quarta-feira, 27 de agosto de 2014

[1881.] Sete sapatos sujos, de Mia Couto

Tomei nota de um texto de Mia Couto com este título, "Sete Sapatos Sujos", quando, estando em Moçambique conversava sobre o estado do País, e as suas características mais intimas e, acima de tudo, o que poderá ser o seu futuro, especialmente depois das eleições de outubro próximo.

Só quando regressei pude encontrar o texto e lê-lo. Atentamente.

O texto é, de facto, uma reflexão intima, uma oração de sapiência, das tradicionais. Mia Couto pensa sobre Africa e Moçambique e projeta a sua reflexão no futuro, identificando o que tem de ser deixado para trás, na soleira da porta, para fazer o trilho a caminho do futuro.

O que mais me parece relevante é que a reflexão de Mia Couto pode aplicar-se a Africa, a Moçambique, mas também se aplica a Portugal e à Europa. A papel químico, os sapatos sujos dos moçambicanos são os sapatos sujos dos portugueses.

Os portugueses podem mandar embora dez troikas, terão sempre de lhes implorar que regressem se não mandarem embora os sapatos sujos.

Vivemos anos de assistência financeira. Sentimos necessidade de pedir ajuda, mas não há culpados, ninguém teve culpa nenhuma. Os culpados são sempre os políticos e os governantes, mas os cidadãos que se endividaram e não fizeram ouvidos moucos ao facto de não ganharem para pagar casa e carro e férias e bolhas são sempre vitimas. Até há uma música (bonita por sinal) de um jovem que garante que pode ser penalizado por  "Aquilo que eu não fiz"... afinal ninguém fez nada. E aí está o primeiro sapato sujo de Mia: "O primeiro sapato – a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas".

Temos todos direito ao emprego, mesmo aqueles que sabiam no dia que iam entrar na universidade de que não havia mais lugares para professores ou enfermeiros. Mas insistiram. E ter emprego para cada um de nós é uma obrigação do Estado. E se não há emprego a culpa é do Estado. E se o emprego que há envolve sacrifício, envolve cansaço, envolve dureza... então é melhor ir para o desemprego... ganha-se o mesmo ou pouco menos... e pelo menos não se cansa o físico. Porque "O sucesso não nasce do trabalho" (segundo sapato sujo de Mia Couto), o sucesso resulta do carro que se tem, da roupa que se veste, do corte de cabelo e de quantas namoradas ou namorados se tem por fim-de-semana. "O que importa são as aparências" e os comentários no Facebook (quinto sapato sujo). Não vale a pena trabalhar, jogar no Euromilhões é quanto basta. E os cotas que trabalham de sol a sol são burros e parvos, que não levam nada desta vida.

Ninguém tem culpa de facto. Só os políticos, esses gândulos, e os filhos deles, que se tornam incompetentes só por serem filhos dos governantes. Não interessa os estudos... foram de certeza beneficiados. E ai-de quem disser o contrário. Está feito com a comandita o "preconceito de quem critica é um inimigo" (terceiro sapato sujo!). Mas por outro lado há sempre lugar à resignação... mais vale estar quietinho, dizer mal mas quietinho: "A passividade perante a injustiça", o sexto sapato sujo de Mia Couto.

Mas estou eu a dizer que a classe dirigente não tem culpa? Parece que sim, mas não estou. A classe dirigente portuguesa - onde estão os políticos, mas não só - também tem sapatos sujos... pelo menos dois. Infelizmente, a classe dirigente portuguesa (onde com pouca humildade me incluo), é um grupo de resistentes... são os que não desistiram... são os que aguentaram a passagem pelas juventudes partidárias, são os que souberam manter a cabeça à tona, sabe Deus a troco do quê... Têm pelo menos dois sapatos sujos: Cultivam "a ideia que mudar as palavras muda a realidade", quarto sapato sujo, e "a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros"... e aí escavacamos tudo... porque estamos sempre a inventar uma roda que por ser uma vezes dentada, outras vezes redonda... raramente desliza nos nossos eixos!


Seremos assim tão diferentes de Moçambique?




Os sete sapatos sujos” 

Começo pela confissão de um sentimento conflituoso: é um prazer e uma honra ter recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, não sei lidar com este nome pomposo: “oração de sapiência”. De propósito, escolhi um tema sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignorâncias. Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos nós, de modo generoso e patriótico, queremos participar nessa batalha [Trata-se de um desígnio nacional, presente em todos os discursos em Moçambique o «Plano de Erradicação da Pobreza do Presidente Armando Emílio Guebuza» ] . Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nós pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
Falarei aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que é a nossa interioridade, um território em que somos todos amadores. Neste domínio ninguém tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir orações de “sapiência”. O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades. É isso que venho fazer, partilhar convosco algumas das minhas dúvidas, das minhas solitárias cogitações.
Começo por um fait-divers. Há agora um anúncio nas nossas estações de rádio em que alguém pergunta à vizinha: diga-me minha senhora, o que é que se passa em sua casa, o seu filho é chefe de turma, as suas filhas casaram muito bem, o seu marido foi nomeado director, diga-me, querida vizinha, qual é o segredo? E a senhora responde: é que lá em casa nós comemos arroz marca…(não digo a marca porque não me pagaram este momento publicitário).
Seria bom que assim que fosse, que a nossa vida mudasse só por consumirmos um produto alimentar. Já estou a ver o nosso Magnifico Reitor a distribuir o mágico arroz e a abrirem-se no ISCTEM as portas para o sucesso e para a felicidade. Mas ser- se feliz é, infelizmente, muito mais trabalhoso.
Lembrança de Lusaka 
No dia em que eu fiz 11 anos de idade, a 5 de Julho de 1966, o Presidente Kenneth Kaunda veio aos microfones da Rádio de Lusaka para anunciar que um dos grandes pilares da felicidade do seu povo tinha sido construído. Não falava de nenhuma marca de arroz. Ele agradecia ao povo da Zâmbia pelo seu envolvimento na criação da primeira universidade no país. Uns meses antes, Kaunda tinha lançado um apelo para que cada zambiano contribuísse para construir a Universidade. A resposta foi comovente: dezenas de milhares de pessoas corresponderam ao apelo. Camponeses deram milho, pescadores ofertaram pescado, funcionários deram dinheiro. Um país de gente analfabeta juntou-se para criar aquilo que imaginavam ser uma página nova na sua história. A mensagem dos camponeses na inauguração da Universidade dizia: nós demos porque acreditamos que, fazendo isto, os nossos netos deixarão de passar fome.
Quarenta anos depois, os netos dos camponeses zambianos continuam sofrendo de fome. Na realidade, os zambianos vivem hoje pior do que viviam naquela altura. Na década de 60, a Zâmbia beneficiava de um Produto Nacional Bruto comparável aos de Singapura e da Malásia. Hoje, nem de perto nem de longe, se pode comparar o nosso vizinho com aqueles dois países da Ásia.
Algumas nações africanas podem justificar a permanência da miséria porque sofreram guerras. Mas a Zâmbia nunca teve guerra. Alguns países podem argumentar que não possuem recursos. Todavia, a Zâmbia é uma nação com poderosos recursos minerais. De quem é a culpa deste frustrar de expectativas? Quem falhou? Foi a Universidade? Foi a sociedade? Foi o mundo inteiro que falhou? E porque razão Singapura e Malásia progrediram e a Zâmbia regrediu?
Falei da Zâmbia como um país africano ao acaso. Infelizmente, não faltariam outros exemplos. O nosso continente está repleto de casos idênticos, de marchas falhadas, esperanças frustradas. Generalizou-se entre nós a descrença na possibilidade de mudarmos os destinos do nosso continente. Vale a pena perguntarmo-nos: o que está acontecer? O que é preciso mudar dentro e fora de África?
Estas perguntas são sérias. Não podemos iludir as respostas, nem continuar a atirar poeira para ocultar responsabilidades. Não podemos aceitar que elas sejam apenas preocupação dos governos.
Felizmente, estamos vivendo em Moçambique uma situação particular, com diferenças bem sensíveis. Temos que reconhecer e ter orgulho que o nosso percurso foi bem distinto. Acabamos recentemente de presenciar uma dessas diferenças. Desde 1957, apenas seis entre 153 chefes de estado africanos renunciaram voluntariamente ao poder. Joaquim Chissano é o sétimo desses presidentes. Parece um detalhe mas é bem indicativo que o processo moçambicano se guiou por outras lógicas bem diversas.
Contudo, as conquistas da liberdade e da democracia que hoje usufruímos só serão definitivas quando se converterem em cultura de cada um de nós. E esse é ainda um caminho de gerações. Entretanto, pesam sobre Moçambique ameaças que são comuns a todo o continente. A fome, a miséria, as doenças, tudo isso nós partilhamos com o resto de África. Os números são aterradores: 90 milhões de africanos morrerão com SIDA nos próximos 20 anos. Para esse trágico número, Moçambique terá contribuído com cerca de 3 milhões de mortos. A maior parte destes condenados são jovens e representam exactamente a alavanca com que poderíamos remover o peso da miséria. Quer dizer, África não está só perdendo o seu próprio presente: está perdendo o chão onde nasceria um outro amanhã.
O que é que nos separa desse futuro que todos queremos?
Ter futuro custa muito dinheiro. Mas é muito mais caro só ter passado. Antes da Independência, para os camponeses zambianos não havia futuro. Hoje o único tempo que para eles existe é o futuro dos outros.
Os desafios são maiores que esperança? Mas nós não podemos senão ser optimistas e fazer aquilo que os brasileiros chamam de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. O pessimismo é um luxo para os ricos.
A pergunta crucial é esta: o que é que nos separa desse futuro que todos queremos? Alguns acreditam que o que falta são mais quadros, mais escolas, mais hospitais. Outros acreditam que precisamos de mais investidores, mais projectos económicos. Tudo isso é necessário, tudo isso é imprescindível. Mas para mim, há uma outra coisa que é ainda mais importante. Essa coisa tem um nome: é uma nova atitude. Se não mudarmos de atitude não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.
Falo de uma nova atitude mas a palavra deve ser pronunciada no plural, pois ela compõe um conjunto vasto de posturas, crenças, conceitos e preconceitos. Há muito que venho defendendo que o maior factor de atraso em Moçambique não se localiza na economia mas na incapacidade de gerarmos um pensamento produtivo, ousado e inovador. Um pensamento que não resulte da repetição de lugares comuns, de fórmulas e de receitas já pensadas pelos outros.
Às vezes me pergunto: de onde vem a dificuldade em nós pensarmos como sujeitos da História? Vem sobretudo de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa própria identidade. Primeiro, os africanos foram negados. O seu território era a ausência, o seu tempo estava fora da História. Depois, os africanos foram estudados como um caso clínico. Agora, são ajudados a sobreviver no quintal da História.
Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.

