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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

[1536.] Mercurii dies... o último editorial

Missão cumprida.

Até sempre.

A presente edição do Jornal da Mealhada, em vésperas do 27.º aniversário da publicação, é a última em que exerço as funções de director. Oito anos depois de ter aceite o desafio de dirigir a mais antiga publicação do concelho da Mealhada, sinto que cumpri a minha missão e é com muita satisfação e alegria que a dou por terminada e me dirijo aos seus leitores na primeira pessoa.
Os primeiros seis meses deste ano de 2012 foram, para mim, extraordinariamente dolorosos e exigentes na procura de uma solução económico-financeira que permitisse a subsistência de uma publicação que é, para mim, mais do que uma casa. Tenho a consciência de que fui criticado, censurado e, tantas vezes, ridicularizado por manter nos lábios a garantia de que o Jornal da Mealhada não iria acabar, iria “regressar”, iria resistir a um momento difícil que infelizmente está a destruir milhares de pequenas e médias empresas em toda a Europa. Não será falsa modéstia asseverar que a minha teimosia, aliada a uma forte convicção e esperança – quando mesmo no meu círculo mais próximo já não se acreditava –, confederada no apoio de Bruno Peres, da minha família, e, mais tarde, na aceitação da parte da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, e do seu provedor, permitiram que em 4 de julho de 2012, cento e oitenta e sete dias depois de termos anunciado a suspensão, o Jornal da Mealhada voltasse às bancas e os delatores tivessem de se reduzir ao embaraço de engolir o muito que expeliram. Ficaram, para trás, nessa altura, cento e oitenta e sete dias de grande esgotamento psicológico e emocional, mas, também aqui, a convicção da missão cumprida.
Ao longo de oito anos, procurei dirigir o Jornal da Mealhada com inteligência e imparcialidade. Nunca impus as minhas ideias ou idiossincrasias ideológicas aos leitores. Muitas coisas que não corroboro foram publicadas, ao abrigo do Direito à Opinião de cada um dos colaboradores e dos protagonistas, cumprindo a máxima de Voltaire: “Não gosto de nada do que diz, mas seria capaz de dar a vida para que continuasse a poder dizê-lo!”. Procurei, sem pôr em causa a herança, desenvolver, procurei inovar, procurei ir mais além no serviço público de informar, intervir e dar opinião na comunidade em que o Jornal da Mealhada, há 27 anos, se insere. Não terei conseguido totalmente, não terei conseguido sempre, mas acredito que a minha missão foi amplamente cumprida.
Não é um momento de despedida, até porque continuarei a colaborar com o Jornal da Mealhada, que foi a casa onde desde os meus oito anos – desde logo com a paciência do professor Armindo Pega – aprendi a ler, a escrever, a contar, a manusear um computador, a colar etiquetas, a gostar de jornais, a conhecer o mundo e, principalmente, a comunidade que me comprometi servir. Nos primeiros meses em que dirigi o Jornal da Mealhada, era recorrente dizer que nem me parecia justo receber remuneração para fazer algo que me dava muito prazer. Nos últimos quarenta meses, quando a remuneração não existia, continuei com a mesma alegria e prazer, até à inevitabilidade da paragem.
Neste fim de ciclo, cumpre-me agradecer. Um primeiro agradecimento para Isabel Canilho – que soube ser colaboradora sem deixar de ser mãe –, para Afonso Simões – que foi sempre inexcedivelmente solidário e amigo –, para Mónica Sofia Lopes – que foi de uma dedicação e resistência inauditas –, e, de modo muito especial, para Bruno Peres – que conseguiu sempre ser cúmplice, especialmente nos maus momentos. Um agradecimento especial, também, para os sócios da empresa JM – Jornal da Mealhada, Lda, que nunca deixaram de dar apoio ao director, e especialmente aos gerentes que comigo trabalharam – César Carvalheira, Hélder Xabregas, António Lucas, Edmundo Carvalho, Carla Carvalheira e João Pega – que foram sempre solidários e nunca admitiram que faltasse fosse o que fosse aos que ao Jornal dedicavam o seu esforço. Não menos importante, o agradecimento a todos os colaboradores que escreveram, deram opinião, análise e trabalho, tornando este jornal numa publicação de referência. E a todos os protagonistas desta comunidade – autarcas, dirigentes, entre outros – que sempre trataram o Jornal da Mealhada com respeito e sentido de colaboração.
Os últimos agradecimentos ficam para a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, para os leitores, e especialmente aos assinantes, e aos anunciantes, pela confiança, e para os dois maiores responsáveis pelo sucesso desta demanda: Abílio Duarte Simões e Manuel Almeida dos Santos. Estejam onde estiverem, aceitem o meu humilde obrigado pelos ensinamentos, pela solidariedade, pela cumplicidade, pela paciência, e pelo enorme sacrifício.
Ao professor Braga da Cruz, que me sucederá nesta missão, tornando-se o oitavo director do Jornal da Mealhada, fica a minha disponibilidade para colaborar e ajudar no que considerar necessário e os votos de grande felicidade – pelo menos tão grande como a minha.                                                               

Até sempre.

Editorial do Jornal da Mealhada de 5 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

[1541.] Dia vencido - 4 de dezembro de 2012

Hoje escrevi o meu último Editorial, para a edição de amanhã do Jornal da Mealhada - a última que assinarei como diretor.  Ao longo de, aproximadamente, 2890 dias, dirigi a publicação que tinha dezanove anos quando assumi a sua direção editorial e deixo, agora, com 27 anos. Ao longo deste tempo procurei sempre dar ao jornal uma assinatura, sem com isso querer fazer do jornal um aeropago das ideias de quem o dirige. Contrariamente ao que acontece com a maior parte dos jornais regionais, procurei que o Jornal da Mealhada tivesse, sempre, Editorial. Só no último ano, em 2011, é que fui menos profícuo na produção de editoriais semanais, sem ser repetitivo. Provavelmente, um dos sinais visiveis do meu cansaço poderá consubstanciar-se neste facto, que é, para mim, uma falha.
Nos primeiros tempos, em 2005 e até fevereiro de 2007, eu escrevia os editoriais e dava a lê-los ao Padre Abílio Simões, que o discutia comigo o seu conteúdo e clareza. Mais tarde, depois do falecimento deste, fui ajudado na mesma tarefa - com menos discussão, no entanto, pelo professor Manuel Santos. Depois da descoberta da doença do professor Santos, passei a fazer esse trabalho sozinho, sem rede.
O editorial não deve ser sentido como um texto de opinião do autor. Isso seria, tão só, uma mera opinião. Também não pode ser uma posição oficial da redacção, pois isso obrigaria a uma tomada de posição unanime ou pelo menos generalizada. Ou seja, trata-se de uma peça redactorial importante que não pode ser banalizada nem comprometer demasiado. Acho que consegui, na maior parte das vezes.

Hoje foi o ultimo. procurei não ser demasiado lamechas, mas não perder a sensibilidade de uma despedida de 8 anos...

A ver vamos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

[1535.] Mercurii dies

O dilema, no esplendor do caos
 
Do confronto político em Portugal, dos pseudodebates entre partes organizadas na dialéctica democrática, chegamos à conclusão de que é completamente estéril o formalismo que a Constituição estabelece como forma de organização dos cidadãos. Contrariamente ao que asseveram senadores (no caso senadora) da Economia-que-só-acerta-quando-está-fora, não queremos com isto dizer que "os problemas complexos não se conseguem resolver em democracia". Não, nada disso!

O que nos parece é que o sistema partidário em Portugal está completamente falido. Os partidos políticos estão completamente focados na transmissão da sua cassete, que só eles ouvem — como se discursassem para se ouvir a si próprios — e não na resolução concreta de problemas reais das pessoas. Os partidos portugueses são hoje parte do problema, e não parte de qualquer solução.

Não se reduz o número de deputados, porque os partidos mais pequenos não deixam. Não se mudam leis eleitorais porque os partidos da coligação do Governo não se entendem. Não conversam os líderes dos principais partidos porque um acha que foi desrespeitado e o outro não disse sobre o que queria falar. Não se tolera que se altere a constituição porque cada partido acha que o outro a quer subverter ideologicamente...

Portugal precisa de uma refundação? Claro que sim. Precisa de reajustar o Estado Social? Claro que sim. Mas só depois de os partidos políticos se refundarem, se democratizarem e se reajustarem ao mundo. Primeiro salvem-se, e depois queiram ajudar a salvar o país!

Como diz Eduardo Lourenço: "Pode discutir-se se a desordem em que estamos mergulhados — desde a económica até à da legalidade e da ética — releva ou não, em sentido próprio, do conceito de caos. Do que não há dúvidas é de que o habitamos como se fosse o próprio esplendor". 
 
Editorial do Jornal da Mealhada de 7 de novembro de 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

[1521.] Nove anos

No passado domingo, 26 de agosto, passaram nove anos sobre a publicação, em Diário da República, da Lei que elevou a, até essa altura, vila da Mealhada à categoria de cidade. A decisão havia sido aprovada pelo plenário da Assembleia da República em 1 de julho e com a publicação tornava-se definitiva. No mesmo dia, idêntica decisão e publicação em relação a Oliveira do Bairro deu direito - durante breve trecho, é certo -, a Feriado Municipal nesse dia de solenidade. Mas na Mealhada não. Aliás, tirando meia dúzia de foguetes lançados pelo executivo da Junta de Freguesia da novel cidade, nesse dia 1 de julho, nunca houve sequer um simples assinalar da data.
 
