domingo, 3 de abril de 2011

[1322.] Solis dies

"Porque muitos são os chamados, poucos são os escolhidos!" (Mt 22,14)

Fomos esta tarde ao cinema - com os amigos do costume -, ver o filme "O Ritual" - «The Rite» - do realizador Mikael Håfström, com Sir Anthony Hopkins, como o padre jesuíta e exorcista Lucas, e Colin O'Donoghue, como protagonista, no papel do seminarista americano aparentemente céptico. A brasileira Alice Braga constitui, ainda, o elenco de um filme muito interessante.



É um filme muito interessante, repito, sobre um tema igualmente interessante. A narrativa é feita de uma forma agradável e faz do filme não um thriller de terror, mas uma obra de convite ao pensamento. Não de convite à conversão - nem a favor, nem contra, a Igreja Católica ou a prática exorcista -, mas de convite ao pensamento.

No filme, é notório o dilema da Igreja que pensa, no debate entre a Ciência e a Fé. E a dialética do Bem e do Mal. É um filme muito bom, que merece uma segunda vista!



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sábado, 2 de abril de 2011

[1321.] Serenidade_2

Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma da outra – vivendo um dia de cada vez, desfrutando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a paz, considerando o mundo pecador como ele é, e não como gostaria que ele fosse, confiando em Deus para endireitar todas as coisas para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e sumamente feliz contigo na eternidade. Amém.

ORAÇÃO DA SERENIDADE

Reinhold Niebuhr, em 1943.

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Dia esquisito. Apesar de não haver fortes razões para melancolias, reconheçamos, o sol não amanheceu para estes lados.

A pressa, o trabalho em várias e distintas frentes... um estranho sentimento de solidão, arrefeceu um dia diferente dos meus dias de optimismo!

Entre a melancolia da serra que se sobe e desce para distribuir o FRONTAL, a tristeza de um encontro de antigos combatentes da Guerra Colonial que já não se recordam dos nomes dos que tombaram pela Pátria, e a apatia dos miudos que parecem abster-se de viver... Valeu a Promessa do Trindade, num dia em que mais um dos "irredutíveis" vestiu a camisola e impôs o lenço verde do Serviço!

Foi com muita alegria que foi ao Trindade que, pela primeira vez, aceitei uma promessa de dirigente do CNE.

A noite no meu Castelo, aqueceu o coração. E a certeza de que somos mais felizes ao lado dos que mais amamos - mesmo que durmam deliciosamente aqui ao lado sem dar conta de nada...
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[1320.] Serenidade_1




"Um Poema por Semana", da RTP2, é uma ideia de Paula Moura Pinheiro.
Numa mesma semana, o mesmo poema dito por seis pessoas diferentes.
São 15 poemas em 75 dias, ditos por 75 pessoas.

Poema "Portugal", de Alexandre O'Neill
Dito por Rui Spranger

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quinta-feira, 31 de março de 2011

[1319.] Lido 31.03.11 - 2.ª parte

A segunda referência de Martim Avillez de Figueiredo já não é desesperançosa. É demolidora. Trata-se de um texto publicado na sexta-feira, 25.03.2011, no Wall Street Journal, com o título "A Nation of Dropouts Shakes Europe".



Na citação de Matim Avillez de Figueiredo, o anterior diretor do jornal i traduz o título da notícia como "Um País de Burros...". Parece-me abusivo... a tradução mais próxima será "Um País de Desistentes Agita a Europa". Sejam burros ou desistentes, a verdade é que o autor do texto, Charles Forelle, considera Portugal como "uma terra de atrasados".

Num texto bem ilustrado com vários gráficos interativos, o autor fala de um país onde os alunos chumbam repetidamente a escolaridade básica, desistem de estudar, onde o sistema de educação é fraco. Ou seja, o americano Charles Forelle considera que o sistema de educação ilustra bem a economia portuguesa, que nunca poderá sair da recessão com gente tão mal preparada.

"Apenas 28% da população portuguesa entre os 25 e os 64 anos completou o Ensino Secundário. Na Alemanha completaram 85%, 91% na República Checa e 89% nos Estados Unidos da América", refere o autor. A taxa de desistência do ensino secundário é, em Portugal de 37,1%. A da Alemanha é de 2,8%. Nos países da OCDE só o México e a Turquia têm taxas mais elevadas, garante ainda, o autor.

Nunca me habituei a ouvir com especial atenção os americanos a falarem de escolaridade e de conhecimento. É verdade. Mas se os dados apresentados por Charles Forelle forem verdadeiros, então é de ir às lágrimas. Mesmo.
Não é um problema deste Governo, reconheça-se. É um problema deste país!

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[1318.] Lido 31.03.11

Hoje ao pequeno-almoço, Martim Avillez de Figueiredo, na Edição da Manhã, na SIC Notícias, dava conta de dois artigos publicados na imprensa internacional por estes dias que lhe suscitaram interesse. Não resisti a, assim que cheguei ao escritório, ir lê-los.

São, de facto, interessantes. Não só para termos a percepção do que no estrangeiro pensam de nós - num caso interessará no outro nem por isso -, mas também pelo testemunho que dão, especialmente o primeiro texto.






O primeiro texto é uma Carta da Irlanda a Portugal, publicada no domingo, 27.03.2011, no jornal irlandês Independent. Pode ser lida AQUI. O texto piada, e está escrito no tom de uma carta que um conhecido escreve a outro em tom de aviso ao estilo anglo-saxão do "I don't mean to intrude". Ainda pensei em publicar aqui uma tradução, mas a falta de tempo e o que se perderia levam-me a sugerir a leitura original.


A Irlanda - o Tigre Celta - passou por uma situação parecida com a nossa (com nuances significativas, é certo). Depois de ter sido um potentado económico na indústria tecnológica - que nós nunca fomos, apesar de já nos terem vendido essa ideia - também ficou sem Governo quando entrou o FMI. Em Dublin primeiro entrou o FMI depois caiu o Governo, aqui, parece que vai acontecer ao contrário. Mas este texto - com algum humor - acaba por ser uma espécie de voz aconselhada que nos fala.


É nos dito que se os nossos políticos nos dizem que o "bailout" só entrará "over their dead bodies", então é porque a coisa está próxima, e poderá chegar a um domingo. Nós referimo-nos à ajuda externa - do FMI e do Fundo Europeu de Estabilização - como Ajuda, em inglês ajuda é "aid" e esta ajuda especifica é "bailout". Ora diz-nos a carta que apesar de as palavras serem sinónimas, õs irlandeses perceberam que não querem dizer a mesma coisa, e estão a avisar-nos disso...


Os irlandeses têm um novo Governo e a carta fala-nos da euforia inicial que se criou com a eleição e a posse de um novo executivo. Mas, dizem eles, depois isso passa!


O texto não é nada esperançoso, diga-se. E contradiz ferozmente aquela ideia que começa a singrar de que se o FMI tem de vir, então que venha rápido! E mesmo para mim, que até subscrevi essa teoria é assustador...

quarta-feira, 30 de março de 2011

[1317.] De metalurgico a presidente

A Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra entendeu atribuir a Luiz Ignácio da Silva, antigo presidente da República Federativa do Brasil, o título de Doutor Honoris Causa.

O Doutor Seabra Santos, antigo reitor, foi o apresentante do candidato e o Doutor Gomes Canotilho proferiu os elogios.

Lula da Silva - assim garante o DN - disse que o seu doutoramento "honoris causa" é uma "homenagem ao povo brasileiro" pela "revolução económica e social" realizada no Brasil nos últimos oito anos. "Mais do que um reconhecimento pessoal, acredito que esta láurea é uma homenagem ao povo brasileiro, que nos últimos oito anos realizou, de modo pacífico e democrático, uma verdadeira revolução económica e social", afirmou o ex-presidente do Brasil, ao intervir na cerimónia do seu doutoramento "honoris causa" na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra. Na sua opinião, o Brasil "deu um enorme salto qualitativo no rumo da prosperidade e da justiça", deixando "para trás um passado de frustrações e ceticismo". "Após uma prolongada estagnação, o Brasil voltou a crescer de modo vigoroso e continuado, gerando empregos, distribuindo renda e promovendo vasta inclusão social", acrescentou Lula da Silva.

A Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra é, provavelmente, a mais elitista escola universitária portuguesa. Digo-o por experiência própria, sou um antigo aluno. Mas reina entre os sábios mestres a doutrina do self-made man.
Ou seja, não é uma escola elitista por admitir uma determinada classe de alunos, não o faz, mas porque entende receber os alunos mais brilhantes e deles fazer os melhores cidadãos da Pátria. [Lembro-me de no dia em que como caloiro fui apresentado à Academia, me ter sido dito que, como aluno da FDUC, eu passava a ser um dos garantes da Democracia em Portugal].
A maior parte dos professores da Faculdade e dos seus alunos mais brilhantes foram alunos provenientes de famílias pobres ou muito modestas do interior do País. Alunos que com o trabalho e o estudo singraram na vida académica e se tornaram homens excepcionais. Lula da Silva, o metalúrgico que "virou" presidente de um país com 190 milhões de habitantes, acaba por ser o protótipo de um tipo de Homem que a FDUC procura produzir e elogia de sobremaneira. Lula é o presidente que muitos dos alunos e docentes da FDUC, ao longo de muitos séculos, poderiam ter sido ou sonham ser. Alguém que pelo mérito e pelo trabalho sobe a pulso a escadaria da glória.
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[1315.] Mercurii dies

