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domingo, 15 de agosto de 2010

[1132.] Hoje... é Feriado

Hoje é 15 de Agosto. É Feriado Nacional. Há muita gente que acha que é feriado porque o Governo se lembrou de dar mais um dia de férias a quem goza o descanso estival na primeira quinzena de Agosto. Mas não é assim. 15 de Agosto é mais um dos feriados religiosos que os jacobinos portugueses nunca quiseram deixar cair… porque até pode dar grande jeito!
15 de Agosto é dia da “Assunção de Nossa Senhora” – Maria –, mãe de Jesus Cristo. Assinala a solenidade religiosa da subida aos céus de Maria – Virgem Maria, Santa Maria ou Nossa Senhora – no final da sua vida terrena. Para os católicos a Mãe de Jesus – tal como o seu filho – não morreu. Em determinada altura, já com provecta idade, submetida a um fenómeno de ‘dormição’ (adormecimento), Maria foi elevada aos céus – não só em alma, como em corpo. A questão é dogma de fé – indiscutível, portanto – instituído pelo Papa Pio XII, em 1 de Novembro de 1950, na sua Constituição Apostólica Munificentissimus Deus.
O assunto é interessante, independentemente da opinião que se possa ter a este respeito, porque a vida e a “morte” de Maria é – assim como no caso de Jesus – ‘mexe’ com a própria divindade de duas personalidades que, historicamente existiram entre os homens. No entanto, este é, por outro lado, um dogma relativamente recente, o que não deixa de ser surpreendente.
A questão no entanto é teológica – e sobre isso pouco posso opinar – que é o facto de a duas personalidades divinas, não assistir a perenidade ou a faculdade da morte. Maria e Jesus – ambos concebidos sem o ‘pecado original’, segundo o dogma da Conceição – não terão a faculdade humana (terrena e resultante desse mesmo ‘pecado’) de morrer.
Mas voltemos ao que me foi possível investigar a este respeito. Repito que me limito a expor o assunto, procurando ser exacto, sem analisar criticamente ou expor eventuais pontos de vista.
Como ponto prévio, repare-se que enquanto Jesus “ascendeu aos céus” – na solenidade da Ascensão, no 44.º dia depois da Páscoa – com Maria houve a “assunção”. Jesus subiu aos céus por seu próprio poder, Maria foi subida, subiu por intermédio de Deus.
A Assunção de Maria aos céus não se encontra explicitamente nas Sagradas Escrituras. Apesar de os especialistas considerarem que está implícita. De qualquer forma, trata-se de uma ideia que terá tido transmissão escrita e oral ao longo de toda a história da Igreja, até ao estabelecimento do dogma católico em 1950.
Repare-se, também, que a Assunção de Maria é dogma católico. Outras igrejas cristãs têm entendimento diferente sobre a morte da mãe de Jesus. Os protestantes acreditam que a Maria, apesar de ter sido o Tabernáculo vivo da divindade, deve ter conhecido “a podridão do túmulo, a voracidade dos evermos, o esquecimento da morte, o aniquilamento de sua pessoa”. Os cristãos ortodoxos assinalam a solenidade da “dormição” – uma morte suave, adormecimento – de Maria e a deposição do seu corpo no Getsemani, o Jardim das Oliveiras, em Jerusalém.
Na ocasião de Pentecostes, Maria tinha, mais ou menos, 47 anos de idade. Depois desse facto, terá permanecido mais 25 anos na terra, “para educar e formar, por assim dizer, a Igreja nascente, como outrora ela educara, protegera, e dirigira a infância do Filho de Deus”.
A opinião mais comum atesta que a “carreira mortal” de Maria terá terminado aos 72 anos, conforme a opinião mais comum.
São Dionísio Aeropagita, discípulo de São Paulo e primeiro Bispo de Paris, que terá assistido, juntamente com vários apóstolos e discípulos, garante – na sua narração do facto – que a morte de Maria foi suave, como num adormecimento. A narrativa atesta, ainda “que os Apóstolos foram milagrosamente levados para Jerusalém, na noite que precedera o desenlace” de Maria.
São João Damasceno, um dos mais ilustres doutores da Igreja Oriental, refere que “os fiéis de Jerusalém, ao terem notícia do falecimento de sua Mãe querida, como a chamavam, vieram em multidão prestar-lhe as últimas homenagens e que logo se multiplicaram os milagres em redor da relíquia sagrada de seu corpo”.
Numa descrição muito parecida com a da narrativa da notícia da Ressurreição de Jesus, reza a história que São Tomé não terá estado em Jerusalém nesse dia. Terá chegado três dias depois. O Apóstolo Tomé terá pedido, então, para ver o corpo morto de Maria. Aberto o túmulo, retirada a pedra, o corpo já lá não estava. “Do túmulo exalava um perfume de suavidade celestial!”. Como Jesus, Maria ressuscitara ao terceiro dia.
Uma outra descrição, num dos livros apócrifos (textos não considerados como sagrados pela Igreja), narra a Assunção de Maria com particular meticulosidade, colocando testemunhas que terão assistido ao acontecimento. O livro de São João coloca São Pedro a presidir a um ritual, no qual teriam participado os apóstolos, em que as próprias mãos de Deus terão recolhido o corpo para os céus.
Muitas das tradições religiosas em relação à Maria têm suas origens nos livros apócrifos. Os nomes de seu pai e de sua mãe, a visita que ela e Jesus receberam dos magos, o parto em uma manjedoura, são apenas algumas delas.
A fé na Assunção de Maria terá começado imediatamente, e descritas pelos doutores da Igreja dos primeiros séculos, e relatadas, depois, no Concílio geral de Calcedónia, em 451.
A tradição atribui a Maria o título de Nossa Senhora da Boa Morte. Acontece que a mesma tradição evita dizer que Maria morreu, substituindo o termo por “dormitio”, para justificar o fim da vida da Mãe de Deus na terra. A justificação dada para esta aparente contradição tem passado pela ideia da imagem de uma Boa Morte com a do adormecimento suave.

