de escolher apenas uma Maravilha. Não nos parece que possamos deixar de escolher o Leitão.


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Conhecendo a região como se conhece, não temos, também, dúvidas de que, não havendo uma entidade – administrativa, associativa, pública ou privada – Bairrada, a Mealhada não será o único concelho a procurar candidatar o Leitão assado (da Bairrada, ou da Mealhada) a maravilha gastronómica. E é aqui que surge o problema ou – como otimistas que procuramos ser – a oportunidade.
Diga-se o que se disser, o nome da Mealhada está intimamente ligado ao produto Leitão. Em termos de notoriedade, o produto ganha em ter o nome da Mealhada associado ao seu nome. Trata-se de um facto, custe a quem custar. No entanto, sabemos que há um conjunto vasto de iniciativas e de grupos que – desvalorizando este facto, e muitas vezes sem qualquer tentativa de ligação ao nosso concelho – têm procurado deslocalizar o centro nevrálgico da notoriedade do produto para outras proveniências.
Resulta, então, que há necessidade de ‘enterrar o machado de guerra’, e procurar criar uma plataforma regional – com as câmaras municipais, as confrarias gastronómicas e, acima de tudo com os produtores de leitão e empresários da restauração – que permita a candidatura do Leitão assado como ‘Maravilha Gastronómica’ capaz de, na categoria Carne, e na região centro, assumir a sua preponderância natural.
Este esforço de concertação – que é, acima de tudo politico – deve procurar ser célere e eficaz. Será admitida a primeira candidatura que chegar a Lisboa, sendo certo que uma candidatura do Leitão da Bairrada feita sem o apoio da Câmara da Mealhada e dos 58 restaurantes do município estará morta à partida, do mesmo modo que candidaturas de Leitão à Bairrada e de Leitão da Mealhada se anularão mutuamente.
Esta pode ser a grande oportunidade para acabar com uma guerra que não sendo antiga tem se feito sentir.
“A importância deste concurso está muito mais na campanha, no burburinho e na divulgação que permite às candidaturas, do que no valor intrínseco da distinção no futuro. Também neste caso – e esta é apenas a nossa opinião – o caminho é mais importante do que o acto de chegar ou de ser o primeiro”. Dissemo-lo a propósito da candidatura do Bussaco a Maravilha Natural, repetimo-lo agora para as Maravilhas Gastronómicas.


Editorial do Jornal da Mealhada de 9 de fevereiro de 2011


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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

[1286.] Portugal tem novo CEMGFA

Portugal tem, desde ontem, um novo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA). Trata-se do General Luís Araújo, que desempenhava, até agora, as funções de Chefe do Estado-Maior da Força Aérea. O novo CEMGFA foi empossado ontem, no Palácio de Belém, pelo Presidente da República (PR).

Em qualquer país civilizado e democrático, a escolha do CEMGFA e a sua posse são assunto de Estado, da maior importância e relevância política. A Defesa Nacional é uma das responsabilidades soberanas do Estado - das que são absolutamente exclusivas - e não é indiferente quem - como referiu o PR - ocupa "o mais elevado cargo da hierarquia militar, sendo-lhe conferidas as mais altas responsabilidades a nível do comando operacional das forças e do aconselhamento militar aos órgãos de soberania com competência na área da Defesa Nacional".

Em Portugal, o assunto foi tratado como se de mais uma cerimónia da Brigada do Reumático se tratasse, tendo interessado, para os jornalistas, o facto de o PR - que já está sair das cascas com a magistratura ativa - ter defendido os interesses da 'família militar' na área da saúde contra a estratégia economicista do Governo: "Não será de todo compreensível que outros interesses, que não os da instituição (militar), se sobreponham à operacionalidade e à qualidade do serviço prestado aos elementos das Forças Armadas e à família militar".

Brigada do Reumático?