Não fosse a tradicional aversão dos órgãos autárquicos às comemorações civis da nossa comunidade - de que é exemplo o Feriado Municipal, anual, (nunca assinalado) ou o 175.º aniversário da elevação a concelho, que aconteceu em novembro de 2011 - e poderia dizer-se que há uma espécie de vergonha em festejar a elevação à categoria de cidade. Não há vergonha nenhuma, reconheçamos isso. Há, pelo contrário, uma tradicional negligência neste domínio. E é pena, pensamos nós (naturalmente), que até nem somos muito festeiros... Justificava-se a comemoração - qualquer uma das três referidas - como se justifica o assinalar (por mais simples que seja) da Batalha do Bussaco, ou do 25 de Abril. São datas que fazem parte do nosso património coletivo e que nos distinguem como comunidade.
 
O processo de elevação da Mealhada a cidade foi doloroso, mas, nove anos passados, as feridas deveriam estar saradas. Será cedo para fazer um balanço de nove anos de cidade? Será que essa decisão influenciou alguma coisa o desenvolvimento do concelho? Estas e outras perguntas não precisariam de ser nesta altura respondidas, assim pudessemos nós, como comunidade, ter a maturidade suficiente para as fazer.

Talvez para o ano... Não será, certamente, tarde de mais.

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Às vezes, somos enganados pelo nosso cérebro (ou será pelos nossos medos) e, perante palavras escritas, não lemos o que elas encarreiradas dizem, mas pomo-nos a congeminar sobre as intenções escondidas de quem as terá escrito, recusando-nos a ler, de facto, e caindo na especulação pura. Diz o sábio povo que "bom julgador a si se julga". Pelo que quase sempre vemos no maquiavelismo dos outros o nosso próprio reflexo. Manda a honestidade que cada um seja julgado pelo que fez (ou escreveu) e não pelo que o que os outros teriam querido ler...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

[1513.] 44 por cento do nossos descontentamento!

Governo da República - dando cumprimento a uma estratégia de "limpeza" dos sorvedouros do Estado - divulgou, no dia 2 de agosto, o relatório de avaliação das fundações "nacionais ou estrangeiras, que prossigam os seus fins em território nacional, com vista a avaliar o respetivo custo/benefício e viabilidade financeira e decidir sobre a sua manutenção ou extinção, sobre a continuação, redução ou cessação dos apoios financeiros concedidos, bem como sobre a manutenção ou cancelamento do estatuto de utilidade pública". Era uma avaliação aguardada e, assim nos parece, importante.
 
Os resultados relativos à Fundação Mata do Bussaco é que não foram nada animadores. A Fundação criada em 2009 para gerir a Mata Nacional do Bussaco foi classificada com a nota de 44 pontos, numa escala de 1 a 100.
A nota - os 44 por cento - é baixa. É, naturalmente, negativa. E seria desonesto dizer ou tentar demonstrar o contrário.
Naturalmente que há atenuantes, que, de certa maneira, relativizam este valor. A Fundação Mata do Bussaco (FMB) começou a trabalhar em 2010 e a avaliação do Governo ponderou o trabalho realizado em 2008, 2009 e 2010. Ou seja, o trabalho de arranque de um ano da instituição foi avaliado como o de três anos de pleno funcionamento.
Como já se disse, a nota é baixa. Mas também não fará sentido colocar agora em causa o trabalho feito pela FMB nos últimos três anos e resumi-lo a este valor. Esta solução - a da fundação - pode ter problemas, que os tem, pode ter deficiências, que as tem, pode estar a ser monopolizada por um setor, a sua ação e alegados feitos quotidianos pode estar a ser sobrevalorizada, mas que não restem dúvidas de que é a melhor solução até agora apresentada e posta em prática para a gestão de um património que estava a degradar-se, que estava abandonado pelo Estado, que estava refém da burocracia e do nepotismo incompetente da administração central sem rosto. Uma entidade gestora com uma avaliação de 44 por cento é negativa, mas é muitissimo melhor do que a gestão que existia antes.
A avaliação do Governo, considera que, até 2010, ao nível da "Eficácia" (especialmente no "custo eficácia das principais actividades e produtos e/ou serviços prestados" a avaliação é muito má. E que quanto a "Sustentabilidade", o resultado não é nada famoso. Mas quanto a "Pertinência/Relevância", ou seja, quanto à necessidade desta estrutura, o resultado é óptimo, situando-se na casa dos 70 por cento.
O "estado de graça" da FMB pode ter acabado, e é tempo de terminar com os elogios rasgados e acríticos, que misturam a exaltação da necessidade da instituição com o mérito pessoal dos gestores e técnicos - até porque não há só bestiais e bestas. Mas é exagerado colocar, agora, tudo em causa. Sem dramatismos, mas com muita humildade por parte de quem está à frente da FMB, com honestidade intelectual, com sentido de responsabilidade e de Serviço fará sentido avaliar o que está a correr menos bem, congregar sociedade civil e a comunidade na definição de rumos, despolitizar e despartidarizar e, acima de tudo, congregar esforços para evitar que algum iluminado se lembre de extinguir a Fundação Mata do Bussaco, especialmente em nome de uma avaliação que embora necessária, menoriza um aspecto essencial que é o de que pode ter problemas, mas é a melhor forma encontrada e aplicada de gerir aquele Património.
Saibamos todos ser críticos, mas honestos, austeros, mas eficazes, retos, mas muito práticos!

Editorial do Jornal da Mealhada de 15 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[1510.] Mercurii dies em dia de homenagear os Avós

A Idade dos Avós

Há quarenta anos, era expectável que um português, em média, vivesse até aos 60 anos. Hoje, essa Esperança está nos 79 anos, sendo de 82 para as portuguesas.
Para além destes números serem indicadores de progresso científico, de melhoria das condições de vida das pessoas, no fundo, de desenvolvimento, são, também, motivos para uma ampla reflexão, dado o impacto que têm sobre a sociedade e sobre o chamado Estado Social. Não valerá a pena estar a ilustrar a consequência destes dados no Sistema Nacional de Saúde, na Segurança Social, ou nas respostas sociais de terceira idade, cuidados continuados ou paliativos.
Os portugueses que entraram agora na vida ativa, que estarão na casa dos 20/30 anos, trabalharão até aos 60 ou 70 anos e viverão até aos 90 ou 100 anos. Ou seja, por exemplo, estarão reformados quase tanto tempo quanto o que trabalharam.
Na verdade, temos, agora e daqui para a frente, uma verdadeira Terceira Idade. Depois da Idade do Crescimento, e da Idade do Trabalho, há a Terceira Idade, a da reforma, que nem por isso deve ser menos produtiva e frutífera. Antes pelo contrário.
Formas para os nossos seniores continuarem a dar o seu contributo à sociedade são mais do que muitas. O serviço em instituições de voluntariado, de associações e IPSS, nas escolas e na formação de jovens, em grupos de ação e divulgação cultural ou de formação desportiva, etc.. Há, também, as Universidades Seniores, como a que a CADES abrirá na Mealhada e em Luso, em setembro próximo, ou a ação política nas autarquias locais, por exemplo.
Mas de todas estas ocupações há uma, especialmente altruísta e notoriamente de Serviço que é a ocupação de ser avô e avó. Os jovens e as crianças de hoje têm uma oportunidade que muitos dos seus antepassados não tiveram, a de poder conviver e receber instrução e educação dos seus avós.
Hoje, os avós, através dos seus cuidados, do carinho, do apoio e do serviço é uma instituição que beneficia novos e idosos e se reveste de particular importância, num tempo em que pai e mãe trabalham fora e têm uma carreira, em que a escola dura tempo de mais e as crianças chegam a ficar esgotadas com tanta ocupação e tão pouco tempo livre.
Na passada quinta-feira, Dia de Sant’Ana e de São Joaquim - segundo a tradição, os pais de Maria, logo avós de Jesus -, assinalou-se mais um Dia Nacional dos Avós. Dia festivo, de reflexão e homenagem, no Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade Entre gerações.
Valerá a pena pensar de que forma estamos nós, enquanto comunidade, a aproveitar esta dádiva e este potencial, que são os nossos seniores. Potencial que pode ter aproveitamento cultural, social, económico, mas, acima de tudo, cívico e de desenvolvimento humano.
Era bom que o aumento da esperança média de vida significasse, também, um crescimento de Esperança, um crescimento de Vida de Qualidade e, principalmente, de Felicidade.

Editorial do Jornal da Mealhada de 1 de agosto de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

[1509.] Mercurii dies em dia de citar Rosália de Castro


«Este parte/ aquele parte/E todos, todos se vão»?

Há poucos dias, a catadupa de uma conversa, daquelas que começam num "por acaso" e não se sabe como terminam, aportámos na filosofia de Jaime Cortesão - quase um conterrâneo, aqui de Ançã - e sobrevoámos as teorias de Agostinho da Silva, a propósito do determinismo de "ser português". Defendia Cortesão que há um "humanismo universalista" no "ser português", uma espécie de característica genética da portugalidade, que nos condiciona em quase tudo, que nos refrata a forma como vemos o mundo, e, especialmente, na relação que temos com os outros. Cortesão fala de um humanismo prático, pragmático, que está na essência do português e, acima de tudo, um papel especial dos portugueses na história da civilização: o descobrimento e a unificação do Mundo pelo conhecimento.


Vem isto a propósito do aparente paradoxo destas teorias com a prática da nossa atitude coletiva perante a emigração portuguesa - a Diáspora - que insistimos em desvalorizar, em menorizar, em ridicularizar, quase como se nos sentissemos traídos por eles terem saído do país e nós não. O emigrante de regresso a casa é sempre o francês... ou o americano...