Acesso ao Hospital da Mealhada passa a ser “público” +
Quando um dia – daqui a algumas décadas – se escrever a história da contemporaneidade no concelho da Mealhada, dos primeiros anos do século XXI, sobressairão – na nossa opinião, claro está – duas obras fundamentais. A primeira é a Escola Profissional Vasconcellos Lebre e a segunda é o Hospital da Misericórdia da Mealhada. Pouco mais haverá a salientar de um período em que outras obras tomaram corpo – como o Parque Urbano da Cidade –, mas nenhumas tão relevantes para o desenvolvimento económico, social e da qualidade de vida das pessoas do concelho da Mealhada como estas duas.
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A história é e será sempre feita destas coisas: de vitórias e derrotas de uma luta que no dia-a-dia nem sempre é visível e que só a distância dos tempos consegue, de facto, avaliar. É curioso que no século XXI estejamos a perspectivar sublinhar exactamente o que cem anos antes marcou a história da nossa comunidade. No inicio do século XX, o concelho ficou indelevelmente marcado pela criação do Hospital de Santa Maria, antecessor do actual Hospital da Misericórdia, pela fundação do Colégio da Mealhada, ascendente do espírito da escola profissional. E o mesmo acontecerá quando as novas estradas que o concelho verá atravessar – como o IP3/IC2, o IC12 e o IC3 – influenciarem da mesma forma como o desvio da EN1, há 70 anos, influenciou o desenvolvimento das nossas localidades e da nossa centralidade.
+ O acordo ontem assinado entre o Governo e as misericórdias portuguesas e que permite aos médicos de família o direcionamento imediato dos doentes para consultas de especialidade e cirurgias em hospitais das misericórdias é um passo determinante na prossecução do objetivo do Hospital da Mealhada – presente desde a génese desta segunda fase –, de proporcionar aos seus utentes as mesmas condições, ao nível da gratuitidade, do Serviço Nacional de Saúde.
+ Os utentes poderão passar a ser consultados na Mealhada, e, em caso de necessidade, serem submetidos a intervenções cirúrgicas, pagando o mesmo que pagariam se o tivessem sido num hospital público. Sem, no entanto, terem passado meses à espera.
+ O processo de construção do Hospital da Mealhada – do edifício e do serviço – tem sido complexo e tem implicado um esforço sobre-humano para os principais implicados. Ao longo de todo este tempo, para além da real viabilidade do projecto, que tem sido feita ao ritmo de mudanças de governos e de vontades políticas, tem sido necessário alimentar um capital de esperança na comunidade que vai tendo oscilações conforme as coisas vão correndo melhor ou pior. Infelizmente, já vimos sorrisos em algumas caras quando as coisas correram efetivamente mal, como foi o caso do episódio da demissão do anterior diretor clínico, que acabou por se traduzir num grande serviço à palermice e à instabilização gratuita.
+ Sinais como o da assinatura deste acordo com o Governo são alicerces importantes para consubstanciar a relevância e a importância do hospital da Mealhada. São a prova de que o sonho é de bem-comum e de altruísmo e que a ambição de quem ousou arriscar em edificar este projecto é pensada nos outros e na qualidade de vida de uma comunidade. Uma comunidade que preventivamente olha para a qualidade da saúde como uma garantia, mas também da comunidade que vê os cuidados de saúde como uma necessidade fundamental.
+ Felizes os que acreditam!
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Editorial do Jornal da Mealhada de 30 de março de 2011
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terça-feira, 29 de março de 2011

[1316.] Paradoxos

Carlos de Windsor, o príncipe-herdeiro da coroa britânica, Príncipe de Gales está, com a esposa, a Duquesa da Cornualha, em visita oficial a Portugal. Daqui a precisamente um mês, casa-se o seu primógénito, Guilherme de Windsor, o que, em todas as monarquias, acaba por ser um sinal de preparação para a sucessão real.

Não haveria muito a dizer a propósito da visita de Carlos, e da própria vida de Carlos, não fossem dois aparentes paradoxos, que, consequentemente, parecem estar a ser determinantes para que mesmo os mais realistas (no âmbito de adeptos da causa real) temam uma eventual coroação de Carlos de Windsor, como Rei do Reino Unido e da Commonwealth.

Carlos de Windsor é filho da monarca britânica que há mais tempo foi coroada. Uma senhora respeitada e com uma notoriedade invejável, mesmo entre as cabeças coroadas europeias, e apesar dos frequentes escândalos da sua enorme prole e afins. Isabel II é uma mulher conservadora e muitas vezes acusada de levar a instituição mais a sério do que a própria família. Foi acusada de insensibilidade aquando da morte de Diana Spencer. E notoriamente leva muito a sério o cargo que ocupa. O primeiro paradoxo da vida de Carlos surge com o facto ser um homem moderno, aparentemente mais emotivo e solto. Seria de esperar que os britânicos preferissem uma pessoa mais jovem (mesmo que já maduro) do que uma octogenária.

A Rainha de Inglaterra é uma imagem que ilustra a pessoa que detém o poder mas não governa. Mais chique do que a imagem do 'testa-de-ferro', mas com o mesmo significado. É uma imagem pejorativa, diga-se de passagem. O segundo paradoxo de Carlos de Windsor reside no facto de ser criticado por ser, alegadamente, demasiado opinativo. O Principe de Gales tem apresentado contundentes posições contra alimentos trangénicos, contra a arquitetura que foge do conceito tradicional e local e, ao mesmo tempo, contra a auto-sustentabilidade, contra a desflorestação, a favor das energias renováveis. Trata-se mesmo de um ativista da chamada Economia Verde e Limpa. Carlos de Windsor criou urbanizações em propriedades suas - como Poundbury - baseadas neste sistema e até tem produções agrícolas baseadas nos mesmos principios.

Carlos de Windsor poderá nunca vir a ser Rei, esse parece ser o desejo de muitos britânicos, mas poderá não o ser por ter consciência social e ambiental. Por defender o que acredita e ter um modelo de desenvolvimento económico. E isso é, reconheça-se, um paradoxo importante na sociedade ocidental.

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domingo, 27 de março de 2011

[1313.] Baralhado!

- «O economista norte-americano e Prémio Nobel da Economia Paul Krugman considerou Portugal como um exemplo do erro de reduzir a despesa pública quando existe um desemprego elevado, em coluna de opinião publicada no "The New York Times", reproduzida no jornal "i" a 26 de março. Para o economista, "a estratégia correta é [criar] empregos agora, [reduzir] défices depois". Krugman entende que estão errados "os advogados da austeridade que preveem que os cortes da despesa trarão dividendos rápidos na forma de uma confiança crescente e que terão pouco, se algum, efeito adverso no crescimento e no emprego". Justifica a preferência pelo adiamento da redução do défice com o argumento de que "os aumentos dos impostos e os cortes na despesa pública deprimirão ainda mais as economias, agravando o desemprego". Acrescenta, a este propósito, que "cortar a despesa numa economia muito deprimida é muito auto-derrotista, até em termos puramente orçamentais", uma vez que "qualquer poupança conseguida é parcialmente anulada com a redução das receitas, à medida que a economia diminui". O Prémio Nobel da Economia lamenta que a estratégia que recomenda tenha sido "abandonada perante riscos inexistentes e esperanças infundadas". Pormenoriza: "Dizem-nos que se não reduzirmos a despesa imediatamente, acabaremos como a Grécia, incapaz de se financiar sem ser com exorbitantes taxas de juro". "Se os investidores decidirem que somos uma república das bananas, cujos políticos não podem ou não querem encarar os problemas de longo prazo" será atingida a situação da Grécia, especifica. "Deixarão de comprar a nossa dívida", admite. Krugman adianta que "um plano orçamental sério (...) trataria dos motores da despesa a longo prazo, acima de todos os custos com os cuidados de saúde, e quase de certeza que incluiria algum tipo de aumento de impostos».


- Um artigo publicado este fim-de-semana pelo jornal britânico de economia "Financial Times" fez uma sugestão que o Portugal fosse anexado pelo Brasil para solucionar a crise político-financeira que culminou com a demissão do primeiro-ministro José Sócrates na última quarta-feira. No texto, a publicação cita os bons resultados económicos obtidos pelo Brasil nos últimos anos: "Aqui vai uma maneira 'out-of-the-box' para lidar com o problema: anexação pelo Brasil (uma década de 4% de crescimento anual do PIB, muito mais elevado recentemente). Portugal seria uma grande província, mas longe de ser dominante: 5% da população e 10% do PIB".O "Financial Times" frisa que os portugueses saíriam no lucro, mesmo com uma possível perda de status: "A antiga colónia tem algo a oferecer, mesmo para além da diminuição dos 'spreads' de crédito e, proporcionalmente, déficits e contas correntes governamentais muito mais baixos. O Brasil é um dos BRIC, o centro emergente do poder mundial. Isto soa melhor lar que uma cansada e velha União Europeia".

sábado, 26 de março de 2011

[1312.] Hoje fiz 32 anos...

Se Depois de Eu Morrer, Quiserem Escrever a Minha Biografia

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vivi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.

Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

[1311.] In hoc non laudo te*

- Não me parece que tenha sido sensata a decisão de a oposição revogar a avaliação do desempenho de professores nesta fase do campeonato. É certo que o efeito da avaliação na progressão das carreiras, no aumento dos salários e nos concursos, já estava congelado, mas deu-se um sinal ao país de que, a partir de agora, todos os que berrarem mamarão... e isso não é saudável. Deu-se o sinal de que tudo o que tiver sido implementado vai ser revogado. E isso não pode acontecer. Mais do que austeridade económica e financeira é preciso austeridade política. Austeridade nas promessas, nos gestos, nos compromissos, nos comportamentos. E o PSD não servirá o país se embarcar numa politica de terra queimada.

