Romae, in Foro Caesaris, a.d. VII Id. Mart., hora undecima
Sentou-se nos degraus do templo a observar as obras na Cúria e, de vez em quando, levantava os olhos para as nuvens cinzentas e desfiadas que pairavam sobre a cidade.
- Não vejo hora de partir. A política romana oprime-me.
- A expedição terá os seus riscos - replicou Cílio.
- Pelo menos, estarei frente a frente com o inimigo, no campo de batalha, e terei homens em quem posso confiar ao meu lado. Aqui não sei em quem posso confiar.
- É verdade, no campo de batalha todos devem confiar uns nos outros, a vida de cada um depende disso.
- Vês esta arcada? Uma delegação do Senado encontrou-se comigo aqui há algum tempo. Para me enumerarem todas as honras que, numa só sessão, me haviam decretado. Respondi que não deviam dar-me mais honras e cargos, mas tirar-mos.
Cílio sorriu.
- Sabes o que me responderam? Que eu era um ingrato.Que não me levantara quandos eles haviam chegado, comportando-me, assim, como um deus, dado o lugar, ou como um rei. Sentado no trono sob a arcada de um templo.
- Sim ouvi dizer. Mas são coisas que não se podem evitar: qualquer gesto teu, o menor deles, mesmo que insignificante, é amplificado, é-lhe atribuído uma enorme importância. Uma importância fulcral! É o preço que qualquer homem tem de pagar pelo poder.
- Bem, a verdade é que até César tem a sua dose de misérias humanas. Sabes porque é que não me levantei? - disse num esgar. - Porque estava com diarreia. E as consequências poderiam ter sido embaraçantes.
- Ninguém acreditaria, bem sabes. De todos os modos, é com estes boatos que tentam destruir a tua imagem junto do povo, convencer toda a gente de que queres tornar-te rei.
César inclinou a cabeça e suspirou. Tinha os braços apoiados nos joelhos como um trabalhador cansado. Depois, ergueu a cabeça, fitou-o com uma expressão enigmática e disse:
- E tu acreditas nisso?
- Em quê, que queres ser rei?
- Sim. Que mais havia de ser?
Cílio, perplexo, também o fitou.
IDOS DE MARÇO
Valerio Massimo Manfredi
Porto Editora, 2011
Páginas 76 e 77, capítulo VII
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
[1523.] Idos de março
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
[1522.] Mapa de peregrinar
Já consultei muitos mapas de "caminhos de Santiago". Alguns deles já aqui os postei... No entanto, nenhum me parece tão inteligente como este, do site www.campus-stellae.org, da Universidade de Navarra para a acreditação universitária jacobeia. Apesar de a quilometragem poder não estar exacta (nomeadamente em relação ao Caminho Central Português) parece-me muito bom. Aqui fica para download dos interessados.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
[1521.] Nove anos
No passado domingo, 26 de agosto, passaram nove anos sobre a
publicação, em Diário da República, da Lei que elevou a, até essa
altura, vila da Mealhada à categoria de cidade. A decisão havia sido aprovada pelo plenário da Assembleia da República em 1 de julho e com a publicação tornava-se definitiva. No mesmo dia, idêntica decisão e publicação em relação a Oliveira do Bairro deu direito - durante breve trecho, é certo -, a Feriado Municipal nesse dia de solenidade. Mas na Mealhada não. Aliás, tirando meia dúzia de foguetes lançados pelo executivo da Junta de Freguesia da novel cidade, nesse dia 1 de julho, nunca houve sequer um simples assinalar da data.
Não fosse a tradicional aversão dos órgãos autárquicos às comemorações civis da nossa comunidade - de que é exemplo o Feriado Municipal, anual, (nunca assinalado) ou o 175.º aniversário da elevação a concelho, que aconteceu em novembro de 2011 - e poderia dizer-se que há uma espécie de vergonha em festejar a elevação à categoria de cidade. Não há vergonha nenhuma, reconheçamos isso. Há, pelo contrário, uma tradicional negligência neste domínio. E é pena, pensamos nós (naturalmente), que até nem somos muito festeiros... Justificava-se a comemoração - qualquer uma das três referidas - como se justifica o assinalar (por mais simples que seja) da Batalha do Bussaco, ou do 25 de Abril. São datas que fazem parte do nosso património coletivo e que nos distinguem como comunidade.