O anúncio televisivo da criança que dizia aos jogadores da Seleção Nacional de Futebol que não queria sair do país, mas se eles não ganhassem "ia ter de ser", aliado à onde de protestos sobre as declarações do Governo sobre a emigração de jovens quadros, é, apenas, a espuma mais recente de uma ideia que nos está enraizada desde os "vapores para o Brasil".

Aos jovens de hoje - a todos os que têm hoje menos de 40 anos, talvez - impingimos, depois da adesão à CEE, em 1986, a ideia de que eram uma geração europeia, que tinhamos de conhecer o mundo. Para isso aproveitaram-se e divulgaram-se Interrails, Erasmus, intercâmbios escolares, viagens de estudo e afins. Quando os frutos se começam a ver e os portugueses são requisitados para trabalhar na tal Europa onde nos devíamos mostrar, aqui del-Rei que ficamos sem gente. Volta-se a cantar o poema de Rosália de Castro sobre os "campos de solidão". Disparate.

Os emigrantes portugueses são uma das mais-valias que temos. Em termos de projeção, em termos económicos, em termos culturais. Ativos que precisam de ser colocados ao serviço do coletivo.

Evocando Cortesão, parece-nos que ser emigrante é ser um português completo.

Editorial do Jornal da Mealhada de 18 de julho de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

[1507.] Mercurii dies em dia de regressar a respirar


Voltar para cumprir

Regressámos. A edição impressa do Jornal da Mealhada voltou às bancas, às mãos dos nossos assinantes e ao convívio dos nossos leitores mais tradicionais. Demorámos mais do que esperávamos. Tardámos mais do que desejámos. Mas aqui estamos: Renovados, fortalecidos e cheios de energia para regressar ao nosso lugar, na promoção do Direito à Informação, através de um jornalismo sério, honesto, independente e livre. Voltámos para cumprir.
A empresa JM – Jornal da Mealhada Lda, a detentora do Jornal da Mealhada desde julho de 1987, foi liquidada. Os activos e o passivo da empresa foram adquiridos pelos principais credores, nós próprios, que, depois de várias tentativas e uma profunda maturação, decidimos doar os títulos de comunicação social – o Jornal da Mealhada, o FRONTAL e a revista VIA – à Santa Casa da Misericórdia da Mealhada.
A Santa Casa da Misericórdia da Mealhada é uma instituição centenária – o que é garante da sua perenidade e da perpetuidade dos seus valores intangíveis –, a mais antiga das não-públicas no concelho da Mealhada, com um forte enraizamento nas comunidades da região, com a alma cheia dos ideais que se esperam de um jornal regional que, como dissemos em dezembro, é, acima de tudo, das pessoas e das comunidades. Dito de outra forma, consideramos que a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada acaba por ser a instituição ideal para, na garantia da continuidade, como legado da comunidade, receber a propriedade do Jornal da Mealhada.
Mesmo assim, os dirigentes da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, na humildade de quem recebe um legado naturalmente oneroso, obviamente sensível, especialmente sujeito ao escrutínio público, e ciente de que para além de ser é preciso demonstrar credibilidade, aceitou o ónus da constituição de um Conselho Editorial, composto por três personalidades, e a quem caberá manter os valores intangíveis da publicação, tais como a independência, a objectividade, o rigor e a defesa intransigente das comunidades onde se insere, garantindo a total Liberdade, de expressão e de pensamento, e a Independência da publicação.
Nos próximos meses, que são tempos estivais e de férias, a edição impressa do Jornal da Mealhada será quinzenal. Depois disso, reavaliar-se-á a questão no sentido de, com sustentabilidade, regressarmos ao contacto semanal.
O contacto direto e imediato com os nossos leitores através da edição on-line, na internet, com atualizações diárias e em tempo real, manter-se-á. Ficou demonstrada a relevância da ferramenta, a utilidade deste novo instrumento de informação e de comunicação comunitária.
O tempo de paragem serviu, como no propusemos, para refletir, para garantir que é prestado, com qualidade, um serviço, que outros, antes de nós, assumiram e do qual nos sentimos herdeiros e, acima de tudo, legatários. Um serviço que se quer cada vez melhor, cada vez mais próximo das pessoas, um serviço que o seja verdadeiramente e cada vez mais cuidado.
Os seis meses em que estivemos sem edição impressa foram penosos, difíceis e duros. Mas foi muito importante e gratificante a confiança, que, quase todos, demonstraram na nossa palavra, na promessa de que voltaríamos. A eles – assinantes e anunciantes, especialmente – o nosso agradecimento.
Prometemos e cumprimos. Voltamos ao seu contacto, através da edição impressa. "Frescos e preparados para o futuro". Nos próximos meses contamos apresentar uma nova imagem, uma nova apresentação. Trabalharemos ainda no desenvolvimento de novos produtos, novas formas de divulgação da informação e, também, novas ferramentas de intervenção. Mais fortes do que nunca, com o rigor e seriedade de sempre, estimulados e conscientes de que, enquanto houver estrada para andar, é nossa obrigação, é nossa missão, continuar. Não por nós, mas por todos.

Editorial do Jornal da Mealhada de 4 de julho de 2012
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

[1488.] Mercurii dies

Parar para recuperar!
A edição impressa do Jornal da Mealhada estará interrompida no próximo mês de janeiro. Continuaremos no contacto direto com os nossos leitores através da edição on-line, na internet, com atualizações diárias e em tempo real, mas a edição impressa regressará, apenas, nos primeiros dias de fevereiro de 2012. Os nossos estimados assinantes e anunciantes não serão prejudicados com a medida, que foi tomada pela gerência com o apoio da direção e da redação, e todos os compromissos estão assegurados, considerando poder ser recíproca a confiança e a honestidade de quem faz da credibilidade e da verdade a sua missão diária, há 26 anos.

A medida resulta da necessidade de refletir e repensar o projeto, de modo a garantir um futuro saudável e sustentável, num momento particularmente difícil para todos, e especialmente no setor tão vulnerável às quebras de investimento, de empresas e cidadãos, às prioridades utilitaristas da vida das pessoas comuns e à saúde financeira das instituições – públicas e privadas.

O mercado editorial está extraordinariamente dependente do investimento das empresas e dos empresários em publicidade e, nos tempos que correm, não é prioritário esse gasto por parte de quem sente tantos constrangimentos na sobrevivência de cada dia. Acrescem as atitudes conservadoras da parte de quem até poderia ajudar, mas prefere obstaculizar em nome de valores alegadamente simpáticos e igualitaristas, mas na verdade nefastos e epidémicos. Como aditam os esforços maníacos concorrenciais apostados na destruição de preços e mercados, no elogio do quanto pior, melhor e do “teu mal faz-me tão bem”.

Por outro lado, uma publicação como o Jornal da Mealhada – local, com milhares de assinantes em Portugal e no estrangeiro – ressente-se, necessariamente, com a redução de apoios estatais – como o chamado Porte Pago, o único instituto real e decente de promoção da Língua Portuguesa junto da comunidade emigrante – e com a retração do consumo das pessoas, com o enaltecer do discurso da poupança em bens culturais, sociais, com o estímulo e o elogio ao utilitarismo serôdio – que faz a apologia da economia parada e do dinheiro debaixo do colchão.

Sentimos necessidade de fazer uma paragem – por um período não superior ao legal e normal usufruto de férias – para pensar o projeto, avaliar o que tem resultado das prioridades estabelecidas, refletir sobre o presente e o futuro dos nossos produtos (todos eles) num mercado muito difícil, vulnerável – a fatores de toda a ordem – e que está a passar por sérias dificuldades em todo o planeta.

Parar para refletir não é o mesmo que parar definitivamente – antes pelo contrário. Paramos porque queremos continuar a prestar um serviço, que outros, antes de nós, assumiram e do qual nos sentimos herdeiros e, acima de tudo, legatários. Um serviço que se quer cada vez melhor, cada vez mais próximo das pessoas, um serviço que o seja verdadeiramente e cada vez mais cuidado.

Queremos indagar, procurar saber de forma ainda mais rigorosa e determinada para onde vamos, o que poderemos dar e, também – porque não reconhece-lo com toda a frontalidade – o que poderemos esperar da comunidade que servimos.

Essa poderá ser, de facto, a ideia que mais precisa de debate e de reflexão. De quem é e para quem é um serviço como o que é prestado, há 26 anos, pelo Jornal da Mealhada?

O Jornal da Mealhada foi fundado em 1985 por Fernando Queirós, um homem dos jornais, do norte do país, que, sem fortes ligações à terra, promoveu a fundação do título que viria a ser editado, pela primeira vez, a 10 de dezembro desse ano. Depois da experimentação de vários modelos de organização, em julho de 1987, constituir-se-ia uma sociedade por quotas – com quase duas dezenas de sócios – que, desde aí, sem nunca ter tido qualquer propósito lucrativo – o título, que, desde cedo, e de modo muito rápido, entrou no coração de uma comunidade que, nesse longínquo ano de 1987, não tinha um jornal local seu há mais de uma década.

Mas, verdade seja dita, o Jornal da Mealhada nunca foi, verdadeiramente, destas mais de duas dezenas de pessoas, que também nunca se quiseram assumir como donos de um jornal, na verdadeira acepção do termo. Nenhum deles – não que alguma vez o tivessem tentado – conseguiu encarreirar ou condicionar o jornal a pretensões pessoais fosse de que natureza fosse. A verdade que sempre se sobrepôs a isso é simples: O Jornal da Mealhada desde cedo se tornou uma património da comunidade, um valor acima da personalidade, do estilo ou das preferências – estéticas ou até mesmo ideológicas – de quem exercia, por exemplo, o cargo de diretor.

