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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
[1826.] Um dia para depois de amanhã
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
[1827.] Servir para cumprir! (I)
Na pesquisa que ando a fazer para poder escrever o opúsculo sobre a vida do Padre Abílio Duarte Simões, tenho encontrado algumas situações que se apresentam, claramente, como justificações para a concretização de uma postura, uma vida, uma atitude perante si próprio e perante os outros. Nunca chegamos a conhecer, realmente, as pessoas... para o bem (como é o caso) e para o mal. A infância, a passagem pela Guerra Colonial, por exemplo, são situações que moldaram um homem que quando se cruzou comigo era muito mais do que a visível circunstância.
Encontrei, também, esta foto, onde o jovem padre Abílio Simões, pároco da Vacariça e reitor Mealhada, ouve, atentamente, as palavras gesticuladas do veterano e (já) ancião Monsenhor Raul Mira. O texto autobiográfico que publicou no Jornal de Notícias sobre a Idalina 'da Portela' e os filhos tocou-me muito e fez-me entender muita coisa. O relato de Nelson Franco sobre o Capelão de Pereira d'Eça revelou-me tantas meias palavras...
Esta foto remete-me para um dos últimos textos do Padre Abílio publicado no Jornal da Mealhada exatamente sobre a condição de ser padre. No fundo, apresenta a sua visão sobre o que os outros pensam que o padre é...
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
[1820.] O dia antes de amanhã
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
[1789.] Pedido
Aceitei o desafio que me foi lançado de redigir um opusculo sobre a vida de ABILIO DUARTE SIMÕES. A tarefa passará por compilar um conjunto vasto de coisas que redigi e ajudei a redigir na altura da sua morte (em 2007), mas acredito que há muito, muitíssimo, que estará por dizer, por lembrar, por aclarar...
Assim, pedia a todas as pessoas que tivessem algo a dizer, algum apontamento ou contributo a deixar, alguma foto a mostrar, que mo fizessem chegar para o e-mail ncastelacanilho@gmail.com.
OBRIGADO
O trabalho final será publicado e apresentado publicamente na tarde de 9 de fevereiro de 2014, dia em que será inaugurado o busto em homenagem ao Padre Abílio Simões.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
[1285.] Memórias de Dias Felizes
Andava aqui nos arquivos do Jornal da Mealhada à procura de uma fotografia do Padre Abílio Simões quando encontrei este magnifico exemplar. Uma fotografia com o corpo redatorial do Jornal da Mealhada em 14.07.1994.
Na parte de trás da foto, pela mão do professor Manuel Santos, está escrita a seguinte legenda:
"Jantar de confraternização e trabalho da direcção e redacção do Jornal da Mealhada no Restaurante Boa Viagem. Da esquerda para a direita: Manuel Santos, Duarte Simões, Armindo Pega, Branquinho de Carvalho, Matos de Oliveira e Augusto Dias"
Faltarão duas ou três pessoas para se poder dizer que está aqui o retrato dos principais fundadores e motores do Jornal da Mealhada.
Eis a memória de um dia feliz!
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
[1283.] 4 anos

Abílio Duarte Simões
19.VII.1945 - 07.II.2007
Quatro anos de falta!
Quanto Morre um Homem
Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
________________________________
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
[1138.] Hoje
«"Leitão só o da Mealhada", palavras de Ricardo Henriques, responsável pela tasquinha do Restaurante Típico, de Sernadelo, em Santarém [no XVI Festival Nacional de Gastronomia], na foto, à esquerda, com Duarte Simões, redactor do JM, e Messias Costa, vendedor dos vinhos Messias».A foto é do dia 27 de Outubro de 1996
Legenda da fotografia, publicada junto da noticia sobre o Festival Nacional de Gastronomia na edição 216 do Jornal da Mealhada, de 15 de Novembro de 1996.
Hoje faria 65 anos.
Chamava-se Abílio, mas em determinada altura, enquanto redactor do Jornal da Mealhada, assinava Duarte Simões (os seus dois apelidos).