O processo de elevação da Mealhada a cidade foi doloroso, mas, nove anos passados, as feridas deveriam estar saradas. Será cedo para fazer um balanço de nove anos de cidade? Será que essa decisão influenciou alguma coisa o desenvolvimento do concelho? Estas e outras perguntas não precisariam de ser nesta altura respondidas, assim pudessemos nós, como comunidade, ter a maturidade suficiente para as fazer.
Talvez para o ano... Não será, certamente, tarde de mais.
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Às vezes, somos enganados pelo nosso cérebro (ou será pelos nossos medos) e, perante palavras escritas, não lemos o que elas encarreiradas dizem, mas pomo-nos a congeminar sobre as intenções escondidas de quem as terá escrito, recusando-nos a ler, de facto, e caindo na especulação pura. Diz o sábio povo que "bom julgador a si se julga". Pelo que quase sempre vemos no maquiavelismo dos outros o nosso próprio reflexo. Manda a honestidade que cada um seja julgado pelo que fez (ou escreveu) e não pelo que o que os outros teriam querido ler...
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domingo, 26 de agosto de 2012
[1520.] Eles estão em todo o lado... até na lua?
sábado, 25 de agosto de 2012
[1519.] Uma reflexão, um desafio, uma sugestão
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
[1518.] A tradição na Arte de Bem Servir...
HILÁRIO RODRIGUES CASTELA nasceu em Sernadelo, em
12 de fevereiro de 1905, filho, o segundo de cinco, de um carpinteiro do Palace
Hotel do Bussaco.
Muito jovem, seguiu para Coimbra, para fazer estudo na Escola Comercial da cidade. Empregou-se como caixeiro e ali viveu até à decada de 1940, altura em que regressou a Sernadelo para ajudar o cunhado - Álvaro Pedro - a abrir um novo estabelecimento - o que viria a transformar-se no "Pedro dos Leitões".
Em 1 de janeiro de 1973, Hilário Rodrigues Castela, com a esposa e a filha, estabelece-se por conta própria. Abre o "Restaurante HILÁRIO", e na retaguarda um conjunto de quatro quartos que aluga como residencial. Durante aproximadamente dez anos fará a exploração dos dois estabelecimentos.
A experiência como comercial em Coimbra e o trabalho no restaurante do cunhado tornaram Hilário Rodrigues Castela num especialista na Arte de Bem Receber e Servir. Simpatia, delicadeza e atenção marcam um estilo que fez escola na região e deixou como seguidores todos os que com ele trabalharam ao longo de décadas de serviço à Mealhada, à Bairrada e à sua gastronomia.
Muito jovem, seguiu para Coimbra, para fazer estudo na Escola Comercial da cidade. Empregou-se como caixeiro e ali viveu até à decada de 1940, altura em que regressou a Sernadelo para ajudar o cunhado - Álvaro Pedro - a abrir um novo estabelecimento - o que viria a transformar-se no "Pedro dos Leitões".
Em 1956 casa-se com MARIA DA SILVA GUARDA, ganha a lotaria por duas vezes, é pai, e investe o que ganhou numa vivenda na terra natal.
A primeira equipa do Restaurante Hilário, em 1973.
Em 1 de janeiro de 1973, Hilário Rodrigues Castela, com a esposa e a filha, estabelece-se por conta própria. Abre o "Restaurante HILÁRIO", e na retaguarda um conjunto de quatro quartos que aluga como residencial. Durante aproximadamente dez anos fará a exploração dos dois estabelecimentos.
No inicio da década de 1980 cede a exploração do restaurante, e é Mariazinha, a esposa, que fica a gerir a residencial, que expande de maneira muito significativa, primeiro juntando mais seis aos quartos que tinham, e mais tarde, em 1987, mais quinze.
A Residencial Hilário tornou-se, então, num espaço de paragem obrigatória de viajantes e especialmente de peregrinos a caminho de Fátima, que ali encontravam todo o conforto - em ambiente acolhedor e familiar - a um preço extraordinariamente económico.
A Residencial Hilário tornou-se, então, num espaço de paragem obrigatória de viajantes e especialmente de peregrinos a caminho de Fátima, que ali encontravam todo o conforto - em ambiente acolhedor e familiar - a um preço extraordinariamente económico.