- A austeridade política também se reflete na austeridade das palavras e na contenção de barões e baronetes emitirem opinião - algumas das quais só prejudicam o trabalho da liderança que depois tem de as andar a desmentir ou a distanciar do que são opiniões de amigos e companheiro e, nem por isso, opiniões ou tomadas de posição da liderança ou do próprio partido. Foi isso que aconteceu ontem com António Carrapatoso, que foi convidado para colaborar com a liderança do PSD. Depois de Miguel Relvas e Passos Coelho ter dito que prefeririam aumentar impostos a baixar salários e prestações sociais, o gestor da Vodafone declarou à Lusa que achava precisamente o contrário. A cortar era na despesa e não aumentar a receita. Resultado: ajudou o pagode a criticar a liderança que visava ajudar. Teve de vir à Lusa dar o dito pelo não dito e emendar à mão. Um pedido contra estas diarreias opiniativas: Por favor calem-se! Guardem para vocês e para as conversas intimas com o líder essas opiniões.
* Nisto não vos saúdo


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sexta-feira, 25 de março de 2011

[1310.] Manual de Velhacaria

Apesar dos insistentes pedidos das forças partidárias da Direita política - nomeadamente junto do Presidente da República -, hoje, para que a campanha eleitoral, que se prevê, se realize com dignidade e elevação, os sinais dados pelos principais acossados da demissão política fazem antever precisamente o contrário.

E isso, o país - parece-me - não vai aguentar.

Em primeiro lugar, o Governo demitiu-se. Não foi demitido. É certo que Sócrates tinha ameaçado... e cumpriu, mas o ónus da demissão é seu, não é da oposição. Até porque há quem ache - como eu - que tudo isto foi organizado pelos senhores do Rato para ter precisamente este fim. Um fim honroso da vítima.

Em segundo lugar, a realização de eleições é um acto democrático normal e já vimos as consequências da posse de um novo primeiro-ministro sem ter ido a eleições.

A avaliar pela forma como o Partido Socialista em gestão se organiza para responder ao que alegadamente é anunciado pelo PSD, a campanha eleitoral que se aproxima vai ser optima para a redacção de um verdadeiro "Manual da Velhacaria".

Miguel Relvas, na quinta-feira, disse que entre cortar no rendimento - salários ou prestações sociais - ou subir impostos, o PSD preferiria subir impostos. E entre subir impostos sobre o rendimento e subir impostos sobre o consumo, preferiria o aumento dos impostos sobre o consumo. A ideia não é nova. Já Manuel Ferreira Leite defendia a criação de um novo escalão do IVA para produtos de luxo.

Logo o ministro caceiteiro - Augusto Santos Silva - veio declarar que o PSD ia subir o IVA de 23 para 25 por cento. Trata-se de uma afirmação demagógica e velhaca, que o PSD, por muito que desminta, já não consegue apagar.

E parece-me que vai ser assim até depois das eleições de maio ou junho...

Faz sentido joias e iates, ou até mesmo carros topo de gama serem comparadas a bens do cabaz essencial? Ou pagarem de IVA 23 por cento, o mesmo que outros bens proto-essenciais?
Eu acho que não.

A campanha eleitoral vai ser sujinha... e é pena, porque vai ajudar à dispersão da atenção e vai contribuir para a radicalização de um discurso esquisito. A ver vamos!
Depois queixem-se que os portugueses estão desinteressados e não foram votar!

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quinta-feira, 24 de março de 2011

[1309.] Realidades (para além dos cenários) de crise V

A reflexão foi-me suscitada por uma conversa tida ontem - poucas horas antes da demissão do PM - com um dirigente local do Partido Socialista.

Confessava-lhe eu que me sentia assustado pelo facto de nos últimos meses, em que era já notório o estertor do Governo, não ter surgido de entre os militantes mais notáveis do Partido Socialista, uma voz de alternativa relativamente a José Sócrates. Surgiram vozes criticas - como a de Carrilho e, conforme a semana, a de Mário Soares -, mas nenhuma de verdadeira alternativa.

Disse-lhe eu que o PSD, por exemplo, os abutres mal vêem um lider a cambalear começam, imediatamente, a sobrevoar o corpo. E que noutras circunstâncias coisa idêntica tinha acontecido com o PS e com Sócrates.

Respondeu-me o meu interlocutor que com a "morte partidária" de Alegre, Sócrates tinha eliminado todas as possibilidades de contestação interna no PS. Acrescentou que, ao contrário de Guterres que tinha descentralizada em Jorge Coelho a liderança da máquina partidária, Sócrates nunca o tinha feito e que ele próprio tinha reduzido o PS à máquina do Governo. Lembrei-me, imediatamente do PSD pós-Cavaco...

Eu ainda confessei a minha decepção relativamente à ausência de voz de António José Seguro, mas foi-me dito que por tacticismo, ainda não é o tempo de falar.

É pena. O país perde com isso. Porque o problema está em Sócrates e não no PS. E o PS, no poder ou na oposição, será sempre parte da solução... e Sócrates já não.

Entretanto, amanhã e depois (25 e 26 de março), apesar de tudo o que aconteceu na última semana, José Sócrates será o único candidato a secretário-geral do Partido Socialista. O único...

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quarta-feira, 23 de março de 2011

[1308.] Realidades (para além dos cenários) de crise IV

Várias pessoas me perguntaram hoje, ao longo do dia, qual era a minha opinião sobre a demissão (esperada, mas na altura tão só eventual) do primeiro-ministro. Facto que me obrigou a pensar no assunto...

É óbvio que não é bom para ninguém - especialmente para o país - que o Chefe do Governo se demita antes de terminar o mandato para o qual foi investido. Resulta claro que não é bom que o Chefe do Executivo saia do leme, num momento em que o país atravessa uma crise financeira e económica muito séria. É liquido que não é positivo ter um Governo de gestão num momento em que o executivo tem previsto pôr no mercado 9,5 mil milhões de euros de dívida pública, um PEC para apresentar aos parceiros europeus até Abril e, eventualmente, pedir a intervenção do Fundo Europeu de Estabilização e do FMI.

Acontece que o Governo Sócrates e o seu primeiro-ministro davam sinais de um desgaste profundo, de uma falta de respeito total por órgãos de soberania e parceiros sociais, uma total desconsideração pelos portugueses. Ou seja, notava-se já, desde a alguns meses - não sou tão radical a ponto de dizer que desde a tomada de posse - que o Governo estava desnorteado e sem solução possível para a maior parte dos problemas do país.

Ao mesmo tempo, percebeu-se (com as declarações de alguns ministros) que Sócrates não conseguia remodelar o Governo, porque, possivelmente, não conseguiria arranjar ninguém para ocupar os lugares e trabalhar a seu lado. E este sinal é péssimo para um Governo.

A necessidade que o primeiro-ministro tinha (como têm e terão todos) de dar aos mercados sinais de confiança obrigou-o a proferir discursos de uma quase esquizofrenia, em que às segundas, quartas e sextas dizia que o país estava óptimo, com sinais de recuperação e execução orçamental notáveis, que era o campeão disto e daquilo, e às terças, quintas e sábados anunciava ao país a necessidade de mais medidas de auteridade. Ninguém aguentava mais esta bipolaridade.

A demissão de Sócrates foi, portanto uma benção. Porque neste momento, José Sócrates era parte do problema, e não parte da solução. Ou seja, qualquer outra pessoa seria capaz de convencer os portugueses e os mercados a aceitarem uma determinada medida - mesmo que dificil. Mas Sócrates já não é capaz de o fazer.
O problema não é o Governo, nem o Partido Socialista - outro primeiro-ministro deste partido fá-lo-ia, tenho a certeza. O problema é José Sócrates que já não conseguia mobilizar as pessoas, ser levado a sério.

Cavaco aceitará na sexta-feira o pedido de demissão do primeiro-ministro. Todos os partidos sugerirão que dissolva o parlamento e marque eleições. Cavaco poderia pedir ao PS que formasse novo Governo, não esqueçamos. Mas todos vão pedir eleições.
Eleições que trarão novos problemas e novas dificuldades, mas digamos que podem bem ser os dois passos que se dão atrás, para que, com um novo primeiro-ministro, possamos dar três em frente! Um novo primeiro-ministro que, eventualmente, até anunciará ao país as mesmas medidas que o parlamento agora vedou a Sócrates. Mas será outra pessoa, e isso, agora, é relevante.

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[1307.] Mercurii dies

Pelos que tombaram pela Pátria (de novo)

Assinalou-se no dia 15 de março – com sessão presidida pelo Chefe de Estado –, o 50.º aniversário da Guerra, conhecida em Portugal como "do Ultramar" ou "Colonial", conhecida nas antigas colónias do Império Português como "da Libertação". Na comunicação social portuguesa, o aniversário foi amplamente assinalado por alturas do 4 de fevereiro – dia em que se assinalou a "Revolta de Luanda", com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional, acção considerada como o início da luta armada em Angola. O Presidente da República e o Chefe do Estado-maior das Forças Armadas entenderam assinalar o acontecimento no dia em que o primeiro reforço militar embarcou de Lisboa para Luanda, e, curiosamente, se deu o ataque das UPA a civis no norte de Angola.

