quinta-feira, 6 de junho de 2013

[1621.] Crónicas da Leitónia #01

O que pode ensinar Cunhal a um jovem liberal?

Assinala-se em novembro de 2013 o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. Na próxima semana, passam oito anos sobre a sua morte. Muito se tem dito e escrito sobre o líder histórico do Partido Comunista Português e figura grande do comunismo internacional. Como jovem liberal que sou atrevo-me a perguntar: Que testemunho me pode dar a mim, a figura de Álvaro Cunhal?

Há uns anos, em 2009, estudando para elaborar um trabalho historiográfico sobre a prisão de Cunhal na vila de Luso, em 1949 – a captura que o havia de manter preso por onze anos, até à fuga de Peniche – pude procurar compreender as motivações do homem e do revolucionário. Ficou uma profunda reflexão, que ainda hoje me acompanha e que, estou certo, me poderá ter marcado profundamente pessoal e intelectualmente.

Não acolho o modelo de sociedade de Álvaro Cunhal, acredito, sinceramente que é profundamente desadequado desde a sua origem mais simples, a da própria compreensão do papel do Homem na comunidade, pelo que não é o político que me marca. Sou um Liberal e por isso defendo o que, provavelmente Cunhal mais renegaria.

Não acolho o estilo de liderança, nem a postura de gestor de pessoas e projectos que Álvaro Cunhal utilizava, acredito muito mais na aproximação pelo Amor do que pelo Temor ou pela deferência carismática e indiscutível. Prefiro, por principio, a Fraternidade ao centralismo democrático.

Mas Álvaro Cunhal, a sua vida e o seu percurso, impõe-me resposta a uma pergunta simples: Que causa ou coisa me poderia fazer lutar até às últimas consequências? Dito de outra forma: Por quê (por que causa ou coisa) estaria eu disposto a prescindir de conforto, de estabilidade, da família e da própria Liberdade?

Infelizmente, há anos que procuro a resposta, e ela não é imediata. E digo infelizmente porque será importante para um Homem ter sempre presente o que o faria lutar vigorosamente, como Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e muitos outros homens e mulheres lutaram pela queda de um regime político. O testemunho de Cunhal mostra-me a mim, que amo a Liberdade, que o Ser completo se faz no sacrificio e no altruísmo militante, independente de tudo o resto.

JORNAL DA BAIRRADA
6 de junho de 2013 

2 comentários:

Fatima Flores disse...

A propósito da sua pergunta no artigo do JB "O que pode ensinar Cunhal a um jovem liberal" tomo a liberdade de lhe repassar um excerto de uma carta escrita por um preso político à filha no dia do seu aniversário:"Vais amar e sofrer, chorar e rir, aprender e ensinar, como todos nós. Mas ...há mais do que uma maneira de viver; e julgo que estará nessa maneira de viver o segredo de ser feliz, naquela parecela em que a felicidade depende da nossa contribuição consciente e voluntária. É preciso aprender a viver a um nível mais alto de dignidade e de coragem. Não sacrifiques nunca o futuro do dia a dia, os interesses gerais aos individuais momentâneos, a coerência ao comodismo, o teu direito ao tyeu medo. Não troques nunca a tua situação ...e alarga e apura o teu espírito de classe, e dixa-te quiar por ele nas pequenas e grandes decisões! Se fizeres como te digo, se te aproximares do que te digo, não deixarás de sofrer- sofrerás mais talvez!- mas a tua vida não será "uma mão-cheia de nada"!Eu vou até onde posso, com humildade, mas também com a coragem de quem é sincero e ama."
Perante os problemas da sociedade de então houve quem olhasse para o lado ou fechasse os olhos. Outros houve que lutaram e amaram. E para eles a vida não foi "uma mão-cheia de nada"

Nuno Castela Canilho disse...

Obrigadissimo!