Dito de uma forma mais simples: O Jornal é, desde há muito, dos mealhadenses – na acepção latíssima, e mesmo mais do que concelhia, do termo.

Acontece que um jornal tem custos, de produção (a gráfica que o imprime, por exemplo) e de expedição, nomeadamente. E os preços de venda ao público e das assinaturas não cobrem esses custos. Sendo propriedade dos mealhadenses, interessa, então, refletir sobre o papel de quem se tem empenhado – nomeadamente financeiramente – para que o jornal continue a ser editado. Um esforço que não pode ser inglório, que é naturalmente cívico e voluntário, mas que é – especialmente em ambiente de retração económica – real, concreto e que acarreta consequências pessoais, familiares, económicas e, até, jurídicas.

Até porque, convenhamos, a independência de um órgão de comunicação social é, em larga escala, de natureza económica, pela via da sustentabilidade. Ou seja, todo o jornal que é sustentado em grande medida pelos seus proprietários – sejam eles chamados de mecenas ou de investidores – acabará por ser, mais tarde ou mais cedo, um meio para chegar a um fim, que colocará, irremediavelmente, em causa a credibilidade e a verdade do que é feito e transmitido. Como é costume dizer-se agora: “Não há” – infelizmente, pensamos nós – “almoços grátis!”.

Os nossos assinantes e anunciantes responderam de uma forma espantosa ao apelo que recentemente lhes foi feito no sentido de ajudar o projeto Jornal da Mealhada. De uma forma generalizada souberam dizer sim, foram capazes de estimular, regularizando a situação das assinaturas – que, sendo uma obrigação simples não terá sido fácil para muitos – e participando na campanha de Natal de 2011, que se revelou acima do que estaríamos à espera, dadas as condicionantes da época. Os nossos milhares de assinantes e os nossos muitos anunciantes foram um forte apoio para que, neste momento, informemos os nossos leitores de uma paragem (que não deixa de ser forçada, entenda-se) por um período de um mês, e não de um final ou de uma suspensão definitiva.

Não desistimos, nem vamos desistir, enquanto nos for demonstrado – como tem sido nas últimas semanas e meses – que o Jornal da Mealhada é querido e estimado, aguardado e considerado, valorizado e determinante para o progresso coletivo das gentes do concelho da Mealhada – os naturais deste torrão de verde e ouro no sopé do Bussaco, ou nele residentes.

Nos primeiros dias de fevereiro de 2012, voltaremos ao seu contacto, através da edição impressa (porque continuaremos até lá na edição on-line). Frescos e preparados para o futuro. Com novos produtos, novas formas de divulgação da informação e, também, com novas ferramentas de intervenção. Mais fortes do que nunca, estimulados e conscientes de que, enquanto houver estrada para andar, é nossa obrigação, é nossa missão, continuar. Não por nós, mas por todos.

Editorial do Jornal da Mealhada de 28 de dezembro de 2011
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

[1486.] Mercurii dies

Saudades de um Natal futuro…

Os dias são feitos do que nos rodeia. São as pessoas que nos circundam que marcam o passo dos nossos corações. Não somos, não podemos ser, ilhas no oceano da turbulência que cadencia a multidão a que não podemos ser alheios e na qual não nos podemos perder nem dissolver. É difícil estar contente – para não dizer feliz – nos dias de hoje. Vivemos o “Inverno do nosso descontentamento”, e somos uma espécie de Ethan Hawley – na analogia do romance de Steinbeck – à procura de uma esperança, humilde e simples, que nos traga a alegria e felicidade de outrora.

Não há grandes razões para se estar contente. Haverá, sempre – especialmente para nós que pensamos ser otimistas – razões para ter esperança. Mas a Esperança é sempre amanhã e a dor é sempre o presente.

Dizem os peregrinos de Santiago de Compostela – ou se calhar apenas repetem, nas travessias e nas buscas de sentido – que “sem dor não há Glória”. Será verdade? E será necessária tanta dor? E para que glória? Vivemos uma invernia dormente e são muitas as vezes em que nos sentimos Job no digladiar de testes entre Deus e o diabo. Viveremos nós um teste? Estaremos a ser levados ao limite para o conhecermos? Fará sentido este sacrifício?

A verdadeira Esperança não pode ser a da ilusão de arranjar boas razões para conseguirmos sobreviver a cada pontada. A verdadeira Esperança precisa de ser alimentada de gestos, de sinais, de razões, de objetivos para que consigamos sobreviver. Mas cabe-nos a nós reconhecer esses sinais, esses gestos, e ver neles as razões e os objetivos, sem esperar que vivam por nós ou que nos digam o que fazer, ou como fazer. Não é nos outros que está a Esperança. É em nós mesmos. Não é em sebastiões de nevoeiro que vamos encontrar o futuro. É em nós mesmos. Não é nos governantes que está a culpa como não é neles que está a saída. Nós somos os sebastiões que hão-de de nos tirar do nevoeiro, que hão-de resgatar deste Inverno cortante.

Os dias são feitos do que nos rodeia. E não são felizes os nossos dias se vemos um amigo a sofrer, ou alguém que nos é próximo a chorar de desespero – mesmo que sem lágrimas, mesmo que sem discursos ou lamúrias. É impossível estar alegre quando vemos tantos dos que nos rodeiam sem emprego, sem formas de rendimento, sem ocupação – apenas focados no que não têm ou não podem ter –, sem objetivos de vida ou de esperança.

Sempre a Esperança…

Mas a impossibilidade de estar feliz ou alegre não nos deve desobrigar da missão que temos de dar aos outros o que eles precisam. E não estamos a falar de dinheiro ou apenas de alimento para o corpo. Estamos a falar de aconchego, de atenção, de disponibilidade. Dizia Francisco de Assis – o santo pobrezinho – que “é dando que se recebe”. Porque é dando aos outros que nós vemos e sentimos a Esperança dentro de nós.

Estamos no Natal e os sinais que recolhemos do que nos rodeia é que vai ser um Natal esquisito… e sentimos já as saudades de natais diferentes… longínquos. E já sentimos saudades dos natais futuros, dos que hão-de vir depois deste inverno.

Mas a verdade é que este pode ser o Natal perfeito para vivermos a Esperança maior do Amor pelos outros. A Verdade da entrega aos outros, na disponibilidade, no carinho, nos pequenos gestos. Mesmo para os que acreditam neste tempo como a memória do nascimento do Salvador, é fácil perceber que esse Salvador nasceu uma vez e se renasce todos os anos – como o sol nasce todos os dias – é dentro de nós que isso acontece, é nos nossos corações pelas nossas ações e gestos. Porque afinal a Esperança somos nós que a temos e só a vemos quando a entregamos, quando a doamos a alguém.

Porque nos sentimos rodeados por uma canção simples – do grupo português Deolinda – somos obrigados a perguntar “porque é que só nos lembramos dos outros quando chega o Natal?”, “porque razão é que não damos prendas sem ter um pretexto?”, “o que é que nos move uma vez por ano?”, “que gratidão é que esperamos dos outros apenas por um dia?”.

A verdade, e concluindo com os Deolinda: É a Esperança que temos dentro de nós mas só vemos quando a doamos que “espera o ano inteiro e que tanto anseia a nossa companhia”.

“Um Feliz Natal, não hoje, mas o ano inteiro”. Já há-de faltar pouco para chegar a primavera.

A redação do Jornal da Mealhada deseja a todos os seus leitores, assinantes, anunciantes, colaboradores e amigos um feliz Natal, com abundância, conforto, paz, amor e alegria. Solidariza-se, também, com aqueles que, por qualquer razão, não podem vivê-lo desta maneira

Editorial do Jornal da Mealhada de 21 de dezembro de 2011
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

[1485.] Mercurii dies

Uma prenda de aniversário:
Novo sítio na internet do Jornal da Mealhada

Apresentamos hoje, 14 de dezembro, aos nossos leitores, a partir das primeiras horas da manhã, uma nova aparência no sítio da Internet do Jornal da Mealhada – em www.jornaldamealhada.com, como sempre. Uma nova aparência que passa pela disponibilização de novas funcionalidades, de novos motivos de interesse, de novos veículos de comunicação, na edição em que assinalamos o 26.º aniversário da primeira edição impressa do Jornal da Mealhada, em 10 de dezembro de 1985.

A nova aparência do nosso sítio da internet – ou do nosso site, se preferirem – é, no entanto, o primeiro passo na demonstração de uma nova abordagem jornalística que procuraremos adotar nos próximos tempos. Um caminho que começou em 28 de junho de 2006, quando iniciámos o site do Jornal da Mealhada, e que agora recebe um novo paradigma.

Já há muitos anos que os especialistas em comunicação e media garantem que o Futuro do jornalismo passa pelas plataformas digitais. A sentença do fim do papel está decretada há muito tempo e a inevitabilidade – para quem trabalha e reflete a problemática do dia-a-dia nesta área – é a de se adequar a uma realidade mista, em que o digital – através da internet em sentido lato, e das redes sociais e dos sites de comunicação em sentido estrito – tem de ser uma preocupação de quem quer “ver mais longe”, e por isso, obrigatoriamente, “voar mais alto”. Assumimos essa preocupação em 2006 e procurámos, com os meios ao nosso dispor, apresentar um serviço público de qualidade. Um serviço que, naturalmente, saía sempre prejudicado pela preocupação de dar o protagonismo à edição impressa. Nos últimos meses, experimentámos diversificar a oferta e dar ao nosso site um novo papel – na promoção da edição impressa, por um lado, mas pela procura do servir a atualidade, com informação de “última hora” e de apresentação do agendamento do que acontece em cada dia.