O primeiro sapato – a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas 

Nós já conhecemos este discurso. A culpa já foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa.
Estamos sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Esta lavagem de mãos tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na impunidade. Os culpados estão à partida encontrados: são os outros, os da outra etnia, os da outra raça, os da outra geografia.
Há um tempo atrás fui sacudido por um livro intitulado Capitalist Nigger: The Road to Success de um nigeriano chamado Chika A. Onyeani. Reproduzi num jornal nosso um texto desse economista que é um apelo veemente para que os africanos renovem o olhar que mantém sobre si mesmos. Permitam-me que leia aqui um excerto dessa carta.
Caros irmãos: Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.
40 anos depois da Independência continuamos a culpar os patrões coloniais por tudo o que acontece na África dos nossos dias. Os nossos dirigentes nem sempre são suficientemente honestos para aceitar a sua responsabilidade na pobreza dos nossos povos. Acusamos os europeus de roubar e pilhar os recursos naturais de África. Mas eu pergunto-vos: digam-me, quem está a convidar os europeus para assim procederem, não somos nós? (fim da citação)
Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas ao mesmo tempo continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: Somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:
  • Que alguém rouba porque, coitado, é pobre (esquecendo que há milhares de outros pobres que não roubam)
  • Que o funcionário ou o polícia são corruptos porque, coitados, tem um salário insuficiente (esquecendo que ninguém, neste mundo, tem salário suficiente)
  • Que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda,  essas praticas são antropologicamente legitimas
A desresponsabilização é um dos estigmas mais graves que pesa sobre nós, africanos de Norte a Sul. Há os que dizem que se trata de uma herança da escravatura, desse tempo em que não se era dono de si mesmo. O patrão, muitas vezes longínquo e invisível, era responsável pelo nosso destino. Ou pela ausência de destino.
Hoje, nem sequer simbolicamente, matamos o antigo patrão. Uma das formas de tratamento que mais rapidamente emergiu de há uns dez anos para cá foi a palavra “patrão”. Foi como se nunca tivesse realmente morrido, como se espreitasse uma oportunidade histórica para se relançar no nosso quotidiano. Pode-se culpar alguém desse ressurgimento? Não. Mas nós estamos criando uma sociedade que produz desigualdades e que reproduz relações de poder que acreditávamos estarem já enterradas.

Segundo sapato – a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho 

Ainda hoje despertei com a notícia que refere que um presidente africano vai mandar exorcizar o seu palácio de 300 quartos porque ele escuta ruídos “estranhos” durante a noite. O palácio é tão desproporcionado para a riqueza do país que demorou 20 anos a ser terminado. As insónias do presidente poderão nascer não de maus espíritos mas de uma certa má consciência.
O episódio apenas ilustra o modo como, de uma forma dominante, ainda explicamos os fenómenos positivos e negativos. O que explica a desgraça mora junto do que justifica a bem-aventurança. A equipe desportiva ganha, a obra de arte é premiada, a empresa tem lucros, o funcionário foi promovido? Tudo isso se deve a quê? A primeira resposta, meus amigos, todos a conhecemos. O sucesso deve-se à boa sorte. E a palavra “boa sorte” quer dizer duas coisas: a protecção dos antepassados mortos e protecção dos padrinhos vivos.
Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos sucede (de bom ou mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino. Para alguns esta visão causal é tida como tão intrinsecamente “africana” que perderíamos “identidade” se dela abdicássemos. Os debates sobre as “autenticas” identidades são sempre escorregadios. Vale a pena debatermos, sim, se não poderemos reforçar uma visão mais produtiva e que aponte para uma atitude mais activa e interventiva sobre o curso da História.
Infelizmente olhamo-nos mais como consumidores do que produtores. A ideia de que África pode produzir arte, ciência e pensamento  é estranha mesmo para muitos africanos. Ate aqui o continente produziu recursos naturais e força laboral.
Produziu futebolistas, dançarinos, escultores. Tudo isso se aceita, tudo isso reside no domínio daquilo eu se entende como natureza”. Mas já poucos aceitarão que os africanos possam ser produtores de ideias, de ética e de modernidade. Não é preciso que os outros desacreditem. Nós próprios nos encarregamos dessa descrença.
O ditado diz. “o cabrito come onde está amarrado”. Todos conhecemos o lamentável uso deste aforismo e como ele fundamenta a acção de gente que tira partido das situações e dos lugares. Já é triste que nos equiparemos a um cabrito. Mas também é sintomático que, nestes provérbios de conveniência nunca nos identificamos como os animais produtores, como é por exemplo a formiga. Imaginemos que o ditado muda e passar a ser assim: “Cabrito produz onde está amarrado.” Eu aposto que, nesse caso, ninguém mais queria ser cabrito.

Terceiro sapato – o preconceito de quem critica é um inimigo 

Muitas acreditam que, com o fim do monopartidarismo, terminaria a intolerância para com os que pensavam diferente. Mas a intolerância não é apenas fruto de regimes. É fruto de culturas, é o resultado da História. Herdamos da sociedade rural uma noção de lealdade que é demasiado paroquial. Esse desencorajar do espírito crítico é ainda mais grave quando se trata da juventude. O universo rural é fundado na autoridade da idade. Aquele que é jovem, aquele que não casou nem teve filhos, esse não tem direitos, não tem voz nem visibilidade. A mesma marginalização pesa sobre a mulher.
Toda essa herança não ajuda a que se crie uma cultura de discussão frontal e aberta. Muito do debate de ideias é, assim, substituído pela agressão pessoal. Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demónios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa.
Há neste domínio um componente histórico recente que devemos considerar: Moçambique nasceu da luta de guerrilha. Essa herança deu-nos um sentido épico da história e um profundo orgulho no modo como a independência foi conquistada. Mas a luta armada de libertação nacional também cedeu, por inércia, a ideia de que o povo era uma espécie de exército e podia ser comandado por via de disciplina militar. Nos anos pós-independência, todos éramos militantes, todos tínhamos uma só causa, a nossa alma inteira vergava-se em continência na presença dos chefes. E havia tantos chefes. Essa herança não ajudou a que nascesse uma capacidade de insubordinação positiva.
Faço-vos agora uma confidência. No início da década de 80 fiz parte de um grupo de escritores e músicos a quem foi dada a incumbência de produzir um novo Hino Nacional e um novo Hino para o Partido Frelimo. A forma como recebemos a tarefa era indicadora dessa disciplina: recebemos a missão, fomos requisitados aos nossos serviços, e a mando do Presidente Samora Machel fomos fechados numa residência na Matola, tendo-nos sido dito: só saem daí quando tiverem feito os hinos.
Esta relação entre o poder e os artistas só é pensável num dado quadro histórico. O que é certo é que nós aceitámos com dignidade essa incumbência, essa tarefa surgia como uma honra e um dever patriótico. E realmente lá nos comportamos mais ou menos bem. Era um momento de grandes dificuldades …e as tentações eram muitas. Nessa residência na Matola havia comida, empregados, piscina… num momento em que tudo isso faltava na cidade. Nos primeiros dias, confesso nós estávamos fascinados com tanta mordomia e ficávamos preguiçando e só corríamos para o piano quando ouvíamos as sirenes dos chefes que chegavam. Esse sentimento de desobediência adolescente era o nosso modo de exercermos uma pequena vingança contra essa disciplina de regimento.
Na letra de um dos hinos lá estava reflectida essa tendência militarizada, essa aproximação metafórica a que já fiz referência:
Somos soldados do povo
Marchando em frente
Tudo isto tem que ser olhado no seu contexto sem ressentimento. Afinal, foi assim, que nasceu a Pátria Amada, este hino que nos canta como um só povo, unido por um sonho comum.

Quarto sapato: a ideia que mudar as palavras muda a realidade 

Uma vez em Nova Iorque um compatriota nosso fazia uma exposição sobre a situação da nossa economia e, a certo momento, falou de mercado negro. Foi o fim do mundo. Vozes indignadas de protesto se ergueram e o meu pobre amigo teve que interromper sem entender bem o que se estava a passar. No dia seguinte recebíamos uma espécie de pequeno dicionário dos termos politicamente incorrectos. Estavam banidos da língua termos como cego, surdo, gordo, magro, etc…
Nós fomos a reboque destas preocupações de ordem cosmética. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível. Hoje assistimos, por exemplo, a hesitações sobre se devemos dizer “negro” ou “preto”. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso é que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designações que são realmente pejorativas como as de mulato e de monhé.
Há toda uma geração que está aprendendo uma língua – a língua dos workshops. É uma língua simples uma espécie de crioulo a meio caminho entre o inglês e o português. Na realidade, não é uma língua mas um vocabulário de pacotilha. Basta saber agitar umas tantas palavras da moda para falarmos como os outros isto é, para não dizermos nada. Recomendo-vos fortemente uns tantos termos como, por exemplo:
- desenvolvimento sustentável
- awarenesses ou accountability
- boa governação
- parcerias sejam elas inteligentes ou não
- comunidades locais
Estes ingredientes devem ser usados de preferência num formato “powerpoint. Outro segredo para fazer boa figura nos workshops é fazer uso de umas tantas siglas. Porque um workshopista de categoria domina esses códigos. Cito aqui uma possível frase de um possível relatório: Os ODMS do PNUD equiparam-se ao NEPAD da UA e ao PARPA do GOM. Para bom entendedor meia sigla basta.
Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cartão de visitas cheio de requintes e títulos, a bibliografia de publicações que quase ninguém leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.
Muitas das instituições que deviam produzir ideias estão hoje produzindo papéis, atafulhando prateleiras de relatórios condenados a serem arquivo morto. Em lugar de soluções encontram-se problemas. Em lugar de acções sugerem-se novos estudos.