No inicio do ano de 2005, Mariazinha, já com 80 anos, começa a transferir a gestão do espaço e do património que foi construindo aos netos, e em finais de 2008 começa uma nova fase do complexo Restaurante e Residencial Hilário. Filha, genro e netos encetam um processo de ampla reconversão do espaço, com a renovação completa da residencial, com a conversão de alguns espaços em apartamentos T0 e T1 e com a construção de um Albergue de Peregrinos - de inspiração jacobeia com lotação para mais dezasseis pessoas. Numa terceira fase, procedem, ainda, a uma requalificação profunda do espaço do restaurante - incluindo a sala de jantar, a cozinha, espaços de apoio e um lounge.
Em 9
de julho de 2012, filha, genro e netos de Hilário Rodrigues Castela e Mariazinha reabrem o "HILÁRIO", procurando recuperar
a tradição e o estilo da Arte de Bem Servir.
A experiência como comercial em Coimbra e o trabalho no restaurante do cunhado tornaram Hilário Rodrigues Castela num especialista na Arte de Bem Receber e Servir. Simpatia, delicadeza e atenção marcam um estilo que fez escola na região e deixou como seguidores todos os que com ele trabalharam ao longo de décadas de serviço à Mealhada, à Bairrada e à sua gastronomia.
Hilário Rodrigues Castela faleceu em 1991, três dias antes de completar 86 anos. Maria da Silva Guarda Castela faleceu em 21 de junho de 2009.
Hoje, com o genro a filha e os netos, a tradição continua viva.
Hoje, com o genro a filha e os netos, a tradição continua viva.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
[1517.] A caminho... em marti dies
Diz-se que o Caminho se faz caminhando... mas é em casa que começa. Sempre em casa.
No sábado acertámos a primeira decisão de mais um Caminho. Acertámos datas e é tempo de escolher o Caminho, ou escolher o percurso, bem entendido.
É como se já estivessemos a caminhar... em mais um roteiro de encontro com nós próprios. Anseia-se, antes do nervoso miudinho... prepara-se, para que só o inevitável falte...
Porque hoje é Marti Dies, terça-feira, fica uma das músicas - Santiago de Compostela - do filme "The Way", de Emilio Estevez, com Martin Sheen. Um tema com letra de Tyler Bates.
[1516.] "O que dizem os outros que Eu Sou?"
[1515.] O que é ser bom escuteiro?
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
[1514.] Solis dies... à sexta... sobre a lua?
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
[1513.] 44 por cento do nossos descontentamento!
Governo da República - dando cumprimento a uma estratégia de
"limpeza" dos sorvedouros do Estado - divulgou, no dia 2 de agosto, o
relatório de avaliação das fundações "nacionais ou estrangeiras, que prossigam os seus fins em território nacional, com vista a avaliar o respetivo custo/benefício e viabilidade financeira e decidir sobre a sua manutenção ou extinção, sobre a continuação, redução ou cessação dos apoios financeiros concedidos, bem como sobre a manutenção ou cancelamento do estatuto de utilidade pública". Era uma avaliação aguardada e, assim nos parece, importante.
Os resultados relativos à Fundação Mata do Bussaco é que não foram nada animadores. A Fundação criada em 2009 para gerir a Mata Nacional do Bussaco foi classificada com a nota de 44 pontos, numa escala de 1 a 100.
A nota - os 44 por cento - é baixa. É, naturalmente, negativa. E seria desonesto dizer ou tentar demonstrar o contrário.
Naturalmente que há atenuantes, que, de certa maneira, relativizam este valor. A Fundação Mata do Bussaco (FMB) começou a trabalhar em 2010 e a avaliação do Governo ponderou o trabalho realizado em 2008, 2009 e 2010. Ou seja, o trabalho de arranque de um ano da instituição foi avaliado como o de três anos de pleno funcionamento.
Como já se disse, a nota é baixa. Mas também não fará sentido colocar agora em causa o trabalho feito pela FMB nos últimos três anos e resumi-lo a este valor. Esta solução - a da fundação - pode ter problemas, que os tem, pode ter deficiências, que as tem, pode estar a ser monopolizada por um setor, a sua ação e alegados feitos quotidianos pode estar a ser sobrevalorizada, mas que não restem dúvidas de que é a melhor solução até agora apresentada e posta em prática para a gestão de um património que estava a degradar-se, que estava abandonado pelo Estado, que estava refém da burocracia e do nepotismo incompetente da administração central sem rosto. Uma entidade gestora com uma avaliação de 44 por cento é negativa, mas é muitissimo melhor do que a gestão que existia antes.