Está, naturalmente, na hora de ir além disso. De passar mais uma fronteira – procuramos fazê-lo há 26 anos – e dar ao nosso site a autonomia que ele merece e que os milhares de visitantes, que em cada semana a ele acedem, exigem. Um trabalho que lhes é oferecido hoje e que resulta da comunhão de esforços da equipa redatorial do Jornal da Mealhada – especialmente da jornalista Mónica Sofia Lopes, que tem sido a grande obreira do site – juntamente com a equipa de criadores e especialistas da empresa Marques Associados, nossos parceiros nesta demanda. 

O site que a partir de hoje é por nós apresentado e dinamizado procurará ter a autonomia de um órgão de comunicação social do futuro.

No encalce de uma maior atualidade. Na procura da notícia que está a acontecer, na apresentação de conteúdos no imediato e em direto, sem esquecer, nunca, a reflexão e a investigação profunda.

No encalce de uma maior proximidade a novos públicos. De contacto direto com os mais jovens, com os que priviligiam o contacto com as redes sociais e as plataformas mais inovadoras de blogging e micro-blogging. Mas, também, de maior contacto com o exterior, com quem tem interesse, curiosidade ou até saudade em saber mais coisas sobre a nossa realidade local e comunitária.

No encalce de um maior serviço público. Com uma maior intervenção – pela rapidez e pela participação – na esfera comunitária de uma região que anseia, assim nos parece, por estímulo e apoio.

No encalce de melhor resposta tecnológica. Com novos mecanismos de presença e participação nas redes sociais, com recurso ao som e à imagem na apresentação de conteúdos – através de utilização de vídeos de acontecimentos, entrevistas e testemunhos.

Mais atualidade, mais proximidade, mais serviço público e mais tecnologia na resposta aos ideiais e aos propósitos de sempre, no caminho de um jornalismo independente, regionalista, assumidamente comunitário e ciente das suas responsabilidades sociais. Na busca do cumprimento integral dos seus objectivos de Informar – agora de forma mais rápida, eficiente e atraente –, de Opinar – sempre no respeito e como forma de fomento do contraditório, do pensamento livre, dos direitos, liberdades e garantias de cada cidadão, da Democracia e da Liberdade –, e, naturalmente, de Intervir – porque tem de ser essa a missão de quem faz do jornalismo a sua missão e até um sacerdócio, procurando dar aos outros diferentes perspectivas do que não viram ou não souberam… e – como todos sabem… – o saber é uma das muitas formas de Poder.

Editorial do Jornal da Mealhada de 14 de dezembro de 2011    
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

[1475.] Mercurii dies

Duas notas de atualidade

A Falência da Democracia

Vivemos os acontecimentos históricos sem ter a concreta noção de que estamos a presenciar algo de verdadeiramente transformador. Sugerimos que se olhe para o que se está a passar na Grécia como se de uma cronologia de guerra se tratasse.

Giorgos Papandreou, o primeiro-ministro grego, foi a Bruxelas negociar um pacote extraordinário de medidas para que a República pudesse receber o financiamento previsto até ao fim do ano. No sentido de serenar os ânimos – nomeadamente os radicalismos da oposição de direita, liderada por Antonis Samaras – Papandreou, chegado a Atenas, sugere a realização de um referendo aos helénicos.

A medida revelou-se, naturalmente, disparatada. Não faz sentido perguntar aos gregos se querem embarcar quando a canoa já vai no mar alto e sem terra à vista… E também não se conseguem acordos com os alemães sem lhes dar garantias, não só de pagamento como de empenho extremo. Papandreou ainda conseguiu uma moção de confiança no Parlamento, no domingo, mas na segunda-feira teve de se demitir.

Papandreou e Samaras decidiram, então, negociar a constituição de um governo de unidade nacional. Mas impuseram a realização de eleições a 19 de fevereiro e a nomeação de um primeiro-ministro independente. Os dois líderes políticos gregos decidiram, então, suspender a Democracia por três meses. Nomeiam um chefe de Governo a prazo, incumbido de tomar as medidas difíceis, de fazer o trabalho sujo, para depois, a 19 de fevereiro, os partidos voltarem ao leme de um barco que hoje, notoriamente, reconhecem não conseguir dominar.

O nome do próximo primeiro-ministro grego terá sido conhecido ontem, terça-feira, já depois do fecho da nossa edição. À hora que escrevíamos este texto eram já duas as negas – especialmente a de Lucas Papademos, antigo vice-presidente do Banco Central Europeu, que justificou a recusa declarando que em três meses não consegue fazer nada –.

Se na passada semana os analistas garantiam que Papandreou ou era muito esperto ou um tonto – provou-se a segunda hipótese –, a verdade é que Samaras parece ser um hipócrita e os gregos não têm alternativas… Não voltará a Ditadura Militar que governou a Grécia de 1967 a 1974, mas os pais da Democracia já viram que, perante a sua incapacidade, não há alternativa a suspender a Democracia. Os Gregos adoptaram uma velha medida da República Romana: Nomeiam um Tirano por tempo determinado.

175 anos de concelho da Mealhada:
Faltam razões para comemorar?

Na maior parte das vezes, as ideias até nem são más… O problema está em quem as sugere!

Na passada semana lembrámos os nossos leitores – e entre estes os que são nossos autarcas – de que no domingo o concelho da Mealhada fazia 175 anos desde a sua criação. Apesar do desafio lançado para, nem que fosse através das nossas páginas, se recolherem testemunhos da efeméride, a verdade é que caiu tudo em saco roto…

Se calhar faltarão razões para comemorar 175 anos de concelho da Mealhada…

A Assembleia Municipal da Mealhada procura, entusiasticamente, comemorar os 33 anos do 25 de Abril… E os 34 anos, e 35 anos…, anualmente, mesmo que se repitam as queixas de que “são sempre os mesmos na mesma sala vazia!”, mas entende não ser necessário assinalar os 175 anos da criação do Município da Mealhada. Lamentamos, mas não estranhamos.

Será que os líderes políticos de hoje estão a guardar-se para comemorar o bicentenário? Interessa lembrar que faltam 25 anos… E pode ser tarde de mais…

O concelho do Carregal do Sal foi criado no mesmo Decreto que o da Mealhada. Fez no domingo, portanto, 175 anos (que engraçado...). No Carregal houve festa com sessão solene comemorativa e com a presença do Presidente da República (que curioso...).

É bem verdade que procuramos ser sempre os mais poupados e dispensamos as festas… e o Chefe de Estado até nos merece voto de repúdio pelas suas prioridades nas funéreas participações… Mas insistimos na pergunta:

Faltarão razões para comemorar 175 anos de concelho da Mealhada?

Editorial do Jornal da Mealhada de 9 de novembro de 2011
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

[1472.] Mercurii dies

Mealhada é concelho há 175 anos

No próximo domingo, 6 de novembro, o Município da Mealhada assinala o 175.º aniversário da sua criação. A Rainha de Portugal, D.Maria II, assinava, a 6 de novembro de 1836, o Decreto que reduzia de 871 para 351 os concelhos do país. Extinguindo a 541 municípios e criando 21. O concelho da Mealhada faz parte desses concelhos criados, enquanto que o concelho de Casal Comba, por exemplo, fazia parte dos extintos. O concelho da Vacariça – de que fazia parte a Mealhada – só viria a ser extinto em julho de 1837.
Há 175 anos Portugal vivia uma situação política muito complexa. A Guerra Civil – entre Liberais e Absolutistas – havia acabado há dois anos e, mesmo entre os vencedores, os Liberais de D.Pedro IV e D.Maria II, não se verificava entendimento sobre que Constituição devia o país obedecer, se à Carta de 1826 – como entendiam os “Cartistas” –, se à Constituição de 1822 – como preferiam os “Setembristas”. Mesmo assim foi possível a Governos diferentes e sucessivos – liderados pelo Duque de Saldanha, cartista, por José Jorge Loureiro, pelo Duque da Terceira, cartista, pelo Conde de Lumiares, setembrista, pelo Conde do Vimioso, cartista, e pelo Marquês de Sá da Bandeira, setembrista – levar a cabo uma reforma administrativa profunda e intensíssima que, 175 anos depois, de um modo geral, ainda perdura.
O pai da criança, por assim dizer, será Rodrigo Fonseca Magalhães, cartista, que, como Ministro dos Negócios do Reino, no governo do Duque de Saldanha, consegue aprovar a Reforma Administrativa de 18 de julho de 1835 – que converteu o mapa das paróquias religiosas em estruturas civis e políticas também conhecidas como freguesias. O mapa administrativo dos concelhos – com as referidas extinções maciças – decorre desta reforma, mas já é assinado por Mouzinho da Silveira, que sucede a Rodrigo Fonseca Magalhães na pasta dos Negócios do Reino, já no Governo do Marquês de Sá da Bandeira.
Como terão os nossos antepassados convivido com semelhantes transformações e num ambiente de crise económica, financeira e principalmente política, como na altura se vivia?
Foi criado o concelho da Mealhada em 1836, mas só em 1853 é que o concelho – tal como o conhecemos hoje – se constituiu verdadeiramente. Em 1836, o concelho da Mealhada constituía-se com as freguesias de Casal Comba, de Ventosa do Bairro, de Tamengos e de Aguim, e, ainda, com o lugar da Mealhada. Nessa mesma altura, continuava a existir o concelho da Vacariça, que congregava as freguesias da Vacariça – mas sem a Mealhada –, de Luso e de Vila Nova de Monsarros. A freguesia da Pampilhosa fazia parte do concelho de Coimbra e a freguesia de Barcouço fazia parte do concelho de Ançã. Em 1837, extingue-se o concelho da Vacariça e as freguesias da Vacariça e de Luso são incorporadas no concelho da Mealhada. A freguesia de Vila Nova de Monsarros vai para o concelho de Anadia. Só a 31 de Dezembro de 1853 é que Aguim e Tamengos passam para Anadia e Pampilhosa e Barcouço são incorporados no concelho da Mealhada. Em 1855, a 24 de outubro, Mealhada troca com Mira e passa do distrito de Coimbra para o de Aveiro.
Permanecendo no encalço da História, interessa reter que só em 24 de junho de 1944 é que é criada a freguesia da Mealhada – que se descola da freguesia da Vacariça –, e em 23 de abril de 1964 é criada a freguesia da Antes, que se desagrega da freguesia de Ventosa do Bairro.