Quinto sapato – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências

A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”.
Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.
Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.
É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.
A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.

Sexto Sapato – A passividade perante a injustiça 

Estarmos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros. Persistem em Moçambique zonas silenciosas de injustiça, áreas onde o crime permanece invisível. Refiro-me em particular à:
- violência domestica (40 por cento dos crimes resultam de agressão domestica contra mulheres, esse é um crime invisível)
- violência contra as viúvas
- à forma aviltante como são tratados muitos dos trabalhadores
- aos maus tratos infligidos às crianças
Ainda há dias ficamos escandalizados com o recente anúncio que privilegiava candidatos de raça branca. Tomaram-se medidas imediatas e isso foi absolutamente correcto. Contudo, existem convites à discriminação que são tão ou mais graves e que aceitamos como sendo naturais e inquestionáveis.
Tomemos esse anúncio do jornal e imaginemos que ele tinha sido redigido de forma correcta e não racial. Será que tudo estava bem? Eu não sei se todos estão a par de qual é a tiragem do jornal Notícias. São 13 mil exemplares. Mesmo se aceitarmos que cada jornal é lido por 5 pessoas, temos que o numero de leitores é menor que a população de um bairro de Maputo. É dentro deste universo que circulam convites e os acessos a oportunidades. Falei na tiragem mas deixei de lado o problema da circulação. Por que geografia restrita circulam as mensagens dos nossos jornais? Quanto de Moçambique é deixado de fora ?
É verdade que esta discriminação não é comparável à do anúncio racista porque não é não resultado de acção explícita e consciente. Mas os efeitos de discriminação e exclusão destas práticas sociais devem ser pensados e não podem cair no saco da normalidade. Esse “bairro” das 60 000 pessoas é hoje uma nação dentro da nação, uma nação que chega primeiro, que troca entre si favores, que vive em português e dorme na almofada na escrita.
Um outro exemplo. Estamos administrando anti-retro-virais a cerca de 30 mil doentes com SIDA. Esse número poderá, nos próximos anos, chegar aos 50 000. Isso significa que cerca de um milhão quatrocentos e cinquenta mil doentes ficam excluídos de tratamento. Trata-se de uma decisão com implicações éticas terríveis. Como e quem decide quem fica de fora? É aceitável, pergunto, que a vida de um milhão e meio de cidadãos esteja nas mãos de um pequeno grupo técnico?

Sétimo sapato - A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vem dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha em sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a produção cultural nossa se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o MacDonald’s.
Falamos da erosão dos solos, da deflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.
O nosso corpo social tem a uma história similar a de um indivíduo. Somos marcados por rituais de transição: o nascimento, o casamento, o fim da adolescência, o fim da vida.
Eu olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me: será que queremos realmente ser diferentes ? Porque eu vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que eu sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimónias de final do curso a partir de modelos europeus de Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimónia mais enraizada na terra e na tradição moçambicanas.
Falei da carga de que nos devemos desembaraçar para entrarmos a corpo inteiro na modernidade. Mas a modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
A minha mensagem é simples: mais do que uma geração tecnicamente capaz, nós necessitamos de uma geração capaz de questionar a técnica. Uma juventude capaz de repensar o país e o mundo. Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas. Moçambique não precisa apenas de caminhar. Necessita de descobrir o seu próprio caminho num tempo enevoado e num mundo sem rumo. A bússola dos outros não serve, o mapa dos outros não ajuda. Necessitamos de inventar os nossos próprios pontos cardeais. Interessa-nos um passado que não esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que não nos venha desenhado como um receita financeira.
A Universidade deve ser um centro de debate, uma fábrica de cidadania activa, uma forja de inquietações solidárias e de rebeldia construtiva. Não podemos treinar jovens profissionais de sucesso num oceano de miséria. A Universidade não pode aceitar ser reprodutor da injustiça e da desigualdade. Estamos lidando com jovens e com aquilo que deve ser um pensamento jovem, fértil e produtivo. Esse pensamento não se encomenda, não nasce sozinho. Nasce do debate, da pesquisa inovadora, da informação aberta e atenta ao que de melhor está surgindo em África e no mundo.
A questão é esta: fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condição ambígua, dançando entre a visão romantizada (ela é a seiva da Nação) e uma condição maligna, um ninho de riscos e preocupações (a SIDA, a droga, o desemprego).
Não foi apenas a Zâmbia a ver na educação aquilo que o naufrago vê num barco salva-vidas. Nós também depositamos os nossos sonhos nessa conta.
Numa sessão pública decorrida no ano passado em Maputo um já idoso nacionalista disse, com verdade e com coragem, o que já muitos sabíamos. Ele confessou que ele mesmo e muitos dos que, nos anos 60, fugiam para a FRELIMO não eram apenas motivados por dedicação a uma causa independentista. Eles arriscaram-se e saltaram a fronteira do medo para terem possibilidade de estudar. O fascínio pela educação como um passaporte para uma vida melhor estava presente um universo em que quase ninguém podia estudar. Essa restrição era comum a toda a África. Até 1940 o número de africanos que frequentavam escolas secundárias não chegava a 11 000. Hoje, a situação melhorou e esse número foi multiplicado milhares e milhares de vezes. O continente investiu na criação de novas capacidades. E esse investimento produziu, sem dúvida, resultados importantes.
Aos poucos se torna claro, porém, que mais quadros técnicos não resolvem, só por si, a miséria de uma nação. Se um país não possuir estratégias viradas para a produção de soluções profundas então todo esse investimento não produzirá a desejada diferença. Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite então de pouco valerá termos mais quadros técnicos.
A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, nos ensina a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos ser verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.
Com o novo governo ressurgiu o combate pela auto-estima. Isso é correcto e é oportuno. Temos que gostar de nós mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-próprio não pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo fútil e sem fundamento. Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visitação do passado. É verdade que é preciso sentir que temos raízes e que essas raízes nos honram. Mas a auto-estima não pode ser construída apenas de materiais do passado.
Na realidade, só existe um modo de nos valorizar: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. É preciso que saibamos aceitar esta condição sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.
Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos como já soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.


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terça-feira, 26 de agosto de 2014

[1895.] Pátria de negreiro


 
"Queda do Império"
Vitorino, 1983
Álbum "Flor de La Mar"
 
Esta música terá sido das primeiras que aprendi a cantar de cor. Um poema lindo, bonito de se dizer e mastigar, uma ode encantadora com a saber a canela e laranja. Fantástico.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

[1894.] Ele gostava de ser um javali...

 
Sentado no jipe entre as encostas das serras de Mortágua só lhe passava uma ideia pela cabeça:
 
"Fora eu um javali!".
 
Um javali desgrenhado e sujo e livre.
Um javali severo e bruto e livre.
Um javali ignorante e ignorado e livre.
Um javali voraz e sagaz e livre.
Um javali maternal e infernal e livre.
Um javali enraivecido e esquecido e livre.
 
Um javali.
 
Livre.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

[1891.] E terminaram as férias...

Desde putito que nos últimos dias de férias me assolava aquela reflexão bucólica: Será que gozei as férias que queria? que podia? que merecia?
Mesmo que a resposta não fosse imediata - nunca fui tão optimista como sou hoje - acho que a resposta foi sempre genericamente positiva. Inter-rail, viagens a Africa, viagem a Macau, mochileiro pela Europa, muitos acampamentos de...
verão. Sou um privilegiado.

Tenho ideia de nestas férias a coisa não foi diferente. Não me lembro de passar 15 dias de férias no mesmo sitio talvez há uns 20 anos... Ainda por cima na praia - que detesto... sinto-me uma tosta mista ou uma febra a ser virada periodicamente para grelhar -, mas foi muito bom.

A companhia, o relax, as good vibes do Mié, revigoraram-me como há muito não me sentia recarregado. Não estive sempre na praia, confesso, nem sequer no Algarve... andei por Westeros, na companhia dos Lannisters, dos Stark, dos Tullys e dos Crakehalls... e foi muito bom.

Obrigado a quem me proporcionou o descanso (merecido ou não!).

sábado, 16 de agosto de 2014

[1892.] Por uma mudança positiva

Quando me pergunta "porquê?", nem sempre tenho a resposta na ponta da língua. "Porquê" sou escuteiro? "Porquê" sou tão teimoso? "Porquê", tendo tanto com que me preocupar, ainda me tornei presidente dos Bombeiros? "Porquê" sou tão truculento quando sei que tenho razão? "Porquê" incentivo meio mundo a deixar de ser apático e apresentar projectos, e programas e ir a votos... quanto mais não seja para que não haja a inevitabilidade de uma não escolha... "Porquê"? "Porquê"?

Não sei.

Mas desconfio.

Há algumas pessoas (poucas) que me fazem acreditar que há um caminho. Essas pessoas não são o caminho, mas demonstram que há um caminho... sempre. Demonstram que podes não te razão hoje. Ou até podes nunca ter razão... mas se lutaste pelo que acreditaste, então fizeste a diferença. Não foste mais um, acrescentaste alguma coisa à vida dos outros.

O João Armando é uma dessas pessoas. Ele foi truculento, ele mandou-se aos ares, ele luta por aquilo que acredita. Apesar de parecer ser a pessoa mais calma do mundo. Não me incluo certamente no grupo de amigos do João Armando, mas sito que o João é uma inspiração.