Em abril de 2008, em dois editoriais em que lembrámos os 90 anos da Batalha de La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial, na região da Flandres, na Bélgica, e onde se integraram vinte mil soldados do Corpo Expedicionário Português – a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578 – assinalámos a necessidade de se implantar na cidade da Mealhada um monumento especialmente erigido para homenagear os combatentes na Guerra Colonial portuguesa (1961-1974).
Desde 2007 que um grupo de antigos militares mealhadenses – que fizeram comissão na Guiné – se reúne anualmente e tem promovido a homenagem aos militares da Guerra Colonial em cada uma das freguesias do concelho. Em cada um delas tem sido erigido um monumento cuja edificação tem sido apoiada pelas juntas de freguesia. Uma iniciativa que nos parece muito salutar e digna do maior elogio.
Este grupo voltará a reunir-se no sábado, dia 2 de abril, desta feita em Casal Comba, e a eles, especialmente, renovamos o desafio que já aqui alvitrámos em 2008: o da construção de um monumento na sede do concelho com dignidade suficiente para nele se reverem não só os antigos militares mealhadenses, não só os familiares dos dezassete jovens do concelho que tombaram em África – que regularmente depositam flores nas lápides que se encontram anexas ao monumento aos mortos na Primeira Grande Guerra, no jardim municipal –, mas todos os portugueses que necessitam de assumir a Guerra Colonial como parte do nosso passado coletivo recente, com fortíssimas implicações no presente.
No decorrer da semana passada, um colaborador do Jornal da Mealhada, bom amigo desta casa, buscando uma edição antiga onde dera a mesmíssima sugestão – no Jornal da Mealhada de 10 de setembro de 2003 – disponibilizava-se para ajudar nessa demanda, a da construção de um monumento próprio para homenagear os combatentes da Guerra Colonial na sede do concelho. Disponibilidade essa a que o Jornal da Mealhada – a redação e a gerência da empresa proprietária – se associam.
Fará sentido que este monumento nasça, em primeiro lugar, da vontade e do esforço das pessoas, do grupo dos antigos militares da Guiné que já está organizado, e que só mais tarde se associem as autarquias locais – porque temos a certeza que se associarão. Há gestos que ganham significado se resultarem da vontade e do gesto dos homens, antes de o serem pela ação do Estado.

São muitas as dezenas de convívios de militares participantes na Guerra Colonial, que se realizam na Mealhada. Na Internet há vários sítios que divulgam esses encontros. Eles, de certo modo, funcionam como meio de exorcizar angústias, medos e frustrações, por meio do convívio entre pessoas que, juntas, ultrapassaram dificuldades, presenciaram coisas e factos muitos dos quais traumatizantes e, porventura, inimagináveis para tantos de nós. Pessoas que criaram, entre si, laços de cumplicidade, de solidariedade, de amizade. Reúnem-se na Mealhada, acreditamos, por uma questão de centralidade geográfica e de oferta de restauração.
A construção de um monumento na cidade da Mealhada, no jardim ou no Parque da Cidade, por exemplo, em homenagem aos combatentes da Guerra Colonial — a todos eles —, constituiria, também, uma forma de reconhecimento nacional e de referência para todos estes grupos de antigos militares que aqui se reúnem. Como aqui se concentram, aqui teriam um lugar digno, especial, para homenagear os que, como eles, estiveram envolvidos em conflitos militares pela pátria. Uma iniciativa que, certamente, teria o apoio das associações de veteranos de guerra e constituiria um gesto de justiça.

Fica, de novo, a sugestão.

Editorial do Jornal da Mealhada de 23 de março de 2011

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[1306.] "Pedro dos Leitões" - II

[IMAGENS PARA A POSTERIDADE]
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Balcão do Pedro dos Leitões, em 13 de Novembro de 1959
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Em primeiro plano, da esquerda para a direita, Augusto Castela (Nini), Alvaro, Xico, Celso e o meu avô Hilário.
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terça-feira, 22 de março de 2011

[1305.] Realidades (para além dos cenários) de crise III

"Um Apelo Angustiado" de Mário Soares


O "Apelo Angustiado" de Mário Soares, publicado hoje no Diário de Notícias, procura pressionar o Presidente da República. Soares considera que o Chefe do Estado é o único que "tem possibilidade de intervir, ser ouvido e impedir a catástrofe anunciada". Para Mário Soares, a catástrofe anunciada é a demissão do Governo e a marcação de eleições legislativas.
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Curiosamente, há precisamente uma semana, a 15 de março, o carismático fundador do Partido Socialista, no mesmo Diário de Notícias, juntava-se às vozes criticas em relação à ação do primeiro-ministro. Acusou Sócrates de cometer "erros graves" que "irão custar caro" ao primeiro-ministro. E, nessa altura, não afastava o cenário de eleições antecipadas no imediato.
Entre os erros de Sócrates, Soares dizia estarem os factos de não ter "informado, pedagogicamente, os portugueses, quanto às medidas tomadas e à situação real do País" e de, "nos últimos dias", ter negociado "o PEC IV sem informar o Presidente da República, o Parlamento e os Parceiros Sociais". Para Soares, estes erros "foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis, que irão custar-lhe caro".
Perante este cenário, o antigo Chefe de Estado não excluia, há uma semana, a possibilidade de eleições no imediato e colocava dois cenários ao Presidente da República. Soares criticava os dois cenários que identificava: o de Cavaco marcar eleições e o de Cavaco não marcar eleições. Dizia Soares que não marcar eleições seria "deixar que o Governo - e o PS, o que é mais grave - fiquem a fritar em lume brando? Com que vantagem para o futuro?".

É engraçado como é que Soares mudou de ideias numa semana. Há uma semana não demitir o Governo era "uma fritura em lume brando sem vantagens para o futuro". Agora, é uma "catástrofe anunciada". Estranho...
Talvez o antigo timoneiro do socialismo democrático tenha percebido que, agora, é a sério! Ou procure emendar a mão, fazendo esquecer que tem sido um dos coveiros de Sócrates e uma voz critica que tem ajudado ao avolumar da contestação ao primeiro-ministro.

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[1304.] Realidades (para além dos cenários) de crise II

Na madrugada de terça-feira, os jornais diários garantem que o Governo cai amanhã... Eu não sou tão optimista. Mas o i, por exemplo, di-lo perentoriamente.


No estertor do Socratismo, sobressaem hoje três ministros que são exemplo absoluto do desnorte da liderança política do primeiro-ministro e do que tem sido o rumo do país, pelo menos desde Setembro de 2009.


PEDRO SILVA PEREIRA, o trauliteiro, elogia a orquestra do Titanic. Insiste naquela arrogância completamente descabida, de quem insiste em ditar chavões em que nem ele próprio acredita, para que conste da memorabilia de um tempo estranho. Há momentos, na SIC Noticias, estava a ouvir o Ministro da Presidência - sem ver a imagem - e na minha cabeça "vi" aquele ministro do Saddam Hussein, o ministro da informação Muhammed Saeed al-Sahaf, que insistia em desmentir o óbvio e o que já era vísivel por todos. Este ficará, certamente, como o fulano mais low profile e sórdido do socratismo.
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AUGUSTO SANTOS SILVA, o caceteiro. O autor (material) da célebre frase: Quem se mete com o PS leva!
Como ministro da Defesa que se preze, leva a defesa do Governo ao extremo de criticar o Chefe de Estado, e comandante supremo das Forças Armadas e, cinco minutos depois, estar a trabalhar com o homem cheio de salamaleques e atenções.
O ministro Santos Silva mostrou, nos últimos meses, a fase de um poder que persegue, que não perdoa, que intimida, que por muito libertário que seja, não entende outra linguagem que não seja a Lei de Talião e a velha máxima jacobita do "quem não é por mim, é contra mim!".
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LUÍS AMADO, o sensato. É, provavelmente, o melhor ministro do Governo. Apesar de algumas vezes na arte da diplomacia a história - essa sacana - lhe tirar razão, a verdade é que foi alguém que sempre deu a cara pela verdade, sem o discurso maldoso e da maldade.
Alguém que há meses pede para ser substituído e que Sócrates não se pode dar ao luxo de perder. Hoje Amado garantiu: "Estamos há demasiado tempo a jogar aos dados com o destino da economia portuguesa e dos portugueses".
E hoje mesmo, um jornalista perguntou: "Não é do Governo a responsabilidade da abertura da crise política, por se ter comprometido com a União Europeia antes de apresentar o PEC ao País?". O sensato ministro Amado respondeu: "Eventualmente, esse juízo já foi feito, tem havido muitas leituras sobre isso, como lhe disse gostaria que isso não se tivesse passado, passou-se..."

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segunda-feira, 21 de março de 2011

[1303.] Realidades (para além dos cenários) de crise

O CDS/PP é um partido fundamental no panorama político português. É um partido que, sendo um pequeno partido, se afirmou nos últimos anos como estando preparado para integrar o "arco do poder". Na verdade, no mandato da AD, em 1979, foi do CDS que sairam os dois mais distintos ministros daquele governo, Freitas do Amaral e Amaro da Costa. Nos Governos Durão Barroso e Pedro Santa Lopes, um dos melhores ministros foi, sem sombra de dúvida, António Bagão Félix - ministro do Trabalho e Solidariedade Social no Governo Barroso e ministro das Finanças no Governo Santana Lopes.

O CDS tem o problema de ser um partido demasiado dependente do seu líder carismático, é certo. Mas afastou-se do caminho da demagogia política popularucha que o caracterizava antes de 2004, e afirmou-se como um partido de gente eficiente, activa, criativa, corajosa e responsável. A perenidade e estabilidade ideológica do CDS/PP é muito importante para um governo nacional - assim como para governos municipais, por exemplo.

No congresso que acabou ontem, em Viseu, o líder do CDS/PP mostrou-se determinado, mostrou-se responsável e isso é importante. Importante para a “coligação alargada de mudança” que Pedro Passos Coelho hoje enunciou. Faz todo o sentido que CDS/PP, PSD e MEP se apresentem a votos e obtenham os votos dos portugueses, para depois, se coligarem na formação de um Governo estável e credível.

"É Agora ou Nunca", como disse Portas, em Viseu.

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domingo, 20 de março de 2011

[1302.] Fecha-se um ciclo

Foi "decretada" hoje, 20.03.11, a abertura do processo eleitoral para a Junta do Núcleo Centro-Norte da região de Coimbra do CNE. As eleições foram marcadas para 18 de junho, mas ainda há muita coisa para fazer antes de darmos por terminado o mandato. Há, ainda, a reunião de avaliação do AcaSecNuc e do Plano Trienal, marcada para o próximo domingo, 27 de março, há relatórios de contas e de actividades para fazer... mas a verdade é que, com a abertura do processo eleitoral começa aquele sentimento - de que eu gosto particularmente - de avaliação e de fim de ciclo.