Cento e setenta e cinco anos de vida é um acontecimento. Assim nos parece. Uma vida com alguma demora na consolidação administrativo-politica (que tem, apenas, 158 anos). Uma vida que sofreu influências significativas no sentido de serem acentuadas diferenças – entre monárquicos e republicanos, entre conservadores e progressistas, entre isto e aquilo…
Mas que é hoje o concelho da Mealhada? Será que interessa a alguém saber responder a esta questão? Para além de uma estrutura administrativa, é uma comunidade? Há elementos agregadores entre os que são naturais ou os que não o sendo residem neste torrão “de verde e ouro”? Há espaços de identificação coletiva? Há sinais de identificação comunitária? Por quantas gerações continuará a custar a tantos assumirem o gentílico ‘mealhadense’, mesmo sendo naturais de Luso ou da Pampilhosa? Quantas mais eleições serão precisas para na Assembleia Municipal da Mealhada alguém deixar de pensar e de falar no seu Luso, na sua Pampilhosa, na sua Antes, para passar a defender, intransigentemente, como lhe compete, os interesses coletivos, comuns e gerais do nosso concelho, globalmente?
Por outro lado, quais são as nossas principais riquezas, os nossos motivos de orgulho, as nossas potencialidades? Será que as conhecemos? Será que as valorizamos? Será que estamos dispostos a pensar nelas para além do nosso quintalinho?
Não temos conhecimento da preparação de nenhuma comemoração especial dos 175 anos do concelho da Mealhada. Lamentamos, mas não estranhamos. No Jornal da Mealhada procuraremos abordar neste mês de novembro esta temática, estes propósitos, esta comemoração. Como sempre, estamos recetivos aos contributos dos nossos leitores: Com um desejo de “Parabéns!” ou com a sua própria visão do que somos e do que deveremos ser no futuro.

Nota sobre a questão da freguesia da Antes

Comemorar 175 anos de concelho é refletir sobre o nosso mapa politico-administrativo. Passado, presente e futuro devem andar de braços dados, especialmente naqueles momentos em que interessa saber quem somos para podermos fazer valer os nossos pontos de vista. Sentimo-nos, naturalmente, obrigados a falar na questão da continuidade da freguesia da Antes e a declararmo-nos – pessoal e institucionalmente – ao lado dos que pretendem lutar, de modo inteligente e racional, para a criação de um argumentário sério para a demonstração do interesse da viabilidade da autarquia.
No nosso entender – e assim fica dado o nosso primeiro contributo – o busílis da questão passa pela procura de argumentos no sentido de conseguir demonstrar que a freguesia da Antes é uma freguesia rural e não uma freguesia urbana, ou moderadamente urbana. Se a classificação da freguesia for, novamente, a de Rural, a Antes preenche os requisitos para continuar.
Assim – para além da recolha dos ecos da voz e dos sentimentos do Povo – devemos concentrar-nos na análise dos principais indicadores que possam ajudar a provar a ideia de que a freguesia da Antes é Rural. Sentimos, portanto, dever sugerir o estudo e análise critica dos dados relativamente aos tipos de atividade profissional instalados na freguesia, aos índices e tipo de ocupação dos solos, entre outros.

Editorial do Jornal da Mealhada de 2 de novembro de 2011
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

[1469.] Mercurii dies

Quem recebe a conta?

Poucas horas depois de ter sido entregue no Parlamento nacional o Orçamento do Estado de 2012 para debate e aprovação, todos confirmaram o que já se sabia há muito tempo: Quem vai pagar a conta de uma situação financeira altamente deficitária são os portugueses! Mas também quem poderia ser?


Ninguém acha que deveria pagar os desmandos da administração central. É normal pensar que devem ser sempre os outros a sofrer o sacrifício. Os pobres acham que quem deve pagar são os ricos, os ricos acham que quem deve pagar é quem usufruiu dos serviços e prestações sociais. Os Municípios acham que não devem pagar e os funcionários públicos consideram que andam há muito a ser sobrecarregados. Os empresários queixam-se que se forem sacrificados aumenta o desemprego e os desempregados, que contribuíram, consideram não ter culpa da sua situação.
A todos assistirá alguma razão. Mas a verdade é que alguém tem de pagar e é natural que o Estado consiga arrecadar mais receitas nos setores que controla e não onde não consegue chegar.
Importa, no entanto, talvez refletir um pouco sobre a questão mais importante de toda a problemática que é: Onde é que o Estado gasta o dinheiro? Se os portugueses pagam, então quem é que recebe a conta?
Sem procurar ser exaustivo interessará analisar alguns dados. Em 2012, o Estado prevê receber 72 mil milhões de euros. No entanto, prevê gastar 79,6 mil milhões de euros. Não é preciso ser doutorado em finanças para perceber que há, logo aqui, um problema. Gastamos quase 10 por cento mais do que recebemos.
E onde é que gastamos? A verdade é que 49,5 por cento do que prevemos receber vamos gastar em prestações sociais – reformas e subsídios, por exemplo. É muito dinheiro. Mas há mais: 26,9 por cento do que prevemos receber vamos gastar em salários dos funcionários do Estado, e a terceira maior fatia do que gastamos é em juros… 12,3 por cento. Dez por cento do que recebemos vamos gastar em consumos do Estado – onde está tudo o que a administração precisa de comprar e, também, algumas das mordomias que muitos insistem em considerar como o grande buraco do Estado português. Apenas 7,2 por cento é investimento público e despesas de capital…
Qual será, então, a resposta à pergunta: Perante este panorama, onde vamos cortar? Podemos cortar nas prestações sociais? Não. Podemos cortar nos salários? Não. Podemos cortar nos juros? Dificilmente. Podemos cortar nos consumos? É complicado. Podemos cortar no investimento? Pára a economia. No Orçamento do Estado para 2012, o Estado prevê reduzir 4,3 por cento nas prestações sociais. Podia ser mais? Vai cortar 14,8 por cento nos salários. Podia ser mais? Vai cortar 20,9 por cento nos juros. Podia ser mais? Vai cortar 1,8 nos consumos. Podia ser mais? Vai cortar 0,9 por cento nos investimentos. Podia ser mais?
Para terminar, até porque não queremos dar a ideia de que achamos este Orçamento positivo – porque não é essa a nossa opinião –, importa concluir o raciocínio com uma última pergunta: Onde é que, na carteira dos contribuintes, vamos, mesmo, buscar o dinheiro para o Estado gastar?
A resposta não é difícil de encontrar. A maior fatia de receita do Estado é a fiscal, mas não chega a ser metade do que o Estado arrecada, são 45,2 por cento. E da receita fiscal, a maior fatia é, naturalmente, o IVA, com 20 por cento da receita total. Daí que seja muito mais fácil procurar arrecadar no consumo, aumentando o IVA. Segue-se a receita em sede de IRS, de IRC e do Petróleo.

Editorial do Jornal da Mealhada de 19 de outubro de 2011
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

[1460.] Mercurii dies

A Imprensa Local e a História das comunidades

“A imprensa regional é um importante e valiosíssimo repositório histórico, que interessará fomentar e valorizar”, afirmámos na sessão de apresentação do livro “Bussaco: A Batalha e o Convento – 200 anos da Guerra Peninsular”, de Fernando Ferraz da Silva, nosso antecessor nas funções de diretor e colaborador assíduo do Jornal da Mealhada.
Os jornais locais apresentam-se – hoje, como há muitas dezenas de anos – como fontes particulares para o conhecimento dos acontecimentos, mas também, dos valores, das ambições, das preocupações e do pensamento das comunidades ao longo do tempo. Talvez pelo facto de serem escritos com a preocupação do informar para a actualidade, para a contemporaneidade, de procurarem provocar um efeito imediato nos leitores, os artigos jornalísticos – noticias, reportagens e crónicas de opinião – acabam por ser um retrato genuíno da estória, ou da história que ainda não é História, de facto. Não é, ainda, mas pode vir a ser.
A imprensa local regista um valioso fio dos dias que é condutor direto à história e à memória que nem ao tempo resiste.
Talvez sensibilizados pela edição – que teve lugar ontem, 5 de outubro, em Penacova – do livro “Penacova e a República na Imprensa Local”, do nosso amigo e colaborador David Almeida, e da publicação do mais recente livro de Fernando Ferraz da Silva, que o Jornal da Mealhada apoia, sentimo-nos na obrigação de sublinhar a necessidade de valorizar esta santa aliança que é preciso continuar a estabelecer entre a imprensa local e a investigação histórica.
Nos jornais de época vamos encontrar – as palavras são de David Almeida na nota introdutória da sua obra – “textos jornalísticos que, temos consciência disso, se revelam, por vezes, sectários, partidarizados, transmitindo-nos, desse modo, uma visão parcelar e fragmentada da realidade, em especial das situações ideologicamente mais conotadas”. Mas tem consciência disso o investigador avisado.
“Os periódicos locais, são, deste modo, fontes privilegiadas de informação. Em Penacova, são mesmo, em muitas situações, registo único das vivências de muitos dos nossos antepassados que, um pouco por todo o concelho, participaram, já lá vão cem anos, na mudança do regime político que determinou o curso da nossa história recente”, assevera o autor de “Penacova e a República na Imprensa Local”.
“É possível traçar um fio condutor e credível que pode ser o ponto de partida para outros estudos sobre história local de que Penacova não é, infelizmente, pródiga”, afirma David Almeida.
Com tudo isto queremos apenas, sublinhar, a importância que tem investigarmos os nossos jornais – quando existem – e colaborarmos hoje, com os jornais, para que mais tarde, os vindouros – entre o papel delicado ou as encadernações de livros, possam conhecer o hoje, amanhã.
O livro “Bussaco: A Batalha e o Convento – 200 anos da Guerra Peninsular”, que foi escrito com uma tão forte preocupação local, pedagógica e de registo dos testemunhos possíveis das pessoas que viveram a batalha, é o exemplo cabal e valioso da aliança que a história e a imprensa local têm como missão fomentar!