Não sou do tempo em que o João Armando incendiava os Conselhos Regionais do CNE de Coimbra. Conheci o João em 2003 quando me ofereci para estar no Roverway 2003, na Ervideira. Ele era o chefe de campo e eu estava no Youth Programme. Percebi que o "fulano" era um visionário...

A partir daí fui acompanhando, como pedagógico nacional, convidou-me para estar na equipa projeto do Rover 2005 (que nunca aconteceu porque a Junta Central se demitiu...), do Cenáculo Nacional... e depois quando integrei a Equipa Nacional do Programa Educativo e a renovação da ação pedagógica percebi, de facto, o que o João já tinha feito, o que podia fazer e quem era no escutismo mundial.

Foi hoje reeleito para o bureau mundial do movimento escutista e escolhido para presidir aos trabalhos do Comité Mundial.
 
Parabéns João. Estamos contigo. O CNE, e com grande intensidade o CNE de Coimbra, vibra com a tua eleição. Tenho pena que a Associação dos Escoteiros de Portugal tenha preferido não manifestar o seu apoio a um candidato que o mundo declarou ser digno da sua confiança para uma mudança positiva. Os actos ficam com quem os pratica e, de certo modo, até engrandece a tua vitória. És o maior e é um privilégio conhecer-te!
 
Parabéns João.

domingo, 27 de julho de 2014

[1890.] 87.º aniversário dos Bombeiros Voluntários da Mealhada - Intervenção



É com muita alegria que nos voltamos a encontrar, neste mesmo espaço, para a comemoração de mais um aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Mealhada, o octogésimo sétimo aniversário. Fazemo-lo hoje com a especial circunstância de procedermos à bênção de duas viaturas – uma nova e uma reconvertida –, de entregarmos Medalhas de Dedicação e Assiduidade a 14 bombeiros do nosso corpo activo e, ainda, de entregarmos a Carta de Missão ao nosso Comandante. Tudo razões para festejar, para nos alegrarmos e para, daqui, e mais uma vez, reconfirmarmos o compromisso, o contrato sagrado que temos com os mais de onze mil cidadãos que constituem a nossa área de intervenção, e as comunidades do concelho da Mealhada.

Muito obrigado pela vossa presença, a todos vós e a cada um em especial. Permitam-me que vos abrace primeiros aos nossos bombeiros – a todos, os do ativo, e de maneira muito calorosa os do Quadro de Honra e do Quadro de reserva – depois aos nosso sócios, aos nossos autarcas, e aos nossos amigos, a todos eles sem excepção, onde incluo, naturalmente os familiares dos nossos bombeiros.

Antes de entrarmos neste pavilhão, e depois de termos benzido duas novas viaturas e de termos homenageado os bombeiros falecido – os nossos e todos os outros – inaugurámos a galeria dos fundadores da nossa associação e a galeria dos presidentes da mesa da assembleia-geral. Lembro-me de um texto assinado pelo nosso saudoso fundador João Saraiva – que apesar de ter dado a esta casa tanto e de maneira tão forte não tinha uma única fotografia nesta casa – dizer que não se tinha feito, ainda justiça ao trabalho diligente e dedicado de outro fundador, o senhor Augusto Ramalheira. Estou convencido que hoje fizemos o pedido de João Saraiva e no lugar mais destacado e bonito do nosso quartel, temos as fotografias dos três fundadores, o trio de amigos que se juntava ao almoço na Rua Costa Simões, três jovens caixeiros, de vinte e poucos anos, que no dia 26 de julho de 1927, com o apoio do presidente da Câmara, o Padre Breda, fundaram esta grande associação, a maior do concelho.

A organização de Augusto Ramalheira, a operacionalidade e os conhecimentos de quem já tinha sido bombeiro, Bernardino Felgueiras, e o espirito dinâmico e congregador de João Saraiva deram o pontapé de saída para tudo isto, que ao longo de 87 anos tanto cresceu e tanto serviu. Nos filhos, o senhor Ramalheira e Dr. Mário Saraiva, aqui presentes, e nos netos, entrego o meu muitíssimo obrigado.

Inaugurámos, tanto, noutro acto de justiça, a galeria dos presidentes da mesa da assembleia-geral. Que no salão nobre passam a pontificar no terreiro sagrado onde se reúnem os sócios e em muito mais ocasiões a comunidade ativa desta terra. A assembleia-geral, presidida por tão grandes figuras, representa o plenários dos quase 3000 sócios desta casa,  e a democraticidade que a sustenta e superintende. Destaco, nessa galeria – não me vão levar a mal, nem me vai levar a mal o Dr. Branquinho de Carvalho aqui presente, o único sobrevivo da galeria – a figura do Dr. Manuel Oliveira Andrade. Um homem que foi presidente da mesa da assembleia-geral desta casa durante pelo menos cinco décadas. Que deixou de o ser três dias antes de falecer, que fez da inauguração deste mesmo quartel, neste mesmo pavilhão, a sua ultima aparição publica, e que, infelizmente não tinha ainda uma memória nesta casa.

Não me leva a mal o senhor presidente da Câmara se lhe pedir que reponha a justiça moral desta nossa Linda Mealhada Linda e que, uma vez que a Rua Manuel Andrade se transformou num carreirito que une a passagem subterrânea ao Hospital da Misericórdia, ajude a encontrar uma outra artéria a quem possa ser dado o nome deste mealhadense que tanto serviu a Mealhada e as suas gentes. Considere este meu pedido como o presente de aniversário que nos podia dar hoje.   

Caríssimos bombeiros, caríssimos amigos.

Entregamos hoje a Carta de Missão ao nosso comandante Nuno Antunes João. Será estranho fazermos sessão solene da entrega de uma carta de missão, quando não fizemos da tomada de posse. É capaz de ser verdade. Mas entendemos que não deveríamos esperar pela tomada de posse e fizemo-la quase imediatamente, em 19 de abril. E consideramos que é muito importante a figura da Carta de Missão, entregue pela direcção ao seu comandante, que ele aceita e à qual se compromete, num contrato solene com a associação e com a população que por ela é servida. Esta figura da Carta de Missão foi introduzida na alteração do quadro legislativo de 2012, e encarna bem a imagem do comandante que se apresenta como um líder, com um plano e uma estratégia, um rumo e uma missão, assumido através de um compromisso.

E a falta que faz aos portugueses a assunção de valores assentes em compromissos. A importância que tem a lealdade a compromissos.

Nuno Antunes João é um homem de compromissos, de valores. É alguém que acredita no valor do trabalho, e na liderança pelo exemplo. Um homem que tem dado mostras diárias de disponibilidade, de simpatia, de proximidade com as pessoas, com carisma, liderança e um fortíssimo espirito de serviço.

Senhor comandante, a missão que lhe é confiada não é fácil – até porque se fosse fácil não seria para si – mas acredito que seja desafiante e que a vai cumprir com brilhantismo e capacidade.

Ao longo dos últimos doze meses – desde o último aniversário – vivemos neste quartel momentos de grande transformação. Nomeámos um novo comandante e atravessámos uma época florestal em que estivemos em todos os mais relevantes teatros de operações. Vimos bombeiros morrer e vimos a população a mostrar a sua solidariedade e apoio incondicional. Alterámos profundamente esquemas de trabalho, horários, esquemas de voluntariado e serviço. Sofremos, em 11 de fevereiro, quando uma viatura nossa ficou destruída e tememos pela sobrevivência de um bombeiro nosso. Foi um ano intenso, muito intenso, mas que serviu para mostrar de que fibra são feitos os nossos bombeiros.

Senti cooperação, senti que os nossos bombeiros sentem esta casa e esta causa, senti que são solidários, que ajudam, que estão prestáveis e prontos a dar tudo de si. Obrigado a todos os bombeiros, especialmente aqueles que se mobilizaram para ajudar em campanhas de angariação de fundos – especialmente na freguesia da Vacariça, da Mealhada e de Ventosa do Bairro e no Carnaval –, aqueles que nos apresentaram sugestões de iniciativas, que vestiram a camisola quando mais precisámos.

Muito obrigado.

Não posso deixar de apresentar uma palavra de elogio e de agradecimento a todos os que gostam dos Bombeiros. Às centenas de pessoas que se dirigiram ao quartel para entregar alimentos quando no verão passado o país ardia e chorava a morte de oito bombeiros. Aos que nos telefonaram a oferecer comida e dinheiro. E, de modo muito especial aos que connosco colaboraram – com trabalho e produtos – na Feira de Artesanato e Gastronomia. À equipa liderada por Joaquim Ricardo, um bombeiro do quadro de honra que mostra ser um homem extraordinário e à sua equipa fantástica – com bombeiros, antigos bombeiros e pessoas que nunca foram bombeiros – e que em cada ano garantem um financiamento fundamental e estruturante a esta associação. A todos eles e a cada um deles, fica o nosso humilde e sincero obrigado.  

Os tempos não são fáceis. Nunca o foram, e o futuro desta casa tem muito de estratégia, gestão e apoio. O nosso mandato vai rigorosamente a meio. A metade que falta pode ser a mais fácil ou a mais difícil. Será a mais fácil se nos limitarmos a gerir os meios, até porque muitas das medidas difíceis estão tomadas e começam a produzir os primeiros frutos. Mas poderá ser a mais difícil se nos dispusermos a fazer o que falta fazer, a fazer o que a associação e a comunidade precisa que seja feito. Como já assumimos, o desafio que nos é apresentado neste momento é o da remodelação estrutural deste quartel. Para isso precisaremos de muito mais do que boas intenções. Precisamos de massa cinzenta, precisamos de sentido critico para perceber para onde queremos caminhar. E depois precisa de operários, de quem esteja disponível para avançar, para trabalhar, para construir. O caminho daqui para a frente tem de ser estudado, pensado, calculado, para ser bem trilhado. Nós estamos disponíveis, mas não o conseguiremos fazer sozinhos.

