15 de setembro
O meu irmão diz que os peregrinos mais dificeis são os portugueses. E eu concordo. Os portugueses parecem ter muito menos paciência e até compreensão... se dizemos que somos um albergue privado, respondem-nos com a pergunta: Então e a Câmara não ajuda?... Se é privado a câmara ajuda como ajuda qualquer empreendimento privado...
Depois, sabem que também já fiz caminho. Perguntam que caminhos fiz... e se digo que fiz o Inglês perguntam logo quantos quilometros tem... Se digo que fiz o Francês dizem-me que antes dos Pirinéus é que é de Homem... E quanto ao Português insultam com todas as palavras do mundo quem começou em Tui ou em Valença...
Há uns dias um tuga de trazer por casa levou uma resposta evitada... Depois de me dizer que os gajos que fazem os ultimos 120 km do caminho português deviam ter vergonha, respondi: "Sabe, há gente que tem familia, e que só tem 22 dias de férias por ano!". Tinha-me acabado de dizer que era a terceira vez num ano que fazia 300km de caminho... não gostou... Azar!
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domingo, 15 de setembro de 2013
sábado, 17 de agosto de 2013
[1725.] REFLEXÕES DE UM HOSPITALEIRO #13
17 de agosto de 2013
Francesc é catalão. Chegou aqui ao fim da tarde, já muito depois daquela hora a que normalmente chegam os peregrinos. É um homem de meia idade, e em vez da mochila, às costas, trazia uma especie de carrinho onde transporta a pouca bagagem que traz desde Sagres. Exactamente, desde Sagres, onde começou há catorze dias.
Diz que não sabe se chega a Santiago. Confessa - enquanto lhe passo as milhentas fotografias do cartão de memória para uma pendrive - que o objectivo passa primeiro por atravessar Portugal e depois por abraçar o apóstolo.
Para além da simbologia de Sagres - do extremo sul da Ibéria - Francesc assevera que quis seguir um roteiro de afectos. Não me explicou porque fez questão de ir a Miróbriga (Santiago do Cacém), nem a Conimbriga, mas emocionou-se ao referir-me que teria mesmo de ir a Grândola. Que toda a vida tinha sonhado ir a Grândola, a vila morena.
"Porque, infelizmente, morreram os dois na cama!" dizia-me Francesc, referindo-se à coincidência de António e Francisco - não lhes chamou Salazar e Franco - terem morrido de velhos, de velhice, passivos, na cama e não "na ponta de uma espingarda, à frente de um pelotão de fuzilamento".
Falou-me como se Grândola fosse o sitio mais importante de Portugal - assim é para ele. E eu lembrei-me que não sei se alguma vez fui a Grândola. Porque para mim, o Grândola - a contrasenha - é a vila alentejana sem o ser... é o simbolo que se distancia do objecto que lhe dá corpo...
Não contei a Francesc que a primeira vez que José Afonso cantou "Grândola, vila morena" em público foi, exactamente, em Santiago de Compostela, em 10 de maio de 1972. Talvez valesse a pena acabar no Obradoiro o roteiro de afectos do catalão.
Francesc é catalão. Chegou aqui ao fim da tarde, já muito depois daquela hora a que normalmente chegam os peregrinos. É um homem de meia idade, e em vez da mochila, às costas, trazia uma especie de carrinho onde transporta a pouca bagagem que traz desde Sagres. Exactamente, desde Sagres, onde começou há catorze dias.
Diz que não sabe se chega a Santiago. Confessa - enquanto lhe passo as milhentas fotografias do cartão de memória para uma pendrive - que o objectivo passa primeiro por atravessar Portugal e depois por abraçar o apóstolo.
Para além da simbologia de Sagres - do extremo sul da Ibéria - Francesc assevera que quis seguir um roteiro de afectos. Não me explicou porque fez questão de ir a Miróbriga (Santiago do Cacém), nem a Conimbriga, mas emocionou-se ao referir-me que teria mesmo de ir a Grândola. Que toda a vida tinha sonhado ir a Grândola, a vila morena.
"Porque, infelizmente, morreram os dois na cama!" dizia-me Francesc, referindo-se à coincidência de António e Francisco - não lhes chamou Salazar e Franco - terem morrido de velhos, de velhice, passivos, na cama e não "na ponta de uma espingarda, à frente de um pelotão de fuzilamento".
Falou-me como se Grândola fosse o sitio mais importante de Portugal - assim é para ele. E eu lembrei-me que não sei se alguma vez fui a Grândola. Porque para mim, o Grândola - a contrasenha - é a vila alentejana sem o ser... é o simbolo que se distancia do objecto que lhe dá corpo...
Não contei a Francesc que a primeira vez que José Afonso cantou "Grândola, vila morena" em público foi, exactamente, em Santiago de Compostela, em 10 de maio de 1972. Talvez valesse a pena acabar no Obradoiro o roteiro de afectos do catalão.
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sábado, 3 de agosto de 2013
[1715.] REFLEXÕES DE UM HOSPITALEIRO #12
3 de Agosto de 2013
Provêm, normalmente, do norte ou do centro da Europa. Ou muito jovens ou de idade já provecta. Aos casais. Ontem eram duas duplas. Uma de holandeses e outra de alemães. Ainda de mochila às costas, sem sequer a tirar, pediram duas cervejas. Sagres ou Super Bock? O que importa?
Beber é prioridade. Só depois visitam o alojamento.
