sexta-feira, 2 de maio de 2014

[1878.] A grande Catarina

Antes de haver Angela Merkel, já outra senhora alemã tinha demonstrado os dotes de regência do governo dos povos com mão de ferro e (apenas aparentemente) de maneira iluminada.

Catarina, a Grande, (1729-1796) imperatriz da Russia, assinala hoje o 285.º aniversário do seu nascimento.

O poder no feminino devia ser objeto de estudo. Governam as mulheres melhor do que os homens? E em que aspectos? O poder absoluto em homens e mulheres manifesta-se de maneiras diferentes?

Catarina depôs o marido, tomou-lhe o lugar, expandiu a Russia, modernizou a administração, tornou-a numa potencia de gente iluminada e sofisticada. Teve na sua corte, como conselheiro de Estado, o médico português e judeu António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783) - natural de Penamacor, cristão-novo dos lados de Idanha a Nova.
Catarina teve à sua volta os maiores intelectuais do iluminismo ocidental, mas em nada aplicou as ideias vanguardistas à opulência czarina.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[1876.] O primeiro primeiro de maio

 
Cartoon de João Abel Manta (n.1928)
 
João Abel Manta "ficará associado dum modo muito particular ao melhor e ao pior que em Portugal vivemos nesses dois anos" (1974-1975) in João Medina 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

[1874.] Tributo

Memória de um servidor

Tributo a Basílio Gouveia Lopes

Depois de uma vida cheia, de trabalho e sacrifício, cabe ao homem na sua reforma uma escolha dolorosa. Ou goza tudo o que conquistou, ou continua a servir.

Terá sido esse um dos mais profundos dilemas de Basílio Gouveia Lopes, na última fase da sua vida. Confidenciou-mo várias vezes. Mas o impulso diário focava-o no essencial: Quem não vive para servir… não serve para viver.

É normal pensar-se que o ocaso da vida de um homem é de pantufas e gozo do conquistado. Que desperdício! O saber acumulado, a exaltação de uma vida cheia só pode dar a cada homem a oportunidade terminal de servir a comunidade em que vive de corpo e alma. Será egoísmo viver a vida no seu casulo sem nada fazer pelos outros? Poderá não ser. Poderá até ser aceitável numa sociedade que interna os velhos e os trata como aparas de um detrito que já serviu, mas já não tem valia.

Cresceu, fez-se homem. Trabalhou como azeiteiro e calcorreou os caminhos das pedras até decidir ir para França. Trabalhou de sol a sol na terra dos gauleses. Com o filho longe, dando tudo ao trabalho. Foi como são muitos. Foi mais um ‘valise de carton’ como tantos outros… francês na sua terra, português na terra dos outros… sem ser nada, mas conseguindo conquistar tudo. Tudo o que sonhara.

Regressou a casa no final de uma vida de trabalho. Bolsos cheios, boa ‘retraite’, alguma saúde. O sonho do descanso…

Mas não. Soube dizer que sim para a missão de secretário da Junta de Freguesia da Mealhada. Oito anos de serviço diário, empenhado, preocupado, diligente, austero, capaz e muito exigente. Um encargo que foi ficando mais pesado, mas nunca desistindo.

Antes da Junta de Freguesia já tinha assumido a missão de se dedicar à Irmandade de São Sebastião, na Mealhada. E a irmandade fundada em 1835 renasceu, e cresceu, e passou a cumprir as obras de misericórdia do seu estatuto. Todas. E a capela do mártir foi recuperada, obras e mais obras. Não o fez sozinho. Naturalmente. Mas foi força motriz e porto seguro em cada momento.

Na paróquia assumiu lugar no Conselho Económico Paroquial. Pesada tarefa a de abrir e zelar pela capela mortuária. Muitos trabalhos, muita dedicação, sempre empenho, preocupação, diligência, austeridade, capacidade e muita exigência.

No final, há poucos meses, procurou-me e pediu-me que o ajudasse na missão que faltava e que o preocupava: “Não quero morrer sem terminar o processo do busto ao padre Abílio”. Como secretário da Junta de Freguesia tinha apoiado a primeira iniciativa e como membro do Conselho Económico Paroquial tinha apoiado todas as investidas. Mas faltava fazer-se. Respondi-lhe: “Vamos a isso. Outra vez”. E fomos, mas foi ele que foi buscar orçamentos, ver possibilidades de outros materiais que não o bronze, arranjar quem esculpisse e quem fizesse. De tudo ia dando conta e pedindo apoio e compromisso. Tinha medo que se pelava de falar… “às vezes escapa-me o francês!”, mas nunca deixou de ir onde quer que fosse.