O facto de a nomeação do CEMGFA não ter qualquer relevância politica em Portugal dever-se-á, apenas, aos jornalistas? Não. Definitivamente não. Este é, apenas, mais um sintoma do completo alheamento, ou distanciamento, que existe entre os portugueses e a instituição militar. Um distanciamento que é ainda maior do que o que existe entre os portugueses e a classe polítcia.

A instituição militar portuguesa não tem qualquer relevância política em Portugal e isso é, não só grave, como dramático. Porque as Forças Armadas são, nas democracias, uma reserva fundamental da Nação, porque têm um papel muito importante na segurança e na independência nacionais, e, nas nações polidas e civilizadas, têm um papel relevantissimo no funcionamento do Estado.

Em Portugal a cúpula da instituição militar (de um modo geral) é burguesa, acomodada e completamente dependente do Governo. Logo, não é independente. Não sendo independente, não cumpre a sua obrigação moral, legal, histórica e patriótica.

Lembro-me, a este propósito, das comemorações do bicentenário da Batalha do Bussaco.
Na minha opinião, AQUI expressa, Cavaco Silva "exortou o exército a manifestar-se", na véspera de receber os líderes partidários no que se antevia como podendo vir a ser uma grave crise política com a putativa demissão do Governo se não houvesse acordo para a aprovação do Orçamento de Estado. Na mesma ocasião, e nos antípodas da 'exortação' presidencial, o General Pinto Ramalho - CEM do Exército na altura - dedicou o seu discurso no bicentenário a agradecer ao Governo por ter alcatroado o terreiro onde está instalado o obelisco... Assim se vê a força das Forças Armadas.

O General Luís Araújo foi escolhido pelo PR - com a participação ativa do Governo - não por ser um extraordinário militar (que não duvido que seja), não por merecer a confiança pessoal e política do Chefe de Estado (que é o Comandante Supremo das Forças Armadas), mas, apenas, porque era, no momento, o Chefe do Estado Maior da Força Aérea e cabia a vez a este ramo das Forças Armadas de nomear o CEMGFA - cumprindo uma tradição que persiste desde... tempos tão longínquos como... 1984.
De Março de 1984 a Março de 1989 o CEMGFA foi o General Piloto Aviador Lemos Ferreira - Força Aérea -, de 1989 a 1994 foi o o General Soares Carneiro - Exército -, de 1994 a 1998 foi o Almirante Fuzeta da Ponte - Marinha - , de 1998 a 2000 foi o General Espírito Santo - Exército -, de 2000 a 2002 foi o General Alvarenga Sousa Santos - da Força Aérea -, de 2002 a 2006 foi o Almirante Mendes Cabeçadas - Marinha -, de 2006 a 2011 foi o General Valença Pinto - Exército -, e agora o General Luís Araújo da Força Aérea. Já se sabe que o próximo será quem, daqui a 2 anos, no momento seja o CEM do Exercito, e depois o da Marinha, novamente o do Exército, e depois novamente o da Força Aérea e por aí adiante!

Quando nem nas Forças Armadas o mérito é fator de decisão, então onde é que - em toda a sociedade portuguesa - poderá vir a ser?

Muito provavelmente será o General Pinto Ramalho a suceder ao General Luís Araújo, agora empossado
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O CEMGFA exerce comando completo das Forças Armadas em estado de guerra e o seu comando operacional em tempo de paz.
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O Discurso de Tomada de Posse do CEMGFA pode ser lido AQUI.
Aconselho!
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"As Forças Armadas de Portugal, disciplinadas, treinadas, prontas e discretas, são um dos principais instrumentos do espaço de soberania que nos define como Nação, constituindo um iniludível indicador de Democracia consolidada, de desenvolvimento do País, e no ambiente estratégico prevalecente e previsível, um vector crucial para a projeção internacional de Portugal".
Foi com estas palavras que o CEMGFA começou a sua intervenção na tomada de posse. Esperamos que consiga fazer um bom serviço à Pátria.
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[1285.] Memórias de Dias Felizes