Era padre, mas só o assumia quando era necessário.
É um homem extraordinário que continua a deixar muitas saudades.
domingo, 27 de junho de 2010
[1064.] Mercurii dies... mesmo ausente
A José Saramago
O Nobel português da Literatura, José Saramago, faleceu na passada sexta-feira, a escassos meses de completar 88 anos. A morte de um homem é sempre de lamentar e por isso se ouviram elogios e o apelo ao esquecer de polémicas, como se ser polémico não fosse a maior qualidade do autor de “Caim” e do “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Portaram-se à altura da dignidade que merece um dos maiores escritores portugueses os dignitários do Estado português – porque também aqui a falta de coerência soaria a falso. Três dias de luto nacional e orgulho de saber que apesar de exilado, José Saramago desejou que os seus restos mortais permanecessem em Portugal.
José Saramago foi dos melhores polemistas portugueses. Pôs-nos a discutir, a tomar partido, a amar e a odiar. Pedir que se esqueçam polémicas na hora da sua morte – a morte que ele próprio parodiava – seria diminuir o homem. E isso não fazemos.
Recorremos, por isso, a um texto publicado por outro grande polemista, Abílio Duarte Simões, no Correio de Coimbra, em 15 de Outubro de 1998, dias depois do anúncio de que Saramago receberia o prémio Nobel da Academia Sueca. Um texto provocatório de alguém que respeitamos profundamente. Um texto, “Carta a Saramago”, sem vírgulas, sem pontos, sem medo, sem pudor, com ousadia, com uma pontinha de arrogância, com graça… de alguém que José Saramago não encontrará no Céu, mas que nem por ser padre se dava ao trabalho de se achar incapaz de falar com quem não seria tão tolerante como ele.
O Nobel português da Literatura, José Saramago, faleceu na passada sexta-feira, a escassos meses de completar 88 anos. A morte de um homem é sempre de lamentar e por isso se ouviram elogios e o apelo ao esquecer de polémicas, como se ser polémico não fosse a maior qualidade do autor de “Caim” e do “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Portaram-se à altura da dignidade que merece um dos maiores escritores portugueses os dignitários do Estado português – porque também aqui a falta de coerência soaria a falso. Três dias de luto nacional e orgulho de saber que apesar de exilado, José Saramago desejou que os seus restos mortais permanecessem em Portugal.
José Saramago foi dos melhores polemistas portugueses. Pôs-nos a discutir, a tomar partido, a amar e a odiar. Pedir que se esqueçam polémicas na hora da sua morte – a morte que ele próprio parodiava – seria diminuir o homem. E isso não fazemos.
Recorremos, por isso, a um texto publicado por outro grande polemista, Abílio Duarte Simões, no Correio de Coimbra, em 15 de Outubro de 1998, dias depois do anúncio de que Saramago receberia o prémio Nobel da Academia Sueca. Um texto provocatório de alguém que respeitamos profundamente. Um texto, “Carta a Saramago”, sem vírgulas, sem pontos, sem medo, sem pudor, com ousadia, com uma pontinha de arrogância, com graça… de alguém que José Saramago não encontrará no Céu, mas que nem por ser padre se dava ao trabalho de se achar incapaz de falar com quem não seria tão tolerante como ele.