Ao longo deste mandato - que começou em 8 de junho de 2008 - submetemo-nos a experiências arriscadas, experimentámos métodos de trabalho e de ação que, agora, importa avaliar. Independentemente da avaliação global e institucional, a verdade é que, na minha opinião, conseguimos concretizar todos os objectivos a que nos propusemos e conseguimos testar muitas das coisas em que acreditávamos, mas que nunca haviam visto a luz do dia. Juntámos pessoas diferentes, de sensibilidades distintas, a pensar e a remar na mesma direção, a construir coisas inovadoras, além do que tantas vezes julgávamos ser possível. Manifestámos espirito de corpo, união e muita, muita ação.

Foi um mandato extraordinário. De que me orgulho muitissimo!
Obrigado a todos por esta experiência!

[1301.] Sawa bona


WWF - We Are All Connected from Troublemakers.tv on Vimeo.

Segundo uma ancestral filosofia africana - Ubuntu - "não interessa em que parte do mundo vivemos, todos partilhamos valores e aspirações fundamentais muito semelhantes: prezamos a família, amamos os nossos filhos, queremos aproveitar ao máximo as nossas vidas e fazer diferença no mundo, buscamos uma sensação de segurança e desfrutamos das nossas amizades". Segundo o Ubuntu, a carateristica de sermos humanos obriga-nos à responsabilidade de termos de amar, respeitar e nos entregarmos ao "próximo". Porque ao dar-nos ao próximo estamos a fomentar a retribuição cósmica que nos fortalecerá a nós próprios, num ciclo de bem-estar que não se quebra.

Uma pessoa só é pessoa pela conexão humana. Estamos todos unidos, somos todos irmãos, num mesmo corpo, peregrinos neste planeta que tomámos de arrendamento. Pelo que quando um de nós tem fome, estamos todos mal-nutridos. Quando um homem é maltratado, todos sentimos dor. Quando uma criança sofre, é sobre o rosto de todos nós que correm as lágrimas. "Ao reconhecermos a humanidade uns nos outros, reconhecemos no nosso vínculo inquebrável à nossa condição humana!"

Isto parece filosofia barata, mas é muito reconfortante. Acreditem, mesmo muito reconfortante.

sábado, 19 de março de 2011

[1300.] A perigosa ingerência

As democracias ocidentais sabem (deviam saber) que são muito perigosas as ingerências - mesmo que humanitárias - em palcos próximos do território europeu. A figura da ingerência humanitária - usada na guerra dos balcãs - mostrou-se, reconheçamos, muito fraca das pernas em termos de relevância do Direito Internacional. O que se terá ganho em real politik perde-se no precedente aberto, quase sempre, pela justiça dos vencedores e falsos moralistas.

Independentemente de Kadafi estar, na realidade, a massacrar civis, a verdade é que na Libia se vive uma guerra civil, com duas frentes bélicas, para a qual as Nações polidas e civilizadas devem contribuir com soluções de Paz e não com a ingerência de quem toma uma posição contra um dos beligerantes.

No caso em concreto, parece estranho que a ação política da coligação internacional se faça sentir - mesmo que com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas - num momento em que o conflito parecia estar a acabar, verificando-se um controle por parte das forças de Kadafi. É verdade que muitas chancelarias europeias - como a nossa, por exemplo - decretaram o fim do regime de Kadafi cedo de mais, e que agora é preciso que o fim do regime tenha lugar, de modo a que não seja necessário dar uma pirueta e "dar um beijo no próprio rabo".

Tomara que as forças da coligação - com um estranho excesso de zelo de Sarkozy (que Kadafi ameaçara com "revelações escaldantes") e a gratuita beligerância torie de Cameron, bem como a traiçãozinha tímida de Berlusconi e Sócrates, depois das simpáticas visitas à tenda do "líder fraternal e guia da revolução da Líbia" - consigam neutralizar as tropas e armas e o próprio Kadafi, o mais depressa possível. A bem de todos.

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[1299.] O nome das coisas

Contrariamente ao que afirma José Socrates e Pedro Silva Pereira, o chumbo do PEC 4, e a queda do Governo não é uma crise política.

Crise politica é que vivemos hoje.

A queda do Governo, neste momento, é a única solução para sairmos da crise política.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

[1298.] "Pedro dos Leitões"

Há locais que são mais que espaço físico. Povoam o imaginário pessoal, a história das nossas vidas, e foram o tabuleiro dos jogos, das travessuras e das brincadeiras da nossa infância. Olhar para o espaço físico onde sentimos as camadas da nossa própria história é uma visão de nós mesmos.

Pouco depois de ter nascido, com poucos meses de vida fui viver para a casa pré-fabricada da ladeira do "Pedro", hoje, Rua Alvaro Pedro, em Sernadelo. Foi ali que vivi até aos 14 anos. E o restaurante era o prolongamento da minha casa, apesar de haver espaços onde eu só entrava com autorização superior.

Sou sobrinho-neto de Alvaro Pedro - lá em casa conhecido como "o padrinho". A esposa, "a madrinha Eulália", conhecida em Sernadelo como a "Maria da Emília", era irmã do meu avô Hilário. Foram "os padrinhos" que ajudaram os meus pais numa altura particularmente dificil do inicio da vida da nossa recem criada família e sempre me trataram com especial carinho. O restaurante nunca foi o "Pedro". O restaurante - aquele espaço - era, é ainda hoje, na linguagem das meias palavras que têm as famílias, pura e simplesmente, o restaurante.

O meu avô Hilário foi uma personagem importante na criação daquela casa. Na transformação de um pequeno comércio de bomba de gasolina num restaurante de topo, na casa referência da Mealhada, como a "Sala de Jantar da Europa". Não começou a trabalhar lá no inicio da casa, e não esteve lá tanto tempo como muitos dos seus cunhados e de quase todos os seus sobrinhos. Mas ainda hoje, no património dos sentimentos do imaginário daquela casa, o ti'Hilarito é figura mítica. Uma figura de que me orgulho muitíssimo.

Hoje, quando vi o panorama de destruição na zona interior, no coração do restaurante, fiquei incomodado e emocionei-me ao ver a tristeza das pessoas para quem aquele espaço é o ganha-pão. Pessoas, umas meus familiares, sangue do meu sangue, outras quase isso - algumas que ainda me saúdam com um "bom-dia menino" -, com quem não posso deixar de me solidarizar num momento de incerteza, de dificuldade e de muita, muita, mesmo muita angústia.

Que a Força os ilumine, os ajude e nos ajude a nós todos para que os possamos consolar, apoiar, e fazer acreditar que em cada porta que se fecha, há outra que se abre. A crer na máxima do optimismo - esse sentimento tão necessários nos tempos de hoje - de que uma catástrofe é, sempre, uma oportunidade. Ou como dizia Inácio de Loyola: "Uma desgraça é sempre uma oportunidade para outras Graças".

Recomeçar, reconstruir, reerguer o sonho antigo de um homem como Alvaro Pedro - que foi um génio e, acima de tudo, um visionário, que certamente teve sucessos e fracassos - é um legado, é a herança. Uma reconstrução que permitirá resolver problemas antigos, inovar, fazer a diferença, ir mais além, construir o futuro.

Força. Muita Força. Estarei disponível para ajudar, sempre.




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quinta-feira, 17 de março de 2011

[1297.] 6...5...4...3...2...

A situação politica nacional, neste momento, assemelha-se àquele jogo infantil da "bomba". A bomba vai explodir, toda a gente sabe isso, e os jogadores, já em contagem decrescente, fazem passar a bomba de mão em mão, para que exploda em qualquer lado, menos entre os seus dedos. Perde quem tiver o azar de lhe explodir a bomba nas mãos.

Toda a gente sabe que o Governo vai cair e que vamos ter de ir para eleições antecipadas. Todos os líderes partidários e o Presidente da República querem ir para eleições o quanto antes. Acontece que nenhum quer ser acusado de ser o responsável pela marcação de eleições. Porque tal facto será relevante na dialética da campanha eleitoral, e principalmente, porque a queda do Governo trará consigo a entrada do FMI e do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Nem Sócrates nem Passos Coelho querem ser acusados de abrir a porta às medidas draconianas do Fundo Monetário Internacional.

Este jogo da "bomba" tem estratégias, como tem qualquer jogo. Interessa ter a "bomba" na mão nos momentos finais de modo a lançá-la a quem não tenha hipótese de se libertar dela. É mais ou menos isso que está a fazer o primeiro-ministro. Parece-me.

O PCP, o CDS e o Bloco não têm muito a perder com este jogo. São aqueles jogadores que têm a capacidade de começar a contagem - nomeadamente com a apresentação das moções de censura -, mas sabem que a bomba não rebentará nas suas mãos. Nenhum destes partidos tem capacidade para aprovar uma moção de censura, nem serão determinantes na votação de qualquer documento estratégico que obrigue à demissão do Governo.
O Bloco apresentou uma moção para se antecipar ao PCP, e não teve qualquer cuidado em redigir um texto que permitisse a adesão do CDS ou do PSD.
O PCP pode vir a ser o censor que se segue, e também não deve dar-se ao trabalho de fazer com que o texto possa ser aprovado pela direita.
O Bloco e o PCP serão os partidos que menos interesse têm em eleições. O primeiro porque teve um resultado extraordinário em 2009, e dificilmente aumentará o número de deputados - até porque os problemas internos estão a agudizar-se no Consórcio das Esquerdas. E o PCP há anos que cada vez que vai a votos perde deputados e isso não lhe interessa nada.
O CDS, no entanto, não apresentará uma moção que não tenha o apoio implicito do PSD. No próximo fim-de-semana o partido de Portas reúne em Congresso, e cheira-me que para marcar a agenda politica, anuncie a apresentação de uma moção de censura.