A doença trouxe o sofrimento, e o penar. E já não conseguiu ir à festa da inauguração do seu busto, da sua última missão. Mas o busto está lá. Está feito.

“Ninguém comete maior erro do que nada fazer, só porque o que pode fazer é pouco!”. Dizia Edmund Burke, filosofo irlandês do séc. XVIII. Porque o que pode parecer pouco, muitas vezes faz a diferença. O serviço é, verdadeiramente, um caminho de felicidade.

Obrigado senhor Basílio!
 
Texto publicado no Jornal da Mealhada de 30 de abril de 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

[1873.] Perplexidades de um rapaz moreno... lunae dies...

 
Nunca considerei o suicídio como uma ato de cobardia. Antes pelo contrário. Tenho mais medo da morte do que da vida... Mas não posso deixar de ficar perplexo quando um jovem, que parece ter tudo, termina com a sua vida.
Pedro Cunha matou-se... Não compreendo porquê...


sexta-feira, 25 de abril de 2014

[1871.] Pedir a demissão do Governo é tão natural como pedir chuva em abril, e sol em outubro.

Pedir a demissão do Governo é tão democrático que até seria terrivelmente castigado numa ditadura.
Pedir a demissão do Governo é tão natural como pedir chuva em abril, e sol em outubro.
Pedir a demissão do Governo é um direito de expressão de qualquer português, hoje tão natural como o dever de aceitar e ouvir a opinião contrária.
Pedir a demissão do Governo, numa democracia, é tão legitimo como ouvir um pescador na RTP1 dizer que faltam ao país 100 Salazares. Ou que a ponte sobre o Tejo devia continuar a chamar-se Ponte Salazar.

Mas que seria da Democracia se fossemos a eleições cada vez que um grupo de pessoas pede a demissão do Governo? E que seria da Democracia se criássemos 100 Salazares (não vejo como pudessem coexistir)? Vamos inconstitucionalizar a existência de partidos fascistas se um grupo de pessoas o pedir?

Será assim tão fácil?

[1870.] "Otelo não é um herói!"


A não perder hoje no Expresso, o texto de um filho de um dos assassinados de Otelo, titulado "Otelo não é um herói!".
Num país civilizado o lugar dos terroristas é na prisão... mesmo que hoje (2014) já lá não estivesse... ao menos o pudor de não quererem branquear a história e um terrorista anti-democrata que ameaçou a Democracia. Sim, essa que tão bem Miguel Sousa Tavares, no mesmo jornal identifica tão claramente!

[1869.] Criador e criatura...


Quando estavam a fazer os vídeos que apresentaram ontem no jardim municipal, os três alunos da EPVL mais envolvidos na edição de imagem tiveram a gentileza de me pedir que os visse antes de serem definitivamente editados.... Tirando uma ou outra gralha, juro que não censurei nada...
Mas ao ver o vídeo com os artistas vindos do exílio a cantar o "Grândola" um deles virou-se para nós e disse: "Parecem os Homens da Luta". Procurei explicar que estes são os originais das caricaturas que os HL pretendem 'ressuscitar', mas não sei se consegui... culpa minha... é difícil perceber o que é criador e o que é criatura... mesmo que 40 anos depois do ovo ou da galinha...
 
 

[1868.] As (verdadeiras) mulheres de abril...


Regressei das comemorações oficiais do 25 de abril na Mealhada e da romagem dos bombeiros da Mealhada ao cemitério e sentei-me no sofá a ouvir o discurso do Chefe do Estado. O professor terminou e irritado com a inerguminidade de alguns senhores jornalistas, mudei de canal. Na TVI o senhor Goucha estava a falar com uma jornalista (Ana Sofia qualquer coisa) sobre um livro publicado com o título 'Capitãs de Abril'.
Interessei-me...
Mas não... as capitãs eram as esposas dos capitães...

Naturalmente, se as Forças Armadas não tinham senhoras... se a Revolução foi feita pela tropa... é natural que as mulheres não tenham tido o protagonismo no sentido estrito da palavra.

Mas as mulheres acabaram por ser quem mais ganhou com a Revolução com nome de flor...