Carta a Saramago
Excelentíssimo senhor José Saramago deixe que um pobre proletário lhe dê os parabéns atrasados mas sem culpa depois de tantos já o terem feito desde capitalistas muitos a socialistas alguns comunistas onde é que eles estão parabéns porque não é por acaso que se ganha um prémio de cento e quarenta milhões de escudos que seriam escudos de mais para qualquer internacionalista amigo da classe operária menos para vossa excelência que um comunista também tem o direito de gozar as delícias do ignóbil capitalismo mesmo que o contrário não seja verdadeiro e se essas delícias puderem ser gozadas numa paradisíaca ilha ainda melhor mesmo para quem não acredita no paraíso do além e não consegue criar iguais paraísos para todos os seus semelhantes porque a verdade é que somos todos iguais mas sempre há-de haver uns poucos mais iguais que muitos outros porque assim é que dá luta e se acabassem as desigualdades o que é que se havia de escrever se alguém ler estas minhas palavras é capaz de duvidar da sinceridade dos parabéns mas eles são mesmo a sério também a sério lhe quero dizer que não percebi o seu desagrado pelo que escreveu o jornal do papa quando lhe chamou comunista inveterado eu pensava que dizer isto era um elogio sagrado a um reconhecido laico até fui ver aos dicionários e lá vem que inveterado significa enraizado arreigado arraigado crónico tudo palavras bonitas e elogiosas de modo que como disse não percebi o desencanto pois também não acredito que não querendo ser inveterado seja envergonhado visto que logo no dia seguinte li um artigo de vossa excelência a explicar o que significa ser escritor comunista hoje também não percebi os comentários de alguns senhores professores da faculdade de letras da universidade de coimbra dizendo que as palavras do jornal romano lembravam velhos processos inquisitoriais e assim nos lembraram eles a todos velhas estórias que também aconteceram depois do vinte e cinco de abril transformando jornais em patíbulos coisas que já nem adianta lembrar mas sempre gostava de saber como é que esses senhores professores reagiriam se os alunos lhes apresentassem para avaliação certos textos que só se sabe onde começam e onde acabam “com parábolas esta das parábolas deve ter sido piada dos académicos suecos mas ninguém leva a mal com parábolas transcrevia sustentadas pela imaginação, ironia e compaixão, a permitir captar continuamente uma realidade ilusória” termino com um pedido nunca escreva nada sobre Marx em Staline que possa impressionar os marxistas se os houver nem os estalinistas se tiverem existido mais vale achincalhar aqueles que sabem e praticam o dever de perdoar esses mesmos desgostos sempre compram os livros não interferem nos circuitos de comercialização não montam máquinas publicitárias podem não concordar com o que lêem mas perdoam sempre mesmo aos que sabem o que fazem.
Abílio Duarte Simões
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Padre Abílio
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
[820.]
Nunca estava na Mealhada por estes dias.
Guardava sempre a segunda quinzena de Agosto para se meter na Hiace e correr a Europa com os sobrinhos. Dar-lhe os parabéns não era tarefa fácil e na maior parte das vezes ficavam no voice mail para ele depois os receber.
Faria hoje 64 anos, apenas 64 anos.

Parabéns senhor padre. Até Sempre.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Conta para subscrição pública do busto do Padre Abílio Simões
Crédito Agrícola da Mealhada:
Número da conta: 40 101917230
NIB da conta: 0045 3400 40101917230 26
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Obrigado, Padre Abílio
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce!”
Homenagear o
Padre Abílio Duarte Simões
No sábado, 7 de Fevereiro de 2009, completaram-se dois anos sobre a súbita morte do Padre Abílio Duarte Simões. Para além do pároco — da Vacariça e da Mealhada —, do professor, do jornalista, recordamos, com emoção, o homem — altruísta, militante, teimoso, corajoso, inquieto — e, de modo muito especial, o amigo — dedicado, generoso — cuja falta não conseguimos, ainda, superar.
Abílio Duarte Simões era um homem extraordinário. Caridoso, altruísta, quantas vezes tirou do seu bolso para dar aos outros? Tirou dinheiro, tirou tempo, tirou paciência, tirou disponibilidade.
Não era um homem fácil. Tinha o feitio difícil dos génios. Nem sempre era fácil aceitar a impetuosidade dos seus gestos, das suas enigmáticas respostas. Era um homem superiormente inteligente e com ironia, sentido de auto-crítica, mostrava muitas vezes apenas aos mais próximos o seu lado mais transparente.