Pedro Passos Coelho está a ser pressionado para fazer cair o Governo. Passadas as eleições presidenciais, e eleito Cavaco, não há o medo de o PSD contribuir para a não reeleição do presidente, e os barões estão ansiosos por ir a votos e voltar ao poder. O líder não quer o poder a qualquer preço, quando ainda não conseguiu munir-se de todas as ferramentas - pessoas e estratégias - para ser primeiro-ministro com tranquilidade. Acontece que o PSD é um partido que não aguenta a ausência de poder durante muito tempo, e essa turbulência política está a mexer com os social-democratas. Se não houver eleições dentro de poucos meses, as vozes vão começar a pedir a cabeça de Coelho... e Rio está à espreita! Até porque a manutenção do PS no Governo só se faz se este tiver o apoio do PSD.
O líder da oposição recebeu a bomba com o anuncio do PEC4, devolveu a bomba a Sócrates no sábado, e o PS voltou a devolver-lha com a declaração de Sócrates a dramatizar. Passos hoje manda a bomba para Cavaco, que por sua vez a mandou para o PS, que hoje já diz que o PEC4 é negociável se o PSD quiser... e se não quiser perde o jogo. E a bomba está, de novo, nas mãos de Coelho.

José Sócrates armou uma ratoeira ao PSD com este PEC4. Anunciou as medidas de austeridade no dia em que tinha de as levar a Bruxelas, tendo-as mantido escondidas no debate da moção de censura do BE. O primeiro-ministro sabia que o PSD não está em condições de chumbar a substância das medidas, porque, aparentemente, elas são necessárias e porque foram impostas por Bruxelas. Mas Sócrates sabia que o PSD não podia aceitar a forma como as medidas foram tomadas - sem aprovação no Conselho de Ministros, às escondidas, sem informação ao Presidente, sem informação à concertação social e, acima de tudo, sem negociação prévia com a oposição. Ou seja, para que eles não possam aprovar estas medidas - e lhes exploda a bomba na mão - temos de viciar a forma. E foi isso que Sócrates fez. Fez o pior possível, para ter a certeza de que o PSD não aprove estas medidas.

Pode perguntar-se: Mas que interesse tem Sócrates em sair do poder, neste momento? A resposta é simples, Sócrates, de facto, não está agarrado ao poder, mas percebeu que está num pântano, que já não pode fazer muito mais pela confiança dos mercados e dos portugueses, que não consegue remodelar o Governo, que tem ministros exaustos a pedir para sair por Amor de Deus - como o Amado. Sócrates tem o partido a minar a sua liderança e já percebeu que tem de sair. Não acredito que esteja a promover uma politica da terra queimada, até porque quer regressar, mas quer ver-se livre deste problema o quanto antes.

Resta Cavaco. O presidente não quer ser o agente da queda do Governo. Vai fazer o tudo por tudo para que o Governo caia no Parlamento, mas a coisa não está fácil. Cavaco não quer ser acusado de estar a favorecer a Direita, e sabe que tem a Esquerda à perna - uma esquerda que se recusa a aplaudir um discurso de um Chefe de Estado eleito por 53 por cento dos portugueses votantes.
Cavaco tem a perfeita noção de que a queda do Governo será o caos económico, que ele sabe ser inevitável, mas não quer ser ele a ter a bomba na mão quando rebentar.

Os tempos não são nada fáceis! E a contagem continua... e continuará

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quarta-feira, 16 de março de 2011

[1296.] 50 anos da Guerra Colonial... ou da Libertação?

O Presidente da República decidiu assinalar, ontem, 15 de março, o 50.º aniversário da Guerra, conhecida em Portugal como "do Ultramar" ou "Colonial", conhecida nas antigas colónias do Império Português como "da Libertação".
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Na comunicação social portuguesa, o aniversário foi amplamente assinalado por alturas do 4 de fevereiro - dia em que se assinalou a "Revolta de Luanda", com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional, acção considerada como o início da luta armada em Angola.
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Se entendermos a Guerra Colonial como a resposta a um ataque "terrorista" de movimentos de libertação, então, faz sentido assinalarmos o inicio da Guerra no dia em que esse ataque se deu. Se considerarmos que uma guerra começa no dia em que é dada uma resposta armada, em que começa o conflito - a luta bilateral, portanto - então o dia que devemos assinalar é o 15 de março.
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Foi precisamente a 15 de março de 1961 que se deu, no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, o embarque de quatro companhias de Caçadores para reforço da guarnição de Angola.
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No mesmo dia, curiosamente, tinha início a rebelião dirigida pela UPA (União dos Povos de Angola, organização liderada por Holden Roberto, fundada em 1954, em Leopoldville, radicada, inicialmente no nacionalismo bacongo). Esta rebelião de 15 de março teve lugar no Norte de Angola, e deu-se contra os colonos portugueses e algumas populações negras, causando centenas de vítimas a quem os rebeldes cortaram as cabeças. Com o ataque da UPA, começava a vertente da guerra não virada contra os "interesses do poder colonizador" - como acontecera com os ataques de 4 de fevereiro -, mas contra os brancos e as populações negras que com eles colaboravam.
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Atente-se que não eu disse que o ataque da UPA foi contra os "colonos". Eu disse que foi contra os "brancos e as populações negras" que não lhes eram hostis. Porque muitos desses brancos que foram decapitados no 15 de março eram muito mais angolanos do que os rebeldes da UPA - muitos deles da tribo bacongo, é certo, mas congoleses. Holden Roberto, por exemplo, nem sequer português sabia falar!
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A Guerra começava, então, a 15 de março de 1961, em Angola. Como um barril de pólvora que explode depois de muitas fontes de ignição o rodearem. Fontes de ignição como os movimentos de libertação africanos, como a falta de investimento da parte do Governo português em muitas regiões ultramarinas, como a pressão das potências da Guerra Fria no continente africano, como o distanciamento dos poderes públicos metropolitanos face às realidades coloniais, entre muitos outros fatores.
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Uma guerra que começou em 4 de fevereiro, ou 15 de março de 1961 e se prolongou por 14 penosos anos, mobilizando toda uma geração de homens portugueses, e transformando outras tantas mulheres e mães. Uma guerra que termina com o 25 de abril de 1974 - que ajuda a acontecer (por boas ou más razões) -, apesar de só em 1975 acabar de facto, e que deixa uma marca fundamental na história de Portugal.
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Guerra Colonial
1961-1974
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14 anos
Mais de 800000 mobilizados
100000 doentes e feridos
8831 mortos
[3250 mortos em Angola, 2962 em Moçambique e 2700 na Guiné; 8290 soldados pertencentes ao Exército, 346 à Força Aérea e 195 à Marinha; 4027 pereceram em combate, 1480 em acidentes de viação, 785 em acidentes com armas de fogo e 1998 devido a outras causas.]
140000 soldados com disturbios psicológicos
663.401.203 € gastos com as operações
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Fonte:
Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes
Angola 61, de Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus
Cronologia da Guerra Colonial, de José Brandão
Associação dos Deficientes das Forças Armadas
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«Combatentes
Importa reconhecer que os soldados portugueses foram, em África, soldados de excepção. Fizeram da distância e da saudade um desafio a vencer, assumiram a falta de recursos como razão para a iniciativa e para a adaptabilidade, tomaram a juventude e os seus receios, temperados pela camaradagem e pelo patriotismo, como ingredientes para uma conduta digna e, muitas vezes, heróica. (...)
Foi a capacidade de sofrimento e o exemplo de coragem das mulheres de Portugal, a quem tantos sacrifícios foram pedidos, pela ausência ou perda dos seus, e que tudo suportaram na sua solidão e nos seus silêncios, tantas vezes esquecidas.
Foi o enorme desafio vencido por aqueles que, regressados de África, tiveram que refazer as suas vidas, começando tudo de novo, fazendo apelo ao espírito empreendedor e à capacidade de lutar que sempre os caracterizaram. Foi toda uma rede de apoios e de afectos criada no seio das famílias e do País, que facilitaram a sua integração no tecido laboral e social, ultrapassando as muitas dificuldades criadas pelo ambiente instável que se vivia.
(...)
Às gerações mais novas, é importante transmitir o testemunho de quem enfrentou a adversidade ombro a ombro com aqueles a quem confiava a vida e por quem a daria também; o testemunho de quem conhece a relevância de valores como a solidariedade, o profissionalismo, o mérito e a honra, a família e o País.
País que será mais bem defendido se contar com a mais-valia da vossa experiência e da vossa participação activa, como exemplo e fonte de motivação para os mais jovens que, tendo crescido num ambiente de maior conforto e de paz, enfrentam o futuro num Mundo incerto, onde as crises e o conflito não deixam de ser uma constante.
Combatentes,
A vossa geração criou, também, as condições para que Portugal seja um País democrático, mais livre, mais solidário e mais aberto ao Mundo. Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.
Como Portugueses, não haverá causa maior do que dedicarmos o nosso esforço e a nossa iniciativa ao serviço da Nação e dos combates que é necessário continuar a vencer, para promover um futuro mais justo, mais seguro e mais próspero para todos. Juntos, continuaremos a afirmar Portugal.
(...)
Viva Portugal.»
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Discurso do Presidente da República, ontem, 15 de março, curiosamente no Forte do Bom Sucesso, na cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º Aniversário do início da Guerra em África.
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[1295.] Mercurii dies