14 de Julho de 1994
Andava aqui nos arquivos do Jornal da Mealhada à procura de uma fotografia do Padre Abílio Simões quando encontrei este magnifico exemplar. Uma fotografia com o corpo redatorial do Jornal da Mealhada em 14.07.1994.
Na parte de trás da foto, pela mão do professor Manuel Santos, está escrita a seguinte legenda:
"Jantar de confraternização e trabalho da direcção e redacção do Jornal da Mealhada no Restaurante Boa Viagem. Da esquerda para a direita: Manuel Santos, Duarte Simões, Armindo Pega, Branquinho de Carvalho, Matos de Oliveira e Augusto Dias"
Faltarão duas ou três pessoas para se poder dizer que está aqui o retrato dos principais fundadores e motores do Jornal da Mealhada.
Eis a memória de um dia feliz!

[1284.] A Máscara Atrás do Verdadeiro Rosto

Lowa East Side People: Canon 5D mark II from Mike Kobal on Vimeo.


"Não é fácil distinguir um rosto de uma máscara. Dependendo de vários factores, a máscara pode mostrar-se com tamanho realismo que se converte em rosto. E pode ser assustador. Assustador, porque confunde. Enquanto a máscara se apresenta como ameaçadora, o rosto apresenta-se indefeso. E talvez seja esta a fragilidade e naturalidade que possibilite a descoberta da beleza. A máscara utiliza-se não para que não nos vejam, mas porque eu não sou capaz de ver o rosto do outro."

Nuno Branco em www.essejota.net

Uma reflexão interessante... uma semana depois de ter visto a ultima adaptação cinematográfica da grande obra de Oscar Wilde - O Retrato de Dorian Gray. Afinal, o que é que é máscara, o que é que é rosto?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

[1283.] 4 anos



Abílio Duarte Simões
19.VII.1945 - 07.II.2007

Quatro anos de falta!


















Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

[1282.] No Penacova Actual

Pedro Viseu - diligente e activo blogger penacovense, também ele um pioneiro no desenvolvimento da blogosfera regional como meio privilegiado de informação -, administrador do PENACOVA ACTUAL, convidou-me a escrever opinião no seu blogue.

E eu, lisonjeado, aceitei!
Vamos lá ver se estarei à altura!



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

[1281.] Hymno

Os DEOLINDA deram espetáculos nos Coliseus. No Coliseu no Porto, a 22 de janeiro, alguém se lembrou de gravar a música que o grupo normalmente apresenta como 'bonus track'! "Que Parva Que Eu Sou".
Os DEOLINDA, toda a gente sabe, são um grupo extraordinário - uma força da natureza -, de uma portugalidade que faz emocionar qualquer lusitano! Depois de 'Movimento Perpétuo Associativo' - no primeiro albúm, que carateriza tão bem o cidadão português -, depois do 'Fado Notário' - sobre o casamento gay -, depois 'Garçonete Da Casa De Fado' - sobre a emigração de brasileiros -, e depois do 'A Problemática Colocação de Mastro' - sobre o mastro milionário de Paredes para comemorar o centenário da República - chegou agora este tema que bem pode passar a ser um hino a uma geração de portugueses dos 25 aos 35 anos, onde me incluo!
Uma música extraordinária, pela sagacidade de portugueses especiais!
O som é clandestino... será melhor acompanhar com a leitura da letra (em baixo).



Que parva que eu sou

Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração “casinha dos pais”
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração “vou queixar-me pra quê?”
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração “eu já não posso mais!”
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
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[1280.] A Flor do Jasmim

Foto: Guillaume Binet/MYOP/LUZphoto
Cairo, Egito




[Vivemos a História e nem nos apercebemos. Saberão, mais tarde, mais os que nos seguirão do que nós, que vivemos o dia dos acontecimentos, numa sociedade mediatizada.
Se um dia me perguntarem onde é que eu estava quando se deu 'a guinada democrática' no Norte de África, eu não saberei responder. E é pena!]