Ao longo de trinta e quatro anos de permanência na Mealhada envolveu-se de maneira empenhada em várias causas de cidadania, como o Centro de Cultura da Mealhada, sempre serviu os outros em trabalho voluntário em todos os jornais da região. Abraçou causas sociais como as dos cursos de português para emigrantes, como da acção social caritativa para os mais necessitados. Como pároco sempre soube dizer presente nos momentos em que alguém se encontrava hospitalizado e precisava de apoio, soube conjugar vontades para erigir uma igreja digna do estatuto da paróquia, deu de si e do que era seu pela Mealhada e pelos mealhadenses.
Merece estar entre os nossos mais notáveis. Torna-se, assim necessário, como ele fez tantas vezes por outras causas, conjugar vontades para, por exemplo, instalar um busto seu na praceta, na Alameda da Cidade, próxima da Igreja da Mealhada. Para isso contamos com o apoio de todos os que connosco se quiserem solidarizar.
A Junta de Freguesia da Mealhada dará o apoio institucional a uma iniciativa que merece ser popular, da parte de cada um dos que, como nós, tem um obrigado a dizer ao Padre Abílio.
Junta-te a nós para dizer obrigado!
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
[708.] - Mercurii dies
Ad aeternam rei memoriam*
A propósito do segundo aniversário da morte do Padre Abílio Simões
No próximo sábado, 7 de Fevereiro, completam-se dois anos sobre a súbita morte do Padre Abílio Duarte Simões. Para além do pároco — da Vacariça e da Mealhada —, do professor, do colaborador do Jornal da Mealhada, recordamos, com emoção, o homem — altruísta, militante, teimoso, corajoso, inquieto — e, de modo muito especial, o amigo — dedicado, generoso — cuja falta não conseguimos, ainda, superar. A falta de alguém que fez parte integrante do nosso crescimento pessoal, do crescimento do projecto, sempre inacabado, que é o Jornal da Mealhada, permite-nos, num toque mais pessoal, solicitar ao leitor a autorização para admitir que quem escreve um editorial também tem direito ao sentimentalismo e à partilha.
As exéquias fúnebres, com a participação massiva da população — crente e não crente — foram bem demonstrativas da admiração que a maior parte das pessoas tinha pelo Padre Abílio Simões. Acreditamos, até, que nem o Padre Abílio tinha a noção da quantidade de pessoas que, mesmo nem sempre concordando com ele, nutriam por si simpatia. Ciente das suas capacidades e do seu valor, não era, no entanto, um homem cuja auto-estima lhe fizesse acreditar ser tão estimado como, de facto, era. O que, certamente, mais admiração lhe traria, mesmo acreditando que nunca o admitiria, foi a homenagem que, na altura do seu funeral, lhe fizeram políticos de todos os quadrantes partidários. Alguns com quem travou acesas lutas por aquilo que considerava justo para si e para o seu rebanho. Alguma vez o Padre Abílio pensaria que aos funcionários municipais do concelho da Mealhada seria dada a dispensa do trabalho para participação no seu funeral?
A verdade é que o tempo foi passando e a vida continuou. O jornal, mesmo sem ele, foi continuando a ser editado — mesmo notando-se a diferença e a ausência — e mudou bastante, em aspectos relativamente aos quais ele próprio mostrara relutância e até oposição. As paróquias da Mealhada e da Vacariça acolheram, de braços abertos, novo pastor e, com ele, algumas mudanças, nem sempre bem aceites. Na sua escola a ausência não se terá sentido de forma tão acentuada, até porque se tinha reformado quatro meses antes, mas terá deixado, a vários putativos discípulos, a promessa de os pôr a saber latim em dezanove lições. A agricultura, o oficio a que prometera dedicar-se com mais afinco na reforma, ficou para outros, e a pós-gradução em bioética certamente que não acabou pela sua falta.
A terra continuou a girar. É certo. Mas o Padre Abílio continua entre nós. Nas últimas semanas reparámos na quantidade de pessoas — dos mais variados quadrantes e graus de formação — que evoca, ainda hoje, as palavras dele para falar sobre a língua portuguesa bem escrita e bem falada, sobre as gralhas nos jornais, sobre a pontualidade, sobre a astúcia deste ou daquele protagonista político, sobre aquilo que ele algum dia terá dito ou escrito sobre o assunto. E, inevitavelmente, a congeminação: “Se o padre Abílio aqui estivesse…” Continua, por isso, entre nós. É citado mesmo por aqueles que ele julgava não o suportarem.