Hoje, como há um ano, a palavra final da direcção a que presido – uma direcção em que a média de idades é de pouco mais de um terço da idade da associação - que vos quero deixar é de esperança. Somos uma associação que apesar dos quase 90 anos é jovem, com muita vontade de combater os fogos da vida de frente, com uma vontade grande de Servir com abnegação e altruísmo, com uma enorme vontade de estar ao lado das pessoas que precisam de nós e de quem gostamos tanto!

Vivam os Bombeiros da Mealhada,

Viva o concelho da Mealhada.

 

sábado, 19 de julho de 2014

[1889.] A árvore dos Castelas de Sernadelo

Adoro História. Especialmente a História desconhecida e desvendada que se bebe nas fontes simples e se sintetiza, como a de hoje ao almoço quando uma grande senhora da nossa terra me explicou - com a narrativa de dois pequenos episódios - a razão de ser de muito do seu passado com base num passado longínquo situado na sua infância e juventude.
 
Gosto muito da pesquisa e da conquista da verdade que está escondida, por desvendar, nos livros e nos espaços, nas vidas e nos objetos, à espera que alguém una as pontas soltas e encontre a panorâmica geral da floresta. A História Local permite isso, consegue ser um manancial imenso de informações que estão por tratar, por interpretar, por sistematizar. E há tanto, mas tanto para fazer nesta matéria - como a conversa com a Cláudia Emanuel, ontem, poderia provar.
 
Ontem à noite e hoje de manhã estive a rever e sistematizar a árvore genealógica com os descendentes do Alfredo e da Emília (os dois patriarcas dos Castelas de Sernadelo). Tinha ideia de produzir este documento mais para o final, e ir desvendando os antepassados com algumas fotos que tenho... mas um dos primos pediu para antecipar e temos de reconhecer que assim é mais fácil visualizar o quem-é-quem...
 
E isso, esse exercício antecipado, fez-me reconhecer que, muitas vezes, estamos tão preocupados com o passado que esquecemos o presente. Esquecemos que os laços da genealogia também se fazem através de uma aproximação aos consanguíneos. De que me vale saber quem são os meus oitavos avós se não conheço os meus primos de Coimbra, com quem é possível me cruzar diariamente, ou num casamento, e não saber sequer que temos antepassados comuns.
 
A arvore cuja primeira versão publiquei hoje no facebook e aqui (ver mais abaixo) tem muitas incorreções e acima de tudo muitas omissões. Mas foi admirável a maneira como quase imediatamente me começaram a chegar mensagens a dizer "corrige aqui ou ali". Esta interação é brutal. 
 
Fico à espera que, nomeadamente por aqui, façam as correções necessárias e fundamentais para que possa surgir uma nova versão em breve.
 
Agradecimentos ao Eduardo B Castela, pelos dados da família em Coimbra, ao Nando, ao Pecá, ao Calinas, ao Ruizinho, ao Filipe Castela e a Sandra pelas datas e alguns nomes.
 
 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

[1888.] Castela - O Patriarca

Continuando na ORIGEM, hoje é dia de aqui lembrar o patriarca, ALFREDO RODRIGUES CASTELLA, o primeiro Castela de Sernadelo. Infelizmente a fotografia de que disponho é a que está na campa, no cemitério, e não é nada boa. A campa foi mandada fazer pela Madrinha Eulália pelo que ela teria uma foto, se alguém tiver conhecimento do paradeiro desta ou de outra foto do Avô Alfredo agradecia muito.


ALFREDO RODRIGUES CASTELLA nasceu na Póvoa da Mealhada, em 19 de Agosto de 1869, e foi batizado na Vacariça em 7 de setembro do mesmo ano. Filho de Joaquim Rodrigues Castella e de Justina Costa. Tornou-se carpinteiro - tal como o seu pai Joaquim, o seu avô Manoel e até o seu bisavô Jacinto Rodrigues Castella. Uma família com pelo menos quatro gerações de carpinteiros. O avô Alfredo foi carpinteiro na construção do Palace Hotel do Bussaco (entre 1888 e 1907) Casou-se em 8 de agosto de 1896, com Emília, e passou a residir em Sernadelo, na zona do Alto da Sobreira (que só teria esse nome a partir da década de 10). Desta união nasceu Alexandre, em 1899, Maria Eulália, em 1903, Hilário, em 1905, José e Paulo, em 1914, e daqui todo o clã "Castela de Sernadelo".

[1887.] Castela - A Matriarca

Nasceu no facebook um grupo fechado dos Castelas de Sernadelo, onde vou colocando aqui algumas imagens de antepassados nossos.

Comecei, naturalmente, pela origem, a matriarca dos Castelas de Sernadelo, a avó Emília - mãe do Alexandre, da Eulália, do Hilário, do José e do Paulo.

EMILIA CARVALHO (ou Carvalha), também conhecida como EMILIA DE JESUS CASTELLA, ou EMILIA DO BENTO, nasceu em Sernadelo em 1 de julho de 1869, foi batizada doze dias depois, na Igreja da Vacariça. Era filha de Bento Carvalho, lavrador, e de Rosa da Fonte. Todos naturais de Sernadelo onde residiam. Emília casou-se com Alfredo Rodrigues Castella, da Póvoa da Mealhada, carpinteiro, em 8 de Agosto de 1896, e os dois vieram para Sernadelo, para o alto da
sobreira, onde viveram o resto dos seus dias. Foi deste casamento que nasceu toda a linhagem dos Castelas de Sernadelo.
A avó Emilia morreu em Sernadelo em 15 de janeiro de 1959, com oitenta e nove anos.



Nalguns sítios, como a campa da própria, está escrito o seu nome como EMILIA CARVALHA, que se justifica pelo apelido do pai - Carvalho - havendo o hábito de as filhas ficarem com o nome do pai... no feminino. Esta é, portanto, a terceira versão do nome da mesma pessoa - EMILIA CARVALHO, EMILIA CARVALHA e EMILIA DE JESUS CASTELA. Em Sernadelo era conhecida como a Ti' Emília do Bento.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

[1886.] Dar (mais) tempo à vida!


Diz-se que ninguém pode dar o que não tem, e que o exemplo não é a melhor forma de Educar... é a única. A equipa da EPVL, AGILIS, da iniciativa 'Dar mais tempo à vida' mostrou que há amor para dar no exemplo e logo há educação a dar pela ação.

A iniciativa 'Dar mais tempo à vida', que o Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro promoveu na Mealhada, de 5 de abril a 5 de julho, mostrou à comunidade local que há uma oportunidade para se ser feliz, mesmo no meio da adversidade e que a adversidade - a da doença oncológica - pode ser aproveitada para unir as pessoas, para as fazer repensar naquilo que é verdadeiramente importante.

A iniciativa chamou-se 'Dar MAIS tempo à vida'. Honestamente, parece-me que a mensagem fundamental é que é preciso 'DAR TEMPO À VIDA'... seja muito ou pouco, dar algum... porque a verdade é que o mundo que nos rodeia está a fazer-nos, cada dia, dar tempo é à morte, ao pesadelo, ao sombrio e não à vida com tudo o que de bom ela tem... e é muito.

Vinte e cinco equipas deram muito e o que deram foi muito bom. Nem sempre as palestras tiveram cheias de gente, ou as iniciativas foram cheias de interesse e participação. Mas terá bastado o que a campanha operou nos voluntários que foram operadores - passe a redundância - para já ter valido a pena... e foi muito além disso.

Uma dessas equipas foi a Agilis - Em Prol da Vida Lutamos, com o acrónimo EPVL. Uma equipa de uma escola, ato inédito aqui e em iniciativas idênticas. Uma comunidade educativa que se consegue organizar para participar numa atividade onde estão grupos informais de pessoas, e não estruturas organizadas de associações. Uma equipa que demonstrou que a escola vai muito além das paredes do edifício, ou das relações educativas formais entre professores e alunos ou dirigentes e funcionários.

Ninguém pode dar o que não tem, e por isso foi possível realizar palestras, largadas de balões, fazer pulseiras e deixar mensagens. Ouvir testemunhos - especialmente da João e da Sónia, duas professoras que puderam narrar na primeira pessoa o que é sobreviver ao cancro. De certa maneira ficou o testemunho de que é possível uma escola combater o cancro, dando força a um (ou a dois) dos seu membros. E a EPVL já venceu, pelo menos, dois cancros...
O exemplo não é a melhor forma de Educar... é a única. E por isso vimos professores a dar do seu tempo pelos outros, mostrando aos alunos que o tempo se dá, se oferece, gratuitamente e que este se multiplica quando há um gesto de amor, de carinho, de afeto e de alegria. 

A equipa da EPVL, AGILIS, da iniciativa 'Dar mais tempo à vida' mostrou que há amor para dar no exemplo e logo há educação a dar pela ação.

Todas as equipas da iniciativa estão de parabéns, mas a equipa AGILIS merece um carinho especial e um elogio especialíssimo. Porque o trabalho que foi feito nestes três meses vai multiplicar-se pela vida de todos o que a viveram, porque a escola é o terreno de toda a humanidade, o terreno mais fértil e mais produtivo que pode haver, e as sementes lançadas numa escola, multiplicam-se muito mais.

Parabéns à AGILIS. Foram espetaculares... E o que fizeram de facto não pode ainda ser realmente compreendido. Só mais tarde, muito mais tarde, no segredo das vidas onde os alunos serão protagonistas, na intimidade, é que se verá o alcance do que foi feito agora.

Parabéns a todos.