A emancipação da mulher, as raízes do que hoje poderá chamar-se Igualdade de Género foram conquistas da revolução que já roçavam os direitos mais básicos de um cultura moderna.

Na Mealhada, logo em 1976 elegemos a primeira mulher presidente de Câmara do país (Dr.ª Odete Isabel) e uma das primeiras mulheres presidentes de junta (professora Vera Melo). Curiosamente também em Medelim era eleita uma senhora (Dona Mimi).

40 anos depois 'botaram faladura' na Assembleia Municipal de Comemoração da data, cinco senhoras: Isabel Lemos, Paula Coelho e Isabel Santiago, em nome dos partidos (CDU, PS e PSD respetivamente), Odete Isabel e Paula Coelho, presidente da Assembleia Municipal. Um cenário impossível antes do 25 de Abril (dixit o único homem da mesa, Rui Marqueiro, que confidenciou o impulso de Odete Isabel para a sua via politica, ao tornar-se no mais jovem presidente da Assembleia Municipal do país).
Na assistência estava, ainda, uma das poucas mulheres do país comandante de uma corporação de bombeiros.

Estas sim, foram e são as verdadeiras mulheres de abril. Porque foram e são pelo que são e não pelos seus maridos.

[1867.] Será pudor ou liberdade?







quinta-feira, 24 de abril de 2014

[1866.] O olhar dos do 26 de abril: “Ou encontramos uma via, ou fazemos uma”.

 
Mural no exterior da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH)
da Universidade Nova de Lisboa
2014
 
 
A iconografia do período revolucionário é interessante. Mas cada vez mais o '25 de abril' está a tornar-se um '28 de maio' e já só o regime (autarquias incluídas) é que considera a data digna de comemoração efervescente.
Comemorar os 40 anos do 25 de abril é uma data redonda e excecionalmente há movimentações (mais culturais que políticas) que se mexeram para assinalar a data.
 
Um destes olhares é dos do 26 de abril, como eu, os filhos da Democracia, que consideram o 25 de abril como um revivalismo, mais do que qualquer outra coisa.
 
Em Iovis dies fica o mural dos 40 anos do 25 e abril.
 
Trechos da noticia de Marisa Soares, no Público, em 12.04.2014
 
"Não há quem passe pela Avenida de Berna sem olhar para os grafitti que ocupam 15 metros de muro, com as cores da bandeira portuguesa a sobressaírem num fundo negro. No meio, o olhar firme de Salgueiro Maia – eternizado numa das mais conhecidas fotografias de 25 de Abril de 1974, tirada pelo fotojornalista Alfredo Cunha – prende a atenção. De boina militar na cabeça e farda vestida, parece estar novamente pronto para a luta.
Foi naquela fotografia que Frederico Draw se inspirou. “Esta é a minha interpretação dessa imagem de 1974, um pouco mais carregada, com uns traços mais pesados”, explica o graffiter do Porto, de 25 anos, um dos quatro da galeria Underdogs convidados para concretizar este projecto. Draw quis usar o seu estilo “riscado e com tramas” para reforçar a expressão do rosto, simbolizando “o Portugal de hoje, mais pesado” do que há 40 anos. “É altura de haver uma nova mudança”, defende.
O desafio lançado pela FCSH à Underdogs, dirigida por Alexandre Farto (mais conhecido como Vhils), era fixar o testemunho da geração actual sobre a revolução que ditou o fim do Estado Novo e, simultaneamente, deixar mensagens para o futuro. A ideia surgiu a propósito do ciclo de conferências A Revolução de Abril – Portugal 1974-1975, organizado pela Universidade Nova no Teatro D. Maria II, de 21 a 24 de Abril.
“Não fazia sentido estarmos a trabalhar sobre este tema sem termos uma actividade junto da comunidade académica. Pensámos nos murais como uma marca do imaginário próprio da revolução”, argumenta Carlos Vargas, investigador do Instituto de História Contemporânea da FSCH e administrador do Teatro D. Maria II. Mas este não é um mural igual aos que nasceram com a revolução. “Não queríamos fazer um pastiche de um tempo que já passou”, justifica Vargas, sublinhando que “é possível fazer um mural político mas com o olhar da geração que hoje tem 25 ou 30 anos”.
O convite feito aos Underdogs apelava à renovação. “Queríamos conhecer o olhar contemporâneo de uma geração que não viveu o 25 de Abril”, afirma. O desafio era também construir um mural colectivo e não blocos separados, apesar dos estilos diferentes que caracterizam o trabalho de cada um.
Como que a suportar o retrato de Salgueiro Maia, Gonçalo Ribeiro (que assina como Mar) desenhou os punhos cerrados do povo que grita “amor” e “luta”. Diogo Machado (Add Fuel), de 33 anos, criou um padrão para inserir dentro da silhueta de duas espingardas, com cravos nas pontas. “O meu trabalho é reinterpretar a azulejaria portuguesa, o antigo”, o que encaixa nesta tentativa de “dar uma nova visão do 25 de Abril”, diz Add Fuel.
O mural fica completo com as duas peças simbólicas de Miguel Januário, conhecido pelos projectos maismenos e kissmywalls. À esquerda de Salgueiro Maia, o “pré-25 de Abril” com o escudo de Portugal entre ossos e correntes, quebradas numa ponta. “Representa o corte com o antigo regime”, explica. À direita, o “pós-25 de Abril” com um coração e duas G3 (com os canos virados para baixo, em jeito de provocação), que representam “a necessidade de sentirmos e agirmos”. Para este grafitter de 32 anos, Portugal vive hoje um momento semelhante ao que vivia em 1974, perante a necessidade de “ruptura com o sistema” e de “encontrar uma saída, uma solução que venha de dentro”. Junto ao coração, numa faixa escrita em latim, lê-se: “Ou encontramos uma via, ou fazemos uma”.