E enquanto ele for lembrado estará a ser feita a sua homenagem maior, no seu testemunho e no seu exemplo. Está, no entanto, por fazer a homenagem pública, institucional, secular, que foi prometida, pelos autarcas do concelho, aos seus familiares e aos seus amigos. O reconhecimento dos poderes políticos impõe-se. Ele nunca o exigiria e até dele fugiria… mas é merecido. E quem o prometeu não pode disso afastar-se.
Merece-o por ter sido um homem positivamente polifacetado. Por ter sido um homem de demandas que considerava de interesse social, um lutador, de antes quebrar que torcer mas que sabia dar a outra face, e que sofria com os que lhe eram ingratos. Por ser, por outro lado, um homem com um sentido de humor inigualável, a ponto de se rir das suas próprias fraquezas, perante aqueles em que confiava. Por ser um homem que mudaria a rota da Terra se fosse preciso ajudar uma pessoa que dele precisasse.
Dissemos, há dois anos, que a verdadeira personalidade do padre Abílio Simões só com o tempo seria devidamente apreciada. Não nos enganámos e, provavelmente, aconteceu mais cedo do que julgávamos. Dissemos que seriam muitos os que o criticavam e que, no futuro, invocariam, positivamente, a sua memória. E assim é.
O altruísmo, a perseverança, a generosidade dos gestos, que preferia manter anónimos, o exemplo de desprendimento das compensações materiais, de dedicação aos outros fazem dele um homem de grandeza excepcional que merece ser reconhecido e elogiado. Para memória dos que não tiveram a graça de o conhecer.
A propósito do segundo aniversário da morte do Padre Abílio Simões
No próximo sábado, 7 de Fevereiro, completam-se dois anos sobre a súbita morte do Padre Abílio Duarte Simões. Para além do pároco — da Vacariça e da Mealhada —, do professor, do colaborador do Jornal da Mealhada, recordamos, com emoção, o homem — altruísta, militante, teimoso, corajoso, inquieto — e, de modo muito especial, o amigo — dedicado, generoso — cuja falta não conseguimos, ainda, superar. A falta de alguém que fez parte integrante do nosso crescimento pessoal, do crescimento do projecto, sempre inacabado, que é o Jornal da Mealhada, permite-nos, num toque mais pessoal, solicitar ao leitor a autorização para admitir que quem escreve um editorial também tem direito ao sentimentalismo e à partilha.
As exéquias fúnebres, com a participação massiva da população — crente e não crente — foram bem demonstrativas da admiração que a maior parte das pessoas tinha pelo Padre Abílio Simões. Acreditamos, até, que nem o Padre Abílio tinha a noção da quantidade de pessoas que, mesmo nem sempre concordando com ele, nutriam por si simpatia. Ciente das suas capacidades e do seu valor, não era, no entanto, um homem cuja auto-estima lhe fizesse acreditar ser tão estimado como, de facto, era. O que, certamente, mais admiração lhe traria, mesmo acreditando que nunca o admitiria, foi a homenagem que, na altura do seu funeral, lhe fizeram políticos de todos os quadrantes partidários. Alguns com quem travou acesas lutas por aquilo que considerava justo para si e para o seu rebanho. Alguma vez o Padre Abílio pensaria que aos funcionários municipais do concelho da Mealhada seria dada a dispensa do trabalho para participação no seu funeral?