Soneca feita, banho tomado, regressam para pôr a escrita em dia. Estudar percurso do dia seguinte, com cerveja, e jantar o "traditional". Com mais cerveja. A noite termina invariavelmente com uma alegre polémica ou geográfica, ou histórica... ontem foi linguistica do obrigadO e do obrigadA e do arigatô.
É bonito de assistir, a continuidade na diversidade. Todos diferentes, mas no intimo, todos iguais. A todos brilham os olhos na hora de ir para a cama, depois do Porto de Honra com que celebram o final da jornada.
Provêm, normalmente, do norte ou do centro da Europa. Ou muito jovens ou de idade já provecta. Aos casais. Ontem eram duas duplas. Uma de holandeses e outra de alemães. Ainda de mochila às costas, sem sequer a tirar, pediram duas cervejas. Sagres ou Super Bock? O que importa?
Beber é prioridade. Só depois visitam o alojamento.
Soneca feita, banho tomado, regressam para pôr a escrita em dia. Estudar percurso do dia seguinte, com cerveja, e jantar o "traditional". Com mais cerveja. A noite termina invariavelmente com uma alegre polémica ou geográfica, ou histórica... ontem foi linguistica do obrigadO e do obrigadA e do arigatô.
É bonito de assistir, a continuidade na diversidade. Todos diferentes, mas no intimo, todos iguais. A todos brilham os olhos na hora de ir para a cama, depois do Porto de Honra com que celebram o final da jornada.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013
[1705.] REFLEXÕES DE UM HOSPITALEIRO #11
21 de Julho de 2013
Ao ver entrar um peregrino cá em casa, de mochila às costas, com aquele sorriso e descanso de quem já encontrou poiso por hoje, lembro que há uma semana o backpacker era eu. E parece que revivo exactamente aquilo que o peregrino está a sentir. E parece que consigo perceber a satisfação com que bebe a primeira cerveja fresquinha e descansada. E parece que sei a que sabe esticar os músculos numa cama e num banho fresco e retemperador.
E vivo tudo outra vez.
A semana passada na Irlanda foi a primeira experiência backpacker que tive depois de ser um honrado estalajadeiro (o Ovelha prefere a hospitaleiro...) e senti algo de especial.
Senti-me na simpatia do empregado da pousada de Cork que me fez logo perceber que a Irlanda não é a Britânia. Senti-me no acolhimento da família Bresham na casa de quem dormimos em Kilkenny (um bed and breakfast localizado numa vivenda familiar) e no pequeno-almoço que nos serviram na manhã seguinte. Senti no profissionalismo do funcionário da Pousada da Juventude de Belfast, que apesar de ser muito esquisito foi competente. Senti no esforço do funcionário do BB de Dublin em nos arranjar uma solução numa cidade overbooked e na mudança de atitude da sua colega, no dia seguinte, que não encontrava remédio para o irremediável.
Provavelmente passei a ver o mundo de uma maneira diferente e a sentir a satisfação de conseguir estar dos dois lados da barricada... ou do balcão...
Ao ver entrar um peregrino cá em casa, de mochila às costas, com aquele sorriso e descanso de quem já encontrou poiso por hoje, lembro que há uma semana o backpacker era eu. E parece que revivo exactamente aquilo que o peregrino está a sentir. E parece que consigo perceber a satisfação com que bebe a primeira cerveja fresquinha e descansada. E parece que sei a que sabe esticar os músculos numa cama e num banho fresco e retemperador.
E vivo tudo outra vez.
A semana passada na Irlanda foi a primeira experiência backpacker que tive depois de ser um honrado estalajadeiro (o Ovelha prefere a hospitaleiro...) e senti algo de especial.
Senti-me na simpatia do empregado da pousada de Cork que me fez logo perceber que a Irlanda não é a Britânia. Senti-me no acolhimento da família Bresham na casa de quem dormimos em Kilkenny (um bed and breakfast localizado numa vivenda familiar) e no pequeno-almoço que nos serviram na manhã seguinte. Senti no profissionalismo do funcionário da Pousada da Juventude de Belfast, que apesar de ser muito esquisito foi competente. Senti no esforço do funcionário do BB de Dublin em nos arranjar uma solução numa cidade overbooked e na mudança de atitude da sua colega, no dia seguinte, que não encontrava remédio para o irremediável.
Provavelmente passei a ver o mundo de uma maneira diferente e a sentir a satisfação de conseguir estar dos dois lados da barricada... ou do balcão...
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[1704.] REFLEXÕES DE UM HOSPITALEIRO #10
Allie é irlandesa. É uma mulher muito bonita. É alta, loura, bem feita. Não deverá ter mais do que 45 anos. É irlandesa. É peregrina. Chegou cá a 19 de julho e foi preciso ir busca-la à Esplanada. É jornalista e entrevistou o Diogo. Até aqui tudo normal, não fosse trazer os dois filhos consigo, de mochila às costas a Ava e o Ollie, ela com 15 anos e ele com 8.
Como eu gostava de um dia fazer o caminho com os meus filhos e com os meus afilhados.
Se calhar senti inveja...
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terça-feira, 16 de julho de 2013
[1701.] Reflexões de um hospitaleiro, powered by Paulo Valdez
O Paulo Valdez fez-me uma ilustração caricatural para o Reflexões de um Hospitaleiro.
Está ou não está lindo?
Obrigado Paulo!
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