 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

[1865.] Quizás... el mejor oficio del mundo

Este post é dedicado à MSL (acrónimo de Mónica Sofia Lopes)

As minhas manhãs de quarta-feira foram, durante oito anos, de grande descontração e ansiedade. O jornal ficava pronto na véspera e chegava à casa das pessoas na manhã de quarta-feira. Na manhã imaginava o jornal a chegar à casa dos assinantes e a pensava na reação (ou não) que poderiam ter a cada título, como depois da distribuição pelos quiosques se antevia o que podiam ser os comentários de cada leitor.
Na última fase, nos últimos quatro anos, costumava ir almoçar com a Inês a Coimbra e quase sempre eramos interrompidos pelos telefonemas de protagonistas que não concordavam com um título, que se queixavam de ter dado pouco protagonismo à sua noticia... ou pelos amigos dos protagonistas que deixavam recados de desagrado e vingança por interposta pessoa. As quartas-feiras eram sempre quentes... mesmo quando chovia.

Já as manhãs de terça-feira - quando tinha a ajuda do padre Abílio eram as madrugadas de segunda - era de terrível azafama. Louca mesmo. E cheia de frases repetidas semanalmente. Quando estava muito irritado, eu tinha por hábito recitar alto todas as profissões que podiam ser pior do que aquela. E dizia: Seria pior se fosse mineiro, se fosse trabalhador de uma ETAR, se fosse almeida, se fosse ginecologista... E com a D.Isabel e a MSL gerava-se o debate... agente mortuário... por aí fora!

Procurávamos lembrar os piores ofícios do mundo, para pensar que poderia haver alguém pior do que nós naquele momento de tensão absoluta. Mas se calhar todos estavam pior do que nós. Pois segundo Gabriel Garcia Marquez - e eu não discordo - estávamos a exercer (provavelmente) "o melhor oficio do mundo"!.

Dedico este post e a transcrição do texto seguinte, que não traduzirei do castelhano, à MSL, que já percebeu que tem a melhor profissão do mundo (provavelmente não no sentido material)... Um texto que é também uma homenagem ao seu autor. O jornalista que ganhou um Nobel.

El mejor oficio del mundo

[Texto lido na 52.ª Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em Los Angeles, EUA, em 7 de outubro de 1996.]