A Revolução de Jasmim começou na Tunisia, a 18 de dezembro, e nem me apercebi... Ben Ali caiu, e o Mundo Arabe viu na vitória de Tunes, no cheiro da Flor do Jasmim, uma oportunidade. Uma oportunidade a caminho da Democracia pura, da Democracia do povo.

Há quem diga que a Democracia é um conceito estritamente ocidental e que sistemas políticos democráticos em regiões como o Médio Oriente, o Mundo Árabe - ou islamita -, ou Africa, por exemplo, não resultam nem são nem natural, nem sociológicamente viáveis.
Será assim?
Há no Mundo Árabes regimes religiosos, há regimes nacionalistas, há regimes anti-semitas, há regimes democráticos, há regimes terroristas... há de tudo, naturalmente.
O que provavelmente não há, passou a haver agora: A Esperança de que os regimes não são eternos, nem os seus lideres se podem eternizar. No Irão, já havia sido 'cheirada' essa esperança, mas nunca com resultados palpáveis...
Em Tunes reabriu-se uma esperança... que até pode ser passageira, que até pode 'murchar' daqui a poucos dias, mas nunca a globalização tinha entrado de modo tão evidente, tão radical, tão intenso como no tempo que agora vivemos.
Os tunisinos mandaram embora Ben Ali, e manifestaram-se nas ruas enquanto todos os anteriores ministros do ditador não sairam do Governo provisório...
Os apoiantes de Mubarak, no Egito, atacam, neste preciso momento, no nono dia de manifestações e depois do árabe-amigo-dos-americanos ter subsitituído o Governo, os manifestantes da Praça de Tahrir a cavalo em equídeos e em camelos, com chicotes e paus. Os manifestantes - que chamam à praça a da Libertação -, protegem-se, com a convicção de que a debandada da praça é a derrota da esperança.
Obama já tirou o tapete a Mubarak, mas não pode apoiar publicamente El Baradei, porque os americanos (e especialmente a maioria republicana no Congresso) 'não pagam a traidores' ... Os ministros europeus vão pressionar, 'ma non troppo', porque afinal somos vizinhos não podemos meter a colher!... Os egipcios vão ter mesmo de resolver o problema sozinhos.
Na Jordânia - que apesar de ser uma monarquia tem um regime que se pode chamar de democrático - o Rei Abdullah II demitiu o Governo e nomeou, ontem, Marouf al-Bakhit para o cargo de primeiro-ministro da Jordânia, "numa cedência aos protestos populares inspirados na rebelião no Egito", e que começaram a 14 de janeiro. A oposição islamita exige o seu afastamento por considerar "não ser a pessoa certa para as funções"... vamos ver o que diz o povo da Rua.
A Argélia foi o primeiro país a ter manifestantes na rua depois da Tunisia. O clima de tensão mantém-se. O mesmo se passa no Líbano, no Yémen, na Síria e na Palestina.
Na Líbia, na Mauritânia, em Omã e na Arábia Saudita os protestos nunca ganharam grande volume, e já terão sido dirimidos.
O cheiro da flor do Jasmim está a espalhar-se no Norte de Africa.
Aguardemos para ver até onde chega o seu perfume.

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[1279.] Saturni dies, à quarta-feira

When Earth's Last Picture Is Painted

When Earth's last picture is painted
And the tubes are twisted and dried
When the oldest colors have faded
And the youngest critic has died
We shall rest, and faith, we shall need it
Lie down for an aeon or two
'Till the Master of all good workmen
Shall put us to work anew
And those that were good shall be happy
They'll sit in a golden chair
They'll splash at a ten league canvas
With brushes of comet's hair
They'll find real saints to draw from
Magdalene, Peter, and Paul
They'll work for an age at a sitting
And never be tired at all.
And only the Master shall praise us.
And only the Master shall blame.
And no one will work for the money.
No one will work for the fame.
But each for the joy of the working,
And each, in his separate star,
Will draw the thing as he sees it.
For the God of things as they are!

Rudyard Kipling