O Novo Catecismo da Igreja Católica declara: “A Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos” (n. 966).

Se hoje santuários como o de Fátima ou Lourdes – onde o registo é de aparições de Maria – são altares do Mundo. O que seria expectável neste domínio do culto num santuário onde estivessem depositados os restos mortais de Maria, a mãe de Deus, ou de Jesus, o próprio Deus-Filho?






domingo, 27 de junho de 2010

[1063.] Mercurii dies... mesmo ausente

O 10 de Junho e os veteranos
Segunda parte

O discurso, na íntegra, de António Barreto no 10 de Junho de 2010

O Dia dos Portugueses ou, oficialmente, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, comemorado em 2010, tem um significado especial. Na verdade, assistimos esta manhã a um desfile das nossas Forças Armadas precedido de uma extensa delegação de Veteranos, de Antigos Combatentes, mais singelamente de combatentes dos exércitos em todas as guerras e conflitos em que Portugal esteve envolvido desde meados do século XX. Ao ver desfilar umas dezenas de antigos combatentes, de todos os teatros de acção militar em que Portugal participou, não sentimos vontade nem necessidade de lhes perguntar pela guerra, pela crença ou pela época. Sentimos apenas obrigação de, pelo reconhecimento, pagar uma dívida. Sentimos orgulho por saber que é a primeira vez na história que tal acontece e que está aberta a via para a eliminação de uma divisão absurda entre Portugueses. Com efeito, é a primeira vez que, sem distinções políticas, se realiza esta homenagem de Portugal aos seus veteranos. Centenas de milhares de soldados portugueses combateram em nome do seu país, do nosso país, desde os inícios do século XX até à actualidade. Já não há sobreviventes do Corpo Expedicionário Português enviado para Flandres, na 1ª Grande Guerra Mundial, nem das forças que, no mesmo conflito, lutaram em África. O último veterano dessa guerra, José Maria Baptista, morreu a 14 de Dezembro de 2002.