A avaliação do Governo, considera que, até 2010, ao nível da "Eficácia" (especialmente no "custo eficácia das principais actividades e produtos e/ou serviços prestados" a avaliação é muito má. E que quanto a "Sustentabilidade", o resultado não é nada famoso. Mas quanto a "Pertinência/Relevância", ou seja, quanto à necessidade desta estrutura, o resultado é óptimo, situando-se na casa dos 70 por cento.
O "estado de graça" da FMB pode ter acabado, e é tempo de terminar com os elogios rasgados e acríticos, que misturam a exaltação da necessidade da instituição com o mérito pessoal dos gestores e técnicos - até porque não há só bestiais e bestas. Mas é exagerado colocar, agora, tudo em causa. Sem dramatismos, mas com muita humildade por parte de quem está à frente da FMB, com honestidade intelectual, com sentido de responsabilidade e de Serviço fará sentido avaliar o que está a correr menos bem, congregar sociedade civil e a comunidade na definição de rumos, despolitizar e despartidarizar e, acima de tudo, congregar esforços para evitar que algum iluminado se lembre de extinguir a Fundação Mata do Bussaco, especialmente em nome de uma avaliação que embora necessária, menoriza um aspecto essencial que é o de que pode ter problemas, mas é a melhor forma encontrada e aplicada de gerir aquele Património.
Saibamos todos ser críticos, mas honestos, austeros, mas eficazes, retos, mas muito práticos!
Editorial do Jornal da Mealhada de 15 de agosto de 2012
[1512.] Como se mede o Escutismo?
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
[1511.] ACANAC de 2012 e o Escuteirar em "obrigadês"!
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
[1510.] Mercurii dies em dia de homenagear os Avós
A Idade dos Avós
Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de agosto de 2012
Há quarenta anos, era expectável que um português, em média, vivesse até aos
60 anos. Hoje, essa Esperança está nos 79 anos, sendo de 82 para as portuguesas.
Para além destes números serem indicadores de progresso científico, de melhoria das condições de vida das pessoas, no fundo, de desenvolvimento, são, também, motivos para uma ampla reflexão, dado o impacto que têm sobre a sociedade e sobre o chamado Estado Social. Não valerá a pena estar a ilustrar a consequência destes dados no Sistema Nacional de Saúde, na Segurança Social, ou nas respostas sociais de terceira idade, cuidados continuados ou paliativos.
Os portugueses que entraram agora na vida ativa, que estarão na casa dos 20/30 anos, trabalharão até aos 60 ou 70 anos e viverão até aos 90 ou 100 anos. Ou seja, por exemplo, estarão reformados quase tanto tempo quanto o que trabalharam.
Na verdade, temos, agora e daqui para a frente, uma verdadeira Terceira Idade. Depois da Idade do Crescimento, e da Idade do Trabalho, há a Terceira Idade, a da reforma, que nem por isso deve ser menos produtiva e frutífera. Antes pelo contrário.
Formas para os nossos seniores continuarem a dar o seu contributo à sociedade são mais do que muitas. O serviço em instituições de voluntariado, de associações e IPSS, nas escolas e na formação de jovens, em grupos de ação e divulgação cultural ou de formação desportiva, etc.. Há, também, as Universidades Seniores, como a que a CADES abrirá na Mealhada e em Luso, em setembro próximo, ou a ação política nas autarquias locais, por exemplo.
Mas de todas estas ocupações há uma, especialmente altruísta e notoriamente de Serviço que é a ocupação de ser avô e avó. Os jovens e as crianças de hoje têm uma oportunidade que muitos dos seus antepassados não tiveram, a de poder conviver e receber instrução e educação dos seus avós.
Hoje, os avós, através dos seus cuidados, do carinho, do apoio e do serviço é uma instituição que beneficia novos e idosos e se reveste de particular importância, num tempo em que pai e mãe trabalham fora e têm uma carreira, em que a escola dura tempo de mais e as crianças chegam a ficar esgotadas com tanta ocupação e tão pouco tempo livre.
Na passada quinta-feira, Dia de Sant’Ana e de São Joaquim - segundo a tradição, os pais de Maria, logo avós de Jesus -, assinalou-se mais um Dia Nacional dos Avós. Dia festivo, de reflexão e homenagem, no Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade Entre gerações.