«A una universidad colombiana se le preguntó cuáles son las pruebas de aptitud y vocación que se hacen a quienes desean estudiar periodismo y la respuesta fue terminante: “Los periodistas no son artistas”. Estas reflexiones, por el contrario, se fundan precisamente en la certidumbre de que el periodismo escrito es un género literario.
Hace unos cincuenta años no estaban de moda las escuelas de periodismo. Se aprendía en las salas de redacción, en los talleres de imprenta, en el cafetín de enfrente, en las parrandas de los viernes. Todo el periódico era una fábrica que formaba e informaba sin equívocos, y generaba opinión dentro de un ambiente de participación que mantenía la moral en su puesto. Pues los periodistas andábamos siempre juntos, hacíamos vida común, y éramos tan fanáticos del oficio que no hablábamos de nada distinto que del oficio mismo. El trabajo llevaba consigo una amistad de grupo que inclusive dejaba poco margen para la vida privada. No existían las juntas de redacción institucionales, pero a las cinco de la tarde, sin convocatoria oficial, todo el personal de planta hacía una pausa de respiro en las tensiones del día y confluía a tomar el café en cualquier lugar de la redacción. Era una tertulia abierta donde se discutían en caliente los temas de cada sección y se le daban los toques finales a la edición de mañana. Los que no aprendían en aquellas cátedras ambulatorias y apasionadas de veinticuatro horas diarias, o los que se aburrían de tanto hablar de los mismo, era porque querían o creían ser periodistas, pero en realidad no lo eran.
El periódico cabía entonces en tres grandes secciones: noticias, crónicas y reportajes, y notas editoriales. La sección más delicada y de gran prestigio era la editorial. El cargo más desvalido era el de reportero, que tenía al mismo tiempo la connotación de aprendiz y cargaladrillos. El tiempo y el mismo oficio han demostrado que el sistema nervioso del periodismo circula en realidad en sentido contrario. Doy fe: a los diecinueve años –siendo el peor estudiante de derecho– empecé mi carrera como redactor de notas editoriales y fui subiendo poco a poco y con mucho trabajo por las escaleras de las diferentes secciones, hasta el máximo nivel de reportero raso.
La misma práctica del oficio imponía la necesidad de formarse una base cultural, y el mismo ambiente de trabajo se encargaba de fomentarla. La lectura era una adicción laboral. Los autodidactas suelen ser ávidos y rápidos, y los de aquellos tiempos lo fuimos de sobra para seguir abriéndole paso en la vida al mejor oficio del mundo… como nosotros mismos lo llamábamos. Alberto Lleras Camargo, que fue periodista siempre y dos veces presidente de Colombia, no era ni siquiera bachiller.
La creación posterior de las escuelas de periodismo fue una reacción escolástica contra el hecho cumplido de que el oficio carecía de respaldo académico. Ahora ya no son sólo para la prensa escrita sino para todos los medios inventados y por inventar.
Pero en su expansión se llevaron de calle hasta el nombre humilde que tuvo el oficio desde sus orígenes en el siglo XV, y ahora no se llama periodismo sino Ciencias de la Comunicación o Comunicación Social. El resultado, en general, no es alentador. Los muchachos que salen ilusionados de las academias, con la vida por delante, parecen desvinculados de la realidad y de sus problemas vitales, y prima un afán de protagonismo sobre la vocación y las aptitudes congénitas. Y en especial sobre las dos condiciones más importantes: la creatividad y la práctica.
La mayoría de los graduados llegan con deficiencias flagrantes, tienen graves problemas de gramática y ortografía, y dificultades para una comprensión reflexiva de textos. Algunos se precian de que pueden leer al revés un documento secreto sobre el escritorio de un ministro, de grabar diálogos casuales sin prevenir al interlocutor, o de usar como noticia una conversación convenida de antemano como confidencial. Lo más grave es que estos atentados éticos obedecen a una noción intrépida del oficio, asumida a conciencia y fundada con orgullo en la sacralización de la primicia a cualquier precio y por encima de todo. No los conmueve el fundamento de que la mejor noticia no es siempre la que se da primero sino muchas veces la que se da mejor. Algunos, conscientes de sus deficiencias, se sienten defraudados por la escuela y no les tiembla la voz para culpar a sus maestros de no haberles inculcado las virtudes que ahora les reclaman, y en especial la curiosidad por la vida.
Es cierto que estas críticas valen para la educación general, pervertida por la masificación de escuelas que siguen la línea viciada de lo informativo en vez de lo formativo. Pero en el caso específico del periodismo parece ser, además, que el oficio no logró evolucionar a la misma velocidad que sus instrumentos, y los periodistas se extraviaron en el laberinto de una tecnología disparada sin control hacia el futuro. Es decir, las empresas se han empeñado a fondo en la competencia feroz de la modernización material y han dejado para después la formación de su infantería y los mecanismos de participación que fortalecían el espíritu profesional en el pasado. Las salas de redacción son laboratorios asépticos para navegantes solitarios, donde parece más fácil comunicarse con los fenómenos siderales que con el corazón de los lectores. La deshumanización es galopante.