Depois daquele conflito, as guerras foram, durante décadas, poupadas aos Portugueses. Só a partir de finais dos anos 1950 os soldados e outras forças militarizadas voltaram a encontrar-se em situações de combate aberto, primeiro no então Ultramar português, depois em múltiplos teatros de guerra, em associação com forças armadas dos nossos aliados da NATO e da União Europeia e em missões organizadas sob a égide das Nações Unidas. Independentemente das opiniões de cada um, para o Estado português todos estes soldados foram Combatentes, são hoje Antigos Combatentes ou Veteranos, mas, sobretudo, são iguais. Não há, entre eles, diferenças de género, de missão ou de função. São Veteranos e foram soldados de Portugal. É assim que deve ser. Em Portugal ou no estrangeiro, no Continente ou no Ultramar, na Metrópole ou nas Colónias, as Forças Armadas portuguesas marcaram presença em vários teatros de guerra e em diversas circunstâncias. Militares portugueses lutaram em terra, no mar ou no ar, cumpriram os seus deveres e executaram as suas missões. Em Goa, em Angola, em Moçambique, na Guiné, no Kosovo, em Timor ou no Iraque. Todos fizeram o seu esforço e ofereceram o seu sacrifício, seguindo determinações políticas superiores. As decisões foram, como deve ser, as do Estado português e do poder político do dia. Mas há sempre algo que ultrapassa esse poder. O sacrifício da vida implica algo mais que essa circunstância: é, para além das vicissitudes históricas e dos ciclos de vida política, a permanência do Estado. Os soldados cumprem as suas missões por diversos motivos. Por dever. Por convicção. Por obrigação inescapável. Por desempenho profissional. Por sentido patriótico, político ou moral. Só cada um, em sua consciência, conhece as razões verdadeiras. Mas há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate. Na verdade, em todos os episódios de guerra referidos e noutros mais, há fenómenos de natureza diversa. Houve decisões políticas de carácter exclusivamente nacional, mas também houve actos de colaboração em missões multinacionais, como houve decisões estratégicas colectivas das alianças de que Portugal é membro. Também conhecemos decisões políticas tomadas em vários quadros: com e sem legitimidade democráticas, com e sem referenda parlamentar. E até, finalmente, situações em que o Parlamento fica aquém daquela que deveria ser a sua função. Com efeito, a Constituição e as leis não obrigam, infelizmente, a que as missões no estrangeiro sejam aprovadas pelo Parlamento. Apenas admitem o “acompanhamento do envolvimento” militar no estrangeiro, o que nem sempre é rigorosamente cumprido. A análise destas diferenças pode ser importante do ponto de vista político, histórico e intelectual. Mas, no plano do reconhecimento de um povo, do respeito devido e do esforço do soldado, essas distinções são secundárias ou inúteis. Foram, simplesmente, militares portugueses que tudo deram ou tudo arriscaram. É esse o reconhecimento devido. Um antigo combatente não pode nem deve ser tratado de colonialista, fascista, democrata ou revolucionário de acordo com conveniências ou interesses menores. A sua origem, a sua classe social, a sua etnia, as suas crenças ou a sua forma de vínculo às Forças Armadas são, a este propósito, indiferentes: foram, simplesmente, soldados portugueses. Pelo sacrifício, pela duração e pelas implicações políticas, as guerras do Ultramar foram evidentemente as que mais marcaram as gerações das últimas décadas. Mas, ao longo dos trinta anos de democracia e de compromissos internacionais, muitas centenas ou milhares de cidadãos portugueses estiveram presentes em teatros de guerra e em missões de protecção da paz ou de mediação. Novos sacrifícios foram feitos, vidas foram interrompidas, carreiras e famílias suspensas. Todos esses militares, os de Luanda ou do Líbano, os da Guiné ou da Bósnia, merecem o nosso respeito. São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos. Nós, todos, os que fizeram ou não, os que concordaram ou não com as guerras, sem distinção de época, de governo ou de cor política. Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos. É certo que há, aqui e ali, expressão de gratidão ou respeito, numa unidade, numa autarquia, numa instituição, numa lei ou numa localidade. Mas, em termos gerais e permanentes, o esquecimento ou a indiferença são superiores. Sobretudo por omissão do Estado. Dos aspectos materiais aos familiares, passando pelos espirituais e políticos, o Estado cumpre mal o seu dever de respeito perante aqueles a quem tudo se exigiu. Em cada momento, em cada conflito, houve quem tivesse ideias diferentes e se opusesse à intervenção militar. Uns, mesmo nessas condições, cumpriram as ordens oficiais, outros recusaram-se. Por oportunidade, por convicção política, por uma interpretação diferente do interesse nacional, houve refracção e objecção. Em certos casos, pensava-se que as operações militares não tinham sido referendadas pelo povo soberano ou eram contrárias à ética e ao interesse nacional. Noutros casos, faltava o assentimento parlamentar. Aliás, o acompanhamento parlamentar do envolvimento militar é deficiente, apesar de estatuído pela Constituição. Houve soldados que combateram sob um regime autoritário, outros em regime democrático. Houve soldados que combateram integrados em forças nacionais, outros em forças aliadas ou internacionais. Como houve soldados que, de outras origens étnicas então e tendo hoje nacionalidade diferente, serviram nas Forças Armadas portuguesas. Em 1974, jovens militares decidiram derrubar o regime autoritário e dar uma oportunidade à democracia. Outros tentaram estabelecer um novo regime político que eventualmente limitaria as liberdades. Outros ainda ficaram independentes e equidistantes. Enquanto outros, finalmente, teriam preferido continuar sob o regime anterior. Prefiro os primeiros, os que ajudaram a fundar o Estado democrático. Mas, pelo sacrifício das suas vidas e pelo cumprimento dos seus deveres, respeito-os todos. Qualquer guerra ou envolvimento militar é controverso e suscita opiniões diversas e contraditórias. É assim no Afeganistão ou no Iraque. Foi assim no Ultramar. Como também na Flandres, nas Linhas de Torres ou em Aljubarrota. Essas divergências podem ser legítimas e compreensíveis. Traduzem ideias, interesses, convicções e doutrinas diferentes. Assim como versões diversas do interesse nacional. Mas isso não justifica a ausência de respeito por aqueles que combateram, que correram riscos, que ficaram feridos ou deram a sua vida. As diferenças de opinião e de crença não devem impedir de respeitar todos os que fizeram a guerra, com convicção ou por obediência ao poder político, desde que, evidentemente, o tenham feito sem abuso. Merecem as pensões que lhes são devidas. Merecem atenção e cuidado. Merecem um Dia do Combatente oficialmente estabelecido. Merecem que as suas associações sejam consideradas de utilidade pública. Merecem estar presentes nas cerimónias públicas e oficiais. Mas sobretudo merecem respeito. Os Portugueses são parcos em respeito pelos seus mortos e até o Estado não é muito explícito no cumprimento desse dever. Pois bem: está chegada a altura de eliminar as diferenças entre bons e maus soldados, entre Veteranos de nome e Veteranos anónimos, entre recordados e esquecidos. Pela Pátria ou pelo seu País, pelo Estado ou pela sua profissão, foi pela sua comunidade nacional que todos eles combateram e se sacrificaram. É possível que o comportamento do Estado, a atitude de políticos e os sentimentos de cidadãos para com os militares sejam determinados, em parte, pela avaliação que se faz do modo como deram ou retiraram apoio a certos dirigentes e a certas formas de regime. Não se nega o facto. Mas, perante o antigo combatente, recusa-se o juízo de valor. Aos Veteranos e antigos Combatentes que hoje estiveram connosco pela primeira vez, nada se lhes pede. Nada devem aos seus contemporâneos. Nós é que estamos em dívida para com eles. São o Estado e a sociedade que lhes devem algo. O que lhes pedimos hoje foi muito simples: aceitem a homenagem que o Estado e os Portugueses vos prestaram! Não estamos aqui a festejar a guerra, mas sim os soldados! E não há melhor dia, do que o Dia de Portugal, para o fazer.