Valerá a pena pensar de que forma estamos nós, enquanto comunidade, a aproveitar esta dádiva e este potencial, que são os nossos seniores. Potencial que pode ter aproveitamento cultural, social, económico, mas, acima de tudo, cívico e de desenvolvimento humano.
Era bom que o aumento da esperança média de vida significasse, também, um crescimento de Esperança, um crescimento de Vida de Qualidade e, principalmente, de Felicidade.
Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de agosto de 2012
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quarta-feira, 18 de julho de 2012
[1509.] Mercurii dies em dia de citar Rosália de Castro
«Este parte/ aquele parte/E todos, todos se vão»?
Há poucos dias, a catadupa de uma conversa, daquelas que começam num "por acaso" e não se
sabe como terminam, aportámos na filosofia de Jaime Cortesão - quase um conterrâneo, aqui
de Ançã - e sobrevoámos as teorias de Agostinho da Silva, a propósito do determinismo de "ser português". Defendia Cortesão que há um "humanismo universalista" no "ser português", uma espécie de característica genética da portugalidade, que nos condiciona em quase tudo, que nos refrata a forma como vemos o mundo, e, especialmente, na relação que temos com os outros. Cortesão fala de um humanismo prático, pragmático, que está na essência do português e, acima de tudo, um papel especial dos portugueses na história da civilização: o descobrimento e a unificação do Mundo pelo conhecimento.
Vem isto a propósito do aparente paradoxo destas teorias com a prática da nossa atitude coletiva perante a emigração portuguesa - a Diáspora - que insistimos em desvalorizar, em menorizar, em ridicularizar, quase como se nos sentissemos traídos por eles terem saído do país e nós não. O emigrante de regresso a casa é sempre o francês... ou o americano...
O anúncio televisivo da criança que dizia aos jogadores da Seleção Nacional de Futebol que não queria sair do país, mas se eles não ganhassem "ia ter de ser", aliado à onde de protestos sobre as declarações do Governo sobre a emigração de jovens quadros, é, apenas, a espuma mais recente de uma ideia que nos está enraizada desde os "vapores para o Brasil".
Aos jovens de hoje - a todos os que têm hoje menos de 40 anos, talvez - impingimos, depois da adesão à CEE, em 1986, a ideia de que eram uma geração europeia, que tinhamos de conhecer o mundo. Para isso aproveitaram-se e divulgaram-se Interrails, Erasmus, intercâmbios escolares, viagens de estudo e afins. Quando os frutos se começam a ver e os portugueses são requisitados para trabalhar na tal Europa onde nos devíamos mostrar, aqui del-Rei que ficamos sem gente. Volta-se a cantar o poema de Rosália de Castro sobre os "campos de solidão". Disparate.
Os emigrantes portugueses são uma das mais-valias que temos. Em termos de projeção, em termos económicos, em termos culturais. Ativos que precisam de ser colocados ao serviço do coletivo.
Evocando Cortesão, parece-nos que ser emigrante é ser um português completo.
Editorial do Jornal da Mealhada de 18 de julho de 2012
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
[1508.] Lunae dies em dia de regressar ao legado
O meu amigo NJ costumava dizer (terei conjugado bem o verbo?) que eu sou irritantemente optimista. E é verdade que o sou... mais com os outros do que comigo... mas é verdade que sou muito optimista. Quem me conhece bem sabe porquê... e sabe o que seria se assim não fosse... mas adiante!
Nem sempre fazemos o que nos apetece... e nem sempre o que nos sabe bem pode ser feito... depois de oito meses de espera e grande angústia... a vida começa a encarreirar. O jornal voltou às bancas e sinto que já posso levantar a cabeça, porque consegui cumprir a minha palavra. E novas oportunidades se abrem, agora, com a conjugação possível entre o que "quero fazer" com o que "devo fazer" e com o que "tem de ser feito".
Do mesmo modo que eu, no meu intimo, sabia que um dia trabalharia num jornal - porque a minha mãe tinha uma quota no JM, porque eu gostava do jornalismo e porque o queria fazer - também sabia que um dia trabalharia num restaurante - porque os meus avós eram proprietários de um restaurante, porque eu gostava do negócio e porque o queria fazer. Confesso que, tanto num caso como no outro, não imaginava que o fizesse tão cedo (aos 25 anos no primeiro caso e aos 33 no segundo). Mas a verdade é que eu sabia que isto ia acontecer.