Avaliando o Carnaval da Bairrada de 2011

O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada de 2011 poderá ter sido o melhor de que há memória no sambódromo Luís Marques, na zona desportiva da Mealhada. Felizmente, já no ano passado tivemos a mesma afirmação, o que revela que o progresso qualitativo no maior evento cultural do concelho da Mealhada está em crescendo. As ameaças de mau tempo, de algum frio – especialmente na terça-feira – poderão, em parte, justificar a fraca participação de público, a que acrescentamos um patente desinvestimento na promoção externa do evento, por parte da organização.
De qualquer forma, a verdade é que as escolas se apresentaram melhor e de forma relativamente homogénea – como se viu nos resultados do Concurso de Escolas de Samba do Jornal da Mealhada –, na qualidade das fantasias, na exuberância da apresentação dos enredos, no cuidado com coreografias e musicalidade.
O Carnaval na Mealhada está cada vez melhor, é certo, e afirma-se como a referência nacional relativamente à vertente brasileira do carnaval português. Num tempo de crise financeira, em que aos promotores de marcas fortes se exige que primem pela diferenciação, através de uma especialização de alta qualidade, o Carnaval Luso-brasileiro da Bairrada é, de facto, o mais brasileiro de Portugal.
Tal como temos feito em anos anteriores, investimo-nos do direito de chamar a nós, também, de emitir a nossa opinião sobre a organização do cortejo.
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O percurso do sambódromo
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O percurso do desfile no sambódromo continua a ser um factor negativo no carnaval mealhadense. No final do Carnaval de 2009, apelámos à necessidade de serem tomadas medidas no sentido de ser alterado o percurso – eventualmente mudada a localização, e os dirigentes da Associação do Carnaval da Bairrada foram sensíveis ao apelo e à necessidade, e o percurso em 2010 teve um novo local de dispersão, o que se revelou como um aspecto positivo.
Em 2011 manteve-se o percurso, mas o esforço de melhoria deve continuar a ser implementado. Seria interessante que os organizadores do desfile e as escolas de samba ponderassem a possibilidade de encurtar o percurso, de o limitar a uma das retas do complexo – com notórias melhorias ao nível da propagação do som – e experimentassem fazer um “recuo da bateria”. Este sistema – possível no sambódromo mealhadense –, usado no Rio de Janeiro, permite que a bateria, a componente musical da escola, que lhe dá mais alegria, possa apresentar-se no primeiro quarto da escola, estacione numa reentrância do percurso, faça passar à sua frente toda a escola e se reintegre no cortejo à frente da alegoria.
Fica o contributo.
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O som e o atraso
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Em 2011, voltaram a não ser significativos os problemas com o som e com o atraso no início do desfile. Já havíamos verificado esta situação em 2009 e em 2010, e registámo-lo também este ano. Fazemos referência a este aspecto porque entendemos que, no que respeita à hora de início dos cortejos, se tratou, durante muitos e muitos anos, de um defeito crónico do Carnaval na Mealhada.
No domingo, no entanto, voltou a registar-se um longo tempo de intervalo entre a quarta e a quinta escola a desfilar, especialmente, na parte final do percurso. O problema poderá ter resultado da aliança de questões técnicas com a evolução da própria escola. A forma como cada escola se apresenta no desfile, e progride na avenida é uma questão técnica e é uma componente do espetáculo. Mas a espera não beneficia a apreciação do espetador, pelo que acreditamos que uma mudança nas características do próprio percurso – com a limitação a uma reta – beneficiaria, também, esta componente.
De qualquer forma, e sublinhamos, reconheça-se a capacidade de eliminar – esperamos que de vez – o problema do atraso no inicio do cortejo.
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Revista Abre-alas
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Enriqueceu, de sobremaneira, o espectáculo apresentado pelas escolas de samba – assim o garante o público espetador – o facto de existir um roteiro, um libretto, se se preferir, com a explicação do enredo e com uma breve apresentação do significado de cada uma das alas, destaques e diferentes figurantes de cada uma das escolas que desfilou. Essa publicação foi editada pelo Jornal da Mealhada, com o Alto Patrocínio da Associação de Carnaval da Bairrada e com a ajuda preciosa de todas as escolas de samba. O espectador teve uma melhor percepção do que estava a ver, valorizou o trabalho das escolas, e criou-se uma publicação que servirá de acervo histórico para a posteridade.
A revista Abre-alas é mais uma publicação da JM – Jornal da Mealhada, Lda, que procuraremos ir melhorando e desenvolvendo nas próximas edições do carnaval.
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A avaliação das escolas de samba
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A avaliação feita pelo Jornal da Mealhada continua como um dado adquirido. E ainda bem – assim pensamos. Uma vez mais, todas as escolas colaboraram, com a entrega de todas as informações relativas ao que iam apresentar no sambódromo, mas, também, com contributos relativos à própria organização da avaliação. Colaborações que se revelaram, uma vez mais, muito positivas. Em 2011 os resultados globais das escolas foram muito superiores aos de 2010, já assim tinha sido no ano passado. Fica demonstrada a preocupação das escolas em melhorar e em procurar superar deficiências. Essa é a grande vitória da avaliação.
As justificações dos jurados estão publicadas no sítio oficial da Internet do Jornal da Mealhada – uma inovação de 2011 –, em nome do esforço de melhoria coletiva do espetáculo e do concurso.
Ao nível da organização do concurso registaram-se dificuldades este ano, imponderáveis, que com a compreensão de todos, com a colaboração de todos e com os sacrifícios de alguns foram ultrapassados. A JM – Jornal da Mealhada, Lda agradece, de forma penhorada, a disponibilidade e colaboração muito empenhada de Ana Filipa Pereira, de Nuno Semedo, que, com Carla Carvalheira, compuseram a Comissão Técnica do Concurso.
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O Carnaval e as crianças
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No final do Carnaval de 2009, lembrámos que nesse mesmo ano se havia completado trinta anos desde o primeiro Carnaval da Criança, festa infantil que, durante duas décadas se realizou no Domingo Magro. Na altura interpelámos a Associação do Carnaval da Bairrada e, até, a Câmara Municipal da Mealhada – entidade que de ano para ano ganhou preponderância em termos de politica educativa – sobre o assunto. Não obtivemos respostas.
O Carnaval da Criança acabou porque, de certa forma, a organização de um desfile infantil escolar implica um trabalho suplementar da parte de professores, que sobrecarregava os docentes de sobremaneira. A verdade é que nos últimos anos – especialmente na Mealhada e em Luso – os desfiles infantis de Carnaval estão a reaparecer, o que revela que está a ser recuperada a dimensão e a oportunidade pedagógica que o Carnaval pode proporcionar às crianças. Ora se os desfiles estão a regressar, porque não voltar a organizar um desfile grande – com dimensão e notoriedade – ao nível concelhio? Deixámos este desafio em 2009, em 2010, e atrevemo-nos a repeti-lo agora, uma vez que consideramos que estão mais que reunidas as condições para fazer renascer o Carnaval Infantil da Bairrada.
“Trata-se, afinal, do futuro”, repetimos.
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O Carnaval e o orçamento
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O Carnaval na Mealhada é o maior evento cultural do município. Dizemo-lo sem pudor. É um disparate pensar que se trata de um fenómeno exclusivo das freguesias da Mealhada e de Casal Comba. Abarca energias de pessoas de todo o concelho e de freguesias limítrofes no concelho de Cantanhede. É um disparate afirmar que se trata de um evento que dura algumas horas durante dois dias num ano. O Carnaval é um espetáculo efémero, é certo, mas que envolve pessoas durante quase todo o ano.
O Carnaval é cultura, e requer um investimento considerável. Trata-se de um espetáculo efémero e dispendioso – há que reconhecê-lo sem complexos. O investimento em Cultura – assim como em Educação – é contabilisticamente complexo, especialmente quando estamos a falar de artes efémeras, mas nem por isso deixa de ser importante numa sociedade que se quer cada vez mais evoluída e desenvolvida.
O Carnaval Luso-brasileiro terá tido em 2011 – dados nunca facilmente acessíveis – um orçamento de 180 mil euros. A Câmara da Mealhada proporciona um apoio financeiro de 90 mil euros (menos dez por cento do que em 2010) e um apoio logístico muito considerável e – pelo menos para nós – dificilmente contabilizável. A entidade promotora – a Associação do Carnaval da Bairrada – terá ainda outras receitas, nomeadamente, de bilheteira, de exploração da tenda gigante e de patrocinadores.
Para muitos pode considerar-se um investimento supérfluo, e a opinião pública concelhia facilmente determinaria que seria uma despesa a abolir no orçamento municipal. Não integramos esse grupo. Ao contrário, pensamos que o orçamento do Carnaval da Bairrada deve ser aumentado com o incremento de receitas próprias, e que, gradualmente, fará sentido aumentar o investimento público (não só municipal).
A análise comparativa com outros carnavais portugueses – muitos deles de qualidade muito inferior ao da Mealhada – deve servir-nos de referência neste exercício.
Se é certo que carnavais como o de Estarreja, da Figueira da Foz e de Sines têm orçamentos próximos do da Mealhada – na maior parte com menos investimento municipal –, a verdade é que há cortejos em que o investimento é multiplicado por dois ou por três. Os carnavais de Torres Vedras e de Ovar, por exemplo, têm orçamentos na casa do meio milhão de euros – com a Câmara a pagar quase tudo. Os carnavais de Loulé e da Madeira custam 350 mil euros, e o da Nazaré 210 mil euros.
É certo que, na nossa óptica são gastos que consideramos exagerados, mas fará sentido pensar que sem investimento – nomeadamente na promoção do evento enquanto marca nacional da cultura e do turismo – dificilmente haverá retorno.
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Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de março de 2011
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terça-feira, 15 de março de 2011

[1294.] A Luta É Alegria!