[1062.] Mercurii dies... mesmo ausente

O 10 de Junho e os veteranos

O discurso mais marcante do último 10 de Junho – no que às comemorações oficiais promovidas pela presidência da República diz respeito – foi, na nossa opinião, o do presidente da comissão organizadora, o sociólogo, académico e antigo político, António Barreto. O autor do extraordinário trabalho ‘Portugal, um Retrato Social’ abordou uma temática que consideramos importante e do foro patriótico: O respeito que o Estado e a Nação devem aos seus veteranos de guerra.



Já por várias vezes falámos no assunto neste espaço. Trata-se de uma questão de respeito pelos que se sacrificaram pelo Estado – sem o discutir ou com ele concordar –, pelos que, em nome desse mesmo Estado, representaram Portugal em responsabilidades limite para o género humano, a de matar e de sobreviver. “Há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate”, afirmou António Barreto no discurso que elogiamos.

Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, os veteranos de guerra portugueses participaram – e abriram – o desfile militar das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 2010. Foi um gesto da presidência da República que ganha sentido com o discurso de António Barreto. “São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos”, afirmou António Barreto no discurso que proferiu, perante o Chefe de Estado, enquanto presidente da comissão organizadora das comemorações.
E António Barreto tem razão. E quando comparamos as formas como ingleses, americanos e franceses, por exemplo, acarinham os seus veteranos de guerra – em Inglaterra as pessoas usam uma papoila na lapela de 1 a 11 de Novembro de cada ano em sua homenagem, por exemplo – somos obrigados a reconhecer que muito há, ainda por fazer para que justiça seja feita.

Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de Junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

[1061.] Mercurii dies na véspera do '10 de Junho'

10 Junho e a história de um feriado político

Evoca-se amanhã, 10 de Junho, Portugal, Luís Vaz de Camões e as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. O Chefe do Estado presidirá às cerimónias oficiais, em Faro, e condecorará trinta e cinco personalidades e duas instituições portuguesas de reconhecido mérito. Feriado nacional – desde o inicio do Estado Novo, na década de 30 do século passado –, e ocorrendo nos últimos dias do calendário escolar, nem na escola se falará no seu significado. Continuarão os portugueses a pensar que ser patriota é ter uma bandeira nacional hasteada na janela de casa, como lhes foi sugerido em Junho de 2004. Ou que é tocar uma corneta de plástico comprada num posto de combustível, como o consumismo bacoco parece fazer crer em Junho de 2010.
Escusando-nos a chorar, por agora, mágoas sobre a falta de pedagogia do patriotismo – ou matriotismo, como sugeria Natália Correia –, exaltaríamos a história do feriado em si, do ‘10 de Junho’, para justificar a cultura do símbolos ao serviço da ideologia, do regime – de todos eles – ou do sistema, como agora parece ser mais popular dizer.
A história do ‘10 de Junho’ começa como um acto provocatório – e não é sempre assim que começam as grandes coisas em Portugal? –. Em 1880, em plena monarquia constitucional, a Sociedade Geografia de Lisboa, contra uma aparente apatia governamental, decide comemorar, com pompa e circunstância, o terceiro centenário da morte do maior poeta português Luís Vaz de Camões. O culminar dos festejos assinalar-se-ia a 10 de Junho, dia em que a tradição recordava como o do seu perecimento. Na comissão organizadora das festividades pontificavam nomes conhecidos, como o de Teófilo Braga, Sebastião Magalhães Lima ou Ramalho Ortigão. Nomes de ilustres republicanos que tomariam papel preponderante no governo de Portugal, trinta anos depois. Diria Teófilo Braga, mais tarde: “A festa da nossa primeira glória literária e artística foi simultânea por todo o território português, e fez-se por fundações fecundas de iniciativa individual, pela cooperação activa dos municípios, que compreenderam que eram os representantes directos da liberdade nacional, e pelo acordo de todas as classes sociais. O Centenário de Camões excedeu tudo quanto era possível prever”. Os republicanos portugueses viram nestas comemorações uma oportunidade igualmente importante como a que fora aproveitada pelos oposicionistas italianos nas comemorações da morte de Petrarca, em 1874, ou pelos radicais franceses na comemoração de Voltaire e Rousseau, em 1878. E o republicanismo aproveitou o sucesso.