Desafiei a minha família a lançar-se nesta aventura, aceitaram e na segunda-feira, 9 de julho, começou uma nova etapa da minha vida: A de dar seguimento à obra dos que me antecederam, no caso concreto do meu avô Hilário e da minha avó Maria, que em 1 de janeiro de 1973 abriram um restaurante com serviço de residencial.
ESPERO ESTAR À ALTURA DO LEGADO!
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quarta-feira, 4 de julho de 2012
[1507.] Mercurii dies em dia de regressar a respirar
Voltar para cumprir
Regressámos. A edição impressa do Jornal da Mealhada
voltou às bancas, às mãos dos nossos assinantes e ao
convívio dos nossos leitores mais tradicionais. Demorámos mais do que esperávamos. Tardámos mais do que desejámos. Mas aqui estamos: Renovados, fortalecidos e cheios de energia para regressar ao nosso lugar, na promoção do Direito à Informação, através de um jornalismo sério, honesto, independente e livre. Voltámos para cumprir.
A empresa JM – Jornal da Mealhada Lda, a detentora do Jornal da Mealhada desde julho de 1987, foi liquidada. Os activos e o passivo da empresa foram adquiridos pelos principais credores, nós próprios, que, depois de várias tentativas e uma profunda maturação, decidimos doar os títulos de comunicação social – o Jornal da Mealhada, o FRONTAL e a revista VIA – à Santa Casa da Misericórdia da Mealhada.
A Santa Casa da Misericórdia da Mealhada é uma instituição centenária – o que é garante da sua perenidade e da perpetuidade dos seus valores intangíveis –, a mais antiga das não-públicas no concelho da Mealhada, com um forte enraizamento nas comunidades da região, com a alma cheia dos ideais que se esperam de um jornal regional que, como dissemos em dezembro, é, acima de tudo, das pessoas e das comunidades. Dito de outra forma, consideramos que a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada acaba por ser a instituição ideal para, na garantia da continuidade, como legado da comunidade, receber a propriedade do Jornal da Mealhada.
Mesmo assim, os dirigentes da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, na humildade de quem recebe um legado naturalmente oneroso, obviamente sensível, especialmente sujeito ao escrutínio público, e ciente de que para além de ser é preciso demonstrar credibilidade, aceitou o ónus da constituição de um Conselho Editorial, composto por três personalidades, e a quem caberá manter os valores intangíveis da publicação, tais como a independência, a objectividade, o rigor e a defesa intransigente das comunidades onde se insere, garantindo a total Liberdade, de expressão e de pensamento, e a Independência da publicação.
Nos próximos meses, que são tempos estivais e de férias, a edição impressa do Jornal da Mealhada será quinzenal. Depois disso, reavaliar-se-á a questão no sentido de, com sustentabilidade, regressarmos ao contacto semanal.
O contacto direto e imediato com os nossos leitores através da edição on-line, na internet, com atualizações diárias e em tempo real, manter-se-á. Ficou demonstrada a relevância da ferramenta, a utilidade deste novo instrumento de informação e de comunicação comunitária.
O tempo de paragem serviu, como no propusemos, para refletir, para garantir que é prestado, com qualidade, um serviço, que outros, antes de nós, assumiram e do qual nos sentimos herdeiros e, acima de tudo, legatários. Um serviço que se quer cada vez melhor, cada vez mais próximo das pessoas, um serviço que o seja verdadeiramente e cada vez mais cuidado.
Os seis meses em que estivemos sem edição impressa foram penosos, difíceis e duros. Mas foi muito importante e gratificante a confiança, que, quase todos, demonstraram na nossa palavra, na promessa de que voltaríamos. A eles – assinantes e anunciantes, especialmente – o nosso agradecimento.
Prometemos e cumprimos. Voltamos ao seu contacto, através da edição impressa. "Frescos e preparados para o futuro". Nos próximos meses contamos apresentar uma nova imagem, uma nova apresentação. Trabalharemos ainda no desenvolvimento de novos produtos, novas formas de divulgação da informação e, também, novas ferramentas de intervenção. Mais fortes do que nunca, com o rigor e seriedade de sempre, estimulados e conscientes de que, enquanto houver estrada para andar, é nossa obrigação, é nossa missão, continuar. Não por nós, mas por todos.