Na linguagem leninista eu sou um reacionário.
Acredito que a Revolução não é a melhor agente da mudança e prefiro as Reformas implementadas pelas democracias constitucionais.
Mas gosto muito do folclore revolucionário. Agrada-me esteticamente. Pelo peso político, pelo peso histórico, pela dimensão utópica e fantasiosa. Tenho pena de, racionalmente, não conseguir aderir à Revolução, para além do gosto pelo folclore.
Mas subscrevo, completamente, a afirmação "A Luta É Alegria!", nome da música dos "Homens da Luta", que ganhou o Festival da Canção de 6 de março último, e que - assim espero - representará Portugal no Festival da Eurovisão da Canção, na Alemanha. Não votei porque não me apercebi do fenómeno, mas teria votado com gosto. Para além de uma ou outra frase "anti-reacionária", subscrevo, também, a letra da música.
Porque a Luta é, de facto, Alegria. Porque a Luta é fundamental. Porque é na Rua, a gritar, que os Povos avançam, . Porque é verdadeiramente transformadora a energia de uma manifestação, da união de esforços em prol de um interesse comum!
Porque é preciso lutar contra o desânimo, contra a desconfiança, contra o desespero, contra o "cinto apertado" e contra as lamurias e o "ar carregado" e "enraivecido".
Coloquei aqui no blogue - [1281.] - a canção dos Deolinda "Que Parva que eu sou", assim que dela tive conhecimento. Fui dos primeiros a fazê-lo. Escrevi um Editorial no Jornal da Mealhada e no FRONTAL sobre o assunto [1291.]. Parece-me ser uma musica mais inteligente e mais bem concebida do que a do Jel e do Falâncio. A dos Deolinda é mais fatalista, é mais faduncha, é mais resignada, a dos Homens da Luta é mais popular, é mais esperançosa, é mais alegre, é mais motivadora!
Ambas nos lembram, de que É a Hora de fazer alguma coisa pelo país, pela sociedade construída pelos nossos pais e avós, por nós próprios e pelo futuro!
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[1293.] Elogio ao Afonso Costa?

Num intervalo entre o almoço tardio e o curativo, televisionámos um programa na RTP2 sobre o sindicalismo na I República. Entre o paradoxo de ter sido o período histórico em que mais direitos foram dados aos trabalhadores e o facto de ter sido a altura em que os trabalhadores mais oprimidos foram - em que manif sem mortos não era a sério - ouvimos Fernando Rosas a garantir que Afonso Costa, o Principe da I República, era conhecido como "o racha-sindicalistas".

E demos por nós a pensar no assunto, num momento em que a GNR tem de proteger camionistas de serem apedrejados por colegas de profissão, em que o direito a não fazer greve é retribuído com uma pedra na testa. Em que se multiplicam piquetes não para fazer valer direitos ou pontos de vista, mas para combater - ferozmente - os "fura-greves".

E demos por nós a pensar no assunto, num dia em que os trabalhadores do Metropolitano de Lisboa decidiram fazer uma paragem a uma terça-feira entre as 6h30m e as 10 horas da manhã. Precisamente a hora em que cerca de dois milhões de portugueses precisam de transporte para ir de suas casas para o trabalho. Portugueses que chegaram atrasados ao emprego porque os senhores grevistas entenderam que era precisamente na hora de ponta que haviam de manifestar os seus direitos. Assim se mostra que o sindicalismo português acha que só prejudicando as pessoas, causando alarme social e rebuliço é que faz ouvir a sua voz, como se o Governo estivesse preocupado com isso!

Não entendemos este tipo de sindicalismo!
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sexta-feira, 11 de março de 2011

[1292.] de regresso

Depois de uma inusitada paragem de duas semanas, motivada por inesperadas questões de saúde e consequente período de convalescença, estamos de regresso.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

[1291.] Mercurii dies

“Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar”

A música está a causar sensação em blogues e em jornais nacionais. O grupo musical Deolinda – grupo de música popular portuguesa, inspirado pelo fado e pelas suas origens tradicionais – deu dois concertos nos coliseus e, no do Porto, apresentou o tema “Que Parva Que Eu Sou” – uma espécie de narrativa dos jovens portugueses, na casa dos vinte-trinta anos, “da geração sem remuneração”, “casinha dos pais” ou “nem-nem” (nem trabalha, nem estuda).
O grupo já havia apresentado, em álbuns anteriores, temas “de intervenção”, como “Movimento Perpétuo Associativo” – no primeiro albúm, que carateriza tão bem o cidadão português –, depois o “Fado Notário” – sobre a legalização do casamento gay – ou depois “Garçonete Da Casa De Fado” – sobre a emigração de brasileiros –, e depois 'A Problemática Colocação de Mastro' – sobre o mastro milionário de Paredes para comemorar o centenário da República.
“Que Parva que Eu Sou” está a promover debate pela avaliação feita pelo autor da letra de uma geração de portugueses que se mostra muito frustrada. Uns estão a usar a música para criticar o Governo Sócrates, outros procuram ir mais longe.
Na verdade, e temos de reconhecer isso mesmo, estas pessoas que hoje têm entre 25 e 35 anos, são as que estavam na escola no início da década de 90 do século passado, quando se implementaram as reformas da Educação do Governo Cavaco.
Esta geração de que fala a Deolinda é a primeira geração europeia – do Erasmus, da cidadania europeia e global. Esta geração é a filha da dos que implementaram a democracia em Portugal, da dos que terminaram com a Guerra Colonial. Interessará avaliar porque razão esta geração se mostra tão deprimida, tão tristonha? Interessará avaliar porque razão os mais brilhantes desta geração sentem necessidade de sair do seu país e da sua comunidade, para irem trabalhar para o estrangeiro, ou para Lisboa?

Editorial de 23 de fevereiro de 2011 do Jornal da Mealhada


[1281.] Hymno

Melhor versão no Youtube

Terei que voltar ao tema, quanto mais não seja por causa DISTO

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

[1290.] Mercurii dies

Mensagem no Dia de B.-P. aos participantes no II ACASECNUC


Caríssimos irmãos em Cristo,

Assinalamos hoje o Dia de B.-P., altura em que procuramos homenagear o fundador do movimento escutista no dia do seu nascimento. Desde 1926 que este é, também, para os escuteiros e guias de todo o mundo, o Dia do Pensamento.
E o Dia do Pensamento deve ser encarado como uma oportunidade, estabelecida no nosso calendário, para pensarmos na nossa acção como escuteiros, no que são os nossos deveres e obrigações, no que são os nossos sonhos e desafios, “onde estamos” e “para onde queremos ir” como pessoas, como membros da comunidade, como membros de uma fraternidade universal. Ao fazermos essa reflexão estaremos a homenagear os irmãos escuteiros do nosso agrupamento, os chefes que nos ajudaram ao longo de todo o nosso percurso e, sempre, estaremos a homenagear o génio de B.-P., a dedicação de Olave Baden-Powell, dos fundadores das nossas associações escutistas e todos os que deram o seu contributo para que o movimento que nasceu em Brownsea seja hoje o maior movimento de pessoas do mundo – congregando 28 milhões seres humanos.
O génio de B.-P. é, de facto, algo extraordinário. A capacidade que teve para prever que o método baseado numa fraternidade de ar livre e de serviço seria capaz de transformar a vida de tantas pessoas é algo que poucos imaginaríamos possível. B.-P. teve uma capacidade de ver o amanhã, de conhecer a realidade do seu tempo para a poder transformar no futuro, que é admirável. B.-P. conseguiu fitar além do óbvio, ir além do seguro, no fundo, ver “Para além da Linha do Horizonte”.

“Para além da Linha do Horizonte” é o mote do nosso último ano do triénio que começou em Junho de 2008. É o tema geral desta última actividade deste mandato, o ACASECNUC. Ao longo deste triénio procurámos apresentar ao Núcleo uma linha de coerência – nos gestos e na acção pedagógica –, uma proposta de continuidade, um projecto com princípio, meio e fim. E chegámos ao fim. A avaliação será feita depois, mas a verdade é que encontramos aqui, nestes dias – com a comemoração do Dia de B.-P. – o sinal do fim da pista, do regresso a casa.

Um tema não pode ser, apenas, um enredo para ilustrar uma brincadeira. Um tema de uma actividade de escuteiros tem de servir para muito mais do que para a escolha de umas máscaras, ou para as peças à volta do fogo-de-conselho. O tema tem de ser um desafio, uma oportunidade de crescimento, a proposta para mais uma superação pessoal e colectiva. É isso que pretendemos fazer ao longo destes três anos e é isso que procuramos fazer no nosso II ACASECNUC.
O tema geral é “Para além da Linha do Horizonte”, e os imaginários de cada uma das quatro secções têm como ponto-comum: “o Futuro”. O Futuro como o que garantidamente está para além daquilo que somos capazes de ver – a linha do horizonte. Porque o que vemos é fácil de entrar nas nossas vidas, diferente é o que sabemos que pode vir a acontecer, mas que é sempre uma hipótese até acontecer de facto, ou não.

E a vivência deste ACASECNUC obrigar-nos-á a pensar no futuro. Naquilo que poderão vir a ser as nossas limitações enquanto seres humanos num planeta que Deus nos “arrendou” por tempo determinado. Um planeta cujos recursos se estão a esgotar, recursos como a água potável, os combustíveis, os alimentos. Um planeta que está a sofrer transformações de forma extremamente rápida – como o degelo, as condições e os fenómenos climatéricos extremos, a poluição do ar e da água. Dificuldades que hoje são, ainda, uma miragem, mas que um dia poderão ser reais. Nas nossas mãos está o exemplo de B.-P., há cem anos: Ter a capacidade de ver o amanhã, conhecendo a realidade do tempo para a poder transformar no futuro.

Peço-te – a ti, lobito, explorador, pioneiro e caminheiro, e ao dirigente de modo muito especial – que aceites este desafio que te lançamos, e aceites viver num futuro com características muito especiais. Um desafio que não é fácil, um desafio que requer paciência, caridade, sacrifícios e mudança de hábitos, mas um desafio cuja superação um dia poderá vir a ser muito importante.

Ser capaz de ver “Para Além da Linha do Horizonte” é o tal desafio.


Boa caça.

Quinta do Valongo, 22 de Fevereiro de 2011

Lobo Irmão
Secretário Pedagógico da JN Centro-Norte - Coimbra