No es fácil entender que el esplendor tecnológico y el vértigo de las comunicaciones, que tanto deseábamos en nuestros tiempos, hayan servido para anticipar y agravar la agonía cotidiana de la hora del cierre. Los principiantes se quejan de que los editores les conceden tres horas para una tarea que en el momento de la verdad es imposible en menos de seis, que les ordenan material para dos columnas y a la hora de la verdad sólo les asignan media, y en el pánico del cierre nadie tiene tiempo ni humor para explicarles por qué, y menos para darles una palabra de consuelo. “Ni siquiera nos regañan”, dice un reportero novato ansioso de comunicación directa con sus jefes. Nada: el editor que antes era un papá sabio y compasivo, apenas si tiene fuerzas y tiempo para sobrevivir él mismo a las galeras de la tecnología.
Creo que es la prisa y la restricción del espacio lo que ha minimizado el reportaje, que siempre tuvimos como el género estrella, pero que es también el que requiere más tiempo, más investigación, más reflexión, y un dominio certero del arte de escribir. Es en realidad la reconstitución minuciosa y verídica del hecho. Es decir: la noticia completa, tal como sucedió en la realidad, para que el lector la conozca como si hubiera estado en el lugar de los hechos.
Antes que se inventaran el teletipo y el télex, un operador de radio con vocación de mártir capturaba al vuelo las noticias del mundo entre silbidos siderales, y un redactor erudito las elaboraba completas con pormenores y antecedentes, como se reconstruye el esqueleto entero de un dinosaurio a partir de una vértebra. Sólo la interpretación estaba vedada, porque era un dominio sagrado del director, cuyos editoriales se presumían escritos por él, aunque no lo fueran, y casi siempre con caligrafías célebres por lo enmarañadas. Directores históricos tenían linotipistas personales para descifrarlas.
Un avance importante en este medio siglo es que ahora se comenta y se opina en la noticia y en el reportaje, y se enriquece el editorial con datos informativos. Sin embargo, los resultados no parecen ser los mejores, pues nunca como ahora ha sido tan peligroso este oficio. El empleo desaforado de comillas en declaraciones falsas o ciertas permite equívocos inocentes o deliberados, manipulaciones malignas y tergiversaciones venenosas que le dan a la noticia la magnitud de un arma mortal. Las citas de fuentes que merecen entero crédito, de personas generalmente bien informadas o de altos funcionarios que pidieron no revelar su nombre, o de observadores que todo lo saben y que nadie ve, amparan toda clase de agravios impunes. Pero el culpable se atrinchera en su derecho de no revelar la fuente, sin preguntarse si él mismo no es un instrumento fácil de esa fuente que le transmitió la información como quiso y arreglada como más le convino. Yo creo que sí: el mal periodista piensa que su fuente es su vida misma –sobre todo si es oficial– y por eso la sacraliza, la consiente, la protege, y termina por establecer con ella una peligrosa relación de complicidad, que lo lleva inclusive a menospreciar la decencia de la segunda fuente.
Aún a riesgo de ser demasiado anecdótico, creo que hay otro gran culpable en este drama: la grabadora. Antes de que ésta se inventara, el oficio se hacía bien con tres recursos de trabajo que en realidad eran uno sólo: la libreta de notas, una ética a toda prueba, y un par de oídos que los reporteros usábamos todavía para oír lo que nos decían. El manejo profesional y ético de la grabadora está por inventar. Alguien tendría que enseñarle a los colegas jóvenes que el casete no es un sustituto de la memoria, sino una evolución de la humilde libreta de apuntes que tan buenos servicios prestó en los orígenes del oficio. La grabadora oye pero no escucha, repite –como un loro digital– pero no piensa, es fiel pero no tiene corazón, y a fin de cuentas su versión literal no será tan confiable como la de quien pone atención a las palabras vivas del interlocutor, las valora con su inteligencia y las califica con su moral. Para la radio tiene la enorme ventaja de la literalidad y la inmediatez, pero muchos entrevistadores no escuchan las respuestas por pensar en la pregunta siguiente.
La grabadora es la culpable de la magnificación viciosa de la entrevista. La radio y la televisión, por su naturaleza misma, la convirtieron en el género supremo, pero también la prensa escrita parece compartir la idea equivocada de que la voz de la verdad no es tanto la del periodista que vio como la del entrevistado que declaró. Para muchos redactores de periódicos la transcripción es la prueba de fuego: confunden el sonido de las palabras, tropiezan con la semántica, naufragan en la ortografía y mueren por el infarto de la sintaxis. Tal vez la solución sea que se vuelva a la pobre libretita de notas para que el periodista vaya editando con su inteligencia a medida que escucha, y le deje a la grabadora su verdadera categoría de testigo invaluable. De todos modos, es un consuelo suponer que muchas de las transgresiones éticas, y otras tantas que envilecen y avergüenzan al periodismo de hoy, no son siempre por inmoralidad, sino también por falta de dominio profesional.