Editorial do Jornal da Mealhada de 4 de julho de 2012
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
[1506.] Mercurii dies, entre a Justiça, a Sabedoria e o Amor
«Trouxeram ao rei uma espada. "Cortai pelo meio o menino vivo", disse ele, "e dai metade a uma e metade à outra". Mas a mulher, mãe do filho vivo, sentiu suas entranhas enternecerem-se e disse ao rei: "Rogo-te, meu senhor, que dês a ela o menino vivo; não o mateis". A outra, porém, dizia: "Ele não será nem teu, nem meu. Seja dividido!".
Então o rei pronunciou o seu julgamento: "Dai", disse ele, "o menino vivo a essa mulher. Não o mateis, pois é ela a sua mãe".»
I Reis, 3, 24-27
O episódio bíblico, conhecido como a Justiça de Salomão, serviu de mote à maior parte das decorações em tribunais - pelo menos em tribunais portugueses. É, normalmente, visto como uma alegoria à Justiça e à Sabedoria do julgador. Salomão conseguiu, através de uma artifício simples descobrir - ou apurar? - a Verdade e, assim, conseguir produzir uma decisão justa.
Mas esta é, também, uma alegoria ao Amor Verdadeiro. Ao Amor que prefere doar e persistir do que possuir e matar ou impedir que outros possuam o que não pode ter.
A mãe verdadeira, porque ama realmente, prefere que a falsa mãe, rancorosa, invejosa e má, tenha o que não é seu a ver o seu filho morto. Antes vivo e longe do que morto.
Se centramos a nossa atenção na mãe verdadeira e não tanto em Salomão, percebemos melhor a lição que um outro ponto de vista nos pode proporcionar. E até nisso sobressai a sabedoria divina dada ao rei de Israel. A de saber avaliar e perceber a Verdade no Amor demonstrado, que muitas vezes é, exactamente, um acto de renuncia ou despojamento completo.
Então o rei pronunciou o seu julgamento: "Dai", disse ele, "o menino vivo a essa mulher. Não o mateis, pois é ela a sua mãe".»
I Reis, 3, 24-27
O episódio bíblico, conhecido como a Justiça de Salomão, serviu de mote à maior parte das decorações em tribunais - pelo menos em tribunais portugueses. É, normalmente, visto como uma alegoria à Justiça e à Sabedoria do julgador. Salomão conseguiu, através de uma artifício simples descobrir - ou apurar? - a Verdade e, assim, conseguir produzir uma decisão justa.
Mas esta é, também, uma alegoria ao Amor Verdadeiro. Ao Amor que prefere doar e persistir do que possuir e matar ou impedir que outros possuam o que não pode ter.
A mãe verdadeira, porque ama realmente, prefere que a falsa mãe, rancorosa, invejosa e má, tenha o que não é seu a ver o seu filho morto. Antes vivo e longe do que morto.
Se centramos a nossa atenção na mãe verdadeira e não tanto em Salomão, percebemos melhor a lição que um outro ponto de vista nos pode proporcionar. E até nisso sobressai a sabedoria divina dada ao rei de Israel. A de saber avaliar e perceber a Verdade no Amor demonstrado, que muitas vezes é, exactamente, um acto de renuncia ou despojamento completo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
[1505.] Veneris dies, com Ella
Há quem diga que é a maior cantora do século XX. Ela é Ella Fitzgerald. Morreu há 16 anos. Feitos hoje. Menos palavras, oiça-se a First Lady of Song.
Summertime
Summertime é uma aria da opera 'Porgy and Bess', de 1935, composta por Gershwin, com letra de Heyward. É uma dos mais populares de jazz com mais de 33 mil covers de grupos e performances a solo.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
[1504.] Iovis dies, com Immendorff, no Elogio da Esperança.
Tudo está bem, quando acaba bem.
É este o título (Ende gut, alles gut) deste quadro (óleo sobre tela) do pintor alemão Jörg Immendorff, que faria hoje 67 anos, se não tivesse morrido em 2007.
As águias que preenchem este quadro - vendido em fevereiro de 2007 por 250.000 libras - fazem-me lembrar o galinheiro em que se tornou o mundo, em véspera de eleições na Grécia, e da Cimeira Rio+20, em dias de colapso espanhol, em tempos de cólera futebolística...
Só Esperança é que parece não haver em lado nenhum. "Tudo está bem, quando acaba bem". Quem dera que acabe, que acabe depressa e que acabe em bem, para que se possa dizer que, então, "tudo está bem!"
Resta a Esperança.
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