__________________________________

Nota - No inicio do projeto fui convidado para integrar a Comissão Organizadora Concelhia da campanha. Na altura disse que não iria ter o tempo necessário para fazer fosse o que fosse. Mesmo assim insistiram e o meu nome foi colocado na lista da comissão. Infelizmente não consegui participar num única reunião que fosse... Incentivei a Mané - diretora pedagógica da EPVL - a constituirmos uma equipa na escola, e ela lançou o desafio à Maria João Saraiva e à Sónia Taira, e a equipa Agilis nasceu. Não tive o mesmo sucesso em outras duas tentativas a que me tinha proposto... se calhar porque não teria a oportunidade de delegar como foi possível na escola.
Fui 'convocado' a ir tirar a foto da comissão organizadora... fui contrariado e envergonhado, mas fui... dei o meu testemunho simples, mas fiquei sempre com o receio de estar a fingir ter feito alguma coisa sem o ter feito de facto. No sábado não tive coragem de subir a palco quando chamaram a comissão organizadora. Eu não estava à altura daquelas pessoas que deram tanto e fizeram tanto. Estaria a ser impostor se o fizesse.
Não fiz e honestamente espero não ter magoado ninguém com isso.

Mas como mealhadense estou muito orgulhoso daquilo que toda esta gente fez. Foi muito e foi bom. Muito se critica que as pessoas são isto e são aquilo... fica por demonstrar esse alegado desinteresse das comunidades de hoje. O que eu vi foi que as causas que interessam mobilizam as pessoas e que as pessoas sabem dizer presente nessas situações.

Calculam-se que possam ter sido angariados mais de 30.000 euros nestes três meses. Muito dinheiro, que resulta de muito trabalho e da boa vontade de muitos... mesmo em crise. É dinheiro solidário, é dinheiro limpo e generoso.

terça-feira, 8 de julho de 2014

[1885.] «Foi bonita a festa pá!"



"Foi bonita a festa pá!"... é a frase inicial da segunda versão, de 1976, da canção "Tanto Mar", de Chico Buarque. O cantor brasileiro, revelando uma componente ideológica marxista, revela o desalento pelo 25 de novembro de 1975, em contraposição com a euforia patente na primeira versão da mesma música, logo em 1974.

Mas mais importante é a frase... "Foi bonita a festa pá!"... que não me sai da cabeça há uns dias - logo não está ligada à abada que o Brasil levou em casa na meia-final do Mundial de Futebol, em que os tucanos seriam os donos da casa e da bola... mesmo com contestação extrema da parte do povo.

A festa que foi bonita foi na escola, e isso encheu-me de orgulho e satisfação, pelo trabalho fantástico de professores, colaboradores e alunos, que demonstraram que uma escola pode ser um campo de trabalho, de alegria, de harmonia e de conquistas.

"Foi bonita a festa pá" e ainda sinto no ar um belo cheiro de alecrim!

sábado, 5 de julho de 2014

[1884.] No 23.º aniversário da EPVL, em 4 de julho de 2014

 
Excelências,
Caríssimos amigos,
 
Permitam-me que comece por, neste dia e nesta hora, saudar os alunos diplomados, razão fundamental desta escola, que hoje completa 23 anos de existência formal. Para eles, peço uma salva de palmas pela conclusão dos seus cursos, pela coragem, pela resistência, pela superação de todos os medos e fragilidades, por terem conseguido concluir com êxito esta etapa, apenas mais uma, no longo caminho de conquista da felicidade e da autorealização.
 
Juntam-se hoje, de modo formal, ao corpo de antigos alunos da EPVL, mais de meio milhar, que ao longo de 23 anos aprenderam que “Ser Profissional Vale +”, e que hoje estão nas empresas, na fábricas, nos restaurantes, mas também nas universidades, como alunos e como docentes, a demonstrar isso mesmo. A provar que a via da aprendizagem profissionalizante, por ser mais prática, é mais proveitosa, é mais valiosa, é mais formativa e muito mais compensadora, para quem acredita no trabalho como forma de alcançar o sucesso e a realização pessoal.
 
Peço uma salva de palmas, também, para as famílias dos nossos diplomados, que dentro do possível, souberam acompanhar o percurso dos seus educandos, que foram certamente, ao mesmo tempo, a razão e o avaliador da vinda diária à escola. E ainda para as empresas e os empresários, onde os nossos alunos tiveram formação em contexto de trabalho. Obrigado pela vossa disponibilidade, paciência e caridade, no sentido de ser um gesto de amor, o de formar jovens a crescer em alma e valores. A cada um dos empresários presentes, e de modo coletivo ao presidente da direção da Associação Comercial e Industrial da Bairrada Aguieira, direciono o nosso muito obrigado.
 
Agradecia que pudéssemos, igualmente, com uma salva de palmas, saudar e agradecer ao corpo de professores e formadores da nossa escola. Um conjunto de mulheres e homens empenhadíssimo, interessadíssimo, muito dinâmico e ativo que compreendem que a missão da Escola Profissional Vasconcellos Lebre passa pela formação dos nossos formandos, mas, também, por uma disposição para o serviço junto da comunidade, fora das paredes na escola, junto das empresas e do mundo real, onde os homens e as mulheres têm momentos de alegria e de angústia.
 
Um agradecimento e uma salva de palmas, também, para todos os colaboradores da escola, cooperadores na nobre missão de, sem protagonismos, saber dar aos alunos e professores a garantia de que a máquina funciona, discreta e certeira. Um corpo de colaboradores que é constituído na sua grande maioria por antigos alunos, e que por isso conhece a história da escola, a sua filosofia de vida e os valores que a regem.
 
A todos, e em nome de todos, ficam os meus primeiros agradecimentos. Reparem que a todos me referi como sendo um corpo, na metáfora tão sabiamente usada por São Paulo, “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo”, assim é a EPVL também.
 
A EPVL é hoje um corpo, com muitos membros, com 23 anos de sucessos, de alegrias e tristezas, de angústias e de exaltações, sob a liderança de um homem impar, de um cidadão empenhadíssimo, que serviu e serve esta casa de uma maneira sem igual. Um homem, que durante 23 anos, foi o mestre-de-obras de uma construção edificante e majestosa, que converteu a vida de milhares de jovens e famílias em histórias de salvação pessoal pelo trabalho e pela profissionalização. Um homem que até no momento da saída soube ser um professor, um pedagogo, um mestre, um pai e um amigo e que me acompanhou nos meus primeiros passos nestas funções de uma maneira sempre fraternal, autonomizadora e valorizadora. Não peço uma salva de palmas para o Eng. João Pega, sei que lha vamos dar sem ser preciso pedi-lo.
 
Senhor Secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Dr. Manuel Castro
Almeida,
Excelência,
 
Muito obrigado pelo privilégio que nos presta por ter acedido ao nosso convite para estar connosco nesta tarde. Permita-me que lhe confidencie que não o convidámos pelo cargo que ocupa. Foi fácil justificar a opção de convidar o Secretário de Estado do Desenvolvimento Regional para presidir a esta cerimónia, numa escola que há 23 anos não faz outra coisa senão promover o desenvolvimento regional. Porque a verdade é que esta escola já há muito que não é só da Mealhada, e são muitos os alunos que acolhemos de proveniências tão distantes como Sever do Vouga ou Ílhavo, e mais perto como dos concelhos de Oliveira do Bairro, Cantanhede, Mortágua ou Anadia.
 
Seria fácil justificar a presença do responsável do Governo da República que tem a seu cargo a gestão dos fundos estruturais do próximo pacote de fundos comunitários, na festa de uma escola que é altamente financiada pelos fundos do Programa Operacional do Potencial Humano do até agora Quadro de Referencia Estratégico Nacional.
 
Mas não, não foi por isso que convidámos o senhor secretário de Estado. Fizemo-lo porque quisemos agradecer ao homem, ao Manuel Castro Almeida, o apoio que deu à nossa escola quando, na década de 90 foi secretário de Estado da Educação e do Desporto, e exortá-lo a ele e ao Governo da República a recentrar o olhar no que verdadeiramente interessa no ensino profissionalizante: Um caminho de formação dos jovens portugueses, pensado para os jovens portugueses e para as empresas portuguesas, construído para resolver os problemas de Portugal, que não se compadece com experimentalismos mais ou menos germanofilizados e não ajustados a uma realidade onde o tecido empresarial é composto por micro, pequenas e medias empresas.
 
Dr. Castro Almeida, caríssimo amigo desta escola, secretário de Estado do Desenvolvimento Regional do Governo da República Portuguesa, um dos construtores do Ensino Profissional em Portugal, que é uma referência em toda a Europa e no mundo, mesmo junto daqueles que porventura tentamos agora imitar, peço-lhe que puxe dos seus galões e ajude o Governo da República a recentrar as estratégias do ensino profissional em Portugal, que não são distantes daquilo que o senhor idealizou, com o Dr. Joaquim Azevedo há duas décadas.
 
Desculpe-me senhor Secretário de Estado, o meu atrevimento, saiba que o estimo, e que precisamos de si e do seu conselho. E é com muito prazer que vinte e três anos depois aqui o temos a si, o amigo da escola, o homem que presidiu à primeira sessão de entrega de diplomas da Escola Profissional Vasconcellos Lebre, na Mealhada.
 
Caríssimo Dr. José Luís Presa, presidente da Direção da Associação Nacional das Escolas Profissionais, agradeço a sua presença, e na sua pessoa todas as escolas irmãs que no último quarto de século, quais pioneiros em território desconhecido, abraçaram o projeto do ensino profissionalizante. Hoje, como há 25 anos, precisamos de voltar a convencer todos – pais e empresários, alunos e comunidade – que a via profissional não é para os menos capazes, não é para os menos inteligentes, não é para os enjeitados de um sistema educativo que tantas vezes promove a ilusão do saber, em vez do saber ser e do saber fazer. A Escola profissional é também para esses jovens, não apenas para eles, mas também para eles que têm direito a ter um futuro. Estes jovens que estão atrás de si são a prova disso. De que há para todos um futuro e uma missão para cada um.
 