Tal vez el infortunio de las facultades de Comunicación Social es que enseñan muchas cosas útiles para el oficio, pero muy poco del oficio mismo. Claro que deben persistir en sus programas humanísticos, aunque menos ambiciosos y perentorios, para contribuir a la base cultural que los alumnos no llevan del bachillerato. Pero toda la formación debe estar sustentada en tres pilares maestros: la prioridad de las aptitudes y las vocaciones, la certidumbre de que la investigación no es una especialidad del oficio sino que todo el periodismo debe ser investigativo por definición, y la conciencia de que la ética no es una condición ocasional, sino que debe acompañar siempre al periodismo como el zumbido al moscardón.
El objetivo final debería ser el retorno al sistema primario de enseñanza mediante talleres prácticos en pequeños grupos, con un aprovechamiento crítico de las experiencias históricas, y en su marco original de servicio público. Es decir: rescatar para el aprendizaje el espíritu de la tertulia de las cinco de la tarde.
Un grupo de periodistas independientes estamos tratando de hacerlo para toda la América Latina desde Cartagena de Indias, con un sistema de talleres experimentales e itinerantes que lleva el nombre nada modesto de Fundación para un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Es una experiencia piloto con periodistas nuevos para trabajar sobre una especialidad específica –reportaje, edición, entrevistas de radio y televisión, y tantas otras– bajo la dirección de un veterano del oficio.
En respuesta a una convocatoria pública de la Fundación, los candidatos son propuestos por el medio en que trabajan, el cual corre con los gastos del viaje, la estancia y la matrícula. Deben ser menores de treinta años, tener una experiencia mínima de tres, y acreditar su aptitud y el grado de dominio de su especialidad con muestras de las que ellos mismos consideren sus mejores y sus peores obras.
La duración de cada taller depende de la disponibilidad del maestro invitado –que escasas veces puede ser de más de una semana–, y éste no pretende ilustrar a sus talleristas con dogmas teóricos y prejuicios académicos, sino foguearlos en mesa redonda con ejercicios prácticos, para tratar de transmitirles sus experiencias en la carpintería del oficio. Pues el propósito no es enseñar a ser periodistas, sino mejorar con la práctica a los que ya lo son. No se hacen exámenes ni evaluaciones finales, ni se expiden diplomas ni certificados de ninguna clase: la vida se encargará de decidir quién sirve y quién no sirve.
Trescientos veinte periodistas jóvenes de once países han participado en veintisiete talleres en sólo año y medio de vida de la Fundación, conducidos por veteranos de diez nacionalidades. Los inauguró Alma Guillermoprieto con dos talleres de crónica y reportaje. Terry Anderson dirigió otro sobre información en situaciones de peligro, con la colaboración de un general de las Fuerzas Armadas que señaló muy bien los límites entre el heroísmo y el suicidio. Tomás Eloy Martínez, nuestro cómplice más fiel y encarnizado, hizo un taller de edición y más tarde otro de periodismo en tiempos de crisis. Phil Bennet hizo el suyo sobre las tendencias de la prensa en los Estados Unidos y Stephen Ferry lo hizo sobre fotografía. El magnífico Horacio Bervitsky y el acucioso Tim Golden exploraron distintas áreas del periodismo investigativo, y el español Miguel Ángel Bastenier dirigió un seminario de periodismo internacional y fascinó a sus talleristas con un análisis crítico y brillante de la prensa europea.
Uno de gerentes frente a redactores tuvo resultados muy positivos, y soñamos con convocar el año entrante un intercambio masivo de experiencias en ediciones dominicales entre editores de medio mundo. Yo mismo he incurrido varias veces en la tentación de convencer a los talleristas de que un reportaje magistral puede ennoblecer a la prensa con los gérmenes diáfanos de la poesía.
Los beneficios cosechados hasta ahora no son fáciles de evaluar desde un punto de vista pedagógico, pero consideramos como síntomas alentadores el entusiasmo creciente de los talleristas, que son ya un fermento multiplicador del inconformismo y la subversión creativa dentro de sus medios, compartido en muchos casos por sus directivas. El solo hecho de lograr que veinte periodistas de distintos países se reúnan a conversar cinco días sobre el oficio ya es un logro para ellos y para el periodismo. Pues al fin y al cabo no estamos proponiendo un nuevo modo de enseñarlo, sino tratando de inventar otra vez el viejo modo de aprenderlo.
Los medios harían bien en apoyar esta operación de rescate. Ya sea en sus salas de redacción, o con escenarios construidos a propósito, como los simuladores aéreos que reproducen todos los incidentes del vuelo para que los estudiantes aprendan a sortear los desastres antes de que se los encuentren de verdad atravesados en la vida. Pues el periodismo es una pasión insaciable que sólo puede digerirse y humanizarse por su confrontación descarnada con la realidad. Nadie que no la haya padecido puede imaginarse esa servidumbre que se alimenta de las imprevisiones de la vida. Nadie que no lo haya vivido puede concebir siquiera lo que es el pálpito sobrenatural de la noticia, el orgasmo de la primicia, la demolición moral del fracaso. Nadie que no haya nacido para eso y esté dispuesto a vivir sólo para eso podría persistir en un oficio tan incomprensible y voraz, cuya obra se acaba después de cada noticia, como si fuera para siempre, pero que no concede un instante de paz mientras no vuelve a empezar con más ardor que nunca en el minuto siguiente.»