Editorial do Jornal da Mealhada de 6 de outubro de 2011



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quarta-feira, 13 de julho de 2011

[1422.] Mercurii dies sobre Manuel Santos

Obrigado, professor



MANUEL ALMEIDA DOS SANTOS

(30.04.1933 - 09.07.2001)


Este espaço do Editorial do Jornal da Mealhada de hoje, 13 de julho, devia ir em branco. Não há vontade para escrever nada.
A morte do professor Manuel Santos causa-nos um vazio muito grande no peito e dá a impressão que nada disto faz sentido, agora que ele já não nos vai ler... O espírito humano tem destas coisas. A dor da morte dos que amamos, mata-nos um bocadinho.
Na última conversa que tive com o professor Santos, há algumas semanas, falei-lhe da teoria de Ernest Gombrich, que diz que a história do mundo é como um escuro poço, do qual nós não vemos o fundo, mas que vamos reconstruindo no nosso intelecto com o que nos é narrado pelos que viveram antes de nós, e viram outras coisas. Concluía eu com a sentença de que cada vez que alguém morre sem nos contar tudo o que viu enquanto viveu, morre, também, um bocado da história do mundo.
E na madrugada de sexta-feira para sábado morreu uma fatia grande dessa história do mundo, na nossa comunidade. Manuel Santos era alguém que tinha o dom de ensinar, de instruir, de formar. Eu considero-me um dos seus discípulos e nestes dias que passaram desde a notícia da sua morte, não deixam de aparecer na minha cabeça frases, teorias, histórias, regras... que o professor Santos me foi dando ao longo dos mais de 25 anos que com ele lidei.
O professor Santos foi o meu primeiro entrevistado, em 1988, quando a minha professora primária, a D.Eugénia Dias, me mandou fazer uma reportagem sobre a história da Escola de Sernadelo. Ao longo da minha infância, como a minha mãe trabalhava no jornal, eu passava as tardes a fazer os trabalhos de casa na redação. Umas vezes ajudado pelo professor Armindo Pega, outras vezes pelo professor Santos. Ensinou-me tantas e tantas coisas, desde essa altura. "Nunca deves perguntar a alguém se está a perceber! Se o fizeres estás a insinuar que a pessoa é estúpida! Não te custa nada se perguntares: Estou-me a fazer entender?". E tantas outras coisas que só a ausência agora faz lembrar.
Tive a honra de suceder ao professor Santos no cargo de diretor do Jornal da Mealhada. Saiu em janeiro de 2005, tirou umas férias e dois meses depois - com a humildade dos grandes mestres -, acompanhava-me num périplo de entrevistas aos presidentes de junta de freguesia do concelho da Mealhada e ao presidente da Câmara. Dava-me, assim, a mão, na minha prova de fogo. Foi-me ajudando e aconselhava-me sempre que lho solicitava e de modo generoso, sempre generoso.
No dia em que o Padre Abílio morreu, o professor Santos sabia que eu ficava desamparado e ofereceu-se para vir ao jornal ajudar-me. E eu agradeci. Durante os dois anos seguintes passou as segundas-feiras na redação, com grande sacrificio. Das últimas vezes ao entrar na porta do jornal citava Dante, na Divina Comédia, e declamava a inscrição na Porta do Inferno: "Abandonai toda a Esperança vós que entrais!". Mas o professor continuava a vir e a ajudar.
Já há uns meses que dizia que eu já conseguia voar sozinho, mas, mesmo sem vir à redação, lia-me os editoriais antes de serem publicados. Das últimas vezes já não corrigia nada e mostrava-me que eu já sabia voar sozinho... Entretanto começou a cruzada pela saúde e as proibições: Não nos queria no Hospital, nem queria lamechices. Era teimoso e bruto, o professor! Não havia quem o dobrasse, quando achava que tinha razão. No sábado soube-se que partiu. Não queria funeral, não queria lágrimas. Ah, e não queria noticia no jornal, nem anuncio na Necrologia. Como se fosse possível! Como se fosse justo! Contrario-o, em consciência, com o que sempre me ensinou: "Se tens o dom, tens de o pôr ao serviço dos outros!". Um dos dons que tenho é o de ter podido ser discípulo de um homem desta envergadura. E a minha obrigação hoje, é dar testemunho de um homem invulgar, de uma alma grande, de um homem bom!
"Obrigado, senhor professor" - dizia eu todas as madrugadas de segunda-feira. "Não precisas de agradecer, Nuno!... Quer dizer, é a tua obrigação agradeceres e por isso agradece! A minha obrigação é dizer que não tens nada que agradecer, que te ajudo porque gosto de ti! Mas tu deves continuar sempre a agradecer!... Até amanhã companheiro!", respondia. "Até amanhã, senhor professor!".

Editorial do Jornal da Mealhada de 13 de julho de 2011
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quarta-feira, 30 de março de 2011

[1315.] Mercurii dies

Acesso ao Hospital da Mealhada passa a ser “público” +
Quando um dia – daqui a algumas décadas – se escrever a história da contemporaneidade no concelho da Mealhada, dos primeiros anos do século XXI, sobressairão – na nossa opinião, claro está – duas obras fundamentais. A primeira é a Escola Profissional Vasconcellos Lebre e a segunda é o Hospital da Misericórdia da Mealhada. Pouco mais haverá a salientar de um período em que outras obras tomaram corpo – como o Parque Urbano da Cidade –, mas nenhumas tão relevantes para o desenvolvimento económico, social e da qualidade de vida das pessoas do concelho da Mealhada como estas duas.
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A história é e será sempre feita destas coisas: de vitórias e derrotas de uma luta que no dia-a-dia nem sempre é visível e que só a distância dos tempos consegue, de facto, avaliar. É curioso que no século XXI estejamos a perspectivar sublinhar exactamente o que cem anos antes marcou a história da nossa comunidade. No inicio do século XX, o concelho ficou indelevelmente marcado pela criação do Hospital de Santa Maria, antecessor do actual Hospital da Misericórdia, pela fundação do Colégio da Mealhada, ascendente do espírito da escola profissional. E o mesmo acontecerá quando as novas estradas que o concelho verá atravessar – como o IP3/IC2, o IC12 e o IC3 – influenciarem da mesma forma como o desvio da EN1, há 70 anos, influenciou o desenvolvimento das nossas localidades e da nossa centralidade.
+ O acordo ontem assinado entre o Governo e as misericórdias portuguesas e que permite aos médicos de família o direcionamento imediato dos doentes para consultas de especialidade e cirurgias em hospitais das misericórdias é um passo determinante na prossecução do objetivo do Hospital da Mealhada – presente desde a génese desta segunda fase –, de proporcionar aos seus utentes as mesmas condições, ao nível da gratuitidade, do Serviço Nacional de Saúde.
+ Os utentes poderão passar a ser consultados na Mealhada, e, em caso de necessidade, serem submetidos a intervenções cirúrgicas, pagando o mesmo que pagariam se o tivessem sido num hospital público. Sem, no entanto, terem passado meses à espera.
+ O processo de construção do Hospital da Mealhada – do edifício e do serviço – tem sido complexo e tem implicado um esforço sobre-humano para os principais implicados. Ao longo de todo este tempo, para além da real viabilidade do projecto, que tem sido feita ao ritmo de mudanças de governos e de vontades políticas, tem sido necessário alimentar um capital de esperança na comunidade que vai tendo oscilações conforme as coisas vão correndo melhor ou pior. Infelizmente, já vimos sorrisos em algumas caras quando as coisas correram efetivamente mal, como foi o caso do episódio da demissão do anterior diretor clínico, que acabou por se traduzir num grande serviço à palermice e à instabilização gratuita.
+ Sinais como o da assinatura deste acordo com o Governo são alicerces importantes para consubstanciar a relevância e a importância do hospital da Mealhada. São a prova de que o sonho é de bem-comum e de altruísmo e que a ambição de quem ousou arriscar em edificar este projecto é pensada nos outros e na qualidade de vida de uma comunidade. Uma comunidade que preventivamente olha para a qualidade da saúde como uma garantia, mas também da comunidade que vê os cuidados de saúde como uma necessidade fundamental.
+ Felizes os que acreditam!
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Editorial do Jornal da Mealhada de 30 de março de 2011
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quarta-feira, 16 de março de 2011