Dr.a Ana Mónica Oliveira, caríssima amiga, aqui no papel de representante da senhora Delegada Regional da Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares. Agradeço a sua presença, e pedia-lhe que levasse à senhora delegada o testemunho do nosso compromisso em colaborar com o Ministério da Educação, em sermos parceiros leais, sem deixarmos de pensar pela nossa cabeça. Porque somos uma escola, porque queremos transmitir valores e coerência, pedimos que não nos confunda com aqueles que estão a promover cursos que sabem que não vão poder ministrar – enganando famílias e jovens –, que olham os alunos como propriedade ou cabeças de gado que se dá quando está enjeitado, ou se guarda para se autojustificar. Ninguém pode dar o que não tem, mas não é a consciência de que há cada vez menos jovens em idade escolar, logo menos alunos para cada escola, que nos fará entrar na lei da selva e do vale tudo.
 
Senhora presidente da Assembleia Municipal da Mealhada, e na sua pessoa cumprimento e saúdo todos os autarcas que a nós se juntaram nesta tarde, e que há 23 anos nos amparam e apoiam. Todas as Juntas de Freguesia, Assembleia Municipal e, naturalmente a Câmara Municipal da Mealhada têm sido parceiros estruturantes e decisivos em todos os momentos. De modo muito particular no final do ano passado quando sob a liderança do Presidente Dr. Rui Marqueiro, com a solidariedade de todos os vereadores e na Assembleia Municipal da Mealhada, soubemos salvar a nossa escola de um normativo legal que nos mataria por omissão. Sentimos a coragem e a solidariedade no sinal claro do poder local da Mealhada de que somos também nós um corpo importante na comunidade. Hoje, aqui, agradeço a todos os autarcas esse voto de confiança. E Hoje, aqui, renovo o nosso compromisso de procurar sempre estar à altura desse voto.
 
A todos os parceiros da nossa escola, associações, corpos de bombeiros, grupos desportivos e artísticos, lideres religiosos. Esta casa é a vossa casa. Saibamos todos ser comunidade e corpo unido, criativo, dinâmico e transformador no sentido de um espaço mais justo, mais solidário, mais livre e mais coeso.
 
Agradeço, também, a presença e o apoio que nos tem dado o Eng. Bruno Coimbra, deputado da Nação, que tem sido um bom amigo da escola e um amparo importante em tantos momentos de angústia.
 
Aos sócios da Escola Profissional da Mealhada, Lda, e na pessoa da D.Graça Baptista, do senhor Carlos Veloso, do senhor João Peres e do Presidente Marqueiro, fica o nosso compromisso renovado em cada dia de querer transformar este projeto em algo sempre crescente e maior. Agradeço a confiança diária e a liberdade que traz sempre mais responsabilidade que me têm devotado, pessoalmente.
 
Dr. Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada, e senhor João Peres, presidente da Caixa de Crédito Agrícola da Bairrada Aguieira, ilustres fundadores deste projeto, parabéns por 23 anos de luta, de resistência, de ambição e de sonho. Este é o vosso sonho. Esta é, na minha opinião, a obra maior que algum homem algum dia pode almejar. Catedrais de saber, estruturas perpétuas de saber e conhecimento. A obra de transformar os futuros das pessoas e das sociedades está mais perto dos deuses que dos homens, e vocês conseguiram-no, quando decidiram criar a Escola Profissional da Mealhada. Como cidadão, agradeço-vos por isso.
 
Dr. Marqueiro, caríssimo presidente, esta é a escola que há oito meses e meio me solicitou que gerisse. Serei o último e o único a quem possa ser pedida uma avaliação do desempenho. No entanto, posso garantir-lhe que estamos mais mobilizados que nunca, mais empenhados que nunca, mais entusiasmados que nunca. Posso garantir-lhe que estamos todos – professores, gestores e colaboradores, e de uma maneira especial eu e a nossa extraordinária diretora pedagógica, Dr.a Manuela Alves – cansadíssimos depois de um ano letivo em que demos o litro, como sempre, em que fomos a todas, em que nunca dissemos que não a nada. No entanto, estamos cheios de vontade de abrir mais um ano letivo, com novos cursos e novas apostas, novos desafios e novas demandas. Porque acreditamos que o fazemos em nome de um bem maior.
 
Continuaremos a dar corpo à estratégia definida coletivamente de construir o Centro de Formação Profissional para adultos ativos. É a nossa demanda mais arriscada, mas vamos conseguir. Continuaremos a trabalhar para formar jovens para o emprego e para o mercado, com cursos que o mercado pede e precisa. Continuaremos a fazer desta escola um espaço de memória, de valorização da herança artística, histórica e cultural da comunidade, um espaço de crítica, de reflexão, de cidadania. Um espaço de encontro, de comunhão e partilha de valores e sentimentos.
 
Senhor secretário de Estado, Senhor presidente da Câmara
 
Quando há oito meses e meio aceitei o desafio de ser diretor-geral desta escola, sucedendo a um homem com a envergadura do Eng. João Pega, e aceitando um desafio imenso do Dr. Rui Marqueiro, adotei como lema a frase de Nelson Mandela: “A Educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo!”. Acredito, sinceramente, nesta ideia.
 
Vinte e três anos de vida desta escola, mil e quinhentos alunos diplomados, vinte e um por cento dos quais com frequência no ensino superior, setenta e seis por cento deles a trabalhar, quase todos na sua área de formação, no fundo, noventa e sete por cento de sucesso, são sinais claros de que é possível construir um país novo. Que é possível garantir um futuro para todos e para uma missão para cada um.
 
Dr.Castro Almeida: O desenvolvimento da nossa região está aqui, à nossa frente. Estes jovens estão disponíveis para fazer o que lhes cabe, têm formação, tem as ferramentas para desenvolver o país. Saiba o país dispor deles.
 
Muito obrigado.
 
[Discurso proferido na cerimónia solene dos 23 anos da EPVL]

sexta-feira, 13 de junho de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

[1878.] A grande Catarina

Antes de haver Angela Merkel, já outra senhora alemã tinha demonstrado os dotes de regência do governo dos povos com mão de ferro e (apenas aparentemente) de maneira iluminada.

Catarina, a Grande, (1729-1796) imperatriz da Russia, assinala hoje o 285.º aniversário do seu nascimento.

O poder no feminino devia ser objeto de estudo. Governam as mulheres melhor do que os homens? E em que aspectos? O poder absoluto em homens e mulheres manifesta-se de maneiras diferentes?

Catarina depôs o marido, tomou-lhe o lugar, expandiu a Russia, modernizou a administração, tornou-a numa potencia de gente iluminada e sofisticada. Teve na sua corte, como conselheiro de Estado, o médico português e judeu António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783) - natural de Penamacor, cristão-novo dos lados de Idanha a Nova.
Catarina teve à sua volta os maiores intelectuais do iluminismo ocidental, mas em nada aplicou as ideias vanguardistas à opulência czarina.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[1876.] O primeiro primeiro de maio

 
Cartoon de João Abel Manta (n.1928)
 
João Abel Manta "ficará associado dum modo muito particular ao melhor e ao pior que em Portugal vivemos nesses dois anos" (1974-1975) in João Medina 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

[1874.] Tributo

Memória de um servidor

Tributo a Basílio Gouveia Lopes

Depois de uma vida cheia, de trabalho e sacrifício, cabe ao homem na sua reforma uma escolha dolorosa. Ou goza tudo o que conquistou, ou continua a servir.

Terá sido esse um dos mais profundos dilemas de Basílio Gouveia Lopes, na última fase da sua vida. Confidenciou-mo várias vezes. Mas o impulso diário focava-o no essencial: Quem não vive para servir… não serve para viver.

É normal pensar-se que o ocaso da vida de um homem é de pantufas e gozo do conquistado. Que desperdício! O saber acumulado, a exaltação de uma vida cheia só pode dar a cada homem a oportunidade terminal de servir a comunidade em que vive de corpo e alma. Será egoísmo viver a vida no seu casulo sem nada fazer pelos outros? Poderá não ser. Poderá até ser aceitável numa sociedade que interna os velhos e os trata como aparas de um detrito que já serviu, mas já não tem valia.

Cresceu, fez-se homem. Trabalhou como azeiteiro e calcorreou os caminhos das pedras até decidir ir para França. Trabalhou de sol a sol na terra dos gauleses. Com o filho longe, dando tudo ao trabalho. Foi como são muitos. Foi mais um ‘valise de carton’ como tantos outros… francês na sua terra, português na terra dos outros… sem ser nada, mas conseguindo conquistar tudo. Tudo o que sonhara.

Regressou a casa no final de uma vida de trabalho. Bolsos cheios, boa ‘retraite’, alguma saúde. O sonho do descanso…

Mas não. Soube dizer que sim para a missão de secretário da Junta de Freguesia da Mealhada. Oito anos de serviço diário, empenhado, preocupado, diligente, austero, capaz e muito exigente. Um encargo que foi ficando mais pesado, mas nunca desistindo.

Antes da Junta de Freguesia já tinha assumido a missão de se dedicar à Irmandade de São Sebastião, na Mealhada. E a irmandade fundada em 1835 renasceu, e cresceu, e passou a cumprir as obras de misericórdia do seu estatuto. Todas. E a capela do mártir foi recuperada, obras e mais obras. Não o fez sozinho. Naturalmente. Mas foi força motriz e porto seguro em cada momento.

Na paróquia assumiu lugar no Conselho Económico Paroquial. Pesada tarefa a de abrir e zelar pela capela mortuária. Muitos trabalhos, muita dedicação, sempre empenho, preocupação, diligência, austeridade, capacidade e muita exigência.

No final, há poucos meses, procurou-me e pediu-me que o ajudasse na missão que faltava e que o preocupava: “Não quero morrer sem terminar o processo do busto ao padre Abílio”. Como secretário da Junta de Freguesia tinha apoiado a primeira iniciativa e como membro do Conselho Económico Paroquial tinha apoiado todas as investidas. Mas faltava fazer-se. Respondi-lhe: “Vamos a isso. Outra vez”. E fomos, mas foi ele que foi buscar orçamentos, ver possibilidades de outros materiais que não o bronze, arranjar quem esculpisse e quem fizesse. De tudo ia dando conta e pedindo apoio e compromisso. Tinha medo que se pelava de falar… “às vezes escapa-me o francês!”, mas nunca deixou de ir onde quer que fosse.