terça-feira, 22 de abril de 2014

[1864.] The Rains of Castamere


 
The Rains of Castamere
in Guerra dos Tronos
 
A lendária canção, hino dos Lannister, que lembra como é que Tytos Lannister aniquilou a Casa de Reynes quando estes, vassalos, ousaram querer ser tão poderosos como os seus suseranos - os leões dos Lannister. Um tema interessante para um viciado no romance de George R Martin
 
Mais informação AQUI
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

[1863.] A minha Medelim


Gosto muito da Mealhada, do concelho todo, é a minha terra, mas é em Medelim que tenho as minhas raízes, a mais elementar da minha origem. Aqui sou o eu mais verdadeiro e límpido.
Venho para cá regularmente desde os meus 4 meses e cada canto tem para mim um significado especial. Desde o calor infernal dos agostos que só nos veem na rua às seis da tarde... às histórias das bengaladas da Mariazinha Cartola, das compras no Zé Careca, do rebanho do Ovelha-douda debaixo da janela do meu quarto. E do frio dos natais, do medo da infância das fotografias escuras dos bisavós no quarto do chão a ranger e do fantasma do padre que morreu no quarto de cima...
Gosto de Medelim, como se gosta de casa. Durmo mais tranquilamente em Medelim, e a falta de rede no telemóvel coloca-me num estado letárgico de grande criatividade.
E tenho saudades da teimosia do avô António, que na austeridade do amor me mostrava o mundo todo do Mercado à Mona e do Chão da Eira ao resto de uma terra cheia de alcunhas e antepassados, onde acamparam romanos, viveram templários e terão estado árabes. Ó ultimo saque dos franceses de Napoleão na velha Santa Maria Madalena de Medelim.
Foi bom. Pena que não haja sempre tempo para mais.


domingo, 20 de abril de 2014

[1862.] O fabuloso mundo da avó Alice


A realidade é completamente mutável. Muito mais subjetiva do que qualquer certeza.
Obrigado avó por me ensinar o quanto podemos fazer da fantasia uma tão perentória e convicta realidade. Mesmo que o faça sem querer, sem se aperceber... Acredito hoje que é a doença que a mantém viva e que lhe dá animo para um dia seguinte onde vai viver todas as angustias, alegrias, tristezas e lutos da vida, outra vez.
Um encontro sempre com muitas lágrimas. De estoirar o coração, mas emocionante e apaixonado.
Páscoa feliz! Se hoje tivesse sido domingo de Páscoa.

domingo, 13 de abril de 2014

[1861.] De pé diante dos homens...

No dia que começa a Semana Santa, quando já se começa a comemorar os 40 anos do 25 de abril, e quando se assinalam os oito dias da entrada na diocese portucalense de D.António Francisco dos Santos, aparece-nos hoje o 25.º aniversário da morte de António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto que afrontou Salazar.

A não perder e a lembrar... sempre.