A verdade é que o tempo foi passando e a vida continuou. O jornal, mesmo sem ele, foi continuando a ser editado — mesmo notando-se a diferença e a ausência — e mudou bastante, em aspectos relativamente aos quais ele próprio mostrara relutância e até oposição. As paróquias da Mealhada e da Vacariça acolheram, de braços abertos, novo pastor e, com ele, algumas mudanças, nem sempre bem aceites. Na sua escola a ausência não se terá sentido de forma tão acentuada, até porque se tinha reformado quatro meses antes, mas terá deixado, a vários putativos discípulos, a promessa de os pôr a saber latim em dezanove lições. A agricultura, o oficio a que prometera dedicar-se com mais afinco na reforma, ficou para outros, e a pós-gradução em bioética certamente que não acabou pela sua falta.
A terra continuou a girar. É certo. Mas o Padre Abílio continua entre nós. Nas últimas semanas reparámos na quantidade de pessoas — dos mais variados quadrantes e graus de formação — que evoca, ainda hoje, as palavras dele para falar sobre a língua portuguesa bem escrita e bem falada, sobre as gralhas nos jornais, sobre a pontualidade, sobre a astúcia deste ou daquele protagonista político, sobre aquilo que ele algum dia terá dito ou escrito sobre o assunto. E, inevitavelmente, a congeminação: “Se o padre Abílio aqui estivesse…” Continua, por isso, entre nós. É citado mesmo por aqueles que ele julgava não o suportarem.
E enquanto ele for lembrado estará a ser feita a sua homenagem maior, no seu testemunho e no seu exemplo. Está, no entanto, por fazer a homenagem pública, institucional, secular, que foi prometida, pelos autarcas do concelho, aos seus familiares e aos seus amigos. O reconhecimento dos poderes políticos impõe-se. Ele nunca o exigiria e até dele fugiria… mas é merecido. E quem o prometeu não pode disso afastar-se.
Merece-o por ter sido um homem positivamente polifacetado. Por ter sido um homem de demandas que considerava de interesse social, um lutador, de antes quebrar que torcer mas que sabia dar a outra face, e que sofria com os que lhe eram ingratos. Por ser, por outro lado, um homem com um sentido de humor inigualável, a ponto de se rir das suas próprias fraquezas, perante aqueles em que confiava. Por ser um homem que mudaria a rota da Terra se fosse preciso ajudar uma pessoa que dele precisasse.
Dissemos, há dois anos, que a verdadeira personalidade do padre Abílio Simões só com o tempo seria devidamente apreciada. Não nos enganámos e, provavelmente, aconteceu mais cedo do que julgávamos. Dissemos que seriam muitos os que o criticavam e que, no futuro, invocariam, positivamente, a sua memória. E assim é.
O altruísmo, a perseverança, a generosidade dos gestos, que preferia manter anónimos, o exemplo de desprendimento das compensações materiais, de dedicação aos outros fazem dele um homem de grandeza excepcional que merece ser reconhecido e elogiado. Para memória dos que não tiveram a graça de o conhecer.

29 de Março de 1992
Dia da Sagração da Igreja Paroquial da Mealhada
No dia da inauguração da sua obra maior, ao centro, com o microfone, o Padre Abílio usa da palavra para as saudações da praxe. Ao seu lado aparecem aqui figuras por quem tinha particular azia... Da esquerda para a direita temos Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada à data, com quem teve a célebre guerra da casa paroquial. Abílio dizia que Rui faltava à palavra dada ao impedir a construção da casa paroquial ao lado da Igreja. Rui socorreu-se da sentença do Supremo Tribunal Administrativo para tirar a água do capote. Mas a casa fez-se... e Abílio passou a assinar "Pároco da Mealhada não-residente sem intenções de residir". Nunca morou naquela casa, que construiu, e estabeleceu residência na Lameira de São Pedro.
A seguir aparece-nos o ortodoxo Bispo de Coimbra, Dom João Alves. Por quem o padre Abílio nutria pouca simpatia... 'se me chatear muito eu...". Raramente acabou a frase, felizmente. À direita Gilberto Madail, Governador Civil de Aveiro, alvo, inúmeras vezes, das maiores farpas que, nos artigos de opinião, o articulista Abílio alguma vez distribuiu.
*Para eterna memória
Editorial da edição de 4 de Fevereiro do Jornal da Mealhada
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