Caricatura de Bordalo Pinheiro
Camões, com o barrete republicano, com o povo na retaguarda, acossa o Rei, Carlos de Bragança, e o chefe do Governo, Anselmo Braancamp.
Na legenda pode ler-se: "Camões agradece aos altos poderes do Estado não terem ido à sua procissão e terem-n'o feito republicano, com o que muito ganhou a idea"

Com a implantação da República e a abolição de muitos dos feriados nacionais observados – quase todos religiosos – o Estado cria a possibilidade de os municípios terem um dia de feriado municipal. Alguns municípios aproveitaram feriados já observados, como a Quinta-feira da Ascensão, na Mealhada e em muitos municípios da Bairrada. Outros, como Lisboa, optaram por escolher outra data. 10 de Junho, o Dia de Camões, passou, então, a ser feriado municipal em Lisboa.
Seriam Oliveira Salazar e António Ferro que resgatariam a memória de Camões para exaltação dos ideais nacionalistas e da justificação histórica e imperialista do regime do Estado Novo. Logo depois de 1933, o dia 10 de Junho tornar-se-ia Dia de Camões e de Portugal, comemorado com pompa e circunstância em todo o Império. “Camões era o génio da pátria na sua dimensão mais esplendorosa”, justificava Ferro. Os lisboetas passaram a gozar feriado municipal em 13 de Junho, Dia de Santo António.

Inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 10 de Junho de 1944. No seu discurso, Oliveira Salazar proclama o Dia de Camões e de Portugal, como Dia da Raça Portuguesa.


Na inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 10 de Junho de 1944, Oliveira Salazar rebaptizaria o dia nacional como Dia de Camões, de Portugal e da Raça. A partir de 1963, quando a Guerra Colonial já se estendia por um segundo ano, a glorificação patriótica tornou o dia como de memória dos mortos e de homenagem às Forças Armadas Portuguesas. Tornaram-se objecto de propaganda do regime e de comiseração colectiva as sessões solenes de entrega de medalhas às viúvas e aos pais dos soldados mortos no ultramar português.


Criança com a medalha de um militar, atribuída a título póstumo.





A Revolução dos Cravos, logo após o 25 de Abril de 1974, e o Processo Revolucionário Em Curso (PREC) retiraram do 10 de Junho o simbolismo do Dia de Portugal e a denominação de Dia da Raça. O dia continuou a ser observado como feriado obrigatório, mas passa a ser, apenas, Dia de Camões. No Decreto-Lei n.º 210-A/75, de 18 de Abril, o governo de Vasco Gonçalves estabelece que o Dia de Portugal passa a comemorar-se a 25 de Abril. E assim acontecerá até 1978.
Um decreto-lei de 1977, DL 80/77 de 4 de Março, volta a alterar a designação do 10 de Junho, passando este a homenagear, para além de Camões, também a emigração na diáspora, sendo acrescentada a designação “das Comunidades Portuguesas”.
Terá sido o esforço da sociedade civil organizada, nomeadamente pelo Movimento Nacional Luís de Camões, presidido pelo Capitão Leal Marques – residente em Mortágua com ligação familiar e afectiva à Mealhada – que conseguiu que se voltasse a comemorar o Dia de Portugal a 10 de Junho. O Decreto-Lei n.º 39-B/78 de 2 de Março de 1978, do governo de Mário Soares, promulgado por Ramalho Eanes, estabelece a denominação que ainda hoje se reconhece no 10 de Junho: Dia de Camões, de Portugal, e das Comunidades Portuguesas.
Ainda hoje o 10 de Junho é de comemoração cautelosa. “Caiu o Carmo e a Trindade” quando o actual Presidente da República retomou as paradas militares e quando, chamou ao dia, Dia da Raça. Perceber que a mudança dos tempos e a perenidade da história valoriza a nossa cultura e tradição é, também, um gesto de patriotismo.

Editorial do Jornal da Mealhada de 9 de Junho de 2010