A doença trouxe o sofrimento, e o penar. E já não conseguiu ir à festa da inauguração do seu busto, da sua última missão. Mas o busto está lá. Está feito.

“Ninguém comete maior erro do que nada fazer, só porque o que pode fazer é pouco!”. Dizia Edmund Burke, filosofo irlandês do séc. XVIII. Porque o que pode parecer pouco, muitas vezes faz a diferença. O serviço é, verdadeiramente, um caminho de felicidade.

Obrigado senhor Basílio!
 
Texto publicado no Jornal da Mealhada de 30 de abril de 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

[1873.] Perplexidades de um rapaz moreno... lunae dies...

 
Nunca considerei o suicídio como uma ato de cobardia. Antes pelo contrário. Tenho mais medo da morte do que da vida... Mas não posso deixar de ficar perplexo quando um jovem, que parece ter tudo, termina com a sua vida.
Pedro Cunha matou-se... Não compreendo porquê...


sexta-feira, 25 de abril de 2014

[1871.] Pedir a demissão do Governo é tão natural como pedir chuva em abril, e sol em outubro.

Pedir a demissão do Governo é tão democrático que até seria terrivelmente castigado numa ditadura.
Pedir a demissão do Governo é tão natural como pedir chuva em abril, e sol em outubro.
Pedir a demissão do Governo é um direito de expressão de qualquer português, hoje tão natural como o dever de aceitar e ouvir a opinião contrária.
Pedir a demissão do Governo, numa democracia, é tão legitimo como ouvir um pescador na RTP1 dizer que faltam ao país 100 Salazares. Ou que a ponte sobre o Tejo devia continuar a chamar-se Ponte Salazar.

Mas que seria da Democracia se fossemos a eleições cada vez que um grupo de pessoas pede a demissão do Governo? E que seria da Democracia se criássemos 100 Salazares (não vejo como pudessem coexistir)? Vamos inconstitucionalizar a existência de partidos fascistas se um grupo de pessoas o pedir?

Será assim tão fácil?

[1870.] "Otelo não é um herói!"


A não perder hoje no Expresso, o texto de um filho de um dos assassinados de Otelo, titulado "Otelo não é um herói!".
Num país civilizado o lugar dos terroristas é na prisão... mesmo que hoje (2014) já lá não estivesse... ao menos o pudor de não quererem branquear a história e um terrorista anti-democrata que ameaçou a Democracia. Sim, essa que tão bem Miguel Sousa Tavares, no mesmo jornal identifica tão claramente!

[1869.] Criador e criatura...


Quando estavam a fazer os vídeos que apresentaram ontem no jardim municipal, os três alunos da EPVL mais envolvidos na edição de imagem tiveram a gentileza de me pedir que os visse antes de serem definitivamente editados.... Tirando uma ou outra gralha, juro que não censurei nada...
Mas ao ver o vídeo com os artistas vindos do exílio a cantar o "Grândola" um deles virou-se para nós e disse: "Parecem os Homens da Luta". Procurei explicar que estes são os originais das caricaturas que os HL pretendem 'ressuscitar', mas não sei se consegui... culpa minha... é difícil perceber o que é criador e o que é criatura... mesmo que 40 anos depois do ovo ou da galinha...
 
 

[1868.] As (verdadeiras) mulheres de abril...


Regressei das comemorações oficiais do 25 de abril na Mealhada e da romagem dos bombeiros da Mealhada ao cemitério e sentei-me no sofá a ouvir o discurso do Chefe do Estado. O professor terminou e irritado com a inerguminidade de alguns senhores jornalistas, mudei de canal. Na TVI o senhor Goucha estava a falar com uma jornalista (Ana Sofia qualquer coisa) sobre um livro publicado com o título 'Capitãs de Abril'.
Interessei-me...
Mas não... as capitãs eram as esposas dos capitães...

Naturalmente, se as Forças Armadas não tinham senhoras... se a Revolução foi feita pela tropa... é natural que as mulheres não tenham tido o protagonismo no sentido estrito da palavra.

Mas as mulheres acabaram por ser quem mais ganhou com a Revolução com nome de flor...

A emancipação da mulher, as raízes do que hoje poderá chamar-se Igualdade de Género foram conquistas da revolução que já roçavam os direitos mais básicos de um cultura moderna.

Na Mealhada, logo em 1976 elegemos a primeira mulher presidente de Câmara do país (Dr.ª Odete Isabel) e uma das primeiras mulheres presidentes de junta (professora Vera Melo). Curiosamente também em Medelim era eleita uma senhora (Dona Mimi).

40 anos depois 'botaram faladura' na Assembleia Municipal de Comemoração da data, cinco senhoras: Isabel Lemos, Paula Coelho e Isabel Santiago, em nome dos partidos (CDU, PS e PSD respetivamente), Odete Isabel e Paula Coelho, presidente da Assembleia Municipal. Um cenário impossível antes do 25 de Abril (dixit o único homem da mesa, Rui Marqueiro, que confidenciou o impulso de Odete Isabel para a sua via politica, ao tornar-se no mais jovem presidente da Assembleia Municipal do país).
Na assistência estava, ainda, uma das poucas mulheres do país comandante de uma corporação de bombeiros.

Estas sim, foram e são as verdadeiras mulheres de abril. Porque foram e são pelo que são e não pelos seus maridos.

[1867.] Será pudor ou liberdade?







quinta-feira, 24 de abril de 2014

[1866.] O olhar dos do 26 de abril: “Ou encontramos uma via, ou fazemos uma”.

 
Mural no exterior da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH)
da Universidade Nova de Lisboa
2014
 
 
A iconografia do período revolucionário é interessante. Mas cada vez mais o '25 de abril' está a tornar-se um '28 de maio' e já só o regime (autarquias incluídas) é que considera a data digna de comemoração efervescente.
Comemorar os 40 anos do 25 de abril é uma data redonda e excecionalmente há movimentações (mais culturais que políticas) que se mexeram para assinalar a data.
 
Um destes olhares é dos do 26 de abril, como eu, os filhos da Democracia, que consideram o 25 de abril como um revivalismo, mais do que qualquer outra coisa.
 
Em Iovis dies fica o mural dos 40 anos do 25 e abril.
 
Trechos da noticia de Marisa Soares, no Público, em 12.04.2014
 
"Não há quem passe pela Avenida de Berna sem olhar para os grafitti que ocupam 15 metros de muro, com as cores da bandeira portuguesa a sobressaírem num fundo negro. No meio, o olhar firme de Salgueiro Maia – eternizado numa das mais conhecidas fotografias de 25 de Abril de 1974, tirada pelo fotojornalista Alfredo Cunha – prende a atenção. De boina militar na cabeça e farda vestida, parece estar novamente pronto para a luta.
Foi naquela fotografia que Frederico Draw se inspirou. “Esta é a minha interpretação dessa imagem de 1974, um pouco mais carregada, com uns traços mais pesados”, explica o graffiter do Porto, de 25 anos, um dos quatro da galeria Underdogs convidados para concretizar este projecto. Draw quis usar o seu estilo “riscado e com tramas” para reforçar a expressão do rosto, simbolizando “o Portugal de hoje, mais pesado” do que há 40 anos. “É altura de haver uma nova mudança”, defende.
O desafio lançado pela FCSH à Underdogs, dirigida por Alexandre Farto (mais conhecido como Vhils), era fixar o testemunho da geração actual sobre a revolução que ditou o fim do Estado Novo e, simultaneamente, deixar mensagens para o futuro. A ideia surgiu a propósito do ciclo de conferências A Revolução de Abril – Portugal 1974-1975, organizado pela Universidade Nova no Teatro D. Maria II, de 21 a 24 de Abril.
“Não fazia sentido estarmos a trabalhar sobre este tema sem termos uma actividade junto da comunidade académica. Pensámos nos murais como uma marca do imaginário próprio da revolução”, argumenta Carlos Vargas, investigador do Instituto de História Contemporânea da FSCH e administrador do Teatro D. Maria II. Mas este não é um mural igual aos que nasceram com a revolução. “Não queríamos fazer um pastiche de um tempo que já passou”, justifica Vargas, sublinhando que “é possível fazer um mural político mas com o olhar da geração que hoje tem 25 ou 30 anos”.
O convite feito aos Underdogs apelava à renovação. “Queríamos conhecer o olhar contemporâneo de uma geração que não viveu o 25 de Abril”, afirma. O desafio era também construir um mural colectivo e não blocos separados, apesar dos estilos diferentes que caracterizam o trabalho de cada um.
Como que a suportar o retrato de Salgueiro Maia, Gonçalo Ribeiro (que assina como Mar) desenhou os punhos cerrados do povo que grita “amor” e “luta”. Diogo Machado (Add Fuel), de 33 anos, criou um padrão para inserir dentro da silhueta de duas espingardas, com cravos nas pontas. “O meu trabalho é reinterpretar a azulejaria portuguesa, o antigo”, o que encaixa nesta tentativa de “dar uma nova visão do 25 de Abril”, diz Add Fuel.
O mural fica completo com as duas peças simbólicas de Miguel Januário, conhecido pelos projectos maismenos e kissmywalls. À esquerda de Salgueiro Maia, o “pré-25 de Abril” com o escudo de Portugal entre ossos e correntes, quebradas numa ponta. “Representa o corte com o antigo regime”, explica. À direita, o “pós-25 de Abril” com um coração e duas G3 (com os canos virados para baixo, em jeito de provocação), que representam “a necessidade de sentirmos e agirmos”. Para este grafitter de 32 anos, Portugal vive hoje um momento semelhante ao que vivia em 1974, perante a necessidade de “ruptura com o sistema” e de “encontrar uma saída, uma solução que venha de dentro”. Junto ao coração, numa faixa escrita em latim, lê-se: “Ou encontramos uma via, ou fazemos uma”.