[1295.] Mercurii dies

Avaliando o Carnaval da Bairrada de 2011

O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada de 2011 poderá ter sido o melhor de que há memória no sambódromo Luís Marques, na zona desportiva da Mealhada. Felizmente, já no ano passado tivemos a mesma afirmação, o que revela que o progresso qualitativo no maior evento cultural do concelho da Mealhada está em crescendo. As ameaças de mau tempo, de algum frio – especialmente na terça-feira – poderão, em parte, justificar a fraca participação de público, a que acrescentamos um patente desinvestimento na promoção externa do evento, por parte da organização.
De qualquer forma, a verdade é que as escolas se apresentaram melhor e de forma relativamente homogénea – como se viu nos resultados do Concurso de Escolas de Samba do Jornal da Mealhada –, na qualidade das fantasias, na exuberância da apresentação dos enredos, no cuidado com coreografias e musicalidade.
O Carnaval na Mealhada está cada vez melhor, é certo, e afirma-se como a referência nacional relativamente à vertente brasileira do carnaval português. Num tempo de crise financeira, em que aos promotores de marcas fortes se exige que primem pela diferenciação, através de uma especialização de alta qualidade, o Carnaval Luso-brasileiro da Bairrada é, de facto, o mais brasileiro de Portugal.
Tal como temos feito em anos anteriores, investimo-nos do direito de chamar a nós, também, de emitir a nossa opinião sobre a organização do cortejo.
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O percurso do sambódromo
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O percurso do desfile no sambódromo continua a ser um factor negativo no carnaval mealhadense. No final do Carnaval de 2009, apelámos à necessidade de serem tomadas medidas no sentido de ser alterado o percurso – eventualmente mudada a localização, e os dirigentes da Associação do Carnaval da Bairrada foram sensíveis ao apelo e à necessidade, e o percurso em 2010 teve um novo local de dispersão, o que se revelou como um aspecto positivo.
Em 2011 manteve-se o percurso, mas o esforço de melhoria deve continuar a ser implementado. Seria interessante que os organizadores do desfile e as escolas de samba ponderassem a possibilidade de encurtar o percurso, de o limitar a uma das retas do complexo – com notórias melhorias ao nível da propagação do som – e experimentassem fazer um “recuo da bateria”. Este sistema – possível no sambódromo mealhadense –, usado no Rio de Janeiro, permite que a bateria, a componente musical da escola, que lhe dá mais alegria, possa apresentar-se no primeiro quarto da escola, estacione numa reentrância do percurso, faça passar à sua frente toda a escola e se reintegre no cortejo à frente da alegoria.
Fica o contributo.
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O som e o atraso
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Em 2011, voltaram a não ser significativos os problemas com o som e com o atraso no início do desfile. Já havíamos verificado esta situação em 2009 e em 2010, e registámo-lo também este ano. Fazemos referência a este aspecto porque entendemos que, no que respeita à hora de início dos cortejos, se tratou, durante muitos e muitos anos, de um defeito crónico do Carnaval na Mealhada.
No domingo, no entanto, voltou a registar-se um longo tempo de intervalo entre a quarta e a quinta escola a desfilar, especialmente, na parte final do percurso. O problema poderá ter resultado da aliança de questões técnicas com a evolução da própria escola. A forma como cada escola se apresenta no desfile, e progride na avenida é uma questão técnica e é uma componente do espetáculo. Mas a espera não beneficia a apreciação do espetador, pelo que acreditamos que uma mudança nas características do próprio percurso – com a limitação a uma reta – beneficiaria, também, esta componente.
De qualquer forma, e sublinhamos, reconheça-se a capacidade de eliminar – esperamos que de vez – o problema do atraso no inicio do cortejo.
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Revista Abre-alas
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Enriqueceu, de sobremaneira, o espectáculo apresentado pelas escolas de samba – assim o garante o público espetador – o facto de existir um roteiro, um libretto, se se preferir, com a explicação do enredo e com uma breve apresentação do significado de cada uma das alas, destaques e diferentes figurantes de cada uma das escolas que desfilou. Essa publicação foi editada pelo Jornal da Mealhada, com o Alto Patrocínio da Associação de Carnaval da Bairrada e com a ajuda preciosa de todas as escolas de samba. O espectador teve uma melhor percepção do que estava a ver, valorizou o trabalho das escolas, e criou-se uma publicação que servirá de acervo histórico para a posteridade.
A revista Abre-alas é mais uma publicação da JM – Jornal da Mealhada, Lda, que procuraremos ir melhorando e desenvolvendo nas próximas edições do carnaval.
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A avaliação das escolas de samba
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A avaliação feita pelo Jornal da Mealhada continua como um dado adquirido. E ainda bem – assim pensamos. Uma vez mais, todas as escolas colaboraram, com a entrega de todas as informações relativas ao que iam apresentar no sambódromo, mas, também, com contributos relativos à própria organização da avaliação. Colaborações que se revelaram, uma vez mais, muito positivas. Em 2011 os resultados globais das escolas foram muito superiores aos de 2010, já assim tinha sido no ano passado. Fica demonstrada a preocupação das escolas em melhorar e em procurar superar deficiências. Essa é a grande vitória da avaliação.
As justificações dos jurados estão publicadas no sítio oficial da Internet do Jornal da Mealhada – uma inovação de 2011 –, em nome do esforço de melhoria coletiva do espetáculo e do concurso.
Ao nível da organização do concurso registaram-se dificuldades este ano, imponderáveis, que com a compreensão de todos, com a colaboração de todos e com os sacrifícios de alguns foram ultrapassados. A JM – Jornal da Mealhada, Lda agradece, de forma penhorada, a disponibilidade e colaboração muito empenhada de Ana Filipa Pereira, de Nuno Semedo, que, com Carla Carvalheira, compuseram a Comissão Técnica do Concurso.
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O Carnaval e as crianças
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No final do Carnaval de 2009, lembrámos que nesse mesmo ano se havia completado trinta anos desde o primeiro Carnaval da Criança, festa infantil que, durante duas décadas se realizou no Domingo Magro. Na altura interpelámos a Associação do Carnaval da Bairrada e, até, a Câmara Municipal da Mealhada – entidade que de ano para ano ganhou preponderância em termos de politica educativa – sobre o assunto. Não obtivemos respostas.
O Carnaval da Criança acabou porque, de certa forma, a organização de um desfile infantil escolar implica um trabalho suplementar da parte de professores, que sobrecarregava os docentes de sobremaneira. A verdade é que nos últimos anos – especialmente na Mealhada e em Luso – os desfiles infantis de Carnaval estão a reaparecer, o que revela que está a ser recuperada a dimensão e a oportunidade pedagógica que o Carnaval pode proporcionar às crianças. Ora se os desfiles estão a regressar, porque não voltar a organizar um desfile grande – com dimensão e notoriedade – ao nível concelhio? Deixámos este desafio em 2009, em 2010, e atrevemo-nos a repeti-lo agora, uma vez que consideramos que estão mais que reunidas as condições para fazer renascer o Carnaval Infantil da Bairrada.
“Trata-se, afinal, do futuro”, repetimos.
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O Carnaval e o orçamento
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O Carnaval na Mealhada é o maior evento cultural do município. Dizemo-lo sem pudor. É um disparate pensar que se trata de um fenómeno exclusivo das freguesias da Mealhada e de Casal Comba. Abarca energias de pessoas de todo o concelho e de freguesias limítrofes no concelho de Cantanhede. É um disparate afirmar que se trata de um evento que dura algumas horas durante dois dias num ano. O Carnaval é um espetáculo efémero, é certo, mas que envolve pessoas durante quase todo o ano.
O Carnaval é cultura, e requer um investimento considerável. Trata-se de um espetáculo efémero e dispendioso – há que reconhecê-lo sem complexos. O investimento em Cultura – assim como em Educação – é contabilisticamente complexo, especialmente quando estamos a falar de artes efémeras, mas nem por isso deixa de ser importante numa sociedade que se quer cada vez mais evoluída e desenvolvida.
O Carnaval Luso-brasileiro terá tido em 2011 – dados nunca facilmente acessíveis – um orçamento de 180 mil euros. A Câmara da Mealhada proporciona um apoio financeiro de 90 mil euros (menos dez por cento do que em 2010) e um apoio logístico muito considerável e – pelo menos para nós – dificilmente contabilizável. A entidade promotora – a Associação do Carnaval da Bairrada – terá ainda outras receitas, nomeadamente, de bilheteira, de exploração da tenda gigante e de patrocinadores.
Para muitos pode considerar-se um investimento supérfluo, e a opinião pública concelhia facilmente determinaria que seria uma despesa a abolir no orçamento municipal. Não integramos esse grupo. Ao contrário, pensamos que o orçamento do Carnaval da Bairrada deve ser aumentado com o incremento de receitas próprias, e que, gradualmente, fará sentido aumentar o investimento público (não só municipal).
A análise comparativa com outros carnavais portugueses – muitos deles de qualidade muito inferior ao da Mealhada – deve servir-nos de referência neste exercício.
Se é certo que carnavais como o de Estarreja, da Figueira da Foz e de Sines têm orçamentos próximos do da Mealhada – na maior parte com menos investimento municipal –, a verdade é que há cortejos em que o investimento é multiplicado por dois ou por três. Os carnavais de Torres Vedras e de Ovar, por exemplo, têm orçamentos na casa do meio milhão de euros – com a Câmara a pagar quase tudo. Os carnavais de Loulé e da Madeira custam 350 mil euros, e o da Nazaré 210 mil euros.
É certo que, na nossa óptica são gastos que consideramos exagerados, mas fará sentido pensar que sem investimento – nomeadamente na promoção do evento enquanto marca nacional da cultura e do turismo – dificilmente haverá retorno.
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Editorial do Jornal da Mealhada de 16 de março de 2011
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